12 de outubro: a infância e a família merecem atenção.
Marco
Milani
Para muitas gerações de brasileiros, o dia 12 de outubro costumava ser
aguardado com alegria. Era o Dia das Crianças, associado a brincadeiras,
passeios e encontros familiares que permaneceram na memória. A data foi
oficializada pelo Decreto nº 4.867, de 5 de novembro de 1924, sancionado pelo
presidente Arthur Bernardes. Sua origem institucional, portanto, antecede a
exploração comercial que se tornaria tão presente nas comemorações.
Certamente, existe o apelo ao consumo. A publicidade procura converter
afeto em presentes e expectativas em compras. Isso, porém, não elimina o
significado que a ocasião adquiriu na infância de tantas pessoas. Uma tarde com
os pais, uma visita aos avós ou uma brincadeira entre irmãos podiam tornar
aquele dia especial. O valor dessas experiências estava na convivência e na
atenção recebida, independentemente do preço de um brinquedo.
O Espiritismo não possui ou incentiva dias simbolicamente
obrigatórios nem prescreve celebrações ritualísticas. Isso é compatível com o
respeito às tradições culturais dos diferentes povos e com a participação em
atividades que favoreçam relações humanas saudáveis. Uma data dedicada à
infância pode oferecer uma oportunidade de encontro, sem adquirir caráter de prática
doutrinária, por isso, muitos centros espíritas, nesse dia, realizavam
atividades com crianças da comunidade em geral.
Quando recentemente as disputas políticas passaram a ocupar as
conversas e transformaram os espaços de convivência em trincheiras ideológicas,
ocasiões como essa podem passar despercebidas. Entre acusações e guerras de
narrativas, convém perguntar quanto tempo e atenção estão sendo efetivamente
dedicados às crianças. Os conflitos dos adultos não deveriam consumir o espaço
de escuta e cuidado de que elas necessitam.
Nas obras fundamentais do Espiritismo, a infância recebe atenção
explícita. Na questão 383 de O livro dos Espíritos, esse período é
apresentado como especialmente favorável à educação, quando o Espírito
encontra-se mais acessível às impressões que recebe, cabendo aos responsáveis
por educá-lo contribuir para seu aperfeiçoamento. Trata-se de uma
responsabilidade que exige presença, orientação e exemplo.
Essa compreensão pede atitudes concretas. Proteger a criança contra a
violência e a exploração, respeitar seu desenvolvimento e oferecer condições
para que aprenda são compromissos cotidianos. Educar também implica estabelecer
limites com respeito, cultivar a responsabilidade e favorecer o desenvolvimento
da capacidade de pensar. A criança precisa encontrar nos adultos referências de
conduta que correspondam às palavras que ouve.
Os vínculos familiares também possuem fundamento doutrinário claro. Na
questão 774 de O livro dos Espíritos, os laços de família são
relacionados à lei da natureza e ao aprendizado da fraternidade. Na questão
seguinte, ao indagar sobre as consequências sociais de seu enfraquecimento,
Kardec registra a resposta: “Uma recrudescência do egoísmo”. O cuidado com essas
relações ultrapassa, portanto, o interesse particular de cada lar.
Em O evangelho segundo o Espiritismo, capítulo IV, item 18,
Kardec explica que a reencarnação fortalece os laços familiares, compreendidos
na continuidade das afeições e no auxílio ao progresso recíproco. A convivência
ganha, assim, um significado que ultrapassa a existência presente e convida ao
exercício da paciência e do amparo mútuo.
Valorizar a família exige cuidar da qualidade dessas relações. Um lar
cumpre sua responsabilidade quando oferece proteção, afeto e condições para o
desenvolvimento de seus integrantes. Essa tarefa merece atenção constante,
inclusive quando há dificuldades e conflitos a superar.
É igualmente necessário criticar a instrumentalização desses vínculos.
Nenhum projeto de poder justifica estimular hostilidade entre familiares,
exigir obediência ideológica ou tratar crianças como instrumentos de uma causa,
principalmente se envolver escolhas que não competem a jovens imaturos tomar e
que prejudicarão o resto de suas vidas. Subordinar a educação à formação de militantes
e ativistas compromete a liberdade de consciência. Promessas de transformação
social não legitimam a destruição deliberada de relações de cuidado e
confiança.
O dia 12 de outubro pode renovar uma disposição simples: reservar
tempo para as crianças e assumir com seriedade a responsabilidade de educá-las.
As memórias de uma infância acolhida nascem de gestos concretos. Fortalecer os
laços familiares começa pela atenção e respeito oferecidos hoje.
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