sábado, 3 de janeiro de 2026

Duelos modernos

Duelos modernos

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 52, jan/2026, p.8-9


O duelo, tal como apresentado pelos Espíritos a Allan Kardec[1], revela uma forma de fuga moral. Longe de expressar coragem ou dignidade, ele evidencia a incapacidade do indivíduo de enfrentar as dificuldades do orgulho ou de seus valores materiais. O duelista não suporta a prova da ofensa perante olhos de terceiros, não aceita a contrariedade como exercício moral e foge ao esforço íntimo de dominar as próprias paixões. Ignora-se a experiência educativa que a vida oferece e nega-se a responsabilidade pessoal diante das próprias provas.

Sob o ponto de vista do processo evolutivo, Kardec é incisivo ao demonstrar que essa prática encerra duas formas de violação da lei divina. Quando o contendor mais experiente tira a vida do outro, comete assassinato, ainda que amparado por convenções sociais ou códigos artificiais de honra. Quando o ofendido, mais fraco ou menos habilidoso sucumbe, trata-se de suicídio indireto, pois aceita conscientemente uma situação que sabe poder levá-lo à morte. Nenhuma dessas circunstâncias atenua a gravidade do ato, pois a lei divina é clara ao repudiar o atentado contra a vida, seja ela própria ou alheia, nascida ou em gestação. A formalidade do ritual jamais altera a essência moral do crime nem lhe confere legitimidade.

Na raiz desse comportamento está o orgulho aliado à vaidade, sustentados por um falso conceito de honra que depende do olhar e da aprovação dos outros. Em vez de buscar a tranquilidade da própria consciência, o indivíduo submete-se ao julgamento externo e transforma a vida em instrumento de afirmação social. Esse suposto ponto de honra, tão valorizado em épocas passadas, nada mais é do que a exaltação do ego ferido. O Espiritismo demonstra que tais impulsos somente podem ser superados pela caridade, pela humildade e pelo amor ao próximo, virtudes que substituem a lógica da revanche pela da compreensão e da indulgência.

Na contemporaneidade, essa mesma lógica não desapareceu, apenas mudou de cenário. Os duelos modernos já não ocorrem em campos afastados ou salões reservados, mas nas redes sociais, onde o espaço físico foi substituído pelo ambiente virtual. Embora não haja espadas nem pistolas, o comportamento belicoso permanece essencialmente o mesmo. A honra, agora travestida de reputação digital, mede-se por curtidas, seguidores, compartilhamentos e pela aprovação de grupos ideologicamente alinhados. Uma crítica pública, um comentário discordante ou uma exposição indesejada são suficientes para deflagrar confrontos verbais intensos, marcados por agressividade, sarcasmo e desejo de aniquilação simbólica do outro.

O distanciamento físico introduzido pela mediação tecnológica agrava ainda mais esse quadro. Protegido por telas e perfis, o indivíduo sente-se menos responsável por suas palavras e atitudes, reduzindo os freios morais que normalmente regulam as interações presenciais. Ataca-se um nome, uma imagem ou um rótulo, não uma pessoa concreta, com história, sentimentos e limitações. A plateia virtual exerce papel semelhante ao público dos antigos embates, incentivando a escalada do conflito, premiando a ironia mais cruel e o ataque mais contundente. O resultado é a normalização da violência simbólica e a substituição da reflexão pelo impulso reativo.

Por essa razão, o fenômeno permanece contrário à lei de Amor, Justiça e Caridade, ainda que assuma formas aparentemente mais civilizadas. Trata-se da mesma prática atrasada e moralmente bárbara, agora disfarçada pela linguagem, pela ironia e pela exposição pública. Kardec não a combate apenas como costume histórico, mas como expressão de uma moralidade ainda primitiva, que confunde justiça com vingança e firmeza de convicção com intolerância. O Espiritismo propõe sua superação definitiva por meio do perdão, da fraternidade vivida e da educação moral, mostrando que somente quando o amor se tornar regra efetiva das relações humanas o reino de Deus encontrará condições para se estabelecer na Terra.

Isso não significa que não se possa discordar e discutir vitualmente como proposta elucidativa ou de busca de conhecimento, mas adequadamente quando se refere a ideias e não a pessoas.

É inegável que o abrandamento dos costumes revela certo progresso. A passagem do confronto armado para formas menos explícitas de agressão indica que a consciência coletiva começa a rejeitar a violência direta. No entanto, esse avanço permanece incompleto enquanto a transformação não ocorrer no íntimo do ser.

O objetivo do Espiritismo basicamente volta-se à melhoria do ser humano pelo conhecimento da realidade espiritual e das leis naturais, extinguindo o mal pela raiz e tornando o duelo uma recordação de um passado superado. Em seu lugar, propõe-se a ampliar a prática do bem, na qual os homens competem não para humilhar ou destruir, mas para alcançar a paz consciencial. Somente essa mudança interior consolida o verdadeiro progresso e liberta o indivíduo da escravidão do orgulho, conduzindo-o à paz da consciência e à harmonia com a lei divina.

As ferramentas de comunicação contemporâneas, portanto, são moralmente neutras, mas se transformam em instrumentos cujo valor depende do uso que delas se faz. Elas podem servir à repetição dos velhos vícios do orgulho, da agressividade e da intolerância, apenas deslocados para um novo ambiente, ou podem tornar-se meios poderosos de disseminação do bem, de esclarecimento e de aprimoramento pessoal. Cada palavra publicada, cada resposta oferecida e cada silêncio assumido refletem uma escolha íntima. É nesse campo de decisões individuais que se revela o verdadeiro progresso moral, não na tecnologia em si, mas na direção que o ser humano decide imprimir a ela.



[1] Ver O livro dos espíritos, questão nº 757 e O evangelho segundo o espiritismo, Capítulo 12, itens 11 a 16.

 

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