Duelos modernos
Marco
Milani
Texto
publicado na Revista Candeia Espírita, nº 52, jan/2026, p.8-9
O duelo, tal como apresentado pelos Espíritos a Allan Kardec[1],
revela uma forma de fuga moral. Longe de expressar coragem ou dignidade, ele
evidencia a incapacidade do indivíduo de enfrentar as dificuldades do orgulho
ou de seus valores materiais. O duelista não suporta a prova da ofensa perante
olhos de terceiros, não aceita a contrariedade como exercício moral e foge ao
esforço íntimo de dominar as próprias paixões. Ignora-se a experiência
educativa que a vida oferece e nega-se a responsabilidade pessoal diante das
próprias provas.
Sob o ponto de vista do processo evolutivo, Kardec é incisivo ao
demonstrar que essa prática encerra duas formas de violação da lei divina.
Quando o contendor mais experiente tira a vida do outro, comete assassinato,
ainda que amparado por convenções sociais ou códigos artificiais de honra. Quando
o ofendido, mais fraco ou menos habilidoso sucumbe, trata-se de suicídio
indireto, pois aceita conscientemente uma situação que sabe poder levá-lo à
morte. Nenhuma dessas circunstâncias atenua a gravidade do ato, pois a lei divina
é clara ao repudiar o atentado contra a vida, seja ela própria ou alheia,
nascida ou em gestação. A formalidade do ritual jamais altera a essência moral
do crime nem lhe confere legitimidade.
Na raiz desse comportamento está o orgulho aliado à vaidade,
sustentados por um falso conceito de honra que depende do olhar e da aprovação
dos outros. Em vez de buscar a tranquilidade da própria consciência, o
indivíduo submete-se ao julgamento externo e transforma a vida em instrumento
de afirmação social. Esse suposto ponto de honra, tão valorizado em épocas
passadas, nada mais é do que a exaltação do ego ferido. O Espiritismo demonstra
que tais impulsos somente podem ser superados pela caridade, pela humildade e
pelo amor ao próximo, virtudes que substituem a lógica da revanche pela da
compreensão e da indulgência.
Na contemporaneidade, essa mesma lógica não desapareceu, apenas mudou
de cenário. Os duelos modernos já não ocorrem em campos afastados ou salões
reservados, mas nas redes sociais, onde o espaço físico foi substituído pelo
ambiente virtual. Embora não haja espadas nem pistolas, o comportamento
belicoso permanece essencialmente o mesmo. A honra, agora travestida de
reputação digital, mede-se por curtidas, seguidores, compartilhamentos e pela
aprovação de grupos ideologicamente alinhados. Uma crítica pública, um
comentário discordante ou uma exposição indesejada são suficientes para
deflagrar confrontos verbais intensos, marcados por agressividade, sarcasmo e
desejo de aniquilação simbólica do outro.
O distanciamento físico introduzido pela mediação tecnológica agrava
ainda mais esse quadro. Protegido por telas e perfis, o indivíduo sente-se
menos responsável por suas palavras e atitudes, reduzindo os freios morais que
normalmente regulam as interações presenciais. Ataca-se um nome, uma imagem ou
um rótulo, não uma pessoa concreta, com história, sentimentos e limitações. A
plateia virtual exerce papel semelhante ao público dos antigos embates,
incentivando a escalada do conflito, premiando a ironia mais cruel e o ataque
mais contundente. O resultado é a normalização da violência simbólica e a
substituição da reflexão pelo impulso reativo.
Por essa razão, o fenômeno permanece contrário à lei de Amor, Justiça
e Caridade, ainda que assuma formas aparentemente mais civilizadas. Trata-se da
mesma prática atrasada e moralmente bárbara, agora disfarçada pela linguagem,
pela ironia e pela exposição pública. Kardec não a combate apenas como costume
histórico, mas como expressão de uma moralidade ainda primitiva, que confunde
justiça com vingança e firmeza de convicção com intolerância. O Espiritismo
propõe sua superação definitiva por meio do perdão, da fraternidade vivida e da
educação moral, mostrando que somente quando o amor se tornar regra efetiva das
relações humanas o reino de Deus encontrará condições para se estabelecer na
Terra.
Isso não significa que não se possa discordar e discutir vitualmente
como proposta elucidativa ou de busca de conhecimento, mas adequadamente quando
se refere a ideias e não a pessoas.
É inegável que o abrandamento dos costumes revela certo progresso. A
passagem do confronto armado para formas menos explícitas de agressão indica
que a consciência coletiva começa a rejeitar a violência direta. No entanto,
esse avanço permanece incompleto enquanto a transformação não ocorrer no íntimo
do ser.
O objetivo do Espiritismo basicamente volta-se à melhoria do ser
humano pelo conhecimento da realidade espiritual e das leis naturais, extinguindo
o mal pela raiz e tornando o duelo uma recordação de um passado superado. Em
seu lugar, propõe-se a ampliar a prática do bem, na qual os homens competem não
para humilhar ou destruir, mas para alcançar a paz consciencial. Somente essa
mudança interior consolida o verdadeiro progresso e liberta o indivíduo da
escravidão do orgulho, conduzindo-o à paz da consciência e à harmonia com a lei
divina.
As ferramentas de comunicação contemporâneas, portanto, são moralmente
neutras, mas se transformam em instrumentos cujo valor depende do uso que delas
se faz. Elas podem servir à repetição dos velhos vícios do orgulho, da
agressividade e da intolerância, apenas deslocados para um novo ambiente, ou
podem tornar-se meios poderosos de disseminação do bem, de esclarecimento e de
aprimoramento pessoal. Cada palavra publicada, cada resposta oferecida e cada
silêncio assumido refletem uma escolha íntima. É nesse campo de decisões
individuais que se revela o verdadeiro progresso moral, não na tecnologia em
si, mas na direção que o ser humano decide imprimir a ela.
[1]
Ver O livro dos espíritos, questão nº 757 e O evangelho segundo o espiritismo,
Capítulo 12, itens 11 a 16.

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