sábado, 17 de janeiro de 2026

Arrependimento, Expiação e Reparação na Justiça Divina

Arrependimento, Expiação e Reparação na Justiça Divina

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.210, jan/fev 2026, p. 12-13

 

A tríade apresentada em O Céu e o Inferno, arrependimento, expiação e reparação, constitui o núcleo racional e moral da justiça divina e, por consequência, do processo evolutivo do ser. Essa tríade não descreve um mecanismo punitivo imposto ao Espírito, mas um processo pedagógico profundamente vinculado à consciência, à liberdade e à responsabilidade moral. Ela explica como o Espírito progride a partir de si mesmo, sem condenações eternas e sem dependência de circunstâncias pessoais específicas.

O arrependimento representa o primeiro movimento autêntico de transformação interior. Ele não se confunde com o sofrimento ou com o simples remorso emocional, pois pode haver dor sem arrependimento e arrependimento sem dor intensa. O arrependimento verdadeiro nasce quando o Espírito reconhece racionalmente o erro cometido, compreende suas consequências morais e passa a desejar sinceramente não mais agir daquela forma. Trata-se de um ato da consciência desperta rompendo a identificação do Espírito com o erro. Enquanto o indivíduo se justifica, se vitimiza ou atribui suas faltas a outros ou a fatores externos, permanece moralmente estacionado. O arrependimento, ao contrário, desloca o eixo da responsabilidade para o próprio ser, tornando possível o progresso.

A expiação surge como consequência natural desse estado moral ainda imperfeito. Os Espíritos deixam claro a Kardec que a expiação não é um castigo infligido por Deus, mas o efeito inevitável do desequilíbrio interior do ser. O sofrimento expiatório pode manifestar-se no estado espiritual, pela lucidez dolorosa diante do bem negligenciado, ou no estado corporal, sob a forma de provas e dificuldades que estimulam o aprendizado moral. O ponto essencial é que a expiação não tem duração predeterminada nem finalidade punitiva. Ela persiste enquanto o Espírito não se transforma intimamente. Assim, não é o sofrimento em si que purifica, mas a compreensão que dele se extrai. Quando a disposição ao bem é sincera e conhece-se como praticá-lo, a expiação perde progressivamente sua razão de ser, pois o Espírito já não necessita desse recurso educativo.

A reparação constitui o momento decisivo da tríade. Ela é a consolidação do arrependimento interior pela ação moral positiva e efetiva. Reparar não significa apenas compensar materialmente um dano, mas reconstruir, pelo bem, aquilo que foi destruído ou negado pelo mal. A justiça divina não se realiza com o sofrimento estéril, mas com a harmonia reparadora. No entanto, essa ação não deve ser compreendida de maneira simplista ou literal, como se fosse obrigatória a convivência futura exatamente com as mesmas pessoas que foram prejudicadas no passado. Essa interpretação, além de reducionista, introduz um determinismo incompatível com a liberdade e a universalidade da lei moral.

A reparação não depende das pessoas específicas envolvidas no erro primário, mas da transformação moral do Espírito e de sua disposição em fazer o bem em sentido amplo. O mal praticado contra alguém é expressão de uma imperfeição moral, como egoísmo, orgulho, indiferença ou violência. A reparação verdadeira ocorre quando essa imperfeição é superada e substituída por atitudes opostas, como solidariedade, humildade, respeito e caridade, exercidas onde quer que o Espírito se encontre. Assim, quem abusou do poder repara aprendendo a servir; quem foi indiferente ao sofrimento alheio repara desenvolvendo sensibilidade e compromisso com o próximo; quem explorou repara trabalhando pelo bem comum. Não há exigência inflexível para que isso ocorra, necessariamente, com as mesmas pessoas do passado, ainda que possa ser possível. O essencial não é o cenário, mas o aprendizado moral. A justiça divina não se estrutura como um sistema de compensações aritméticas entre indivíduos identificáveis, mas como um processo educativo contínuo orientado ao aperfeiçoamento do Espírito.

A reencarnação é um meio, não um fim em si mesma, com oportunidades educativas compatíveis com as demandas evolutivas do indivíduo.

Compreendida dessa forma, a tríade arrependimento, expiação e reparação revela sua profunda relevância ao processo evolutivo espiritual, assegurando que ninguém está condenado ao erro passado e que a justiça divina opera por meio da consciência e da liberdade dentro das leis naturais. O Espírito evolui não porque sofre, mas porque compreende; não porque paga, mas porque se transforma; não porque repete o passado, mas porque aprende a superá-lo. Essa visão dissolve o medo, o fatalismo e o misticismo moral, substituindo-os por uma ética racional da responsabilidade e da esperança, na qual cada ser é, ao mesmo tempo, autor e beneficiário de sua própria regeneração.

O processo de transformação individual não se esgota na esfera íntima do Espírito, pois seus efeitos irradiam-se inevitavelmente para o meio social. À medida que o indivíduo supera imperfeições morais e consolida valores como responsabilidade, respeito e solidariedade, suas atitudes passam a influenciar positivamente as relações humanas, as instituições e a vida coletiva. O progresso moral de cada ser colabora diretamente para a redução dos conflitos, para o fortalecimento da confiança social e para a construção de uma convivência mais justa e cooperativa, demonstrando que a renovação da sociedade começa, necessariamente, pela renovação das consciências, e não como resultado de um suposto movimento histórico impessoal e determinista.

Dessa forma, a tríade arrependimento, expiação e reparação revela-se não apenas um princípio de justiça divina aplicado ao destino do Espírito, mas também um fundamento ético do progresso humano. Ao promover a responsabilidade individual e a superação consciente do erro, ela oferece uma base racional para o aprimoramento simultâneo do ser e da sociedade, indicando que a verdadeira evolução coletiva não resulta de imposições externas e materialistas, mas da soma das transformações morais livremente conquistadas por cada indivíduo ao longo de sua trajetória evolutiva.

 

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