
Arrependimento, Expiação e Reparação na Justiça Divina
Marco
Milani
Texto
publicado na Revista Dirigente Espírita, n.210, jan/fev 2026, p. 12-13
A tríade apresentada em O Céu e o Inferno, arrependimento,
expiação e reparação, constitui o núcleo racional e moral da justiça divina e,
por consequência, do processo evolutivo do ser. Essa tríade não descreve um
mecanismo punitivo imposto ao Espírito, mas um processo pedagógico
profundamente vinculado à consciência, à liberdade e à responsabilidade moral.
Ela explica como o Espírito progride a partir de si mesmo, sem condenações
eternas e sem dependência de circunstâncias pessoais específicas.
O arrependimento representa o primeiro movimento autêntico de
transformação interior. Ele não se confunde com o sofrimento ou com o simples
remorso emocional, pois pode haver dor sem arrependimento e arrependimento sem
dor intensa. O arrependimento verdadeiro nasce quando o Espírito reconhece
racionalmente o erro cometido, compreende suas consequências morais e passa a
desejar sinceramente não mais agir daquela forma. Trata-se de um ato da
consciência desperta rompendo a identificação do Espírito com o erro. Enquanto
o indivíduo se justifica, se vitimiza ou atribui suas faltas a outros ou a
fatores externos, permanece moralmente estacionado. O arrependimento, ao
contrário, desloca o eixo da responsabilidade para o próprio ser, tornando
possível o progresso.
A expiação surge como consequência natural desse estado moral ainda
imperfeito. Os Espíritos deixam claro a Kardec que a expiação não é um castigo
infligido por Deus, mas o efeito inevitável do desequilíbrio interior do ser. O
sofrimento expiatório pode manifestar-se no estado espiritual, pela lucidez
dolorosa diante do bem negligenciado, ou no estado corporal, sob a forma de
provas e dificuldades que estimulam o aprendizado moral. O ponto essencial é
que a expiação não tem duração predeterminada nem finalidade punitiva. Ela
persiste enquanto o Espírito não se transforma intimamente. Assim, não é o
sofrimento em si que purifica, mas a compreensão que dele se extrai. Quando a
disposição ao bem é sincera e conhece-se como praticá-lo, a expiação perde
progressivamente sua razão de ser, pois o Espírito já não necessita desse
recurso educativo.
A reparação constitui o momento decisivo da tríade. Ela é a consolidação
do arrependimento interior pela ação moral positiva e efetiva. Reparar não
significa apenas compensar materialmente um dano, mas reconstruir, pelo bem,
aquilo que foi destruído ou negado pelo mal. A justiça divina não se realiza
com o sofrimento estéril, mas com a harmonia reparadora. No entanto, essa ação
não deve ser compreendida de maneira simplista ou literal, como se fosse
obrigatória a convivência futura exatamente com as mesmas pessoas que foram
prejudicadas no passado. Essa interpretação, além de reducionista, introduz um
determinismo incompatível com a liberdade e a universalidade da lei moral.
A reparação não depende das pessoas específicas envolvidas no erro primário,
mas da transformação moral do Espírito e de sua disposição em fazer o bem em
sentido amplo. O mal praticado contra alguém é expressão de uma imperfeição
moral, como egoísmo, orgulho, indiferença ou violência. A reparação verdadeira
ocorre quando essa imperfeição é superada e substituída por atitudes opostas,
como solidariedade, humildade, respeito e caridade, exercidas onde quer que o
Espírito se encontre. Assim, quem abusou do poder repara aprendendo a servir;
quem foi indiferente ao sofrimento alheio repara desenvolvendo sensibilidade e
compromisso com o próximo; quem explorou repara trabalhando pelo bem comum. Não
há exigência inflexível para que isso ocorra, necessariamente, com as mesmas
pessoas do passado, ainda que possa ser possível. O essencial não é o cenário,
mas o aprendizado moral. A justiça divina não se estrutura como um sistema de compensações aritméticas entre indivíduos identificáveis, mas como um processo educativo contínuo orientado ao aperfeiçoamento do Espírito.
A reencarnação é um meio, não um fim em si mesma, com oportunidades
educativas compatíveis com as demandas evolutivas do indivíduo.
Compreendida dessa forma, a tríade arrependimento, expiação e
reparação revela sua profunda relevância ao processo evolutivo espiritual, assegurando
que ninguém está condenado ao erro passado e que a justiça divina opera por
meio da consciência e da liberdade dentro das leis naturais. O Espírito evolui
não porque sofre, mas porque compreende; não porque paga, mas porque se
transforma; não porque repete o passado, mas porque aprende a superá-lo. Essa
visão dissolve o medo, o fatalismo e o misticismo moral, substituindo-os por
uma ética racional da responsabilidade e da esperança, na qual cada ser é, ao
mesmo tempo, autor e beneficiário de sua própria regeneração.
O processo de transformação individual não se esgota na esfera íntima
do Espírito, pois seus efeitos irradiam-se inevitavelmente para o meio social.
À medida que o indivíduo supera imperfeições morais e consolida valores como
responsabilidade, respeito e solidariedade, suas atitudes passam a influenciar
positivamente as relações humanas, as instituições e a vida coletiva. O
progresso moral de cada ser colabora diretamente para a redução dos conflitos,
para o fortalecimento da confiança social e para a construção de uma
convivência mais justa e cooperativa, demonstrando que a renovação da sociedade
começa, necessariamente, pela renovação das consciências, e não como resultado
de um suposto movimento histórico impessoal e determinista.
Dessa forma, a tríade arrependimento, expiação e reparação revela-se
não apenas um princípio de justiça divina aplicado ao destino do Espírito, mas
também um fundamento ético do progresso humano. Ao promover a responsabilidade
individual e a superação consciente do erro, ela oferece uma base racional para
o aprimoramento simultâneo do ser e da sociedade, indicando que a verdadeira
evolução coletiva não resulta de imposições externas e materialistas, mas da
soma das transformações morais livremente conquistadas por cada indivíduo ao
longo de sua trajetória evolutiva.
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