terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Entre a tolerância e a coerência doutrinária

Entre a tolerância e a coerência doutrinária

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.210, jan/fev 2026, p. 31-32

 

Em tempos de ampla exposição digital, quando inúmeros canais nas redes sociais se apresentam como difusores do Espiritismo, multiplicam-se conteúdos que mesclam noções verdadeiras com fantasias, opiniões pessoais e notícias falsas. Essa proliferação de discursos sem critério, amparada pela aparência de autoridade espiritual, tem produzido confusão e prejudicado a compreensão racional da doutrina espírita.

 O fenômeno não é novo: todas as doutrinas filosóficas, ao longo da história, enfrentaram o desafio de lidar com as crenças populares que se aproximavam de alguns de seus princípios, mas divergiam em outros. O Espiritismo não está imune a essa situação.

No cotidiano de algumas instituições espíritas, observa-se a presença de ideias e práticas que, embora bem-intencionadas, não se harmonizam com os fundamentos codificados por Allan Kardec. Surge, então, uma pergunta crucial aos dirigentes espíritas: até que ponto é legítimo tolerar certas distorções em nome da boa convivência e da fraternidade, sem comprometer a coerência doutrinária que garante a identidade do Espiritismo? A fé espírita é raciocinada, não cega. Ao considerar-se que a “fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade”[1], evidencia-se um dos pilares do Espiritismo. Estabelece-se uma linha divisória entre a crença que se sustenta na lógica e nas leis naturais e a crendice que repousa em opiniões, modismos ou influências culturais externas sem exame crítico.

A tolerância é virtude quando se refere às pessoas, mas torna-se conivência e omissão quando se aplica aos erros conceituais ou às práticas que desfiguram os princípios e valores espíritas. Os adeptos em geral, mas sobretudo os dirigentes espíritas, têm a responsabilidade de cultivar o acolhimento sem abrir mão da lucidez.

Não é de hoje que expressões de sincretismo e de misticismo infiltram-se no movimento espírita, muitas delas justificadas por argumentos como: “o que importa é o fundo, não a forma”, “Kardec não disse tudo”, ou ainda, “se for em nome amor, tudo vale”. Essas ideias, repetidas de modo aparentemente benevolente e sem o devido cuidado, têm servido como salvo-conduto para interpretações e práticas contrárias ao ensino doutrinário. Ao não exercer o compromisso ético com a fé raciocinada, ataca-se a identidade doutrinária e substitui-se o bom senso pelo sentimentalismo, a análise crítica pela crença lúdica e emocional.

O controle universal do ensino dos Espíritos não é mero adorno. Kardec não apresentou um conjunto místico, mas princípios estruturados por método experimental e filosófico. A atitude racional e investigativa é, portanto, parte indissociável da doutrina. Sem ela, comete-se um equívoco epistemológico.

Uma mensagem espiritual pode conter apelos morais elevados, mas se contradisser as leis naturais ou as bases da Codificação, não pode ser considerada espírita, por mais edificante que pareça. O fundo moral não redime o erro doutrinário; ao contrário, um erro bem-intencionado é ainda mais perigoso porque se mascara sob aparência de virtude.

A aceitação acrítica de crendices sob o argumento da caridade fraterna tem produzido efeitos sutis, porém marcantes, na cultura das instituições. Em muitos centros, multiplicam-se expressões que remetem a práticas mágicas, místicas ou ritualísticas, ainda que sob roupagem “espiritualizada”. Dirigentes, receosos de causar desconforto, preferem não corrigir equívocos e assim abrem espaço para que o erro se instale sob o pretexto de não julgar. A omissão, nesse caso, não é tolerância, mas negligência pedagógica.

O centro espírita é também uma escola, e ao dirigente cabe o papel de educador. A caridade genuína não dispensa o esclarecimento, pois é pelas luzes da verdade que o Espírito se liberta da ignorância.

É comum ouvir que o Espiritismo deve se adaptar aos tempos modernos, aceitando novas ideias e expressões espirituais. De fato, a doutrina é progressiva, no sentido de estar aberta à análise de descobertas da ciência. Contudo, progresso não significa relativismo.

A tolerância com ideias e práticas que deformam os princípios não é progresso, mas regressão à fase da crença cega que o Espiritismo veio justamente superar.

A postura do dirigente espírita deve, portanto, equilibrar firmeza doutrinária e fraternidade real. É possível acolher quem chega com visões distorcidas e, ao mesmo tempo, conduzir o grupo à compreensão lúcida da Doutrina. Isso exige preparo intelectual, estudo sistemático das obras de Allan Kardec e coerência no exemplo. O dirigente não é um censor, mas um orientador que ensina pela clareza, não pela imposição. Quando a instituição espírita se mantém coerente com os princípios doutrinários e aberta ao diálogo, cria um ambiente saudável, onde a razão e a fé se apoiam mutuamente. Tolerar as pessoas é expressão da caridade, mas tolerar o erro conceitual é abandonar a própria missão educativa que deveria caracterizar o dirigente espírita.

Em um mundo saturado de discursos emocionais e crenças instantâneas, a tentação de flexibilizar o rigor doutrinário em nome da inclusão é grande. No entanto, cada concessão feita à incoerência enfraquece a confiança na seriedade do Espiritismo e desorienta os que buscam nele uma filosofia sólida. A missão das casas espíritas é acolher, esclarecer e educar, não adaptar-se às modas da ocasião ou às expectativas de agradar a todos. O verdadeiro amor é lúcido e instrutivo.

 



[1] Ver O Evangelho segundo o Espiritismo, Capítulo XIX, item 7.

 

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