sexta-feira, 8 de maio de 2026

O perigo de ser o maior

O PERIGO DE SER O MAIOR

 

Artigo de Irmão Saulo (José Herculano Pires), publicado no jornal Unificação, ano 1, no 2, maio de 1953 e reproduzido na Revista Dirigente Espírita, ed. 212, p.20.

 

 A propagação do espiritismo se tem feito, entre nós, muito mais através da prática do que da teoria, ou seja, do estudo doutrinário. Contam-se por verdadeira multidão as pessoas que se tornaram espíritas e frequentam sessões sem jamais haverem lido O livro dos espíritos ou qualquer outra das obras básicas da Doutrina.

Quando muito, essas pessoas têm ouvido falar de Kardec nas palestras e conferências espíritas, e têm recebido alguns ensinamentos através da leitura de uma página ou outra de O evangelho segundo o espiritismo, nas deficientes sessões teóricas que alguns centros ainda praticam, uma vez por semana.

Essa situação do espiritismo no Brasil é a mais estranha e paradoxal que se poderia imaginar. Espiritismo é doutrina. Bastaria isto para nos mostrar a impossibilidade de se praticar espiritismo sem o conhecimento dos seus princípios.

A prática doutrinária devia ser uma consequência do estudo e da assimilação da teoria. As sessões teóricas, por isso mesmo, deviam ser mais numerosas do que as sessões práticas. Ao invés de cada centro realizar três ou quatro sessões práticas por semana e apenas uma de teoria, o contrário é que devia ser feito. Vejamos um exemplo corriqueiro. Pode alguém praticar a odontologia, curar e arrancar dentes, sem primeiro ter aprendido a profissão? Antigamente existiam os dentistas-práticos, e ainda hoje existem alguns licenciados. É verdade que eles não cursaram escolas mas, antes de se entregarem à prática, tiveram de aprender com outro profissional.

Outro exemplo, ainda mais banal, é o do barbeiro. Pode alguém abrir um salão e praticar a arte, sem antes ter aprendido? O mesmo se dá no futebol. É possível jogá-lo, sem conhecer as regras do jogo, sem antes aprender? Esses exemplos, pela sua própria natureza popular, de fácil compreensão por todos, devem estar constantemente na boca dos doutrinadores e dos dirigentes de associações espíritas.

Ora, se para ser dentista, barbeiro ou futebolista, ninguém pode deixar de lado a teoria, o estudo, aprendizado, que dizer do espiritismo, que é coisa muito superior à odontologia, à arte de barbear e ao jogo de futebol?

Se ninguém pode realizar com perfeição e segurança um simples ato material, mecânico, sem grande importância, como pode entregar-se a coisas muito mais sérias e complicadas, como a recepção e doutrinação de Espírito? O erro fundamental do movimento espírita, em nosso país, está justamente nesse problema, que precisamos solucionar.

A mistificação tomou conta de grande número de nossas sociedades, porque os seus dirigentes não se prepararam devidamente para a tarefa árdua, difícil e séria, que resolveram tomar sobre os ombros. Mas o responsável por esse fato não é a ignorância, como pensam muitos. Não. A ignorância tem a sua parte de responsabilidade, sem dúvida, mas a responsabilidade maior é a da vaidade, do orgulho, da pretensão. Porque a pessoa pode ser ignorante e não ser vaidosa. Então, ela não se arrogará o direito de dirigir os outros, de ensinar o que não sabe, de acreditar na tapeação dos chamados “guias”, que lhe dizem a todo instante ser ela “a maior” no grupo ou centro a que pertence.

O combate à prática indiscriminada do espiritismo, feita sem o devido conhecimento da Doutrina, deve, portanto, ser desenvolvido sem esmorecimentos.

Esse combate tem também objetivo e consequências morais, visando a reforma intima dos nossos confrades. Mostrando-lhes os erros em que têm incorrido, contribuímos para que eles compreendam o erro maior, que está nos seus próprios corações, ou seja, o erro da vaidade, e da mais tola das vaidades, porque aquela que não se baseia senão em si mesma.

É necessário que esclareçamos bem este ponto. Vamos, pois, a um exemplo material, pois nada melhor do que as figuras para dizerem as coisas de maneira eficiente. Quem não conhece a história daquele homem que, por força dos elogios, se convenceu de que era peão e montou um burro chucro, para ser logo atirado ao chão pelo animal? Pois essa história nos dá a imagem perfeita do presidente de Centro, diretor de trabalhos ou doutrinador que não estudou, não estuda e não conhece a Doutrina. Os Espíritos mistificadores dizem que ele “é o tal”, ensinam-lhe uma porção de bobagens, que ele não pode saber se estão certas ou erradas, e depois o atiram-no no lombo de um burro chucro.

É por isso que vemos por aí, em tantos centros. presidentes e doutrinadores com os olhos cheios de areia. Não enxergam nada, porque caíram do burro e a areia lhes tapou a vista. Para ser espírita é preciso conhecer o espiritismo. Para doutrinar Espírito é preciso saber doutrina. O que é doutrinar? Não é ensinar doutrina? E como pode alguém doutrinar, se não conhecer doutrina? O resultado dessa confusão é que os doutrinadores se afundam num emaranhado de bobagens, ensinando coisas que o espiritismo condena. Fazem como os fariseus, de que falava Jesus, que não entram no céu e não deixam os outros entrar. Eles não aprendem doutrina e não deixam os outros aprender, porque cheios de si e vazios de Cristo, só falam das suas próprias tolices.

Cada presidente de centro, cada orador, cada doutrinador espírita, tem sobre os ombros uma grande responsabilidade, que é a da difusão da verdadeira Doutrina. Que cada qual, pois, se compenetre dessa responsabilidade, e não se assuste de ser ignorante, pois todos os somos, numa coisa ou noutra, mas não queira nunca ser o peão que os falsos elogios atiraram ao lombo do burro chucro.

A ignorância tem remédio, através do estudo; mas a vaidade, essa é cega e teimosa como uma bruxa.


 

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