O
PERIGO DE SER O MAIOR
Artigo
de Irmão Saulo (José Herculano Pires), publicado no jornal Unificação,
ano 1, no 2, maio de 1953 e reproduzido na Revista Dirigente Espírita, ed. 212,
p.20.
A propagação do espiritismo se
tem feito, entre nós, muito mais através da prática do que da teoria, ou seja,
do estudo doutrinário. Contam-se por verdadeira multidão as pessoas que se
tornaram espíritas e frequentam sessões sem jamais haverem lido O livro dos
espíritos ou qualquer outra das obras básicas da Doutrina.
Quando muito, essas pessoas têm ouvido falar de Kardec nas palestras e
conferências espíritas, e têm recebido alguns ensinamentos através da leitura
de uma página ou outra de O evangelho segundo o espiritismo, nas
deficientes sessões teóricas que alguns centros ainda praticam, uma vez por
semana.
Essa situação do espiritismo no Brasil é a mais estranha e paradoxal
que se poderia imaginar. Espiritismo é doutrina. Bastaria isto para nos mostrar
a impossibilidade de se praticar espiritismo sem o conhecimento dos seus
princípios.
A prática doutrinária devia ser uma consequência do estudo e da
assimilação da teoria. As sessões teóricas, por isso mesmo, deviam ser mais
numerosas do que as sessões práticas. Ao invés de cada centro realizar três ou
quatro sessões práticas por semana e apenas uma de teoria, o contrário é que
devia ser feito. Vejamos um exemplo corriqueiro. Pode alguém praticar a
odontologia, curar e arrancar dentes, sem primeiro ter aprendido a profissão?
Antigamente existiam os dentistas-práticos, e ainda hoje existem alguns
licenciados. É verdade que eles não cursaram escolas mas, antes de se
entregarem à prática, tiveram de aprender com outro profissional.
Outro exemplo, ainda mais banal, é o do barbeiro. Pode alguém abrir um
salão e praticar a arte, sem antes ter aprendido? O mesmo se dá no futebol. É
possível jogá-lo, sem conhecer as regras do jogo, sem antes aprender? Esses
exemplos, pela sua própria natureza popular, de fácil compreensão por todos,
devem estar constantemente na boca dos doutrinadores e dos dirigentes de associações
espíritas.
Ora, se para ser dentista, barbeiro ou futebolista, ninguém pode
deixar de lado a teoria, o estudo, aprendizado, que dizer do espiritismo, que é
coisa muito superior à odontologia, à arte de barbear e ao jogo de futebol?
Se ninguém pode realizar com perfeição e segurança um simples ato
material, mecânico, sem grande importância, como pode entregar-se a coisas
muito mais sérias e complicadas, como a recepção e doutrinação de Espírito? O
erro fundamental do movimento espírita, em nosso país, está justamente nesse
problema, que precisamos solucionar.
A mistificação tomou conta de grande número de nossas sociedades,
porque os seus dirigentes não se prepararam devidamente para a tarefa árdua,
difícil e séria, que resolveram tomar sobre os ombros. Mas o responsável por
esse fato não é a ignorância, como pensam muitos. Não. A ignorância tem a sua
parte de responsabilidade, sem dúvida, mas a responsabilidade maior é a da
vaidade, do orgulho, da pretensão. Porque a pessoa pode ser ignorante e não ser
vaidosa. Então, ela não se arrogará o direito de dirigir os outros, de ensinar
o que não sabe, de acreditar na tapeação dos chamados “guias”, que lhe dizem a
todo instante ser ela “a maior” no grupo ou centro a que pertence.
O combate à prática indiscriminada do espiritismo, feita sem o devido
conhecimento da Doutrina, deve, portanto, ser desenvolvido sem esmorecimentos.
Esse combate tem também objetivo e consequências morais, visando a
reforma intima dos nossos confrades. Mostrando-lhes os erros em que têm
incorrido, contribuímos para que eles compreendam o erro maior, que está nos
seus próprios corações, ou seja, o erro da vaidade, e da mais tola das
vaidades, porque aquela que não se baseia senão em si mesma.
É necessário que esclareçamos bem este ponto. Vamos, pois, a um
exemplo material, pois nada melhor do que as figuras para dizerem as coisas de
maneira eficiente. Quem não conhece a história daquele homem que, por força dos
elogios, se convenceu de que era peão e montou um burro chucro, para ser logo
atirado ao chão pelo animal? Pois essa história nos dá a imagem perfeita do
presidente de Centro, diretor de trabalhos ou doutrinador que não estudou, não
estuda e não conhece a Doutrina. Os Espíritos mistificadores dizem que ele “é o
tal”, ensinam-lhe uma porção de bobagens, que ele não pode saber se estão
certas ou erradas, e depois o atiram-no no lombo de um burro chucro.
É por isso que vemos por aí, em tantos centros. presidentes e
doutrinadores com os olhos cheios de areia. Não enxergam nada, porque caíram do
burro e a areia lhes tapou a vista. Para ser espírita é preciso conhecer o
espiritismo. Para doutrinar Espírito é preciso saber doutrina. O que é
doutrinar? Não é ensinar doutrina? E como pode alguém doutrinar, se não
conhecer doutrina? O resultado dessa confusão é que os doutrinadores se afundam
num emaranhado de bobagens, ensinando coisas que o espiritismo condena. Fazem
como os fariseus, de que falava Jesus, que não entram no céu e não deixam os
outros entrar. Eles não aprendem doutrina e não deixam os outros aprender, porque
cheios de si e vazios de Cristo, só falam das suas próprias tolices.
Cada presidente de centro, cada orador, cada doutrinador espírita, tem
sobre os ombros uma grande responsabilidade, que é a da difusão da verdadeira
Doutrina. Que cada qual, pois, se compenetre dessa responsabilidade, e não se
assuste de ser ignorante, pois todos os somos, numa coisa ou noutra, mas não
queira nunca ser o peão que os falsos elogios atiraram ao lombo do burro
chucro.
A ignorância tem remédio, através do estudo; mas a vaidade, essa é
cega e teimosa como uma bruxa.

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