sexta-feira, 17 de junho de 2022

Cândido e o abacateiro



Cândido e o abacateiro

Marco Milani

      Era uma vez um homem conhecido como Cândido, o ativista.
      Cândido era moderno e possuía notebook, telefone celular e conexão wi-fi, o que lhe permitia participar de redes sociais e interagir com muita gente. Cândido gostava de discutir os assuntos mais “quentes” do momento, mesmo que não tivesse muita familiaridade prévia com o tema, mas bastavam alguns segundos lendo uma notícia e inexplicavelmente ele parecia dominar a questão com maestria.
      Cândido era um homem resoluto, com posições firmes e diretas. Sentia-se realizado ao fazer comentários lacradores em acanhadas caixas de diálogo, pois suas verdades eram absolutas e mudariam o mundo, assim precisava dizer às pessoas como elas deveriam se comportar.
      Em certa ocasião, Cândido se deparou com a divulgação de um congresso que uma grande instituição espírita costumava realizar a cada três anos. Qual não foi a surpresa e a indignação de Cândido ao saber que seria cobrada uma taxa de inscrição para cobrir parte dos custos do evento.
      Cândido revoltou-se com essa cobrança, afinal, o que aconteceu com a máxima “fora da caridade não há salvação” e com a relação de troca expressa na frase “dai de graça o que de graça recebeste”? Onde já se viu cobrar de espíritas?! Só porque se tratava de um congresso para mil pessoas com atividades durante três dias e contando com palestrantes e expositores convidados que se deslocariam de diferentes regiões do país, em nada justificaria, segundo Cândido, essa cobrança.
      Cândido também lembrou da “sombra do abacateiro”, citada em algumas leituras que havia feito, simbolizando a singeleza e a simplicidade esperadas em eventos dessa natureza. Pronto, esse é o modelo ideal, pensou, e logo visualizou um grande abacateiro que abrigasse as mil pessoas em todos os dias do evento. Seus frutos alimentariam todos os participantes, os quais poderiam ficar ali acampados, também de graça. O abacateiro possuiria um sistema próprio de som e transmissão via internet, sem a necessidade de se contratar empresa especializada. 
      Cândido estava se sentindo motivado, teclando freneticamente. Como ativista, destacava que o povo passava fome e qualquer taxa era absurda. 
      Ainda que não conhecesse a teoria e muito menos a prática das ciências contábeis, Cândido supôs-se um experiente contador e bradou: “Eventos espíritas não possuem custos”!
      Como a população brasileira bancaria aquela cobrança? Milhões seriam excluídos e não importava o fato de que as atividades programadas para o evento seriam transmitidas ao vivo ou posteriormente ficassem disponíveis gratuitamente nos canais de divulgação dessa instituição. O que importava para Cândido, no fundo, era dar vazão à sua indignação e... lacrar.
      E com a sensação de dever cumprido na reforma do mundo, Cândido buscou outras notícias para opinar.


 

quarta-feira, 4 de maio de 2022

A fé customizada pelas paixões ideológicas


A fé customizada pelas paixões ideológicas


Marco Milani

 

(Texto publicado na Revista Senda – FEEES, mai/jun 2022, p.5-6)

 

Ao longo de seu discurso à comunidade de espíritas das cidades francesas de Lyon e Bordeaux, em 1862, Kardec[1] categorizou os adeptos em três grandes grupos: I) Os que creem pura e simplesmente nos fenômenos das manifestações, mas que deles não deduzem qualquer consequência moral; II) Os que percebem o alcance moral, mas o aplicam aos outros e não a si mesmos; III) Os que aceitam pessoalmente todas as consequências da doutrina e que praticam ou se esforçam por praticar sua moral.

O verdadeiro espírita, portanto, aplica em si mesmo o que muitos apenas manifestam em discursos normativos carregados de lições enobrecedoras, mas vazios de ações.

Entre cada uma dessas categorias poderiam ser apontadas múltiplas subcategorias, proporcionais à maturidade moral e intelectual dos indivíduos. Uma delas seria formada por aqueles que apresentam-se como adeptos, porém adequam os ensinos aos próprios interesses e não raramente procuram legitimar suas opiniões particulares sobre diversos assuntos polêmicos alegando essas estarem embasadas no Espiritismo. Tal é o espírita por conveniência, que customiza a fé conforme seus interesses e ambições.

A fé customizada é adotada em detrimento da coerência doutrinária por novos sofistas que distorcem a realidade para moldar a aparência da verdade. Tal distorção decorre, muitas vezes, das paixões que o suposto adepto carrega e direcionam sua cosmovisão e consequente argumentação. Ao invés de servir-se das premissas doutrinárias para se autoconhecer, aprimorar-se e repensar suas crenças anteriores com natural mudança de atitudes, ele faz o inverso, partindo de arraigadas convicções ideológicas para encaixar o Espiritismo nessas propostas. O que não couber ou for divergente, simplesmente ignora-se ou reinterpreta-se.

 Assim ocorre com as paixões políticas. Em um mundo de expiações e provas, não faltam antigas propostas revolucionárias sociais que prometem a concretização do reino de justiça na Terra desde que seguida determinada cartilha já idealizada por intérpretes da história e planejadores do comportamento coletivo. Quase a totalidade dessas receitas utópicas de felicidade desconhecem o processo interexistencial de desenvolvimento e pregam a imposição de relações econômicas artificiais e coletivistas como aquelas que transformariam moralmente o indivíduo, mas que acabam por sufocá-lo. Para esses, o Espírito Erasto[2] assim se manifesta. 

Acabo de pronunciar a palavra igualitária. Julgo útil deter-me um pouco nela, porque absolutamente não vimos pregar, em vosso meio, utopias impraticáveis, e também porque, ao contrário, repelimos com energia tudo quanto pareça ligar-se às prescrições de um comunismo antissocial; antes de tudo, somos essencialmente propagandistas da liberdade individual, indispensável ao desenvolvimento dos encarnados; por conseguinte, inimigos declarados de tudo quanto se aproxime dessas legislações conventuais, que aniquilam brutalmente os indivíduos.

 Fruto de ilusões utópicas, muitos espíritas por conveniência selecionam e reinterpretam conceitos doutrinários para legitimar o modelo político que carregam de sistemas de relações socioeconômicas que dependem da perfeição moral de todos.

As questões transitórias sociais recorrentemente estavam presentes nos diálogos de Allan Kardec com os Espíritos e o respectivo ensino doutrinário contém os elementos fundamentais para a construção de uma sociedade terrena mais justa e fraterna, lastreada no conhecimento da realidade espiritual e da finalidade da reencarnação.

A contribuição primordial do Espiritismo no progresso social evidencia-se na condição de um poderoso agente de transformação moral da humanidade, sem qualquer enquadramento em concepções político-ideológicas já concebidas.

Como filosofia interexistencialista, o Espiritismo não se limita às relações do mundo material, pois expande a compreensão da realidade e desloca a finalidade última do ser para a conquista do verdadeiro Reino de Deus em si mesmo. As misérias humanas são reflexos do nível moral dos indivíduos, confrontando-os com as chagas do orgulho e do egoísmo, incentivando-os a exercitar a inteligência e praticar a caridade em seu verdadeiro sentido, em harmonia com as leis divinas.

O Espiritismo, ao demonstrar a responsabilidade de cada um sobre suas ações e respectivas consequências durante o processo reencarnatório em plena conformidade com as leis naturais, afasta-se da míope perspectiva materialista histórica que concebe o homem como produto de seu meio e ignora sua bagagem reencarnatória, suas tendências e necessidades evolutivas para a realização espiritual. A expressão “a cada um segundo suas obras” resume a essência meritocrática do esforço individual na jornada interior em busca da verdadeira felicidade, segundo o Espiritismo.

A confiança e a crença racional na justiça divina e no futuro pautado pelos benefícios consequentes da prática da caridade, aqui entendida como a ação benevolente, indulgente e voltada ao perdão das ofensas, deveriam nortear a conduta equilibrada do adepto, promovendo conforto e coragem para superar os desafios materiais. A conduta do espírita espelha o seu próprio progresso moral nas obras realizadas e faz-se reconhecido como coerente aos princípios de paz e solidariedade que professa.

A fé raciocinada, sob esse ângulo, analisa criticamente e admite a consistência do conjunto de ensinos apresentados por Allan Kardec, convidando o adepto da filosofia espírita a agir conforme os princípios doutrinários, reduzindo e atenuando hábitos e posturas orgulhosas e egoístas. Certamente, em um mundo de expiações e provas, não se deve exigir a súbita perfeição e o progresso moral é paulatino e proporcional aos esforços e maturidade de cada um.

A transformação social, para Kardec, não ocorrerá de maneira impositiva e totalitária ao indivíduo, mas de maneira oposta, decorrente da melhoria do indivíduo respeitando-se a liberdade de consciência de cada um. Conforme afirma-se na edição de fevereiro de 1862 da Revista Espírita[3], tem-se:

Procurai no Espiritismo aquilo que vos pode melhorar: eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais realmente úteis serão uma consequência natural; trabalhando pelo progresso moral, lançareis os verdadeiros e mais sólidos fundamentos de todas as melhoras, e deixareis a Deus o cuidado de fazer com que cheguem no devido tempo. No próprio interesse do Espiritismo, que é ainda jovem, mas que amadurece depressa, oponde uma firmeza inquebrantável aos que quiserem vos arrastar por uma via perigosa.

 Ao crer somente naquilo que está em concordância com suas paixões político-ideológicas e rejeitar tudo o que na doutrina espírita as contrarie, o adepto por conveniência exemplifica a postura egoísta e orgulhosa que leva à insensatez doutrinária. A militância política, com o intuito de ocupar espaços e disseminar suas propostas para convencer o maior número de pessoas, desrespeita a liberdade de pensamento e livre-arbítrio do próximo nas instituições espíritas e provoca cismas.

Allan Kardec, dirigindo-se aos espíritas lioneses em 1862, já alertava sobre a armadilha preparada por adversários do Espiritismo que objetivavam levar aos grupos espíritas a discussão política[4].

Devo ainda assinalar-vos outra tática dos nossos adversários, a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua alçada e que, a justo título, poderiam despertar suscetibilidades e desconfianças. Não vos deixeis cair nessa armadilha; afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quanto se refere à política e a questões irritantes; a tal respeito, as discussões apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém terá nada a objetar à moral, quanto esta for boa.

                       Atuando como promotores de cizânia em nome de paixões políticas variadas, os supostos adeptos que customizam a fé lançam-se com entusiasmo ao proselitismo de suas convicções pessoais camuflando-as de assuntos doutrinários, fomentando as discussões contra ou a favor de governantes, defendendo ou atacando condutas alheias, ou ainda, tentando fazer crer que só quem compartilha de suas paixões político-ideológicas poderia ser considerado um espírita legítimo.

Que nesses tempos agitados pela polarização política, consigamos entender o alerta de Kardec sobre os cuidados no trato das paixões e o respeito à liberdade de pensamento e exemplificarmos em nós mesmos o comportamento que gostaríamos que outros tivessem.

________________________________ 

[1] Livro Viagem Espírita em 1862. Discursos pronunciados nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e Bordeaux. Discurso I

[2] Trecho extraído da epístola de Erasto aos espíritas lioneses - 1861. Um alerta contra as utopias materialistas. Revista Espírita, out/1861.

[3] Trecho extraído do texto Resposta dirigida aos espíritas lioneses por ocasião do Ano-Novo, Revista Espírita, Revista Espírita, fev/1862

[4] Ibidem


 Fonte: https://www.feees.org.br/?jet_download=3739

domingo, 1 de maio de 2022

Os tempos são chegados, mas que tempos são esses?


 

Os tempos são chegados, mas que tempos são esses?

 

Marco Milani

 

(Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, mai/jun 2022 - ed. 189, p. 62-63)

 

          Em diversas religiões, o “fim do mundo” é um evento previsto em seus textos sagrados e nas tradições orais. As predições escatológicas povoam as narrativas de igrejas e comunidades salvacionistas, geralmente com a apresentação de um cenário que marca a divisão entre bons e maus, eleitos e rejeitados, salvos e condenados. Não somente as linhas cristãs assumem um período que demarca a transição de uma era em decadência para outra renovada, mas também o Hinduísmo, o Zoroastrismo, o Islamismo e o Judaísmo, dentre outras.

          O Espiritismo, como filosofia espiritualista, serve-se dos ensinos doutrinários apresentados por Kardec para a análise do contexto histórico e cultural das tradições, basicamente da judaico-cristã, para lançar luzes sobre a compreensão racional da marcha da humanidade.

No capítulo 18 da obra A Gênese, de Allan Kardec, intitulado “Os tempos são chegados” esclarece-se que há na Terra dois tipos de progresso: o físico e o moral. Enquanto o primeiro se refere às transformações geológicas que o planeta passa, o segundo diz respeito ao aprimoramento dos Espíritos encarnados e desencarnados que a povoam, tomando a conduta de Jesus como modelo e guia.

          Como o homem sempre progride e nunca retrograda em seu processo evolutivo, por mais imperceptível que seja o avanço moral sob as lentes de uma única encarnação, é no conjunto das experiências do ser que evidencia-se o seu desenvolvimento. A fieira reencarnatória do Espírito faz com que sua jornada seja única e individualizada, ocupando diferentes orbes e compartilhando vivências com outros seres em uma ampla rede solidária que constitui a comunidade espiritual.

          Materialmente, planetas formam-se e colapsam-se. Estima-se que a idade da Terra seja de 4,5 bilhões de anos, assim como daqui a 1,8 bilhão de anos a vida orgânica cessará e em cerca de 5 bilhões de anos todo o planeta será absorvido pela expansão do Sol.[1]

          Para o Espírito, entretanto, bilhões de anos, trilhões de séculos ou qualquer medida temporal não alteram sua perenidade, acrescentando-se a situação de que o mundo espiritual preexiste e sobrevive ao mundo físico, portanto a idade do universo materialmente conhecido não afeta a realidade espiritual. A própria noção de tempo que possuem os encarnados desaparece perante a imortalidade da alma e, quanto mais evoluído é o Espírito, os conceitos de passado, presente e futuro assumem características que estamos longe de compreender.

          No universo, tudo está em harmonia conforme a vontade soberana de Deus e o que parece ser uma perturbação nada mais é do que uma percepção limitada do homem que não compreende o todo[2]. Considerando que o progresso é uma Lei da Natureza, depreende-se que todos realizarão a perfeição de que o Espírito é suscetível e o nível moral dos habitantes da Terra atingirá um estágio de regeneração, superando a classificação atual de mundo de expiações e provas, conforme escala evolutiva.[3]

Uma das percepções limitadas (e equivocadas) do homem é a suposição de que todo o progresso do Espírito ocorre na Terra. Desde o momento em que o Espírito desperta para a razão e moralidade, ele assume responsabilidade sobre os seus atos e aprende com as respectivas consequências, sendo impulsionado pelas próprias Leis Naturais a autoconhecer-se e atuar em consonância com a própria consciência. Para tanto, o Espírito encarna em inúmeros corpos e condições físicas no universo, a partir dos mundos primitivos. A Terra é um minúsculo ponto nessa trajetória e os corpos aqui existentes não contêm todas as desconhecidas constituições físicas possíveis. Exercita-se, inadvertidamente, a especulação de qual seria o animal mais inteligente neste planeta que poderia vincular-se à transição para o homem mais primitivo, ignorando-se o resto do universo.

Mas afinal, que tempos são esses que foram anunciados pelos Espíritos a Kardec?

Como referência evolutiva, quanto mais próximo da autorrealização espiritual pelo seu desenvolvimento moral e intelectual, mais feliz será o ser humano. Uma vez que todos se autorrealizarão, inexoravelmente, todos superarão, por mérito individual, a necessidade de experiências reencarnatórias em locais dominados pelas sensações brutas e paixões para vivenciar o convívio norteado pela sabedoria e pela fraternidade. Como em qualquer mundo, são os habitantes que caracterizam o estágio evolutivo da Terra. Atualmente, por força do progresso, vislumbra-se o cenário no qual a prática da caridade em sua verdadeira acepção e o conhecimento da realidade promoverão o bem comum.

A expressão “os tempos são chegados” destaca que os homens e, consequentemente, as sociedades nas quais participam, estão em dinâmico aprimoramento moral e intelectual, devendo atrair e serem atraídos para os contextos necessários à autorrealização. Por uma questão de afinidade e harmonia natural, os Espíritos conviverão entre si e habitarão os planetas mais condizentes com o próprio nível evolutivo. Entre uma e outra categoria de mundos habitados, há inúmeras gradações. Assim, mais importante que a classificação moral que um orbe pode ter, é saber que o tempo já chegou para cada indivíduo demonstrar o esforço individual para construir o verdadeiro Reino de Deus dentro de si mesmo, seja na Terra ou em mundos que nem suspeitamos existir.

  

Fonte: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2022/05/de189.pdf



[1] Ver Rushby, A. J. et al. (2013). Habitable Zone Lifetimes of Exoplanets around Main Sequence Stars. Astrobiology. V. 13, N. 9. Disponível em https://www.liebertpub.com/doi/abs/10.1089/ast.2012.0938?journalCode=ast

[2] Ver Kardec, A. (2021) A gênese. Cap. 18, item 4. Tradução da 4ª edição francesa. São Paulo: USE.

[3] Ver Kardec, A. (2003). O evangelho segundo o Espiritismo. Cap. 3, item 4. São Paulo: LAKE.

A base doutrinária da USE


 

A base doutrinária da USE

Marco Milani

 

(Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, mai/jun 2022 - ed. 189, p. 13-16)

             Na conclusão de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec destaca que a força do Espiritismo está na sua filosofia e não nos fenômenos mediúnicos que sempre ocorreram na humanidade. Ao se dirigir à razão e ao bom senso, a Doutrina Espírita não possui nada de místico nem alegorias suscetíveis de falsas interpretações, cabendo ao adepto a análise crítica do conteúdo revelado e a respectiva aplicação em sua vida.

            A fé raciocinada, além de ser um dos pilares espíritas, expressa uma mudança de paradigma sobre o conhecimento de Deus, de suas criaturas e das leis naturais, rompendo com a crença cega sobre a origem e o destino do homem.

            O Espiritismo adentrou na vida de milhões de brasileiros, adeptos ou não, por meio da divulgação de livros e produções artísticas com a temática espírita. Nessa perspectiva, é esperado que os estudiosos das obras de Allan Kardec e, ainda, leitores de obras de autores secundários, formem uma ideia mais ou menos justa, conforme o entendimento individual, da realidade espiritual e das relações naturais que regem todos os seres.

            Se, por um lado, Kardec é a referência espírita primária a ser considerada no mundo, por outro, não se pode deixar de reconhecer a influência de autores como Leon Denis, Gabriel Delanne, José Herculano Pires, Deolindo Amorim, Julio Abreu Filho e Carlos Imbassahy, dentre muitos outros, na divulgação doutrinária no Brasil. Ressalta-se o impacto gerado pela vasta produção mediúnica de Francisco Cândido Xavier e de Divaldo Pereira Franco, ambos responsáveis pela venda de centenas de títulos em vários países.

            Metodologicamente, entretanto, as obras fundamentais de Allan Kardec diferenciam-se de todas as demais, pelo fato de lastrearem-se na universalidade do ensino dos Espíritos, ou seja, representam a convergência das ideias obtidas em várias fontes independentes e não se tratam de opiniões ou perspectivas de fonte única. Nas obras de Kardec edificou-se o corpo teórico válido do Espiritismo e desenvolveu-se a sua aplicação.

            Desde a sua fundação, em 1947, a União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE) possui o compromisso estatutário de unificação das instituições com a difusão do Espiritismo baseado nas obras kardequianas. Como entidade federativa, a condição necessária para que o centro espírita integre seu quadro de entidades unidas é, justamente, que suas atividades pautem-se pela Doutrina Espírita, apresentada por Allan Kardec.

            Em consulta às atas das reuniões do Conselho Deliberativo disponibilizadas no acervo digital da USE[1], a preocupação com o alinhamento doutrinário e o combate às infiltrações de conceitos e práticas estranhas foram registrados consistentemente nas falas de inúmeros colaboradores nos últimos setenta anos. Conselheiros como Herculano Pires e Ary Lex, por exemplo, são reconhecidos pelas valiosas contribuições nesse sentido.

            Outro exemplo de valorização da base doutrinária do Espiritismo foi a Campanha Comece pelo Começo[2], lançada pela USE em 1972 e posteriormente abraçada pelo Conselho Federativo Nacional. Seu propósito principal, diante do grande interesse pelo Espiritismo fomentado pela participação de Francisco Cândico Xavier no programa Pinga-Fogo da TV Tupi, foi o de oferecer ao público o roteiro seguro para se conhecer a doutrina pelas obras fundamentais de Allan Kardec. Em momento algum essa campanha objetivou desmerecer a produção de outros autores, ainda que de fontes únicas.

            A farta literatura sobre a temática, por autores encarnados ou desencarnados, oferece interessante oportunidade para a discussão dos princípios e valores espíritas, além de contribuir para a própria divulgação do Espiritismo, mantendo-se a prudência de se analisar criticamente a coerência doutrinária de seu respectivo conteúdo.

            O esquema lógico utilizado atualmente pelo Departamento de Doutrina para favorecer a análise do alinhamento doutrinário de conceitos ou práticas é o seguinte:

 

                 Fonte: Elaborado pelo autor

            Em síntese, analisa-se se o conteúdo está em concordância com os princípios e valores doutrinários contidos nas obras fundamentais de Allan Kardec ou se apresenta outro embasamento. Caso trate-se de conceito ou informação que contrarie ou não possua respaldo doutrinário, como uma “nova revelação”, verifica-se se isso possui evidência objetiva amparada por observação científica ou critério metodológico (como a universalidade, por exemplo). Se esse conteúdo referir-se a fonte única ou que não possa ser comprovado, segue-se a recomendação de prudência e não é considerado um ensino ou prática doutrinária, aguardando que evidências surjam para novamente ser analisado.

            Certamente, o dinamismo esperado pelo avanço do conhecimento gera ansiedade em muitos adeptos que tendem a abraçar novidades e informações de fonte única com alguma facilidade, enquanto outros mostram-se mais ponderados. Nesse sentido, incentiva-se o diálogo fraterno objetivando o esclarecimento doutrinário sobre os pontos que possam contar com interpretações pessoais variadas.

Reunindo, atualmente, cerca de 1.300 centros espíritas distribuídos pelo estado de São Paulo, o estímulo ao estudo aprofundado do Espiritismo e sua aplicação prática nas atividades das diferentes instituições com as respectivas consequências morais aos indivíduos são compromissos useanos.

Análise racional e prudência, portanto, marcam a postura doutrinária da USE, desde sua fundação.

 

 Fonte: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2022/05/de189.pdf

 


[1] https://usesp.org.br/a-usesp/memoria/

[2] Revista Dirigente Espírita, ed. 187, p. 8. https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2022/01/DE187-C.pdf

domingo, 24 de abril de 2022

A polêmica da alimentação animal e sua relação com a evolução espiritual

 


A POLÊMICA DA ALIMENTAÇÃO ANIMAL

E SUA RELAÇÃO COM A EVOLUÇÃO ESPIRITUAL

 

Fernando de Oliveira Porto

Departamento de Doutrina - USE SP


(Texto publicado na Revista Dirigente Espírita - ed. 186 - nov/dez 2021 - p.40 a 42)


O consumo da alimentação animal é um assunto bastante em voga hoje em dia e abrange diversos aspectos, não somente relacionados à saúde humana, como também sobre sustentabilidade e mesmo aspectos éticos envolvidos. Para cada um desses temas, no entanto, observa-se divergência entre os especialistas sobre o impacto na saúde do ser humano e no equilíbrio da natureza.

Não nos compete analisar as questões relacionadas à nutrição propriamente dita, afeita aos especialistas no tema. O que motiva a nossa discussão é a defesa, por parte de determinados grupos de espíritas, da introdução da necessidade da abstenção da alimentação da proteína animal para o progresso do Espírito, como um princípio do Espiritismo.

Em geral, essa defesa se baseia no posicionamento de alguns Espíritos no cenário do Movimento Espírita Brasileiro, ao tecerem severas críticas ao consumo da carne, atribuindo consequências deletérias ao Espírito após o desencarne, além de ressaltarem como um ato de crueldade do ser humano a exploração dos animais.

Por maior respeitabilidade que esses irmãos espirituais mereçam da nossa parte, considera-se, para efeito da diretriz estabelecida pela coerência doutrinária, privilegiar-se os ensinamentos exarados na Codificação Espírita. Nestas obras, Allan Kardec adotou o controle universal do ensino dos Espíritos, evitando-se as opiniões isoladas e sistemáticas.

Em O Livro dos Espíritos, nas perguntas 722 a 724, foi abordada a questão da alimentação de maneira bastante lógica e equilibrada. Os Espíritos afirmam que todo o alimento que não prejudique a saúde do ser humano é permitido para o consumo. Acrescentam, ainda, que em face das leis de conservação e do trabalho, faz-se imprescindível alimentar-se bem, em benefício da saúde e da energia, pois a “carne alimenta a carne”, de acordo com a nossa constituição física. Somente em um caso, esclarecem eles, a abstenção do alimento, seja ele de qualquer natureza, é meritória: quando em benefício dos outros, isto é, “quando há privação séria e útil”.

Os Espíritos classificam de hipocrisia a privação apenas aparente de qualquer coisa, como uma espécie de sinalização de virtude, aliás algo muito comum em nossos dias. Vive-se de aparências e intolerância perante estilos de vida diferentes dos nossos. É por isso que o egoísmo e o orgulho são os grandes males a serem combatidos.

Os amigos espirituais vão mais além. Em O Céu e o Inferno, no item intitulado Cuidar do Corpo e do Espíritos, ao esclarecerem a necessidade dos cuidados com o envoltório material, em razão de sua influência sobre a alma, afirmam que o corpo precisa “estar são, disposto, forte”, a fim de que a alma “viva, divirta-se e chegue mesmo a conceber as ilusões da liberdade”.

Mas, alegam os críticos, e quanto à afirmação de Bernard Palissy, na Revista Espírita de abril de 1858, de que os habitantes de Júpiter se alimentam exclusivamente de fonte vegetal, pois “o homem é o protetor dos animais”? Não seria um indicativo de uma imposição de mudança de hábitos de nossa parte?

A primeira objeção é a de que uma afirmação isolada de um Espírito não serve de critério infalível para o estabelecimento de uma regra de conduta. Em segundo lugar, a Revista Espírita foi um laboratório no qual as teorias e conceitos doutrinários foram gradativamente forjados e não um repositório de verdades prontas.

Mas, o mais relevante argumento é a assertiva de que a alimentação dos habitantes de Júpiter é composta de frutos e plantas, em razão da organização etérea de seus corpos e, portanto, nossos alimentos são pesados para eles. Muito interessante, porém, a observação de que a alimentação deles “não seria suficientemente substancial para os nossos estômagos grosseiros”. 

A sensualidade, o apego às coisas materiais e o desregramento das paixões estão entre os fatores capazes de prejudicarem o nosso progresso espiritual, aproximando-nos da nossa natureza animal, conforme os ditames da matéria. Mas não são as paixões más em si mesmas, e sim o seu excesso o problema. A moderação, a temperança e o equilíbrio aplicados às nossas condutas, inclusive na conservação da vida, são os preceitos recomendados em consonância com o Espiritismo.

O Espiritismo é a doutrina do livre exame e da livre consciência e não pode ser encarado nos mesmos moldes das religiões dogmáticas existentes, nas quais a posição de sacerdotes, pastores e instituições, em razão da solidez de suas tradições, tem força de autoridade sobre os fiéis e seguidores.

Se o espírita considera modificar hábitos alimentares para benefício de sua saúde, com a devida orientação médica, por considerar relevante para o seu bem-estar, físico, psíquico e espiritual, é plenamente livre para fazê-lo. Mas que tenha consciência que esse fator, em absoluto, representa por si mesmo garantia de elevação espiritual perante os seus semelhantes.

Lembremos de Jesus que, em Mateus 11:18-19, ironiza seus adversários, ao acusarem-no de endemoninhado por comer e beber na presença de publicanos e “pecadores”, assim como criticavam João Batista, não obstante não comesse e nem bebesse com eles. O mestre, aliás, se sai com um epíteto curioso: “a sabedoria é justificada pelas suas obras”.

Na intencionalidade da consciência, no sentimento bom ou mau que nos guia, mais do que as ações exteriores, situa-se o valor de nosso procedimento, pois, conforme o próprio Cristo ponderou sobre a questão do alimento, não é o que entra pela boca do homem que o contamina, mas o que procede do seu coração (Mateus 15:17-18).

 

Bibliografia

BÍBLIA. O Novo Testamento. Trad. Haroldo Dutra Dias. Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Brasília: FEB, 2016.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Brasília: FEB, 2016.

KARDEC, Allan. Revista Espírita. Vol. I (1858). Trad. Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2004.


Fonte: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2021/11/DE186.pdf





segunda-feira, 18 de abril de 2022

Spam espírita

 

Spam espírita

 

Marco Milani

 

(Texto publicado no jornal Correio Fraterno - Ed. 504• Março-Abril 2022, p. 11)

 

A utilização de ferramentas de comunicação à distância ganhou um enorme impulso com as restrições de deslocamento provocadas pela pandemia da Covid-19 e, desde então, alterou os hábitos de milhões de pessoas que antes necessitavam visitar um centro espírita para participar de atividades tipicamente presenciais, como palestras, entrevistas, estudos e outras ações com temáticas doutrinárias. Ao serem oferecidos à distância, ampliou-se o público usuário desses serviços, sinalizando uma ótima oportunidade para a apresentação e compreensão dos princípios e valores espíritas.

Diante dos novos canais de interação, a própria divulgação dos eventos espíritas redimensionou-se, ganhando espaço no ambiente virtual das redes sociais. Diversas instituições investiram na constituição e desenvolvimento de páginas eletrônicas e grupos virtuais para atender esse tipo de demanda.

Diferentemente de propagandas e anúncios não solicitados que invadem caixas postais eletrônicas, conhecidos como “spams”, o compartilhamento da maioria dos cartazes de atividades com temática espírita é sempre bem-vindo nas redes sociais direcionadas aos adeptos e simpatizantes. Afinal, acaba sendo uma prestação de serviço, já que eventos espíritas tendem a oferecer momentos de nobres reflexões e práticas edificantes, sendo iniciativas que devem ser divulgadas.

Um interessante fenômeno também passou a ocorrer diante da farta produção de eventos à distância, os quais não se limitam mais aos tradicionais frequentadores dos salões e auditórios dos centros espíritas e respectivas regiões, mas voltam-se a quem se deparar com as respectivas peças de divulgação nas redes sociais. Como ocorrem vários eventos no mesmo dia e horário, os participantes dos grupos virtuais podem escolher qual deles assistir, ao vivo ou gravado.

Dirigentes e divulgadores espíritas sensatos sabem que essa concorrência é esperada e perfeitamente normal em um ambiente com várias possibilidades de interação à distância, além de que cada evento tende a atrair um público com perfil específico conforme as características do conteúdo e as condições de participação para cada um deles.

Compreensível a preocupação em tornar a arte de cartazes e outras peças de divulgação mais técnicas e profissionalizadas, favorecendo a comunicação. Certamente, um material bem elaborado reúne mais condições de atingir o seu objetivo informacional, mas não quer dizer que cartazes mais rudimentares não cumpram o seu papel.

Entretanto, alguns divulgadores, ao encararem a existência de eventos concorrentes como uma competição de mercado, não limitam-se a aperfeiçoar a arte de cartazes e a utilizar mais canais para a devida comunicação eletrônica. Creem que a quantidade de inserções do material de divulgação, ainda que seja no mesmo canal ou grupo de rede social, seja um diferencial para obter vantagem competitiva. Ao fazerem isso, correm o evidente risco de saturarem o usuário dessas redes sociais e gerarem o efeito inverso, criando resistência ao divulgador.

Há casos de indivíduos, bastante motivados para a obtenção de visibilidade, publicarem diariamente eventos semelhantes ou iguais, consumindo inadvertidamente o precioso tempo e contando com a serenidade dos participantes desse canal de comunicação.

Logicamente, o ambiente virtual pode (e deve) possuir regras e diretrizes de publicações que evitariam tal abuso, mas isso é de responsabilidade dos administradores das páginas e grupos.

A divulgação de eventos espíritas em canais apropriados é uma prática útil e necessária, até caridosa, mas a motivação competitiva para tal prática, lastreada na intenção de sensibilizar a maior quantidade possível de pessoas pela cansativa republicação sem que os usuários assim tenham solicitado e sem se atentar ao tempo alheio consumido, pode se afastar da caridade e do bom senso, além de se aproximar de uma prática de “spam”.

 

Fonte: https://correio.news/jornal-espirita-correio-fraterno-edicoes/jornal-correio-fraterno-edicao-504

 

 


sexta-feira, 8 de abril de 2022

Movimento espírita: para onde caminhamos?


 Movimento espírita: para onde caminhamos?

 

Marco Milani


(Texto publicado na revista A Senda, mar/abr 2022, p. 12 a 14)


               Nas diferentes áreas do conhecimento, quando se pretende traçar linhas de tendência, com maior ou menor subjetividade, busca-se vislumbrar panoramas futuros e adentra-se no escorregadio campo previsional.

               Allan Kardec e diversos Espíritos costumavam apontar cenários otimistas com relação à propagação e aceitação do Espiritismo pela humanidade, embasados na certeza de que o progresso naturalmente favoreceria a compreensão racional das ideias espíritas.

               Da mesma maneira que os discípulos de Jesus supuseram que ele retornaria rapidamente após a sua morte, muitos adeptos interpretam as palavras dos próprios Espíritos sobre a chegada do período de regeneração e sobre a plena aceitação das ideias espíritas como um momento de rápida realização.

               Os fatos demonstram, portanto, um claro distanciamento temporal entre as expectativas de encarnados e desencarnados sobre os eventos futuros.

               Se, por um lado, o progresso intelectual e moral dos homens sinaliza para a compreensão da realidade espiritual e para a construção de uma sociedade mais caridosa, justa e fraterna, por outro deve-se ponderar que as transformações vindouras decorrerão do ritmo evolutivo dos indivíduos no processo reencarnatório. Alguns séculos ou milênios, conforme o relato dos próprios Espíritos, assemelham-se a um piscar de olhos na imortalidade, ou seja, a percepção do tempo é relativa.

               Dentre os fatores relevantes para a consolidação e generalização das ideias espíritas, Kardec apontou a necessidade de se manter a unidade doutrinária como ponto central para a união dos adeptos.

Torna-se necessário distinguir, para efeito de análise e considerações sobre os rumos futuros, os termos Espiritismo e movimento espírita.

Enquanto o corpo teórico do Espiritismo apresenta-se estruturado e com sólida consistência interna em suas obras fundamentais, o movimento espírita, formado por pessoas e instituições, mostra-se heterogêneo em determinados aspectos, caracterizado por diferentes graus de maturidade doutrinária.

Para Kardec, a clareza e a objetividade dos princípios doutrinários, aliadas às ideias práticas que se afastam de propostas utópicas e inviáveis, deveriam ser suficientes para evitar ambiguidades e problemas de compreensão sob a luz da razão, colaborando para a consolidação e propagação do Espiritismo como algo natural e esperado em um mundo em evolução.

As divergências interpretativas, entretanto, além de motivações egoístas e orgulhosas, podem provocar cismas no seio do movimento espírita. Essa fragmentação foi alertada por Kardec, ao afirmar que tentativas cismáticas seriam promovidas por ambiciosos e vaidosos que gostariam de obter destaque ligando o próprio nome a uma inovação qualquer, ávidos por se diferenciarem e dizer que são livres e não pensam nem fazem como a maioria.[1]

Nas décadas imediatamente seguintes à desencarnação de Kardec, o movimento espírita francês fragilizou-se por diferentes fatores, dentre eles a inserção de elementos místicos e fantasiosos que deturparam a compreensão doutrinária, promoveram rupturas entre instituições e adeptos e, ainda, prejudicaram a propagação do Espiritismo. Exemplificando essa infiltração, Pierre-Gaetan Leymarie, então responsável pela continuidade das edições da Revista Espírita, permitiu a publicação de textos teosofistas, orientalistas e roustanguistas nesse periódico, fazendo com que os princípios e valores espíritas fossem apresentados ao lado de propostas mirabolantes e antidoutrinárias.

A infiltração de teorias e práticas estranhas ao Espiritismo em veículos de divulgação e nas reuniões de grupos supostamente espíritas impactou o ritmo de propagação doutrinária previsto por Kardec. Não causa surpresa o fato de algumas dessas deturpações, como o roustainguismo, terem desembarcado no Brasil, ainda no final do século 19 e influenciado os estudos e práticas de alguns grupos espíritas nascentes. Ainda do século 21, sentem-se os reflexos dos conceitos místicos em determinados grupos e instituições brasileiras.

A organização do movimento espírita brasileiro (MEB), por meio de entidades representativas com diferentes complexidades e peculiaridades, certamente foi relevante para fomentar a criação e orientação de milhares de centros espíritas registrados atualmente, objetivando-se respeitar a autonomia de cada grupo e a cultura local, sem o estabelecimento de vínculos de subordinação e de dependência administrativa e financeira.

               Os recentes avanços tecnológicos na área de comunicação, contribuindo para uma notável expansão da atividade de divulgação e promovendo a interação de adeptos e simpatizantes sobre as temáticas doutrinárias podem ser considerados um novo marco no desenvolvimento do MEB, fortalecendo a proposta kardequiana de disseminação do conhecimento espírita sem a intenção de se fazer proselitismo.

               Essencial na leitura de qualquer comunicação mediúnica, a análise do conteúdo sob o crivo da razão deve guiar a reflexão sobre a qualidade das informações que transitam no mundo digital. Ao mesmo tempo em que se verificam informações corretas e adequadas sobre o ensino dos Espíritos, também circulam informações pseudoespíritas, as quais iludem e confundem aqueles menos familiarizados com os princípios e valores doutrinários. As obras de Kardec, como destacou o saudoso escritor Herculano Pires, servem de pedra de toque para se separar o joio do trigo.

               A plena compreensão doutrinária, que efetivamente deve unir os adeptos, só é alcançada pela valorização da fé raciocinada e o reconhecimento da superioridade do método do controle universal adotado por Kardec para a composição das obras fundamentais do Espiritismo.

O público leigo e os neófitos facilmente confundem informações ditas mediúnicas como se fossem verdades espíritas, desconhecendo que desencarnados apenas manifestam opiniões e essas estão bem distantes da legitimidade inerente ao conjunto de informações, ainda que mediúnicas, submetidas ao método do Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE) aplicado por Allan Kardec. Assim, é por uma questão científica metodológica e pelo exercício da fé raciocinada que não se pode aceitar como novos ensinos e substituir ou desejar “atualizar” os pressupostos doutrinários explicitados nas obras fundamentais.

Um equívoco comum, fruto do desconhecimento do método do CUEE e do amadorismo em pesquisa científica, é validar uma informação mediúnica baseando-se na idoneidade moral do médium, pois tal suposição de filtragem qualitativa contraria o que os próprios Espíritos reafirmaram inúmeras vezes sobre a inexistência de médiuns infalíveis. Além disso, o bom médium apenas intermedia a comunicação, sem imiscuir-se animicamente na mensagem. Uma comunicação com teor falso e irreal pode ser obtida por médiuns moralmente bons, pois a autoria do conteúdo é do emissor desencarnado e não do intermediário.

Esse cuidado analítico deve nortear qualquer informação, não somente aquelas aparentemente mediúnicas. O critério para se examinar as mensagens que circulam pelos meios digitais é, dessa maneira, o mesmo que pautava o zelo exercido por Kardec nas comunicações da época.

Ao se refletir sobre os caminhos do movimento espírita, a interação entre os adeptos, grupos e instituições espíritas espalhados pelo mundo passa a assumir papel de destaque para o fortalecimento do conhecimento doutrinário e busca da unidade prevista por Kardec.

Os modelos de funcionamento dos centros espíritas, tanto no Brasil como no exterior, estão sendo aprimorados diante do momento pandêmico que exige adaptações inteligentes e doutrinariamente coerentes das atividades desenvolvidas. O arquétipo de casa espírita, formatado há mais de um século, exige aperfeiçoamentos para combater a cristalização improdutiva de hábitos e costumes que não priorizam a prática legítima e o estudo contínuo e aprofundado da teoria espírita apresentada por Allan Kardec.

O Espiritismo não tem nacionalidade nem pertence a alguma entidade federativa, logo não se restringe a fronteiras geográficas e muito menos às tentativas de hierarquização e subordinação institucionais. O cenário projetado para o movimento espírita mundial considera os reflexos da maior diversidade cultural entre os povos na interpretação, que é clara e objetiva, do conjunto de princípios e valores espíritas.

A história já ensinou sobre a nocividade das infiltrações místicas, supersticiosas e conceitualmente deturpadas que corrompem o movimento espírita imprevidente.  O sincretismo, presente em países com forte cultura religiosa, é um desafio a ser vencido.

A caridade mal compreendida faz com que a omissão prevaleça perante oportunidades de esclarecimento e auxílio. Diante de alguma impropriedade conceitual ou prática incoerente com os princípios espíritas, pondera-se sobre a melhor maneira de se esclarecer e superar eventuais problemas gerados pela situação.  O silêncio não deve ser usado caso outras pessoas possam ser prejudicadas por informações que gerem confusão ou posturas inadequadas, sob o risco da tolerância se converter em conivência. Ao se reproduzir ou disseminar informações fantasiosas que se passam por espíritas, falta-se com a caridade pois prejudica-se o entendimento do Espiritismo.

Outra infiltração perniciosa no MEB é a militância político-ideológica que desarmoniza o ambiente e gera cismas. Conforme sabiamente explicitou Kardec[2], “Não vos deixeis cair nessa armadilha; afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quando se refere à política e a questões irritantes”. Como cidadãos, os espíritas possuem a liberdade de consciência e podem abraçar a corrente ideológica que acharem a mais adequada. O fato de não levarem suas preferências políticas para serem discutidas no centro espírita não justifica, em hipótese alguma, que sejam rotulados de alienados, ao contrário, demonstra maturidade, sensatez e respeito pela organização que colaboram e por seus companheiros de trabalho.

A unidade doutrinária é aquela que fará com que cada vez mais pessoas sejam esclarecidas sobre a natureza, origem e destino dos Espíritos e suas relações com o mundo corporal. Ao prezarmos pela divulgação séria e responsável do Espiritismo, contribuímos diretamente para que a transformação moral da humanidade não seja adiada, mas realizada o quanto antes, mesmo que o tempo seja relativo.



[1] Kardec, A. Revista Espírita - dez/1868 – Constituição transitória do Espiritismo – Dos cismas.

[2] Kardec. A. Revista Espírita, fev/1862, Resposta dirigida aos espíritas lioneses por ocasião do Ano-Novo


Fonte: https://www.feees.org.br/revista-senda/a-senda-marco-abril-2022/