terça-feira, 28 de maio de 2019

Comentários sobre as alterações da 5ª edição de A Gênese – Cap. II


Comentários sobre as alterações da 5ª edição de A Gênese – Cap. II

Marco Milani


     Considerando-se que A Gênese é o livro mais maduro de toda a Codificação, pois foi lançado quase onze anos depois de O Livro dos Espíritos e após o desenvolvimento dos ensinamentos doutrinários apresentados nas obras anteriores, compreende-se o porquê de Kardec ter afirmado na introdução deste livro que ele representava um passo à frente nas consequências e aplicações do Espiritismo.
     Nesse sentido, é de fundamental relevância a todos os adeptos e demais interessados em conhecer o corpo teórico espírita que A Gênese seja estudada meticulosamente. Uma vez que há sérias dúvidas sobre a autoria das alterações no texto encontradas a partir da 5ª edição, publicada em 1872, três anos após a desencarnação de Allan Kardec, faz-se mister compará-la com o conteúdo original.
     Assim como nos números anteriores, o Departamento de Doutrina da USE-SP vem publicando regularmente, no boletim Dirigente Espírita, comentários comparativos dos capítulos em análise, atendendo às expectativas de parcela significativa do movimento espírita sobre o assunto.
     Já foram comentadas as alterações sofridas nos capítulos I, XIV, XV e XVIII.
Desta vez, comenta-se sobre o capítulo II, cujo título é “Deus” e subdivide-se em quatro partes, a saber: a) Existência de Deus; b) A natureza divina; c) A Providência e; d) A visão de Deus.
     Dos 37 itens existentes nesse capítulo, em 17 deles apontam-se modificações no texto da 5ª edição. Além de alguns reordenamentos, contam-se 12 exclusões e 2 acréscimos de trechos ou parágrafos.
     No capítulo II da 5ª edição, basicamente, foram cortados diversos exemplos apresentados por Kardec na edição original que favoreceriam a compreensão do leitor sobre os postulados tratados. A seguir, destacam-se algumas passagens.
     Logo no item 1, da 1ª edição, ao apontar-se Deus como a causa primária de todas as coisas, afirma-se ser “um princípio elementar que se julgue a causa pelos seus efeitos, mesmo que não seja possível vê-la” e, imediatamente, Kardec exemplifica de maneira simples e objetiva esse argumento, ao discorrer sobre a presença de planetas em determinadas regiões do espaço, mesmo que os mesmos não possam ser observados diretamente, baseando-se somente no conhecimento das leis astronômicas. Esse exemplo foi eliminado na 5ª edição.
     Nos itens 2 a 7, igualmente, mantém-se o argumento sobre a existência de Deus mesmo sem sua observação direta, mas mais uma vez reduzindo-se os parágrafos ao eliminar exemplos simples que poderiam oferecer aos leitores com diferentes formações elementos mais familiares para a compreensão do sentido filosófico do conteúdo.
     Alguns, talvez, considerem essas eliminações bem-vindas para se evitar uma suposta prolixidade, porém, quanto mais enxuto e sem exemplos é o texto, maior o risco da mensagem não ser assimilada plenamente por todos.
     Outros itens que merecem destaque são os de número 22 e 23, os quais discutem as propriedades e efeitos do fluido universal e a atuação dos Espíritos.
     No item 22, foi eliminado um parágrafo robusto, no qual se esclarece sobre o mecanismo fluídico pelo qual os Espíritos agem em todos os lugares, ressaltando-se o fluido como o veículo do pensamento, das sensações e percepções espirituais.
     No item 23 excluiu-se um parágrafo em que se indica os limites de atuação dos Espíritos, inclusive para aqueles mais elevados, e a respectiva distância comparativa infinita que possuem de Deus.
     Ainda que essas alterações não tenham provocado a inversão de sentido ou outras distorções doutrinárias graves, como aquelas encontradas em outros capítulos, certamente o texto apresenta-se fragilizado em diferentes trechos ou poderia ser mais explícito, tal qual apresentado na edição original.
     Não é objetivo destes comentários aprofundar o fato da total inexistência de evidências de que Kardec teria sido o autor dessas modificações da 5ª edição, situação essa que gera fortes suspeitas de adulteração do texto.

* Diretor do Departamento de Doutrina da USE-SP

Fonte: Dirigente Espírita, n.170, mai/jun 2019, p.5

domingo, 14 de abril de 2019

Theoretical coherence whithin Spiritism - Interview with Marco Milani


O Consolador - Y 13, n.614 – Apr 14, 2019
Interview with Marco Milani
by Orson Peter Carrara


To be coherent has become a conscious duty

The thought above is from our fellow Spiritist and today’s guest, Marco Antonio Figueiredo Milani Filho, better known as Marco Milani(photo).

Milani was born in the Brazilian city of São Paulo and lives not far away, in Holambra. He became a Spiritist in 1988. He is an economist, university professor and an active member of the Union of Spiritist Societies of the State of São Paulo.

In this interview, he focuses on the issue of coherence within Spiritism.

What is your assessment of the expression “theoretical coherence” within the context of Spiritism?

The word coherence comes from Latin and means connection or cohesion. In its wider sense, it bears the idea of uniformity and reason within a group of ideas. Someone who is coherent is able to express his or her thoughts in a logical manner, enabling others to understand clearly and without contradictions that person’s speech or attitudes. So, people who follow any school of thought should express with consistency the principles and values of the system they have embraced. The same applies to Spiritism. A Spiritist understands, respects and puts into practice through his or her examples the Teachings of the Spirits as in the works of Allan Kardec.

When are we able to be truly coherent with the principles of Spiritism?

We cannot obviously expect the same level of maturity, understanding, and experience regarding the principles of Spiritism from all followers. But coherence is present when someone who follows Spiritism puts into practice its principles according to his or her levels of understanding. From those who take on leadership and management responsibilities in the Spiritist Movement, however, it is expected at least the capacity to guide and direct those who attend the events and meetings with a reasonable degree of assertiveness and theoretical knowledge.

Please give us some examples of behavior or practices that are not coherent with the true principles of Spiritism.

All ideas or practices that clash with the Teachings of Spiritism, which have been tested against the principles of universality and have been described by Allan Kardec, can be considered to be incoherent. Among them are chromotherapy, apometry, rituals within Spiritist Centres, the idolatry of mediums and speakers, dismissing science as a crucial element in the progress of Spiritist knowledge and a church-like posture that encourages blind faith. These are some of many examples.

What is the fundamental aspect of theoretical coherence within Spiritism?

We must study the works of Allan Kardec constantly so we can put them into practice very quickly. That does not in any way mean freezing the development of the theory within Spiritism. It is, instead, an essential requirement to understand the theoretical body of Spiritism and validate any thoughts or considerations about its basic principles. As the Spirit of Truth told us in his message that is in Chapter 6 of The Gospel According to Spiritism, we must consider carefully all the things that are put before us in order to avoid mixing up utopias and fantasies with the truth. We can read anything, but we must have the theoretical background to compare it with the Teachings in the works of Kardec.

As Spiritist citizens, who study the works and take part in Spiritist activities, what guidelines should we use in order to remain coherent with the Teachings?

We must be committed with serious and consistent studying of the principles and values of Spiritism, putting those ideas into practice in family, with friends, at work and in every social interaction we have.

Is there a specific item in the principles of Spiritism that can guide our studies?

Yes, reasoned faith. We have spent many incarnations subjugated by doctrines and philosophies that imposed their principles on us. They were aimed at shaping individuals and ended up violating their consciences. Spiritism is an emancipating doctrine, which comes from a time when humankind was already mature enough to break with those coercive habits and costumes of the past. It has freed individuals from the shackles of ignorance about the world they live in. When people take on full responsibility for their destiny, the consequences of their acts will be in accordance with this new situation. To be coherent has become a conscious duty.

Is there anything else you would like to add?

Modern technologies enable intense social interactions on social media, facilitating the dissemination of Spiritist information. The stronger the background and the theoretical knowledge we have, the easier it will be to remain coherent in our messages in those new virtual media. The easier will be to have a positive impact and the more difficult it will be to make mistakes and express wrong ideas and thoughts. Let’s be coherent! To be coherent does not mean you are not allowed to disagree with the Spirits or question what they say. Theoretical coherence in Spiritism is, essentially, a commitment with the truth based on reason and facts.


Translation:
Leonardo Rocha - l.rocha1989@gmail.com



Coherencia Doctrinaria - Entrevista (en español)


Revista O Consolador - Ano 13 - N° 614 - 14 de Abril de 2019
Entrevista con Marco Milani
por Orson Peter Carrara


Ser coherente pasó a ser un deber consciente

La frase de arriba pertenece a nuestro entrevistado de hoy, el cofrade Marco Antonio Figueiredo Milani Filho, mejor conocido como Marco Milani (foto).

Nacido en la capital paulista y actualmente residiendo en Holambra, en el interior del estado, Milani es espírita desde 1988. Economista y profesor universitario, está vinculado a la USE - Unión de Sociedades Espíritas del Estado de São Paulo, como Presidente de la USE Regional Campinas y director del Departamento de Doctrina de la USE estatal.

En esta entrevista, nos habla sobre el tema de la coherencia doctrinaria.

¿Cómo ubicar debidamente para el pensamiento espírita y su movimiento la expresión "coherencia doctrinaria"?

De origen latino, la palabra coherencia significa conexión o cohesión. En general, implica el nexo y uniformidad de un conjunto de ideas. Alguien que sea coherente se expresa de una manera lógica, capaz de permitir a sus interlocutores la comprensión clara y sin contradicciones sobre su discurso o sus actitudes. Por lo tanto, los adeptos a cualquier doctrina deben expresar, consistentemente, los principios y valores del sistema que abrazan. Esto ocurre en el Espiritismo. El espírita comprende, respeta y ejemplifica la Doctrina de los Espíritus, debidamente presentada en las obras de Allan Kardec.

¿Cuándo somos realmente coherentes con la Codificación Espírita?

Por supuesto, no se puede esperar que todos los adeptos tengan el mismo grado de madurez, comprensión y experiencia de los principios doctrinarios, pero la coherencia se caracteriza por la ejemplificación de los principios y valores espíritas en la vida de este adepto, según la su grado de comprensión. Sin embargo, entre los que asumen responsabilidades directivas en las instituciones espiritas, se espera que, mínimamente, puedan orientar y esclarecer a los asistentes y colaboradores con mayor seguridad y base conceptual.

Cite algunas incoherencias que choquen con el pensamiento espírita genuino.

Toda práctica o concepto que choque con las enseñanzas de los Espíritus, que pasaron por el tamiz de la universalidad y fueron presentados por Allan Kardec, pueden ser considerados incoherentes. Algunos ejemplos son: cromoterapia, apometría, ritualización de actividades en la casa espírita, idolatría de médiums y conferencistas, desprecio de la ciencia como un elemento necesario para el avance del conocimiento espírita y la postura de la iglesia que estimula la fe ciega, entre otros.

¿Dónde está el punto fundamental de la coherencia doctrinaria?

El estudio constante de las obras de Allan Kardec para adoptarlas como "piedra de toque”, como decía el recordado Herculano Pires. Esto, de ninguna manera, significa rigidez o impedimento al desarrollo del conocimiento, sino una condición esencial para conocer el cuerpo teórico del Espiritismo y legitimar cualquier reflexión sobre sus principios.

En la literatura espírita, específicamente, ¿cómo identificar este parámetro para que no nos dejemos engañar?

Sin consistencia de la base doctrinaria, se hace frágil el referente que posee el lector para poder separar la cizaña de la semilla buena. Así como nos orientó el Espíritu de Verdad en su mensaje que consta en el capítulo 6 del libro El Evangelio según el Espiritismo, debemos meditar sobre todas las cosas que nos son reveladas o presentadas con el fin de no mezclar las utopías o fantasías con las verdades. Podemos leer de todo, pero es necesario tener parámetros comparativos doctrinarios seguros que sólo el estudio de las obras de Kardec nos proporciona.

En la práctica rutinaria de las instituciones espíritas, ¿cuándo chocamos con esta coherencia?

Cuando los dirigentes y todos los espíritas sinceros se apartan del deber de repudiar y desautorizar abiertamente los abusos que puedan comprometer al Espiritismo. Tal como afirmó Kardec en la Revista Espíritade junio de 1865, hacer un pacto con estos abusos sería volverse cómplice y proporcionar armas a nuestros adversarios. Al asumir que está innovando o desarrollando las actividades de la casa espírita introduciendo nuevas prácticas o conceptos sin la debida base doctrinaria, el dirigente corre el riesgo de distorsionar y tergiversar las enseñanzas de los Espíritus y confundir y desorientar a los frecuentadores.

De sus estudios sobre este tema, ¿qué le llama más la atención?

Estudiar a Kardec exige disciplina y madurez. No se requiere tener títulos universitarios, basta tener buena voluntad y cualquiera puede hacerlo. Quien así procede, valora la oportunidad que tenemos en esta encarnación para mejorar nuestros conocimientos y adoptar referencias seguras para el progreso moral e intelectual del ser. La comodidad y el deslumbramiento de algunos adeptos al ignorar el estudio serio y perseverante de las obras fundamentales de Allan Kardec para abrazar ideas fantasiosas son desafíos a ser enfrentaos en el movimiento espirita, pero es parte de este mismo proceso de mejora, porque cada uno tiene su ritmo.

Como ciudadanos espíritas, estudiosos y frecuentadores espíritas, ¿qué parámetro debemos usar para ser coherentes con el Espiritismo?

Debemos tener el compromiso con el estudio serio y constante de los principios y valores doctrinarios, ejemplificándolos en las relaciones cotidianas en la familia, con los amigos, en el ambiente profesional y en el trato social en general.

En los fundamentos de la Doctrina Espírita, ¿hay algún ítem específico que pueda guiar nuestras observaciones y estudios en esa dirección?

Sí, la fe razonada. Pasamos muchas encarnaciones subyugados por doctrinas y filosofías impositivas, orientadas a formatear al individuo y que violentaban las conciencias. El Espiritismo es una doctrina emancipadora, que viene en el momento en que la humanidad ya tenía madurez para romper con esos hábitos y costumbres coercitivos y que libera al individuo de los grilletes de la ignorancia sobre la realidad en la que vive. Al asumir la responsabilidad de su destino, las consecuencias serán proporcionales a esta nueva situación. Ser coherente pasó a ser un deber consciente.

¿Algo más que le gustaría añadir?

Hoy en día, la tecnología permite nuevas e intensas interacciones sociales en la red, favoreciendo la difusión más intensa de la información y el conocimiento. El contenido espirita y espiritualista, en general, es tratado de diferentes maneras en este proceso. Cuanto más presente esté el conocimiento doctrinario, más fácilmente podremos ser coherentes en nuestras comunicaciones en estos nuevos ambientes virtuales e influenciar positivamente en los que estén en contacto. Igualmente, cuanto menos conozcamos a Kardec, mayores son las posibilidades de emitir opiniones incorrectas e infundadas sobre el tema, asumiendo la responsabilidad de las distorsiones que provocamos. ¡Seamos coherentes!

Sus palabras finales.

Ser coherente no significa que no sea posible cuestionar o estar en desacuerdo con los Espíritus, pero la Doctrina Espirita fue estructurada con una consistencia interna innegable y la universalidad de las enseñanzas de los Espíritus le confiere legitimidad metodológica, por lo tanto, no es suficiente abrazar ideas antagónicas sin evidencia ni validación por diferentes fuentes para sustituir a aquellas que ya existen en la Codificación y pensar que se está revolucionando la interpretación de la realidad. La coherencia doctrinaria es, principalmente, un compromiso con la verdad basada en la razón y en los hechos.

Traducción:
Ricardo Morante

rmorante3@yahoo.com


Coerência Doutrinária - Entrevista à revista O Consolador abr/19



Revista O Consolador - Ano 13 - N° 614 - 14 de Abril de 2019
Entrevista com Marco Milani
por Orson Peter Carrara

Ser coerente passou a ser um dever consciente”

A frase acima é de autoria de nosso entrevistado de hoje, o confrade Marco Antonio Figueiredo Milani Filho, mais conhecido como Marco Milani (foto).

Natural da capital paulista e atualmente residente em Holambra, no interior do estado, Milani é espírita desde 1988. Economista e professor universitário, vincula-se à USE - União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, como presidente da USE Regional Campinas e diretor do Departamento de Doutrina da USE estadual.

Nesta entrevista, ele nos fala sobre o tema coerência doutrinária.

Como situar devidamente para o pensamento espírita e seu movimento a expressão "coerência doutrinária"?

De origem latina, a palavra coerência significa conexão ou coesão. De forma geral, implica nexo e uniformidade de um conjunto de ideias. Alguém que seja coerente expressa-se de maneira lógica, capaz de permitir aos seus interlocutores a compreensão clara e sem contradições sobre seu discurso ou atitudes. Assim, adeptos de qualquer doutrina deveriam expressar, consistentemente, os princípios e valores do sistema que abraçaram. Tal ocorre no Espiritismo. O espírita compreende, respeita e exemplifica a Doutrina dos Espíritos, devidamente apresentada nas obras de Allan Kardec.

Quando realmente somos coerentes para com a Codificação Espírita?

Naturalmente, não se pode esperar que todos os adeptos possuam o mesmo grau de maturidade, compreensão e vivência dos princípios doutrinários, mas a coerência se caracteriza pela exemplificação dos princípios e valores espíritas na vida desse adepto, conforme o seu grau de compreensão. Dentre aqueles que assumem responsabilidades diretivas nas instituições espíritas, entretanto, espera-se que, minimamente, consigam orientar e esclarecer os frequentadores e colaboradores com maior segurança e embasamento conceitual.

Cite algumas incoerências que colidem com o genuíno pensamento espírita.

Toda prática ou conceito que colida com os ensinamentos dos Espíritos, os quais passaram pelo crivo da universalidade e foram apresentados por Allan Kardec, podem ser considerados incoerentes. Alguns exemplos são: cromoterapia, apometria, ritualização de atividades na casa espírita, idolatria de médiuns e palestrantes, desconsideração da ciência como elemento necessário ao avanço do conhecimento espírita e postura igrejeira que estimula a fé cega, dentre outras.

Onde o ponto fundamental da coerência doutrinária?

O estudo constante das obras de Allan Kardec para adotá-las como a “pedra de toque”, tal qual dizia o saudoso Herculano Pires. Isso, de maneira alguma, significa engessamento ou impedimento ao desenvolvimento do conhecimento, mas condição essencial para se conhecer o corpo teórico do Espiritismo e legitimar qualquer reflexão sobre seus princípios.

Na literatura espírita, especificamente, como identificar esse parâmetro para não nos deixarmos enganar?

Sem consistência da base doutrinária, fragiliza-se o referencial que o leitor possui para poder separar o joio da boa semente. Assim como nos orientou o Espírito da Verdade em sua mensagem constante no capítulo 6 do livro O Evangelho segundo o Espiritismo, devemos meditar sobre todas as coisas que nos são reveladas ou apresentadas para não misturarmos as utopias ou fantasias com as verdades. Podemos ler de tudo, mas se faz necessário termos parâmetros comparativos doutrinários seguros que somente o estudo das obras de Kardec nos proporciona.

Na prática rotineira das instituições espíritas, quando colidimos com essa coerência?

Quando os dirigentes e todos os espíritas sinceros afastam-se do dever de repudiar e desautorizar abertamente os abusos que possam comprometer o Espiritismo. Assim como afirmou Kardec na Revista Espírita de junho de 1865, pactuar com esses abusos seria tornar-se cúmplice e fornecer armas aos nossos adversários. Ao supor que está inovando ou desenvolvendo as atividades da casa espírita pela introdução de novas práticas ou conceitos sem o devido embasamento doutrinário, o dirigente corre o risco de distorcer e desvirtuar os ensinamentos dos Espíritos e confundir e desorientar os frequentadores.

De seus estudos sobre essa temática, que mais lhe chama a atenção?

Estudar Kardec exige disciplina e maturidade. Não precisa possuir títulos universitários, basta ter boa vontade e qualquer um pode fazê-lo. Quem assim procede, valoriza a oportunidade que temos nesta encarnação para aprimorar nossos conhecimentos e adotarmos referências seguras para o avanço moral e intelectual do ser. O comodismo e o deslumbramento de alguns adeptos em ignorar o estudo sério e perseverante das obras fundamentais de Allan Kardec para abraçar ideias fantasiosas são desafios a serem enfrentados no movimento espírita, mas faz parte desse mesmo processo de aperfeiçoamento, pois cada um tem o seu ritmo.

Como cidadãos espíritas, estudiosos e frequentadores, que parâmetro devemos usar para estarmos coerentes com o Espiritismo?

Devemos ter o compromisso com o estudo sério e constante dos princípios e valores doutrinários, exemplificando-os nas relações cotidianas em família, com os amigos, no ambiente profissional e no trato social em geral.

Nos fundamentos da Doutrina Espírita há algum item específico que pode nortear nossas observações e estudos nessa direção?

Sim, a fé raciocinada. Passamos muitas encarnações subjugados por doutrinas e filosofias impositivas, orientadas à formatação do indivíduo e que violentavam consciências. O Espiritismo é uma doutrina emancipadora, advinda na época em que a humanidade já possuía maturidade para romper com esses hábitos e costumes coercitivos e que liberta o indivíduo dos grilhões da ignorância sobre a realidade em que vive. Ao assumir a responsabilidade por seu destino, as consequências serão proporcionais a essa nova situação. Ser coerente passou a ser um dever consciente.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Atualmente, a tecnologia permite novas e intensas interações sociais em rede, favorecendo a disseminação mais intensa de informações e conhecimentos. O conteúdo espírita e espiritualista, de forma geral, é tratado de diferentes maneiras nesse processo. Quanto mais o conhecimento doutrinário estiver presente, mais facilmente conseguiremos ser coerentes em nossas comunicações nesses novos ambientes virtuais e influenciar positivamente aqueles que estiverem em contato. Igualmente, quanto menos conhecermos Kardec, maiores as chances de emitirmos opiniões incorretas e infundadas sobre o assunto, assumindo a responsabilidade pelos desvirtuamentos que provocarmos. Vamos ser coerentes!

Suas palavras finais.

Ser coerente não significa que não se possa questionar ou discordar dos Espíritos, porém a Doutrina Espírita foi estruturada com inegável consistência interna e a universalidade dos ensinos dos Espíritos lhe confere legitimidade metodológica, portanto não basta alguém abraçar ideias antagônicas sem evidenciação e validação por diferentes fontes para se substituir aquelas já existentes na Codificação e achar que está revolucionando a interpretação da realidade. A coerência doutrinária é, primordialmente, um compromisso com a verdade baseada na razão e em fatos.

terça-feira, 2 de abril de 2019

terça-feira, 26 de março de 2019

Alterações ocorridas no Cap. 1 da 5ª ed. da obra "A Gênese"


A Gênese: Capítulo 1

Caracteres da revelação espírita

Marco Milani*

Nos boletins anteriores do Dirigente Espírita (nºs 167, 168 e 169), foram apontadas alterações significativas na 5ª edição da obra A Gênese, publicada 3 anos após a desencarnação de Allan Kardec e que fragilizaram o conteúdo doutrinário em seus respectivos capítulos 15, 18 e 14.
     
Desta vez, analisa-se as alterações ocorridas no capítulo 1 da 5ª edição, intitulado “Caracteres da revelação espírita”.
Nas quatro primeiras edições francesas de A Gênese, as quais são idênticas e podem ser atribuídas sem qualquer dúvida a Allan Kardec, o referido capítulo foi estruturado em 62 itens, sendo que os itens de 1 a 55 foram reproduzidos integralmente do texto de mesmo nome publicado na Revista Espírita de setembro de 1867. Os demais itens (56 a 62) foram acrescidos por Allan Kardec.
     
Na 5ª edição da obra, mantém-se a composição do primeiro capítulo em 62 itens, porém com modificações nos itens 14, 16, 25, 36 e 62. A seguir, são comentadas as principais alterações.
     
O item 14, em todas as edições, inicia-se com a afirmação de que “como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma maneira que as ciências positivas, isto é, aplica o método experimental”. Na 5ª edição, acrescentou-se no último parágrafo o seguinte trecho:

As ciências não fizeram progressos sérios senão depois que os seus estudos se basearam no método experimental; mas acreditava-se que esse método não poderia ser aplicado senão à matéria ao passo que o é igualmente às coisas metafísicas”. (GEN, 5ª ed, Cap. I, i.14)

O respectivo trecho acrescentado retoma o primeiro parágrafo do mesmo item 14 para destacar a relevância e aplicação do método experimental, porém é questionável a afirmação de que as ciências não fizeram progressos “sérios” antes do uso desse método. Certamente, a revolução científica iniciada no século XVII e onde tal método se desenvolveu gerou inegável desenvolvimento do conhecimento humano, porém afirmar que não houve progressos sérios antes disso é desconsiderar a relevância dos avanços ocorridos nas ciências antiga e medieval.

Ainda que doutrinariamente o parágrafo acrescentado no final do item 14 não comprometa o texto, a frase sobre a inexistência de “progressos sérios” antes da aplicação do método experimental é inapropriada.
No item 16 foi acrescida a afirmação de que “o estudo das leis da matéria tinha que preceder o da espiritualidade, porque a matéria é que primeiro fere os sentidos”. Doutrinariamente não há comprometimento do texto, porém é uma frase desnecessária, uma vez que o item já estava finalizado, na edição original, com a afirmação de que “se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas, teria sido uma obra abortada, como tudo o que surge antes do seu tempo”.
     
No item 25, para todas as edições, sinaliza-se que a doutrina do Cristo está fundada sobre o caráter que ele, Jesus, atribui à Divindade e explicita a relação de amor que o Homem deve ter com Deus. Na 5ª edição, neste item, acrescenta-se a afirmação de que não era possível amar o Deus de Moisés, uma vez que apenas se podia temê-lo. O conceito de amor pode sofrer algumas variações em seu sentido amplo ou específico, mas será que não se poderia amar a Deus, conforme já destacado no decálogo? Esse acréscimo é questionável, ainda que se tente compreender o desejo do autor de se contrastar o Deus apresentado por Jesus e aquele já apontado por Moisés. Quando Jesus resumiu os dez mandamentos, ele manteve a necessidade de se “amar a Deus” como já era amplamente conhecido.

A eliminação do último parágrafo do item 36, constante na edição original, não prejudicou o conteúdo doutrinário, apesar de reforçar o dever de se tratar a todos com bondade, benevolência e humanidade. Se, porventura, a modificação não foi feita ou autorizada pelo próprio Kardec, caracteriza-se o ato como adulteração, assim como todas as outras modificações.

O capítulo 1 encerra-se com o item 62 e, justamente, o último parágrafo que resume a finalidade da revelação espírita, mas o mesmo foi eliminado na 5ª edição. Segue o texto suprimido.

"A revelação, portanto, tem por finalidade dar ao homem a posse de certas verdades, que ele não poderia adquirir por si mesmo, e isso para acelerar o progresso. Essas verdades, geralmente, se restringem aos princípios fundamentais destinados a colocá-lo no caminho das pesquisas, e não a conduzi-lo pela borda; são os marcos que lhe mostram o objetivo: para ele, a tarefa de estudá-los e deduzir-lhes as aplicações; longe de libertá-lo do trabalho, são novos elementos fornecidos para a sua atividade." (GEN, 1ª ed, Cap. I, i.62)


Além de eliminar o relevante trecho acima, o capítulo 1 da 5º edição termina com outra alteração. Ao se referir ao Reino de Deus, acrescentaram-se as palavras “anunciado pelo Cristo”. Trata-se de acréscimo desnecessário ao sentido da frase e, ainda, foi acrescentada uma nota explicativa para se justificar o uso da expressão “o Cristo”.


* Diretor do Departamento de Doutrina da USE-SP


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Para que servem os sacerdotes?


Para que servem os sacerdotes?

(Trecho extraído do livro Memórias do Padre Germano, de Amalia Domingos Soler - capítulo Patrimônio do Homem, p.120)


"- Então, para que servem os sacerdotes?"

"- Quando bons, para consolar e instruir a Humanidade, para incitar o homem no progresso eterno da vida, para conduzi-lo pelo caminho mais curto à terra prometida. Dia virá, porém, em que os sacerdotes não serão necessários, porque todo homem cumprirá o seu dever e esse é o verdadeiro sacerdócio; não obstante, enquanto não chega esse dia formoso, um certo número de homens, votados ao estudo e às práticas piedosas, serão um freio para os povos, tanto quanto, às vezes, um motivo de escândalo, porque em nossa mal constituída sociedade os extremos quase sempre se tocam."