quinta-feira, 14 de junho de 2018

Nota Oficial USE - A Gênese - 4ª edição


NOTA OFICIAL

Edições do livro A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo

Considerando fatos históricos e documentos levantados e apresentados pela pesquisadora Simoni Privato Goidanich, envolvendo alterações ocorridas na 5ª edição francesa da obra A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo e publicadas, recentemente, no livro de sua autoria intitulado O Legado de Allan Kardec e, ainda, análises realizadas pela USE SP, a Diretoria Executiva, em reunião ordinária realizada em sua sede na data de 07 de abril de 2018, deliberou:

I) Recomendar a todos os dirigentes e ao público em geral a adoção da 4ª edição francesa (cujo conteúdo é idêntico às três edições anteriores) e suas respectivas traduções do livro A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo como a obra de referência doutrinária, cuja autoria pode ser atribuída, sem qualquer dúvida, a Allan Kardec.

II) Recomendar às editoras e distribuidoras que privilegiem a publicação e comercialização da 4ª edição francesa e suas respectivas traduções do livro A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo, uma vez que a 5ª edição contém elementos de autoria duvidosa e doutrinariamente distorcidos ou fragilizados decorrentes das alterações sofridas em comparação à 4ª edição.

III) Recomendar a todos os estudiosos espíritas e não espíritas que promovam análises comparativas entre as quatro primeiras edições (idênticas) com a 5ª edição francesa e suas traduções.

IV) Adequar documentos e orientações formais a serem emitidos pela USE SP no sentido de apontarem como referência bibliográfica e fonte de consulta a 4ª edição francesa desta obra e suas respectivas traduções.

V) Promover encontros, seminários e outros meios de interação com os dirigentes e colaboradores de instituições espíritas em geral objetivando o esclarecimento sobre os fatos históricos e documentos que justificam a adoção da 4ª edição francesa e suas respectivas traduções desta obra como referência.

São Paulo, 5 de junho de 2018

Julia Nezu Oliveira / A. J. Orlando

União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo

USE SP – 71 anos




terça-feira, 12 de junho de 2018

Lisboa e Voltaire: tudo está bem?


Lisboa e Voltaire: tudo está bem?

Marco Milani *

(Texto publicado no Jornal Correio Fraterno – Edição 481 – mai/jun 2018)

Na manhã do dia 1º de novembro de 1755, parte da população de Lisboa ocupava as ruas e igrejas celebrando o Dia de Todos os Santos. No mesmo momento, a algumas centenas de quilômetros dali, no oceano Atlântico, um forte abalo sísmico dava início a uma série de eventos que marcaria dolorosamente essa data.
Um tremor atingiu a costa portuguesa com violência. Os desmoronamentos foram o prelúdio do que ainda estava por vir. Após o brusco recuo do mar, as enormes ondas devastaram a parte baixa da cidade. Finalmente, um incêndio de grandes proporções demorou dias a ser debelado, consumindo vidas e bens. Estimando-se 60 mil fatalidades.
Cerca de vinte dias depois desse trágico acontecimento, o filósofo iluminista francês François-Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire, publicava um provocativo texto intitulado Poema sobre o desastre de Lisboa: ou o exame do axioma “tudo está bem”, questionando o argumento ontológico de Leibniz sobre a Providência divina.
 Como explicar a existência de um Deus bom e justo que permita ou promova desgraças humanas? Quais teriam sido os crimes cometidos pelas crianças portuguesas esmagadas sob escombros junto com suas mães?
 Esses questionamentos, entretanto, refletem um incômodo que sempre pairou no ambiente filosófico sobre o dogmatismo teísta. O paradoxo de Epicuro, formulado cerca de 300 anos antes de Cristo, já apresentava um dilema lógico sobre a existência do mal e as qualidades de Deus. Nesse paradoxo, afirma-se que Deus poderia apresentar, simultaneamente, apenas duas das três características: onisciência, onipotência e benevolência.
Se fosse onisciente e onipotente, teria conhecimento do mal e poderia extingui-lo, mas não seria benevolente ao permitir que o mal existisse.
Se fosse onipotente e benevolente, então poderia extinguir o mal e, sendo bom, desejaria eliminá-lo, mas não o fazia por desconhecer onde todo o mal estaria, logo ele não seria onisciente.
Se fosse onisciente e benevolente, saberia onde todo o mal se encontrava e desejaria extingui-lo, mas como o mal aflige os homens, então ele não seria onipotente pois não consegue extinguir o mal mesmo desejando fazê-lo.
O paradoxo não discute a subjetividade presente nas definições de bem e mal, mas reflete a incompreensão, frente a atributos divinos baseados na experiência humana. Diferentes pensadores, em épocas variadas, propuseram respostas a essas questões, como Tomás de Aquino, no século XIII, que afirmou que o Homem seria incapaz de atingir os mistérios divinos servindo-se da razão, mas somente pela fé conseguiria.
O Poema de Voltaire sobre o desastre de Lisboa também não ficou sem resposta. Seu conterrâneo, Jean-Jacques Rousseau, escreveu em 1756 uma carta rebatendo o ceticismo e a indignação expressos pelo iluminista. Além da defesa sobre a perfeição da Providência e da ordem natural das coisas que escapa à compreensão humana, Rousseau ainda apontou que o próprio Homem pode agir contra si mesmo ao citar, no caso português, as perigosas construções erguidas de maneira imprudente para abrigar muitas famílias que agravaram os efeitos dos desmoronamentos.
Não satisfeito, Voltaire retomaria o assunto em 1759, quando publica uma de suas obras mais conhecidas: Cândido ou O otimismo. Nesse conto filosófico, tendo como pano de fundo o terremoto de Lisboa, o personagem principal que dá título ao livro é caracterizado como um jovem ingênuo que recebe ensinamentos sobre o otimismo de Leibniz, mas diversos acontecimentos trágicos fazem com que sua visão de mundo seja questionada.
Voltaire desencarnou em 1778 deixando um legado de críticas e escárnios às crenças religiosas e àqueles que propagavam a ideia de ordem natural divina. A herança cultural de Voltaire, entretanto, não se resume a esses ataques destrutivos, mas também por adequadas contribuições à reflexão nos campos políticos, sociais e econômicos. Ao combater o absolutismo e o fanatismo dogmático, ele enalteceu a liberdade de pensamento, as liberdades civis e o livre comércio, posicionando-se contra a interferência do Estado na vida das pessoas e na economia.
No século seguinte, Allan Kardec indagou aos Espíritos sobre a mesma problemática do bem e do mal e, dentre outros tópicos, sobre os flagelos humanos e a justiça divina.
As respostas mediúnicas obtidas nas questões 737 a 741 de O Livro dos Espíritos lembram alguns dos argumentos de Leibniz e Rousseau, porém sustentadas no esclarecimento sobre o processo evolutivo do ser espiritual em detrimento da matéria transitória. Resumidamente, o que parece ser um castigo é, na verdade, uma oportunidade de aprimoramento moral e intelectual, individual e coletivo, reflexo natural da marcha evolutiva em que se encontra o Homem e de suas necessidades correlatas. Essa ordem só faz sentido abandonando-se as explicações materialistas ou aquelas que desembocam nos mistérios igrejeiros e abraçando-se o princípio da pluralidade das existências humanas guiadas por leis naturais imutáveis, fundamentadas na justiça e no amor divinos para a realização da perfeição espiritual de que os seres são suscetíveis.
Evocado por Kardec em 1859 e em comunicações posteriores (ver Revista Espírita ago-set/1859, mai/1862), Voltaire manifesta-se amargurado pelo rumo que tomou enquanto encarnado. Confessa ter deixado o orgulho e o sarcasmo conduzirem suas ações e que sofria pelas consequências danosas que promoveu ao influenciar muitas pessoas, especificamente sobre o aspecto religioso. Em vez de iluminar mentes, combatendo os defeitos e os vícios das religiões constituídas, enaltecendo a verdade perene contida na mensagem cristã, negou a bondade e a justiça divinas e fez-se vítima de sua própria arrogância cética.
A perspectiva espiritual fez Voltaire rever suas concepções sobre Deus e reconhecer a excelência do modelo de virtude que a humanidade possui em Jesus.
Hoje nos beneficiamos das luzes que o Espiritismo oferece, aliando a razão que Voltaire tanto prezava com a fé baseada em evidências e capaz de transportar montanhas mediante a liberdade e responsabilidade individuais. Tudo está bem.


* Presidente da USE Regional de Campinas/SP

Fonte: http://www.correiofraterno.com.br/index.phpoption=com_content&view=article&id=2072:lisboa-e-voltaire-tudo-esta-bem&catid=103:especial&Itemid=2






quinta-feira, 3 de maio de 2018

Não se muda o coração dos homens por meio de decretos



  Materialistas, em geral, acreditam que os sistemas político e econômico determinam a moral do indivíduo, quando a relação que se verifica não é essa.
Ganância, orgulho, egoísmo e quaisquer outros vícios morais não são resolvidos por decretos nem pela cor da bandeira ideológica ou partidária.
     Supor que a propriedade privada é a causadora da ganância, é ignorar que sem o direito de propriedade não há incentivo ao investimento e consequente progresso econômico. Sem progresso econômico não há geração de riqueza que, obviamente, não poderá ser distribuída. São questões econômicas, políticas, sociais e, ainda, espirituais que não podem ser analisadas isoladamente.
      De nada adianta o sujeito que profere apaixonados discursos sobre justiça social e ética quando ele mesmo não exemplifica em atos e muda a própria mente e coração em nome da fraternidade.



terça-feira, 17 de abril de 2018

Obra fundamental - O Evangelho Segundo o Espiritismo


Se o Evangelho Segundo o Espiritismo não fosse uma obra doutrinária fundamental, o Espírito da Verdade não teria escrito esse prefácio nem Kardec teria feito essa nota para destacar que o objetivo da obra resume o caráter do Espiritismo.

Prefácio

Os Espíritos do Senhor, que são as virtudes dos céus, como um imenso exército que se movimenta, ao receber a ordem de comando, espalham-se sobre toda a face da Terra. Semelhantes a estrelas cadentes, vêm iluminar o caminho e abri os olhos aos cegos.

Eu vos digo, em verdade, que são chegados os tempos em que todas as coisas devem ser restabelecidas no seu verdadeiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos.

As grandes vozes do céu ressoam como o toque da trombeta, e os coros dos anjos se reúnem. Homens, nós vos convidamos ao divino concerto: que vossas mãos tomem a lira, que vossas vozes se unam, e, num hino sagrado, se estendam e vibrem, de um extremo do Universo ao outro.

Homens, irmãos amados, estamos juntos de vós. Amai-vos também uns aos outros, e dizei, do fundo de vosso coração, fazendo a vontade do Pai que está no Céu: “Senhor! Senhor!” e podereis entrar no Reino dos Céus.

O ESPÍRITO DE VERDADE

Nota: A instrução acima, transmitida por via mediúnica, resume ao mesmo tempo o verdadeiro caráter do Espiritismo, e o objetivo desta obra. Por isso, foi aqui colocada como prefácio. (A.K)

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Não vos deixei cair nessa armadilha


Um oportuno texto de Kardec sobre o porquê não devemos cair na armadilha preparada por adversários do Espiritismo que é levar à casa espírita a discussão política

"Devo ainda assinalar-vos outra tática dos nossos adversários, a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua alçada e que, a justo título, poderiam despertar suscetibilidades e desconfianças. NÃO VOS DEIXEIS CAIR NESSA ARMADILHA; afastai cuidadosamente de vossas reuniões TUDO QUANDO SE REFERE À POLÍTICA E A QUESTÕES IRRITANTES; a tal respeito, as discussões apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém terá nada a objetar à moral, quanto esta for boa. Procurai no Espiritismo aquilo que vos pode melhorar: eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais realmente úteis serão uma consequência natural; trabalhando pelo progresso moral, lançareis os verdadeiros e mais sólidos fundamentos de todas as melhoras, e deixareis a Deus o cuidado de fazer com que cheguem no devido tempo. No próprio interesse do Espiritismo, que é ainda jovem, mas que amadurece depressa, OPONDE UMA FIRMEZA INQUEBRANTÁVEL AOS QUE QUISEREM VOS ARRASTAR POR UMA VIA PERIGOSA."

ALLAN KARDEC – Trecho extraído da Revista Espírita - fev/1862 - Resposta à mensagem de Ano Novo dos espíritas lioneses.




segunda-feira, 5 de março de 2018

Seminário USE - A Gênese: o resgate histórico -04/03/18

 

   
O excelente evento da USE realizado em 4/mar na cidade de São Paulo celebrando os 150 anos do lançamento do livro A Gênese com o seminário da diplomata e pesquisadora Simoni Privato, convidou à reflexão e esclareceu sobre as alterações ocorridas na 5a edição desta obra.
O público foi composto por cerca de 500 inscritos e milhares de pessoas que assistiram o seminário via internet. Após a apresentação de Simoni, formou-se um painel para debates onde as questões mais comuns sobre a autoria das modificações foram discutidas, confirmando que não há evidências de que teria sido Kardec o autor das mesmas. A única certeza é de que a 4a edição expressa fielmente o pensamento de Kardec e está mais coerente doutrinariamente do que a 5ª edição.
Parabéns à USE-SP e à Simoni Privato pela iniciativa e coragem de trazer este assunto ao Movimento Espírita Brasileiro.

Assista o seminário A Gênese: o resgate histórico clicando abaixo:





sábado, 3 de março de 2018

Contra-argumentação de que Kardec seria o autor das alterações da 5ª edição do livro A Gênese



CONTRAPONTOS AOS ARGUMENTOS GERALMENTE UTILIZADOS PARA SE ATRIBUIR A ALLAN KARDEC A AUTORIA DAS ALTERAÇÕES NO TEXTO DA 5ª EDIÇÃO DA OBRA “A GÊNESE”

Marco Milani


Argumentos
Contrapontos
Kardec sempre alterava as suas obras.
Até a 4ª edição, publicada em fev/1869 (um mês antes de desencarnar), Kardec não promoveu qualquer alteração na obra, nem deixou qualquer registro de que pretendia alterá-la.
Conclusão: Não há evidências de que Kardec foi o autor das alterações.
O fato de não haver documento ou registro de que Kardec pretendia alterar o texto da obra, não quer dizer que ele não as tenha realizado.
Sim, da mesma maneira que não quer dizer que ele tenha pretendido alterar a obra. Há mais de uma centena de alterações entre adições, supressões e reordenamento de palavras, trechos e parágrafos na 5ª edição. Nada impediria dele as ter realizado em apenas um mês, assim como as alterações podem não ter sido feitas por ele.
Conclusão: Não há evidências de que Kardec foi o autor das alterações.
O texto da 5ª edição é mais conciso e coerente do que a 4ª edição, sem prejuízo ao conteúdo, sinalizando que Kardec aprimorou a redação.
Falso. Há prejuízo no conteúdo. Por exemplo, na 4ª edição, o desaparecimento do corpo de Jesus é discutido nos itens 64 a 68 no capítulo XV. A 5ª edição excluiu integralmente o item 67, que é aquele que, justamente, apresenta as hipóteses plausíveis para explicar o desaparecimento do corpo. Na 5ª edição, não há a apresentação de hipóteses explicativas, fragilizando a reflexão sobre o objeto em discussão, portanto não pode ser considerado um aprimoramento. Nada impede que Kardec tenha revisto e fragilizado o texto, assim como nada sinaliza que tenha sido ele o autor dessa fragilização.
Conclusão: Não há evidências de que Kardec foi o autor das alterações.
Henri Sausse só se manifestou sobre as alterações após o desencarne de Amélie Boudet, que seria uma pessoa relevante a esclarecer os fatos.
Verdadeiro. Henri Sausse explica que comparou as edições somente após ter sido informado por um conhecido que Leymarie teve que fazer alterações na obra para corrigir o texto de Kardec. Esse relato foi publicado no jornal Le Spiritisme - ed. 23. Essa manifestação posterior ao desencarne de Amélie Boudet não significa nem apresenta vínculo direto de que Kardec tenha modificado a obra.
Conclusão: Não há evidências de que Kardec foi o autor das alterações.
Amélie Boudet teria impedido a publicação da 5ª edição se as alterações não tivessem sido feitas por Kardec.
Especulativo. Não há qualquer evidência de que Amélie Boudet tivesse comparado e identificado as alterações, pressupondo confiança na declaração do responsável (P.G. Leymarie) pela publicação de que teria sido Kardec a modificar a própria obra, ainda que sem qualquer registro dessa alegação. Acrescenta-se à reflexão, ainda, o questionamento sobre o poder efetivo de interferência de Amélie Boudet nas decisões dos responsáveis pelas publicações, porém isso também é especulativo.
Conclusão: Não há evidências de que Kardec foi o autor das alterações.
Conforme depoimentos de Deslien nas edições da Revista Espírita de dez/1884 e mar/1885, Kardec teria alterado pessoalmente as placas de impressão e teria autorizado à livraria Rouge, Dusnon y Fraisné a publicação da 4ª, 5ª e 6ª edições, já alteradas, o que ocorreria de 1869 a 1871.
Falso. A 4ª edição, publicada em fev/1869 é idêntica à 1ª edição, portanto as placas não foram alteradas. A 5ª edição só foi publicada em 1872 e não há qualquer registro de que Kardec tenha promovido posteriormente as alterações nas placas ou deixado autorização para isso, sendo que seu desencarne ocorreu em mar/1869 (um mês somente após a publicação da 4ª edição).
Conclusão: Não há evidências de que Kardec foi o autor das alterações.