terça-feira, 4 de maio de 2021

Pandemia e prosperidade

 


Pandemia e prosperidade

 Marco Milani

 (Texto publicado na revista Dirigente Espírita sob o título A pandemia à luz da Doutrina Espírita, mai/jun 2021, ed. 183, p.8)


Há pouco mais de um ano, a perplexidade diante das mudanças provocadas pela pandemia da Covid-19 fez com que a população mundial questionasse, sem receber respostas diretas e objetivas, sobre a origem e a duração de tal flagelo.

As necessárias medidas sanitárias para se combater a propagação do novo coronavírus (SARS-CoV-2) alteraram bruscamente a rotina de bilhões de indivíduos, que se viram obrigados a mudar hábitos sociais com fortes reflexos econômicos, os quais podem ser considerados um dos mais impactantes na história recente da humanidade.

Nos centros espíritas, a interrupção temporária das atividades presenciais levou dirigentes e colaboradores a repensarem o próprio modelo de prestação de serviços assistenciais e educacionais que estava consolidado há décadas. Concomitantemente, os frequentadores e beneficiários dos serviços desses mesmos centros foram instados a também refletirem sobre como suprir suas próprias necessidades.

Diversas iniciativas foram desenvolvidas para oferecer atividades à distância, servindo-se de ferramentas de comunicação eletrônica. Principalmente os serviços de cursos regulares, grupos de estudo, palestras e seminários foram rapidamente estruturados, não sem esforço adaptativo e com o esperado aprendizado de uso das respectivas ferramentas. É de se notar que parcela significativa dos antigos participantes das atividades presenciais adequaram-se com a mesma celeridade às novas formas de comunicação, enquanto outros, em menor número, enfrentaram algum tipo de desconforto pela falta de familiaridade e ou de acesso às ferramentas eletrônicas.

As reuniões e muitas tarefas administrativas também passaram a ser realizadas remotamente, identificando-se vantagens nesse tipo de interação considerando o ganho de tempo e redução de custos de deslocamento físico.

A assistência por meio da fluidoterapia também foi adaptada, enfatizando-se a possibilidade de atendimento à distância, observando-se determinadas condições de predisposição, dedicação e intenção do assistido.

Com relação às chamadas reuniões mediúnicas, a necessidade do estudo e da disciplina mostraram-se fundamentais, pois reforçou-se que, mais importante do que o fenômeno em si, é a busca do autoaprimoramento moral e intelectual do médium, além de que não há qualquer obrigação ou necessidade de continuar a promover fenômenos de intercâmbio quando não se estiver em ambiente apropriado para isso.

A União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo divulgou, nesse período, informações e orientações relevantes que em muito auxiliaram os dirigentes de centros a enfrentarem esses novos desafios, inclusive a preparem-se para o eventual retorno às atividades presenciais. Ver, por exemplo, o documento Orientação ao Centro Espírita, disponível em https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/09/OCE-RAtividades-DC.pdf.

 O enfrentamento dos transtornos provocados pela pandemia, como por qualquer flagelo natural, são provas que proporcionam ao homem a ocasião de exercitar a inteligência, de mostrar a sua paciência e a sua resignação ante a vontade de Deus expressas pelas leis da natureza, ao mesmo tempo que lhe permitem desenvolver a solidariedade e o amor ao próximo.

Flagelos não são agradáveis e muito menos desejáveis, sob nossa perspectiva humana, mas uma vez que existem, são oportunidades para nos fortalecer e superarmos temores e ansiedades, como regularmente temos em diferentes épocas, desde as primitivas.

Ao contrário de supostas mensagens mediúnicas de tom alarmista, místico e supersticioso, o atual flagelo não representa, isoladamente, um sinal de regeneração da humanidade, pois se assim fosse, os inúmeros flagelos anteriores também o seriam.

A superstição e a atração a teorias conspiratórias estão presentes no discurso de parcela significativa da população, inclusive entre aqueles que se declaram espíritas, pois não é o rótulo religioso ou filosófico que garante o exercício da fé raciocinada.

No Capítulo 18, de A Gênese, verifica-se que a transformação da humanidade é moral e não física ou provocada por cataclismos. É o gradual aprimoramento dos indivíduos que refletirá nas famílias, nas sociedades e no planeta.

Allan Kardec indagou aos Espíritos sobre a mesma problemática do bem e do mal e, dentre outros tópicos, sobre os flagelos humanos e a justiça divina.

As respostas mediúnicas obtidas por Kardec nas questões 737 a 741 de O Livro dos Espíritos favorecem o esclarecimento sobre o processo evolutivo do ser espiritual em detrimento da matéria transitória. Sinteticamente, o que parece ser um castigo é, na verdade, uma oportunidade de aprimoramento moral e intelectual, individual e coletivo, reflexo natural da marcha evolutiva em que se encontra o Homem e de suas necessidades correlatas. Essa ordem só faz sentido abandonando-se as explicações materialistas ou aquelas que desembocam nos mistérios igrejeiros e abraçando-se o princípio da pluralidade das existências humanas guiadas por leis naturais imutáveis fundamentadas justiça e amor divinos para a realização da perfeição espiritual de que os seres são suscetíveis. Todos prosperaremos.


Fonte: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2021/05/DE183.pdf



domingo, 18 de abril de 2021

Devotos escandalizados

 

Devotos escandalizados

 Marco Milani

Texto publicado no jornal Correio Fraterno, ed. 498, mar/abr 2021, p.13


     A doutrina espírita é um corpo teórico estruturado por Allan Kardec mediante as informações obtidas no intercâmbio mediúnico, seguindo-se um método racional baseado na observação e concordância entre si dos ensinamentos recebidos.

É evidente o meticuloso trabalho realizado por Allan Kardec, demonstrando sua capacidade intelectual e nobreza de caráter, angariando o devido respeito, até de contraditores de sua época.

Não só por uma questão de humildade, mas também por se tratar de ensino coletivo, Kardec atribuiu aos Espíritos a origem da doutrina, mas seu protagonismo é inegável e registrou seu nome na história.

Passados mais de 160 anos desde o lançamento de O Livro dos Espíritos, o movimento espírita mundial segue se fortalecendo, com peculiaridades regionais, mas tendo as obras de Kardec como referência fundamental.

No Brasil, o Espiritismo adentrou em diferentes segmentos sociais e, como era de se esperar em um país predominante católico, muitas pessoas aparentam certo apego a essas tradições. Esse traço se manifesta, principalmente, em alguns novos adeptos espíritas, que de certa forma ainda refletem costumes religiosos institucionalizados e pode perdurar em alguns outros adeptos mais antigos, contribuindo para posturas sincréticas. Um desses costumes é a santificação informal de pessoas que sejam consideradas modelos de caridade e moralmente superiores.

O adepto sincrético habituado à intermediação de santos nos acontecimentos cotidianos, mesmo sem usar esse termo, considera-se devoto de Bezerra de Menezes, Chico Xavier, Maria de Nazaré, Allan Kardec e outros. Em momentos de dificuldades, apenas retiram o prefixo “santo” do nome do Espírito alvo de sua devoção e a eles dirigem súplicas, não raramente, com promessas de ações futuras mediante o atendimento de pedidos urgentes.

Tal postura devocional não impede que o adepto continue estudando e praticando o bem a si e ao próximo, entretanto, o fanatismo disfarçado de devoção pode prejudicar o exercício da fé raciocinada, uma das bases do espiritismo. Um exemplo recorrente é o devoto que acha uma heresia questionar o conteúdo da mensagem de algum Espírito famoso recebida por um médium igualmente popular, pois o médium “filtraria” qualquer mensagem menos edificante e a comunicação sempre seria de elevado teor moral e verdadeira, mesmo que contrariasse o ensino dos Espíritos apresentados nas obras fundamentais.

Outro exemplo de fé cega é a atribuição da infalibilidade “papal” à pessoa de Allan Kardec, de maneira oposta ao que o próprio mestre lionês sempre demonstrou.

A honestidade intelectual de Kardec em momento algum desejou que os espíritas o vissem como detentor da verdade absoluta. Ele mesmo revisou e desenvolveu conceitos e aspectos doutrinários já publicados e até retificou afirmações que fizera.

Um exemplo é o fenômeno da possessão. Demonstrando o compromisso com a verdade, Kardec afirmou:

 

Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar do vocábulo, mas subjugados. Mudamos de opinião sobre essa afirmativa absoluta, porque agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, posto que parcial, de um Espírito encarnado por um Espírito errante. (Revista Espírita, Dez/1863, Um caso de possessão: Senhorita Júlia)

 Em 2017, após a publicação do livro O Legado de Allan Kardec, por Simoni P. Goidanichi, a obra A Gênese atraiu a atenção de diversos pesquisadores que se debruçaram sobre as alterações ocorridas na 5ª edição, publicada após a desencarnação de Kardec. Vários grupos de estudos foram formados para se analisar comparativamente as edições, a fim de se verificar eventuais impactos na compreensibilidade do texto e dos conceitos tratados. Um desses grupos, o qual produziu um relatório sintético sobre as alterações, foi organizado pela União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE-SP) e disponibilizou publicamente o respectivo documento1.

Dentre os capítulos de A Gênese, foram identificados alguns itens cuja edição original foi apontada por parcela dos estudiosos como mais adequada para se abordar aspectos doutrinários do que as respectivas alterações ocorridas na 5ª edição. Outros estudiosos não apontaram diferenças significativas e alguns chegaram a apontar melhorias. No relatório final do grupo de estudos da USE-SP, destaca-se a recomendação para que cada adepto compare e verifique por si mesmo as alterações, sem qualquer imposição de preferência.

Interessante fato, entretanto, foi notado.  Algumas pessoas se mostraram escandalizadas pela realização de análises comparativas entre as edições, pois para elas, isso macularia a memória de Allan Kardec. Podemos supor que os devotos escandalizados consideram a formação de grupos de estudos comparativos de edições um sacrilégio, pois, para eles, questionar as alterações seria duvidar da infalibilidade papal que atribuem a Kardec.

 Apesar das resistências, o Espiritismo progride e continua incentivando a fé raciocinada e a prática do bem. Sigamos!

 

1. https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/11/Relatorio-Final-GVE-2020.pdf

 


terça-feira, 2 de março de 2021

Apresentação de J.Herculano Pires da obra O Céu e o Inferno



Notícia Sobre o Livro O Céu e o Inferno (LAKE Editora)

Lendo-se este livro com atenção vê-se que a sua estrutura corresponde a um verdadeiro processo de julgamento. Na primeira parte temos a exposição dos fatos que o motivaram e a apreciação judiciosa, sempre serena, dos seus vários aspectos, com a devida acentuação dos casos de infração da lei. Na segunda parte o depoimento das testemunhas. Cada uma delas caracteriza-se por sua posição no contexto processual. E diante dos confrontos necessários o juiz pronuncia a sua sentença definitiva, ao mesmo tempo enérgica e tocada de misericórdia.

Estamos ante um tribunal divino. Os homens e suas instituições são acusados e pagam pelo que devem, mas agravantes e atenuantes são levados em consideração à luz de um critério superior.

A 30 de setembro de 1863, como se pode ver em Obras Póstumas, Kardec recebeu dos Espíritos Superiores este aviso: “Chegou a hora de a Igreja prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira como praticou os ensinamentos do Cristo, do uso que fez de sua autoridade, enfim do estado de incredulidade a que conduziu os espíritos”. Esse julgamento começava com a preliminar constituída pelo O Evangelho Segundo o Espiritismo e devia continuar com O Céu e o Inferno. Dentro de dois anos, em seu número de setembro de 1865, a Revista Espírita publicaria em sua secção bibliográfica a notícia do lançamento do quarto livro de Codificação Espírita: O Céu e o Inferno. Faltava apenas A Génese para completar a obra da Codificação da III Revelação.

Dois capítulos de O Céu e o Inferno foram publicados antecipadamente na Revista: o capítulo intitulado Da Apreensão da Morte, vigorosa peça de acusação, no número de janeiro de 1865, e o capítulo Onde é o Céu, no número de março do mesmo ano. Apareceram ambos como se fossem simples artigos para a Revista, mas o último trazia uma nota final anunciando que ambos pertenciam a uma “nova obra que o Sr. Allan Kardec publicará proximamente”.

Em setembro a obra já aparece anunciada como à venda. Kardec declara que, não podendo elogiá-la nem criticá-la, a Revista se limitava a publicar um resumo do seu prefácio, revelando o seu conteúdo.

Os capítulos antecipadamente publicados aparecem, o primeiro com o mesmo título com que saíra e o segundo com o título reduzido para O Céu. 

Estava dado o golpe de misericórdia nos dogmas fundamentais d a teologia do cristianismo formalista, tipo inegável de sincretismo religioso com que o Cristianismo verdadeiro, essencial e não formal, conseguira penetrar na massa impura do mundo e levedá-la à custa de enormes sacrifícios. Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo. Como ciência de observação a nova doutrina enfrenta o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações e denunciando os absurdos a que chegara a imaginação teológica na formulação dos dogmas cristãos. 

O capítulo primeiro de O Céu e o Inferno intitula-se O Futuro e o Nada. Esse título coloca o leitor em face das duas alternativas fundamentais do espírito. Kardec se revela ao mesmo tempo cartesiano e shakespeariano. É cartesiano quando propõe esta premissa lógica, de agudo realismo: Vivemos, pensamos, agimos; isto é positivo; não é menos certo que morremos. É shakespeariano quando evoca o dilema: Ser ou não ser, eis a alternativa. Mas ao mesmo tempo se opõe, com a antecedência de mais de um século, à tese do nada que surgirá ali mesmo, na França, com a filosofia existencial de Jean-Paul Sartre, o teórico da frustração e da nadificaçâo do homem. 

O que mais impressiona neste processo jurídico é a objetividade da acusação. Não estamos diante de um tribunal romano, onde as normas do Direito se subordinam às exigências imediatistas do Império, mas perante um tribunal grego do mundo socrático, onde o juiz implacável pergunta a todo instante: o que é isso? e exige definição precisa segundo as leis da maiêutica. Estas comparações não são retóricas, são simplesmente históricas. O processo lógico de Kardec segue as linhas dialéticas da busca socrática da verdade, segundo a exposição platónica. O juiz que pontifica neste tribunal não enverga a toga impura de Anito, mas a túnica de Platão. 

A comparação do inferno pagão com o inferno cristão é um dos mais eficazes trabalhos de mitologia comparada que se conhece. A mitologia cristã se revela mais grosseira e cruel que a pagã. 

Bastaria isso para justificar o Renascimento. O mergulho da humanidade no sorvedouro medieval levou a natureza humana a um retrocesso histórico só comparável ao do nazifascismo em nosso tempo. Os intelectuais materialistas assustaram -se com o retrocesso do homem nos anos 40 do nosso século e puseram em dúvida a teoria da evolução. Se houvessem lido este livro de Kardec saberiam que a evolução não se processa em linha reta, mas em ascensão espiralada. Os teólogos medievais estavam racional e moralmente atrasados em relação aos teólogos gregos porque representavam uma vasta camada de população ainda não atingida pelas luzes da cultura helénica. A evolução do homem na Terra está sujeita às vicissitudes da superposição periódica de camadas populacionais inferiores que precisam aflorar na superfície cultural para se beneficiarem. A queda do Império Romano foi um momento de superposição dos bárbaros, que precisavam abeberar -se na cultura clássica. No episódio aparentemente inexplicável do nazifascismo tivemos um novo afloramento dos instintos bestiais do homem. 

Esses instintos ainda estão presentes em nosso mundo de após nazismo, mas vão sendo caldeados na ebulição cultural dos nossos dias. Nenhuma imagem explicaria melhor essa situação que a do caldeirão medieval, formulada por Wilhelm Dilthey. 

Vemos assim que este livro de Kardec tem muito para ensinar, não só aos espíritas, mas também aos luminares da inteligência neopagã que perdem o seu tempo combatendo o Espiritismo, como gregos e romanos combateram inutilmente o Cristianismo. O processo espírita se desenvolve na linha de sequência do processo cristão. A conversão do mundo ainda não se completou. Cabe ao Espiritismo dar-lhe a última demão, como desenvolvimento natural, histórico e profético do Cristianismo em nosso tempo. A leitura e o estudo sistemático deste livro se impõem a espíritas e não-espíritas, a todos os que realmente desejam compreender o sentido da vida humana na Terra. 

Mesmo entre os espíritas este livro é quase desconhecido. A maioria dos que o conhecem nunca se inteirou do seu verdadeiro significado. Kardec nos dá nas suas páginas o balanço da evolução moral e espiritual da humanidade terrena até os nossos dias. Mas ao mesmo tempo estabelece as coordenadas da evolução futura. As penas e recompensas de após morte saem do plano obscuro das superstições e do misticismo dogmático para a luz viva da análise racional e da pesquisa científica. É evidente que essa pesquisa não pode seguir o método das ciências de mensuração, pois o seu objeto não é material, mas segue rigorosamente as exigências do espírito científico moderno e contemporâneo. O grave problema da continuidade da vida após a morte despe-se dos aparatos mitológicos para mostrar-se com a nudez da verdade à luz da razão esclarecida. 

Como ciência de observação o Espiritismo nos oferece a análise de Kardec na primeira parte do volume. Como ciência de pesquisa nos oferece a segunda parte, em que vemos Kardec investigar objetivamente a situação dos espíritos após a morte. Como ele acentua incessantemente, as penas e recompensas, que são as consequências naturais do comportamento humano na Terra, não aparecem aqui como alegorias ou suposições elaboradas pela mente, mas como o resultado da pesquisa mediúnica, da investigação direta da situação dos espíritos através de suas próprias revelações. E essas revelações não são gratuitas nem colhidas ao acaso, mas provocadas pelo experimentador através de anos de trabalho árduo e paciente. Mais de um século depois de realizado, esse trabalho é hoje sancionado pelas investigações recentes, não só no meio espírita mas também no campo das investigações parapsíquicas. 

A imparcialidade de Kardec e o seu amor pela pesquisa, a sua confiança na eficiência da investigação científica transparecem a cada instante. Charles Richet teve razão ao reconhecer a vocação científica do Codificador do Espiritismo. Dando ao inferno e ao céu os seus contornos reais, com base nos resultados de sua investigação, Kardec não repudia o dogma do purgatório, o mais suspeito da estrutura teológica arbitrária porque introduzido tardiamente no sistema dogmático católico, mas aceita -o e justifica-o. O purgatório é a Terra, o lugar determinado e circunscrito em que purgamos as nossas imperfeições, encarnados ou desencarnados. 

A doutrina teológica dos anjos e demônios é submetida também à prova dupla da análise racional e da pesquisa científica. A con clusão é límpida e certa: somos demônios quando estamos saindo da animalidade para a espiritualização e somos anjos quando estamos saindo da humanidade para a angelitude. Mas isso não é uma ideia, uma hipótese, o produto de uma elucubração mental ou de uma interpretação arbitraria de textos sagrados. É o resultado da observação e da pesquisa. Milhares de criaturas espirituais observadas, interrogadas, submetidas à experiência mediúnica forneceram os tipos psicológicos e morais da escala espírita, numa verdadeira classificação psíquica aplicável não só aos espíritos, mas também à tipologia humana. 

A importância deste livro é maior do que realmente se pensa. No tocante à Teologia, como procuramos demonstrar em várias notas ao texto, O Céu e o Inferno antecipou de mais de um século as transformações que ora se operam no seio das várias igrejas. Se os teólogos, que pretendem ser homens mais do que homens, como Descartes os classificou, pudessem ter a humildade suficiente para consultá-lo, encontrariam nestas páginas a solução dos seus mais angustiantes problemas. 

São Paulo, 30 de julho de 1973 

J. Herculano Pires


sábado, 2 de janeiro de 2021

O Efeito Dunning-Kruger no conhecimento espírita


 O Efeito Dunning-Kruger no conhecimento espírita

Marco Milani*

 Texto publicado na Revista da USE - Dirigente Espírita, ed. 181, jan/fev 2021, p.25, com o título “Quanto menor o conhecimento, maior a imprudência”

 Em 1999, os pesquisadores americanos da área de psicologia, David Dunning e Justin Kruger, publicaram um interessante estudo (1) em que procuraram explicar um padrão de comportamento peculiar. Em síntese, quanto menos uma pessoa conhece sobre determinando assunto, mais ela acredita conhecer sobre ele. Em homenagem aos autores, essa relação foi denominada Efeito Dunning-Kruger (EDK).

Segundo os autores, as pessoas tendem a ter visões excessivamente favoráveis de suas habilidades em muitos domínios sociais e intelectuais. Essa superestimação do próprio saber decorre, em parte, porque as pessoas não qualificadas nesses domínios desconhecem a real complexidade dos objetos que se propõem a discutir. Nesse sentido, elas chegam a conclusões errôneas e fazem escolhas infelizes. Inversamente, pessoas mais versadas e que até possuem um pleno domínio sobre determinados objetos tendem a reconhecer seus próprios limites e assumem uma postura mais prudente e modesta sobre o próprio saber.

O EDK explica, por exemplo, a vasta gama de pseudoespecialistas sobre os mais variados assuntos, inclusive com relação àqueles de alta complexidade teórica. Basta uma rápida visita nas redes sociais virtuais para se deparar com comentários, geralmente infundados e sem respaldo técnico-científico, mas que se propõem a revelar à humanidade a verdade de como as coisas são e funcionam.

Certamente, é direito de todos opinar e expressar-se sobre a realidade. É esse impulso questionador e argumentativo que faz o conhecimento humano progredir. O reconhecimento das próprias limitações, entretanto, é essencial para se evitar deslizes e prejuízos conceituais e práticos.

Não é diferente com relação à temática espírita. Aquele mais familiarizado com as diretrizes claras e seguras presentes no ensino dos Espíritos, apresentado por Allan Kardec, reconhece as próprias deficiências e limites cognitivos. Concomitantemente, procura se aprofundar nos princípios e valores que estruturam o corpo teórico do Espiritismo e exemplificar as próprias convicções lastreadas na fé raciocinada.

O EDK se manifesta, todavia, em maior ou menor grau durante discussões doutrinárias. Alguém que construiu o seu saber sobre o Espiritismo em fontes outras que não seja nas obras de Allan Kardec assume o risco de defender conceitos e práticas que se afastam do ensino dos Espíritos e, tragicamente, distorcem ou deturpam esses conceitos.

O intercâmbio fraterno e embasado de ideias e opiniões sobre a temática espírita é sempre bem-vindo, pois colabora para se identificar e analisar eventuais divergências interpretativas e se apontar caminhos para a reflexão sobre os tópicos discutidos. Deve existir, porém, uma referência doutrinária segura para se afastar das consequências deletérias do relativismo, o qual supõe que tudo seja lícito e válido.

Allan Kardec, educador por excelência, sempre insistiu na clareza e objetividade das ideias para se reduzir os problemas do relativismo e se chegar ao um denominador comum pela observação dos fatos e pelo uso da razão.

Interessantemente, mesmo com a preocupação didática de Kardec para que o conteúdo espírita fosse plenamente conhecido, não há como se negar os diferentes graus de maturidade cultural e doutrinária de cada um. Quanto menos sólido for o conhecimento doutrinário, graças ao EDK, mais supostas certezas e verdades desconectadas da realidade tendem a ser apresentadas com convicção pelo adepto, o qual pode se sentir confortável e confiante em defender tais suposições porque não vislumbrou a complexidade dos assuntos envolvidos.

 

Nota

(1) Kruger, J., & Dunning, D. (1999). Unskilled and unaware of it: How difficulties in recognizing one's own incompetence lead to inflated self-assessments. Journal of Personality and Social Psychology, 77(6), 1121–1134. https://doi.org/10.1037/0022-3514.77.6.1121

 

* Diretor do Departamento de Doutrina da USE-SP e Presidente da USE Regional de Campinas

 


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

 


16º ENCONTRO NACIONAL DA LIGA DE PESQUISADORES DO ESPIRITISMO

Tema central: 160 anos de O Livro dos Médiuns

28 e 29 de agosto de 2021

São Paulo - SP

 

CHAMADA DE TRABALHOS

 

Apresentação

O Encontro Nacional da Liga de Pesquisadores do Espiritismo (ENLIHPE) é um espaço privilegiado no contexto brasileiro para apresentação e discussão de propostas e trabalhos de investigação científica sobre a temática espírita. O sucesso alcançado nos anos anteriores tem atraído pesquisadores de todo o Brasil, interessados na divulgação e discussão de seus estudos.

Um dos diferenciais do ENLIHPE é o seu formato, o qual incentiva a formação de redes de pesquisa e promove a aproximação de estudiosos de diferentes áreas do conhecimento.

 

Instruções aos autores

A data final para submissão de trabalhos é 30 de abril de 2021. A confirmação do recebimento e o parecer da Comissão Científica sobre o artigo serão enviados eletronicamente ao email do remetente.

A avaliação será feita utilizando-se o sistema Double Blind Review, no qual o trabalho é avaliado anonimamente por 2 por membros da Comissão Científica do encontro.

Os trabalhos devem ser, prioritariamente, relacionados à temática central do evento, em forma de artigo científico, conforme procedimentos definidos a seguir:

 

Artigo científico

•O artigo deverá ser gravado em 2 arquivos:

ARQUIVO 1 – contendo o nome do(s) autor(es), o título do trabalho e o resumo;

ARQUIVO 2 – contendo o título e o texto integral do artigo sem qualquer identificação de autoria.

 

Submissões de trabalhos

Por e-mail, envie os arquivos 1 e 2 na mesma mensagem para: submissao@lihpe.net

 

Formato do Trabalho:

Editor de textos: Word 97 ou Posterior

Número máximo de páginas: 15 (quinze)

Configuração das páginas

Margens: superior 3cm; inferior 2 cm; esquerda 3cm; direita 2 cm.

Tamanho do papel: A4 (largura 21 cm; altura 29,7 cm)

Fonte: Times New Roman, tamanho 12

Formato do parágrafo: Recuo especial: primeira linha 1,25 cm

Espaçamento entre linhas: simples.

Figuras, tabelas e gráficos: Fonte Times New Roman, tamanho 8 a 12

Resumo: Mínimo de 1150 caracteres (aproximadamente 10 linhas), máximo de 1750 caracteres (aproximadamente 15 linhas)

Revisão ortográfica a cargo dos autores

 

Informações adicionais: Envie uma mensagem para 16enlihpe@lihpe.net

 

Local do evento: União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo – USE-SP.

Rua Dr. Gabriel Piza, 433, São Paulo/SP



domingo, 20 de dezembro de 2020

Entrevista de Marco Milani a Bruno Tavares - 19/12/20

 


Marco Milani e Bruno Tavares conversam sobre diversos temas relevantes: A USE-SP e o Movimento Espírita, Coerência doutrinária, Práticas estranhas na casa espírita, Qualidade da literatura espírita, Edições original e modificada de A Gênese, Chicomedissismo e muito mais!

Confira no link abaixo:

https://youtu.be/RgjRWpCqb0g



domingo, 1 de novembro de 2020

 


Análise comparativa doutrinária das edições de A Gênese

Marco Milani

 (Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, ed. 180, nov/dez 2020, p. 6)

 

No artigo intitulado “Uma Infâmia”, publicado em 1884 no jornal Le Spiritisme, órgão de divulgação da União Espírita Francesa, Henri Sausse, o biógrafo de Kardec, afirmou que as alterações sofridas pela 5ª edição da obra “A Gênese” eram significativas e lançou suspeitas não somente sobre a autoria – pois foi publicada após a desencarnação de Kardec –, mas também sobre a qualidade doutrinária das mesmas. Após um período de acusações e desmentidos envolvendo dirigentes e adeptos franceses, o caso adormeceu.

No final de 2017, com a valorosa pesquisa da diplomata brasileira Simoni Privato Goidanich, apresentada no livro “O Legado de Allan Kardec”, foram apontadas inconsistências documentais que reacenderam essa polêmica e, novamente, a autoria da 5ª edição passou a ser questionada, bem como suscitou a natural indagação sobre a qualidade doutrinária das alterações.

Pesquisadores de diferentes países iniciaram, assim, a busca por fatos históricos que pudessem auxiliar no esclarecimento da questão autoral e, simultaneamente, procederam a análises comparativas sobre as alterações.

Em “Nota” publicada em maio/2018, a USE-SP, movida pela prudência e voltada ao aprofundamento das pesquisas doutrinárias, destacou a pertinência de se considerar a 4ª edição, até então, como aquela em que não havia dúvidas sobre a autoria da obra e recomendou, aos estudiosos espíritas e não espíritas interessados no assunto, que realizassem análises comparativas entre a edição original e a modificada. A revista “Dirigente Espírita”, veículo de comunicação da USE-SP vem, desde então, publicando comentários sobre os capítulos analisados.

Mantendo a proposta comparativa, recentemente o Departamento de Doutrina da USE-SP organizou o Grupo Virtual de Estudos (GVE), o qual contou com 16 estudiosos espíritas, residentes em diferentes regiões do país que fomentaram uma ampla análise doutrinária sobre as alterações das respectivas edições. O relatório final do GVE,pode ser acessado na página eletrônica da USE-SP, na pasta "Documentos" (https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/11/Relatorio-Final-GVE-2020.pdf).

A seguir, são antecipados alguns resultados do GVE.

Resumidamente, sete capítulos (ns. 8, 9, 10, 14, 15, 16 e 18) da 5ª edição apresentaram itens com ambiguidade ou divergências sobre a existência de impactos doutrinários (aqui entendidos como mudanças na compreensão sobre princípios e conceitos já firmados no corpo teórico do Espiritismo, apresentados em obras anteriores ou na mesma obra) e os demais onze capítulos não apresentaram prejuízos ou benefícios doutrinários.   

Para representar algumas dessas ambiguidades, neste artigo, foram selecionados itens específicos dos capítulos 8, 14, 15 e 18 como claros exemplos de divergências interpretativas.

O acréscimo do item 7 no capítulo 8, intitulado Alma da Terra, gerou, para alguns integrantes do GVE, a impressão de que houve um ganho doutrinário sobre este assunto, pois fora abordada a questão sob um novo ponto de vista, tal como apresentado na Revista Espírita de set/1868. Para outros, entretanto, tal item nada agregou doutrinariamente, uma vez que o assunto já teria sido devidamente abordado em obras anteriores, como na questão n. 144, de “O Livro dos Espíritos”.

Com relação ao capítulo 14, dois itens atraíram a atenção dos pesquisadores. O item 1, da edição original, contém o seguinte trecho:

 

"[...] os fenômenos em que prepondera o elemento espiritual, não podendo ser explicados unicamente por meio das leis da matéria, escapam às investigações da Ciência."

 

Na edição modificada, a palavra “matéria” foi substituída por “natureza”. Assim, a frase se transformou em:

 

“[...] os fenômenos em que prepondera o elemento espiritual, não podendo ser explicados unicamente por meio das leis da natureza, escapam às investigações da Ciência."

 

Alguns consideraram que a substituição não gerou impacto doutrinário pois, ainda que "natureza" pudesse levar a uma interpretação equivocada, em uma leitura isolada, a palavra poderia assumir diferentes significados, estabelecendo-se relações com outras passagens, nesta e em outras obras de Kardec. Logo, não haveria incoerência, se fosse considerada uma perspectiva mais abrangente. O item 1, do capítulo 12, foi citado como exemplo e para analogia, de como os cientistas materialistas definiam milagres: um ato do poder divino contrário às leis conhecidas da natureza. Outros, contudo, apontaram que houve, sim, prejuízo doutrinário por considerarem evidente a distorção semântica entre as palavras e discordaram de que “natureza” e “matéria” poderiam ser consideradas sinônimos. Se assim fosse, se exigiria uma postura relativista, tomando a parte pelo todo, uma vez que os elementos materiais e espirituais são, na obra kardeciana, distintos e a natureza engloba ambos. Os itens 1, 8, 9, 10, 13, 16 e 17, do capítulo 13 – Caracteres dos milagres, da própria obra “A Gênese”, tanto na edição original quanto na edição modificada, expressam o mesmo sentido lógico quando se usa leis da natureza ou fatos naturais, englobando o elemento espiritual. Portanto, não é compatível com a substituição ocorrida na 5ª edição, caracterizando, assim, evidente prejuízo doutrinário.

No item 14, do capítulo 14, da edição modificada, foi acrescentada a afirmação de que o Espírito é um ser “fluídico”. Para alguns, essa afirmação pode estar relacionada com a observação do livro “O que é o Espiritismo”, Cap. 2, item 14, em que se aponta que alma é um ser simples; o Espírito um ser duplo; e o homem um ser triplo. Assim, o homem teria um componente material inseparável e, então, a alteração não geraria qualquer impacto doutrinário, em face desta relação. Para outros, o trecho em análise, na edição original de “A Gênese” é bem mais claro e coerente doutrinariamente, favorecendo a leitura, pois o elemento espiritual se serve do elemento material e eles não se confundem, mantendo a distinção contida na edição originária. Logo, o Espírito não pode ser fluídico, como o seu perispírito o é. No próprio capítulo 2 de “O Livro dos Espíritos”, está clara e inequívoca a diferenciação entre matéria e espírito; portanto, o texto da edição original mantém a coerência e não produz qualquer ambiguidade.

No item 59 do capítulo 15, da edição original, consta-se:

 

“Os outros discípulos vieram com a barca, e, como não estavam distantes da terra mais de duzentos côvados, eles daí puxaram a rede cheia de peixes. (João, 21:1 a 8)”.

 

Na 5ª edição, foi substituída a palavra “terra” por “mar”, apresentando a seguinte frase “[...] e, como não estavam distantes do mar". Todos os integrantes do GVE concordaram se tratar de erro na edição modificada, cuja frase está divergente da versão bíblica. Logo, na 4ª edição o trecho está mais coerente.

No mesmo capítulo 15, da 5ª edição, o item 67, presente na edição original, foi eliminado integralmente na 5ª edição. O item suprimido propõe as hipóteses plausíveis para explicar o desaparecimento do corpo físico de Jesus após a sua morte. Para alguns, inexiste impacto doutrinário porque hipóteses não fariam parte da Doutrina Espírita, bem como não ficaria comprometida a discussão do tema (o fato de que Jesus teve um corpo carnal), como já destacado em outros trechos neste capítulo. Para outros, a supressão do item 67 acarretou grave prejuízo doutrinário, não somente para o desenvolvimento do conteúdo, mas porque o item suprimido fora considerado relevante por Kardec, tanto que este o citou expressamente nas referências do livro “Catálogo Racional para se formar uma biblioteca espírita”, exatamente para alertar os leitores e se contrapor ao conteúdo do livro “Os Quatro Evangelhos”. Como a questão do desaparecimento do corpo de Jesus é o cerne do trecho compreendido entre os itens 64 a 68, na edição original, a alteração procedida na quinta edição ocasiona incompletude e gera prejuízo para a discussão doutrinária.

O capítulo 18 foi um daqueles que mais sofreu alterações, com a inserção de longos textos e mensagens que, mesmo presentes na “Revista Espírita”, não implicam a concordância universal. Dentre outros, destacam-se os itens 8, 9 e 10, comentados a seguir.

Sobre os itens 8 e 9, as longas inserções realizadas envolvendo a relação entre acontecimentos físicos e a transformação moral dos indivíduos geraram interpretações variadas. Para alguns, não houve impacto doutrinário, porque esta relação teria sido abordada em capítulos anteriores, mencionando-se, por exemplo, os flagelos destruidores e os cataclismos como ocasiões de chegadas e partidas coletivas, bem como as influências destes para a evolução moral dos Espíritos. Para outros, entretanto, as alterações quebraram a sequência lógica do conteúdo original, com a inclusão dos textos de Arago e Dr. Barry, pois Kardec estava discorrendo sobre as transformações morais, valorizando, assim, o livre-arbítrio do indivíduo. E, com as inserções, retomou-se a questão dos acontecimentos físicos atrelados à evolução moral, sinalizando, indevidamente, que a evolução do indivíduo teria uma relação dependente de acontecimentos físicos, caracterizando-se como uma incoerência doutrinária.

Sobre a inserção do item 10, decorre uma situação de vínculo direto entre fenômenos astronômicos e revoluções físicas do globo com o processo de renovação moral da humanidade. Destaca-se o seguinte trecho:

 

“Anunciando a época de renovação que se havia de abrir para a Humanidade e determinar o fim do velho mundo, a Jesus, pois, foi lícito dizer que ela se assinalaria por fenômenos extraordinários, tremores de terra, flagelos diversos, sinais no céu, que mais não são do que meteoros, sem ab-rogação das leis naturais. O vulgo, porém, ignorante, viu nessas palavras a predição de fatos miraculosos.”

 

Alguns, no GVE, entenderam que a inserção desse item não causaria impacto doutrinário, pois os acréscimos deveriam ser contextualizados com outras passagens e não deveriam ser lidos isoladamente para a compreensão do conteúdo.

Os demais integrantes do GVE, entretanto, considerando que tremores de terra e impactos de meteoros na atmosfera ocorrem incessantemente no planeta, em diferentes gradações e frequências, entenderam que os “sinais no céu” não seriam presságios de mudanças morais da humanidade nem derrogações das leis naturais. Então, é incoerente a afirmação de que seria “lícita” a associação do período de renovação moral a fenômenos extraordinários, como se houvesse um calendário astronômico e geológico. A Astrologia, por sinal, adota a perspectiva da influência dos astros no comportamento e destino do ser humano e tal suposição é plenamente rechaçada pelo ensino dos Espíritos, como observado, por exemplo, nas questões 859 e 867 de “O Livro dos Espíritos”. Assim, o item oferece elementos ambíguos e com prejuízo doutrinário.

Na 5ª edição, também, foi inserida uma “Nota” referente ao item 10, apresentada a seguir.

 

“A terrível epidemia que, de 1866 a 1868, dizimou a população da Ilha Maurícia, teve a precedê-la tão extraordinária e tão abundante chuva de estrelas cadentes, em novembro de 1866, que aterrorizou os habitantes daquela ilha. A partir desse momento, a doença, que reinava desde alguns meses de forma muito benigna, se transformou em verdadeiro flagelo devastador. Sem dúvida houve um sinal no céu e talvez nesse sentido é que se deva entender a frase — estrelas caindo do céu, de que fala o Evangelho, como sendo um dos sinais dos tempos. (Pormenores sobre a epidemia da ilha Maurícia: Revista Espírita, julho/1867 e novembro/1868)”

 

Para alguns, não houve impacto doutrinário por não entenderem que a “Nota” faça uma associação direta entre cataclismos como anunciadores da renovação moral, mas que há alterações físicas e morais e elas poderão coincidir. Para outros, entretanto, há evidente prejuízo doutrinário, pois associam-se fenômenos físicos aos morais, de maneira interdependente. Para mais detalhes sobre a incoerência dessa Nota, ver a revista “Dirigente Espírita”, n. 168, p. 5.

Diferentemente do que os indivíduos mais afeitos à idolatria e ao comodismo intelectual poderiam supor, a proposta analítica realizada pelo GVE não se baseou na discussão sobre a autoria das modificações ocorridas na 5ª edição, para atestar, a priori, se tais modificações gerariam impactos doutrinários favoráveis ou desfavoráveis. Sob essa perspectiva, buscou-se afastar o relativismo inconsequente que a tudo justifica, culminando com a identificação de trechos questionáveis, ainda que sem qualquer pretensão de unanimidade.

Os resultados comparativos do GVE, acima antecipados, indicam a existência de passagens com ambiguidade ou divergências interpretativas sobre os impactos doutrinários gerados pelas alterações ocorridas na 5ª edição de “A Gênese”.

          Tal fato colide com a clareza, simplicidade e objetividade da linguagem desejadas pelo educador Allan Kardec, como exemplificado no trecho a seguir, ao tratar do Espiritismo:

 

Fala uma linguagem clara, sem ambiguidades. Nada há nele de místico, nada de alegorias suscetíveis de falsas interpretações. Quer ser por todos compreendido, porque chegados são os tempos de fazer-se que os homens conheçam a verdade. (O Livro dos Espíritos, Conclusão, VI)

 

Kardec e os Espíritos escreveram para o público em geral, aliando profundidade teórica e excelência metodológica, sem a exigência de um formalismo hermenêutico para se compreender os princípios e valores espíritas.

Assim, diante da valorosa oportunidade de estudos e considerando a 4ª edição de “A Gênese” como mais adequada para parte significativa dos pesquisadores deste Grupo, quando observados determinados itens (sem desconsiderar eventuais aperfeiçoamentos e correções gramaticais realizados no texto da 5ª edição), recomenda-se a qualquer adepto a análise comparativa entre as edições, sob a perspectiva doutrinária, para verificarem, por si mesmos, os eventuais impactos ocorridos.


Fonte: https://usesp.org.br/