quinta-feira, 9 de maio de 2024

Quadro da vida espírita - Allan Kardec

 

Revista espírita — abril/1859

QUADRO DA VIDA ESPÍRITA

 

Apresentação sintética por tópicos

 

 

1) Expectativas sobre a vida futura

 

“Todos nós, sem exceção, atingimos mais cedo ou mais tarde o termo fatal da vida. Nenhuma força nos poderia subtrair a essa necessidade, eis o que é positivo. Muitas vezes as preocupações do mundo nos desviam o pensamento daquilo que se passa além-túmulo, mas quando chega o momento supremo, são poucos os que não se perguntam em que se vão transformar, porque a ideia de deixar a existência sem uma possibilidade de retorno tem algo de pungente. Com efeito, quem poderia encarar com indiferença a ideia de uma separação absoluta e eterna de tudo quanto amou? Quem poderia ver sem assombro abrir-se à sua frente o imenso abismo do nada, em que iriam desaparecer para sempre todas as nossas faculdades e todas as nossas esperanças? “O que!? Depois de mim, o nada; nada mais que o vazio; tudo acabado irremediavelmente? Mais alguns dias e a minha lembrança se apagará da memória dos que sobreviverem a mim; em breve não restará nenhum traço de minha passagem pela Terra; o próprio bem que eu tiver feito será esquecido pelos ingratos a quem tiver beneficiado, e nada para compensar tudo isso; nenhuma outra perspectiva além de meu corpo a ser roído pelos vermes?!” Este quadro do fim de um materialista, traçado por um Espírito que tinha vivido esses pensamentos, não tem algo de horrível e de glacial? Ensina-nos a religião que não pode ser assim, e a razão o confirma. Mas essa existência futura, vaga e indefinida, nada tem que satisfaça ao nosso amor ao que é positivo. É isto que gera a dúvida em muitos. Vá lá que tenhamos uma alma. Mas o que é a nossa alma? Ela tem forma e aparência? É um ser limitado ou indefinido? Dizem uns que é um sopro de Deus; outros, que uma centelha; outros, uma parte do grande todo, o princípio da vida e da inteligência. Mas o que concluímos de tudo isto? Diz-se, ainda, que ela é imaterial. Mas uma coisa imaterial não poderia ter proporções definidas. Para nós isso não é nada. Ensina-nos ainda a religião que seremos felizes ou infelizes, conforme o bem ou o mal que tivermos feito. Mas qual é essa felicidade que nos espera no seio de Deus?”

 

2) O Espiritismo esclarece sobre a sobrevivência da alma e a vida futura

 

“Será uma beatitude, uma contemplação eterna, sem outro objetivo além de cantar os louvores ao Criador? As chamas do inferno são uma realidade ou uma ficção? A própria Igreja o entende nesta última acepção; mas quais são os sofrimentos? Onde o lugar do suplício? Numa palavra, que é o que se faz ou se vê nesse mundo que nos espera a todos? Costuma-se dizer que ninguém voltou para nos dar informações. Isso é um erro, e a missão do Espiritismo é precisamente esclarecer-nos sobre esse futuro, fazendo-nos, por assim dizer, tocá-lo e vê-lo, não pelo raciocínio, mas pelos fatos. Graças às comunicações espíritas, já não se trata de uma presunção ou de uma probabilidade, sobre a qual cada um imagina à vontade e que os poetas embelezam com as suas ficções ou repletam de imagens alegóricas que nos enganam. É a própria realidade que se nos apresenta, pois são os próprios seres de além-túmulo que nos vêm descrever a sua situação e falar-nos do que fazem, permitindo-nos, por assim dizer, assistir a todas as peripécias de sua vida nova, e dessa maneira mostrar-nos a sorte inevitável que nos aguarda, conforme os nossos méritos e os nossos deméritos. Haverá nisso algo de antirreligioso? Muito pelo contrário, pois os incrédulos encontram nisso a fé e os tíbios uma renovação do fervor e da confiança.”

 

3) Conhecimento sobre a continuidade da vida reanima e oferece esperança

 

“O Espiritismo é, pois, o mais poderoso auxiliar da religião. Se assim é, é que Deus o permite, e o permite para reanimar nossas esperanças vacilantes e para reconduzir-nos ao caminho do bem, pela perspectiva do futuro que nos aguarda.”

 

4) O objetivo deste texto é descrever, resumidamente, a vida após a morte do corpo, conforme relatado pelos próprios Espíritos

 

“As conversas familiares de além-túmulo que publicamos; a descrição que elas encerram da situação dos Espíritos que nos falam, revelam-nos as suas penas, as suas alegrias, as suas ocupações. São um quadro animado da vida espírita, e na própria variedade dos assuntos podemos encontrar as analogias que nos interessam. Vamos tentar resumir o seu conjunto. Inicialmente consideremos a alma ao deixar este mundo e vejamos o que se passa nessa transmigração.”

 

5) O desligamento do Espírito do corpo carnal ocorre pela cessação da vida orgânica.

 

“Extinguindo-se as forças vitais, o Espírito se desprende do corpo no momento em que cessa a vida orgânica.”

 

6) O processo de desencarnação é variável, podendo se iniciar antes da cessação completa da vida orgânica e ser finalizado até depois da morte carnal.

 

“Mas a separação não é brusca ou instantânea. Por vezes começa antes da cessação completa da vida e nem sempre é completada no instante da morte. Sabemos que entre o Espírito e o corpo existe um liame semimaterial, que constitui o primeiro envoltório. É esse liame que não se quebra subitamente.”

 

7) Enquanto os laços fluídicos não se desfazem totalmente, o Espírito fica num estado de perturbação. Esse período é variável, podendo variar de algumas horas a alguns meses.

 

“Enquanto subsiste, fica o Espírito num estado de perturbação comparável ao que acompanha o despertar. Muitas vezes ele até duvida de sua morte; sente que existe, vê-se e não compreende que possa viver sem seu corpo, do qual se vê separado. Os laços que ainda o prendem à matéria o tornam acessível a certas sensações que toma como sensações físicas. O Espírito só se reconhece quando completamente livre. Até então não compreende a sua situação. A duração desse estado de perturbação, como já o dissemos em outras ocasiões, é muito variável: pode ser de algumas horas, como de vários meses, mas é raro que ao cabo de alguns dias o Espírito não se reconheça mais ou menos bem. Entretanto, como tudo lhe é estranho e desconhecido, é-lhe necessário um certo tempo para familiarizar-se com a sua nova maneira de perceber as coisas.”

 

8) Ao desencarnar, o Espírito é recepcionado por amigos e por quem por ele simpatizam.

 

“Solene é o instante em que um deles vê cessar a sua escravização, pela ruptura dos laços que o prendem ao corpo. Ao entrar no mundo dos Espíritos é acolhido pelos amigos que vêm recebê-lo, como se voltasse de penosa viagem. Se a travessia foi feliz, isto é, se o tempo de exílio foi empregado de maneira proveitosa para si e o elevou na hierarquia do mundo dos Espíritos, eles o felicitam. Ali reencontra os conhecidos, mistura-se aos que o amam e com ele simpatizam, e então começa, para ele, verdadeiramente, a sua nova existência.”

 

9) O perispírito não tem órgãos e o Espírito percebe tudo ao seu redor de maneira mais precisa e sutil. Essa percepção é uma faculdade inerente ao Espírito.

 

“O envoltório semimaterial do Espírito constitui uma espécie de corpo, de forma definida, limitada e análoga à do corpo físico. Mas esse corpo não tem os nossos órgãos e não pode sentir todas as nossas impressões. Entretanto, percebe tudo quanto percebemos: a luz, os sons, os odores, etc. Estas sensações não são menos reais, embora nada tenham de material; têm, até, algo de mais claro, de mais preciso, de mais sutil, porque lhe chegam sem intermediário, sem passar pela fieira dos órgãos que as embotam. A faculdade de perceber é inerente ao Espírito; é um atributo de todo o seu ser. As sensações lhe chegam por todos os lados, e não através de canais circunscritos. Falando da visão, dizia-nos um Espírito: “É uma faculdade do Espírito e não do corpo. Vedes pelos olhos, mas não é o olho que vê. É o Espírito.

Em virtude da conformação de nossos órgãos, necessitamos de certos veículos para as sensações. É assim que necessitamos da luz para refletir os objetos e do ar para nos transmitir os sons. Esses veículos se fazem inúteis, desde que não tenhamos mais os intermediários que os tornam indispensáveis. Assim, pois, o Espírito vê sem auxílio de nossa luz e ouve sem necessidade das vibrações do ar. Eis por que para ele não há obscuridade. Mas as sensações permanentes e indefinidas, por mais agradáveis que sejam, com o tempo se tornariam fatigantes, se não lhe fosse possível subtrair-se a elas. Por isso tem o Espírito a faculdade de suspendê-las. Ele pode, à vontade, deixar de ver, de ouvir, de sentir tais ou quais coisas e, consequentemente, não ver, não ouvir, não sentir senão aquilo que queira. Essa faculdade está na razão de sua superioridade, pois há coisas que os Espíritos inferiores não podem evitar, pelo que a sua situação se torna penosa.”

 

10) Há a necessidade de adaptação à nova situação do recém-desencarnado.

 

“A princípio o Espírito não compreende essa nova maneira de sentir, da qual só aos poucos se dá conta. Aqueles cuja inteligência é ainda muito atrasada não a compreendem absolutamente e sentiriam muita dificuldade em exprimi-la, exatamente como entre nós os ignorantes veem e se movem, sem saber como nem por quê.”

 

11) As limitações dos Espíritos em compreender o que está além de seu alcance, aliadas à fanfarrice de seres inferiores, são fontes de teorias absurdas manifestas por certos Espíritos.

 

“Essa impossibilidade de compreender o que está acima de seu alcance, aliada à fanfarrice, usual companheira da ignorância, é a fonte de teorias absurdas dadas por certos Espíritos que nos induziriam em erro se as aceitássemos sem controle e se não estivéssemos seguros, pelos meios fornecidos pela experiência e pelo hábito de com eles conversar, quanto ao grau de confiança que merecem.”

 

12) O Espírito não tem as sensações decorrentes de órgãos físicos, como fadiga, necessidade de repouso e de alimentação.

 

“Há sensações que têm por fonte o próprio estado dos nossos órgãos. Ora, as necessidades inerentes ao corpo não se podem verificar desde que não exista mais corpo. Assim, pois, o Espírito não experimenta fadiga, nem necessidade de repouso ou de alimentação, porque não tem nenhuma perda a reparar. Ele não é acometido por nenhuma de nossas enfermidades.”

 

13) As necessidades do corpo determinam necessidades sociais, que para os Espíritos não existem. Assim, as relações que estruturam a vida em sociedade no mundo físico não se reproduzem naturalmente no mundo espiritual.

 

“As necessidades do corpo determinam necessidades sociais, que para eles não existem. Assim não mais existem as preocupações dos negócios, as discórdias, as mil e umas tribulações do mundo e os tormentos a que nos entregamos para suprirmos as nossas necessidades ou as superfluidades da vida. Eles têm pena do esforço que fazemos por causa de futilidades. Entretanto, quanto mais felizes são os Espíritos elevados, tanto mais sofrem os inferiores, mas esses sofrimentos se constituem principalmente de angústias que embora nada tenham de físico, nem por isso são menos pungentes.”

 

14) Espíritos inferiores mantêm as paixões e desejos que possuíam enquanto encarnados e para eles é um sofrimento não conseguir satisfazê-los.

 

“Eles têm todas as paixões e todos os desejos que tinham em vida (referimo-nos aos Espíritos inferiores) e seu castigo é o de não poder satisfazê-los. Isto é para eles uma tortura que julgam eterna, porque sua própria inferioridade não lhes permite ver o término, o que é também para eles um castigo.”

 

15) Os Espíritos se comunicam pelo pensamento, sem qualquer necessidade de elementos físicos como o som (fala articulada).

 

“A palavra articulada é uma necessidade de nossa organização. Como os Espíritos não necessitam de vibrações sonoras para lhes ferir os ouvidos, compreendem-se pela simples transmissão do pensamento, assim como por vezes acontece que nos entendemos por um simples olhar. Entretanto, os Espíritos fazem barulho. Sabemos que podem agir sobre a matéria e que essa matéria nos transmite o som. É assim que se dão a entender, quer por meio de pancadas, quer por meio de gritos que vibram no ar. Mas então o fazem para nós e não para eles. Voltaremos ao assunto em artigo especial, no qual trataremos da faculdade dos médiuns auditivos.”

 

16) Os Espíritos se deslocam com a velocidade do pensamento, sem fadiga e sem obstáculos materiais. Não há semelhança com a vida carnal.

 

“Enquanto arrastamos penosamente pela terra o nosso corpo pesado e material, como o condenado as suas cadeias, o dos Espíritos, vaporoso e etéreo, transporta-se sem fadiga de um lugar para outro; rasga o espaço com a velocidade do pensamento e tudo penetra, sem encontrar qualquer obstáculo material.”

 

17) A percepção dos Espíritos sobre o ambiente em que se encontram é muito mais acurada e abrangente do que a visão do encarnado.

 

“O Espírito vê tudo aquilo que vemos, e mais claramente do que nós. Além disso, vê aquilo que os nossos sentidos limitados não nos permitem ver. Penetrando, ele mesmo, a matéria, descobre o que a matéria oculta à nossa visão.”

 

18) Há uma multidão de Espíritos em torno de nós.

 

“Os Espíritos não são, pois, seres vagos e indefinidos, conforme as abstratas definições da alma a que nos referimos acima. São seres reais, determinados, circunscritos, que gozam de todas as nossas faculdades e de outras que nos são desconhecidas, porque inerentes à sua natureza. Eles têm as qualidades da sua matéria peculiar e constituem o mundo invisível que povoa o Espaço, envolvendo-nos e se acotovelando incessantemente conosco. Suponhamos desfeito por um instante o véu material que os oculta aos nossos olhos. Ver-nos-íamos cercados por uma multidão de seres que vão e vêm, agitam-se em torno de nós e nos observam, do mesmo modo que faríamos se nos encontrássemos em uma assembleia de cegos. Para os Espíritos, nós somos os cegos e eles são os videntes.”

 

19) É normal o estranhamento de parecer algo novo ao desencarnado, já que ele mesmo habita esse ambiente e já experimentou inúmeras vezes o estado da erraticidade.

 

“Dissemos que ao entrar em sua nova vida o Espírito precisa de algum tempo para se reconhecer; que ali tudo lhe é estranho e desconhecido. Perguntarão como pode ser assim se ele já teve outras existências corpóreas. Essas existências foram separadas por intervalos durante os quais ele habitou o mundo dos Espíritos. Então esse mundo não lhe deve ser desconhecido, desde que não o vê pela primeira vez.”

 

20) No período de perturbação após a morte, as ideias do Espírito são vagas e confusas, não conseguindo distinguir com facilidade a vida espírita da corpórea. Somente após recobrar a plena consciência suas lembranças das sensações ali experimentadas afloram.

 

“Várias causas contribuem para que essas percepções, embora já experimentadas, lhe pareçam novas. Como dissemos, a morte é sempre seguida por um instante de perturbação, mas que pode ser de curta duração. Nesse estado suas ideias são sempre vagas e confusas; a vida corpórea se confunde, até certo ponto, com a vida espírita e ele ainda não pode separá-las em seu pensamento. Dissipada a primeira impressão, as ideias pouco a pouco se aclaram e a ele volta, mas gradativamente, a lembrança do passado, pois essa memória jamais irrompe bruscamente. Só quando ele se encontra inteiramente desmaterializado é que o passado se desdobra à sua frente, como um espectro saindo de um nevoeiro. Só então ele se recorda de todos os atos de sua última existência, depois das existências anteriores e de suas várias passagens pelo mundo dos Espíritos. Compreende-se, pois, que durante um certo tempo esse mundo lhe pareça novo, até que ele se tenha reconhecido completamente e recuperado de maneira precisa a lembrança das sensações ali experimentadas.”

 

21) À medida que se eleva e se depura, o horizonte consciencial do Espírito se amplia e com ele, o círculo de suas ideias e percepções, por isso o despertar após cada desencarnação pode parecer novo.

 

“A essa causa, entretanto, deve juntar-se outra, não menos importante. O estado do Espírito, como Espírito, varia extraordinariamente na razão de sua elevação e de seu grau de pureza. À medida que se eleva e se depura, suas percepções e suas sensações se tornam menos grosseiras; adquirem mais acuidade, mais sutileza, mais delicadeza; vê, sente e compreende coisas que não poderia ver, sentir ou compreender numa condição inferior. Ora, cada existência corpórea sendo para ele uma oportunidade de progresso, lança-o a um meio novo para ele porque, se tiver progredido, encontra-se entre Espíritos de outra ordem, cujos pensamentos e hábitos são todos diferentes. Acrescente-se a isso que tal depuração lhe permite, sempre como Espírito, penetrar nesses mundos inacessíveis aos Espíritos inferiores, do mesmo modo que nos salões da alta Sociedade não têm acesso as pessoas mal-educadas. Quanto menos esclarecido, tanto mais limitado é o seu horizonte. À medida que se eleva e se depura, esse horizonte se amplia e com ele, o círculo de suas ideias e percepções.

A seguinte comparação pode facilitar-nos a compreensão. Suponhamos um camponês bruto, ignorante, vindo a Paris pela primeira vez. Poderá conhecer e compreender a Paris dos meios sábios e elegantes? Não, porque frequentará apenas as pessoas de sua classe e os bairros por elas habitados. Mas se no intervalo entre a primeira e uma segunda viagem esse camponês se desenvolveu e adquiriu instrução e boas maneiras, outros serão os seus hábitos e as suas relações. Então verá um mundo novo, em nada semelhante à Paris de outrora.

Dá-se o mesmo com os Espíritos, mas nem todos experimentam o mesmo grau de incerteza. À medida que progridem, suas ideias se desenvolvem e a memória se apura. Familiarizam-se previamente com a sua nova situação e seu regresso ao convívio dos outros Espíritos já nada tem que lhes cause admiração. Encontram-se novamente em seu meio normal e, passado o primeiro momento de perturbação, se reintegram quase imediatamente.

Essa é a situação geral dos Espíritos no estado que chamamos de erraticidade.”

 

22) Conforme o nível evolutivo e condições psíquicas, os Espíritos encontram-se de diferentes maneiras e possuem diferentes ocupações nos mundos físico e espiritual.

 

“Mas o que fazem nesse estado? Como passam o tempo? Isto é de um interesse capital para nós. São eles mesmos que vão responder, como foram eles que deram as explicações que acabamos de transmitir, de vez que nada disto é fruto de nossa imaginação. Não se trata de um sistema saído de nosso cérebro. Julgamos pelo que vemos e ouvimos. Posta de lado qualquer opinião relativamente ao Espiritismo, hão de convir que esta teoria sobre a vida de além-túmulo nada contém de irracional. Ela apresenta uma sequência e um encadeamento perfeitamente lógicos, que fariam honra a qualquer filósofo. Laboraríamos em erro se acreditássemos que a vida espírita é uma vida ociosa.

Ao contrário, ela é essencialmente ativa e todos nos falam de suas ocupações. Essas ocupações necessariamente diferem, conforme seja o Espírito errante ou encarnado.”

 

23) As ocupações dos encarnados decorrem das próprias características materiais dos mundos em que se encontram.

 

“No estado de encarnação, elas são relativas à natureza dos mundos habitados; às necessidades que dependem do estado físico e moral desses mundos, bem como da organização dos seres vivos. E não é disso que devemos tratar aqui. Falaremos apenas dos Espíritos errantes.”

 

24) Durante a erraticidade, os Espíritos atuarão conforme o grau evolutivo e respectivos interesses e possibilidades. Quanto mais evoluído, maior a sua atuação no universo, influenciando no progresso de cada mundo. Também podem atuar favoravelmente a um grupou ou a um encarnado, na condição de Espírito protetor, por exemplo. Não estão circunscritos a determinado local. Espíritos bons vão a todo lugar onde sua presença pode ser útil para dar conselhos, inspirar boas ideias, animar os desesperançados e fortalecer os fracos.

 

“Entre os que já atingiram certo grau de desenvolvimento, uns velam pela realização dos desígnios de Deus nos grandes destinos do Universo; dirigem a marcha dos acontecimentos e concorrem ao progresso de cada mundo. Outros tomam os indivíduos sob sua proteção, constituindo-se em seus gênios tutelares e anjos da guarda. Acompanham-nos desde o nascimento até a morte, buscando encaminhá-los pela estrada do bem. Sentem-se felizes quando seus esforços são coroados de sucesso. Alguns se encarnam em mundos inferiores, para neles realizar missões de progresso. Pelo trabalho, pelo exemplo, pelos conselhos e pelos sentimentos, procuram fazer que uns progridam nas ciências e nas artes, outros na moral. Então se submetem voluntariamente às vicissitudes de uma vida corpórea por vezes penosa, com o objetivo de fazer o bem, e o bem que fazem lhes é contado. Muitos, enfim, não têm qualquer atribuição especial. Eles vão a todo lugar onde sua presença pode ser útil para dar conselhos, inspirar boas ideias, animar os desanimados, fortalecer os fracos e castigar os presunçosos.”

 

25) O campo de atuação dos Espíritos desencarnados vincula-se, diretamente, aos encarnados.

 

“Se considerarmos o número infinito de mundos que povoam o Universo e o número incalculável de seres que os habitam, compreenderemos que os Espíritos têm muito em que se ocupar. Essas ocupações, entretanto, nada têm para eles de penoso. Exercem-nas com alegria, voluntariamente, sem constrangimento, e sua felicidade é triunfar naquilo que empreendem. Ninguém pensa numa ociosidade eterna, que seria um verdadeiro suplício.”

 

26) Organização dos Espíritos desencarnados superiores se dá no espaço, não em lugares circunscritos ou determinados. Encarnados emancipados podem participar, conforme as condições.

 

“Quando as circunstâncias o exigem, reúnem-se em conselho; deliberam sobre a marcha a seguir, conforme os acontecimentos; dão ordens aos Espíritos que lhes são subordinados e, a seguir, vão para onde o dever os chama. Essas assembleias são mais gerais ou mais particulares, conforme a importância do assunto. Nenhum lugar especial ou circunscrito é escolhido para essas reuniões. O Espaço é o domínio dos Espíritos. Contudo, elas se realizam de preferência nos mundos que lhes são o objeto. Os Espíritos encarnados, que neles estão em missão, delas participam, conforme a sua elevação. Enquanto o corpo repousa, vão receber conselhos dos outros Espíritos e, por vezes, receber ordens relacionadas com a conduta que devem ter como homens. É verdade que ao despertar não guardam lembrança muito nítida daquilo que se passou, mas têm a intuição, que os leva a agir como se fosse por sua própria iniciativa.”

 

27) Espíritos desencarnados menos evoluídos atuam com maior limitação, não com a mesma abrangência de seres mais evoluídos, mas limitando suas ações a determinado mundo e, geralmente, a pessoas. Quanto mais presos às lembranças mundanas, mas restrita a compreensão sobre a realidade que vivem.

 

“Descendo na hierarquia, encontramos Espíritos menos elevados, menos depurados e, consequentemente, menos esclarecidos, mas nem por isso piores e que, numa esfera de atividade mais restrita, desempenham funções análogas. Em vez de estender-se a diferentes mundos, sua ação é antes exercida num mundo especial e relacionada com o seu grau de desenvolvimento. Sua influência é mais individual e tem como objetivo coisas de menor importância. Vem a seguir a multidão de Espíritos vulgares, mais ou menos bons, mais ou menos maus, que pululam em torno de nós. Esses estão ligeiramente acima da Humanidade, cujas nuanças representam e como que refletem, pois têm todos os vícios e virtudes que a caracterizam. Em muitos deles encontramos os gostos, ideias e inclinações que possuíam em vida. Suas faculdades são limitadas, seu julgamento falível como o dos homens e por vezes errôneo e carregado de preconceitos.”

 

28) Sem o entorpecimento dos sentidos provocados pelo corpo físico, os Espíritos sentem com mais intensidade as consequências morais dos atos praticados quando estavam encarnados.

 

“Noutros é mais desenvolvido o senso moral. Mesmo sem grande superioridade nem grande profundidade, julgam com mais critério, por vezes até condenando aquilo que fizeram, disseram ou pensaram em vida. Aliás, há uma coisa notável: é que, mesmo entre os Espíritos mais comuns, de um modo geral, os sentimentos são mais puros como Espíritos do que como homens. A vida espírita os esclarece quanto aos seus defeitos e, salvo poucas exceções, arrependem-se amargamente e lamentam o mal que fizeram, pois sofrem mais ou menos cruelmente as suas consequências.”

 

29) Em geral, os desencarnados estão mais propensos a reconhecerem suas necessidades morais.

 

“Vimos alguns desses que não eram melhores do que tinham sido em vida. Nunca, porém, os vimos piores. O endurecimento absoluto é muito raro e apenas temporário, porque mais cedo ou mais tarde acabam lamentando a sua posição.”

 

30) Sem as vestes carnais, os Espíritos desejam com mais veemência o progresso moral reconhecendo ser esse o caminho necessário para deixarem sua inferioridade.

 

“Pode-se, pois, dizer que todos aspiram ao aperfeiçoamento, porque todos compreendem que é este o único meio de saírem da sua inferioridade. Instruir-se e esclarecer-se, eis a sua grande preocupação e eles se sentem felizes quando podem a isto acrescentar pequenas missões de confiança que os elevam aos seus próprios olhos.”

 

31) Os desencarnados se reúnem por afinidade, conforme seus interesses e nível moral. Acompanham diretamente as atividades dos encarnados e, quando possível, analisam seus comportamentos para prepararem com mais objetividade a vida futura.

 

“Também eles têm as suas assembleias, de maior ou menor importância, conforme a natureza de seus pensamentos. Falam-nos, veem e observam aquilo que se passa. Participam de nossas reuniões, de nossos jogos, de nossas festas e de nossos espetáculos, assim como de nossas ocupações sérias. Escutam as nossas conversas, os mais levianos como divertimento ou para rir à nossa custa, ou ainda para nos pregarem uma peça, desde que o possam; os outros, a fim de instruir-se.

Observam os homens, analisam o seu caráter e fazem aquilo a que eles chamam estudo dos costumes, com o fito de escolherem a sua existência futura.”

 

32) A compreensão do contexto após a desencarnação, depende da extensão do período de perturbação em que se encontra o Espírito. Quanto mais evoluído moral e intelectualmente, mais rápida é a adaptação. Espíritos ainda presos nas paixões e sensações da matéria possuem maior dificuldade de adaptação, pois gostariam de saciar suas paixões, mas não conseguem.

 

“Vimos o Espírito no momento em que, deixando o corpo, entra em sua vida nova. Analisamos as suas sensações e seguimos o seu desenvolvimento gradual das ideias. Os primeiros momentos são empregados em reconhecer-se e compreender o que se passa com ele. Numa palavra, ele, por assim dizer, experimenta as próprias faculdades, como a criança que pouco a pouco vê crescerem-lhe as forças e os pensamentos. Falamos dos Espíritos vulgares, pois os outros, como já dissemos, estão de certo modo e previamente identificados com o estado espírita, que nenhuma surpresa lhes causa senão a alegria de se encontrarem livres dos entraves e dos sofrimentos corporais. Entre os Espíritos inferiores muitos sentem saudades da vida terrena, porque sua situação como Espíritos é cem vezes pior. Eis porque buscam distrair-se com a visão daquilo com que outrora se deliciavam. Essa visão, contudo, lhes é um suplício, porque sentem desejos mas não podem satisfazê-los.”

 

33) A necessidade de progredir moral e intelectualmente incentiva os desencarnados ao trabalho para o próprio aprimoramento. Alguns já estão mais conscientes sobre essa necessidade de progresso do que outros, mas invariavelmente todos a perceberão.

 

“Entre os Espíritos é geral a necessidade de progresso. Isto os excita ao trabalho por seu melhoramento, de vez que compreendem que é esse o preço de sua felicidade. Mas nem todos sentem essa necessidade no mesmo grau, principalmente no início. Alguns chegam mesmo a comprazer-se numa espécie de vagabundagem, aliás de pouca duração; logo a atividade se torna para eles uma necessidade imperiosa, à qual, aliás, são arrastados por outros Espíritos que neles estimulam os sentimentos do bem.”

 

34) Espíritos desequilibrados pelo desejo do mal tentam atingir encarnados moralmente frágeis.

 

“Vem a seguir o que se pode chamar de escória do mundo espírita, constituída de todos os Espíritos impuros, cuja preocupação única é o mal. Sofrem e desejariam que todos sofressem como eles. A inveja lhes torna odiosa toda superioridade. O ódio é a sua essência. Não podendo culpar disso os Espíritos, investem contra os homens, atacando os que lhes parecem mais fracos. Excitar as paixões ruins; insuflar a discórdia; separar os amigos; provocar rixas; fazer que os ambiciosos pavoneiem o seu orgulho, pelo prazer de abatê-los em seguida; espalhar o erro e a mentira, numa palavra, desviar do bem, tais são os seus pensamentos dominantes.”

 

35) O nível evolutivo da Terra ainda atrai, por afinidades, Espíritos com o desejo do mal. Ninguém, entretanto, está desamparado do auxílio de Espíritos benévolos. Basta persistimos no bem para se aumentar a afinidade com os Bons Espíritos e afastar os Espíritos ainda desequilibrados no mal.

 

“Mas por que permite Deus que assim seja? Deus não tem que nos prestar contas. Dizem-nos os Espíritos superiores que os maus são provações para os bons e que não há virtude onde não há vitória a conquistar. Aliás, se esses Espíritos malfazejos se acham na Terra, é que aqui encontram eco e simpatias. Consola-nos o pensamento de que acima deste lodo que nos cerca existem seres puros e benevolentes que nos amam, nos sustentam, nos encorajam e nos estendem os braços, atraindo-nos, a fim de nos conduzirem a mundos melhores, onde o mal não encontra acesso, desde que saibamos fazer o que for preciso para merecê-lo.”

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Comentários sobre o livro "Pureza Doutrinária"


 

Comentários gerais

Em pouco mais de 100 páginas, esta obra caracteriza-se pela simplicidade e objetividade de sua proposta, voltada à identificação e à crítica sob a perspectiva doutrinária de práticas e conceitos estranhos ao Espiritismo, adotados por alguns adeptos no movimento espírita.

Enfatizando a necessidade do estudo sério e aprofundado das obras kardequianas para se conhecer, realmente, o Espiritismo, Ary Lex discorre sobre as motivações mais superficiais que levam parte significativa do público a uma casa espírita, geralmente para a resolução de problemas físicos, familiares ou profissionais.

Como afirma o autor, a “massa de sofredores e, numerosas vezes, de curiosos dos fenômenos, vem pressionando os centros espíritas para que lhe ofereçam aquilo que seu primitivismo espiritual exige: uma prática espírita cada vez mais deformada e mais cheias de rituais”. O sincretismo decorrente dessas pressões e tendências pessoais acabam trazendo deturpações ao movimento espírita.

Pontuando aspectos históricos da evolução do pensamento humano sobre a realidade que nos cerca, Ary Lex destaca o Espiritismo como avanço nesse conhecimento, assim como destacaram os próprios Espíritos a Kardec.

O papel do método científico também é evidenciado como primordial para se analisar qualquer fenômeno e qualquer informação, seja de origem mediúnica ou não, antes de considerá-los como parte integrante do Espiritismo.

            Ao analisar as deturpações que invadiram algumas casas espíritas, o autor as classifica em dois grandes grupos: as ingênuas (que não possuem o intuito premeditado de deturpar os conceitos doutrinários) e as dolosas (aquelas com a intenção de exploração da credulidade ou objetivando outros interesses).

            Ary Lex comenta sobre o misticismo presente em algumas escolas espiritualistas, principalmente orientalistas, as quais também possuem determinados pontos de contato com o Espiritismo, como a aceitação da imortalidade do Espírito, a reencarnação e a existência de Deus. Tais escolas, ainda que respeitáveis e com relevantes contribuições ao conhecimento humano, colidem doutrinariamente com o Espiritismo em muitos outros aspectos e, logicamente, não podem ser consideradas fontes de conceitos e práticas para serem importados à doutrina espírita. Dentre essas escolas, estão: Teosofia, Rosa-Cruz, Esoterismo, Krishnamurtismo, Bramanismo, Budismo, Taoísmo, dentre outras.

            Sobre as deturpações místicas e orientalistas provocada por supostas comunicações mediúnicas, Ary Lex analisa a influência do Espírito Ramatis, recebido pelo médium Hercílio Maes, cujas obras foram amplamente divulgadas no mercado editorial.

            Outros casos de deturpação mística e fantasiosa citados pelo autor como presentes no movimento espírita são:  falsos parapsicólogos, invencionices pseudocientíficas, astrologia, piramidologia, rituais, recomendação de roupas específicas para a atividade mediúnica, abstinência obrigatória da alimentação animal, casamentos e batizados “espíritas” etc.

            Em síntese, é uma obra que incentiva o exercício da fé raciocinada com base nos parâmetros e preceitos doutrinários.

 

Coerência doutrinária do conteúdo com as obras fundamentais de Allan Kardec: 

(X) Integral  (    ) Parcial  (   ) Nenhuma (  ) Não aplicável

 

Considerando que o principal objetivo deste livro é, justamente, alertar para as inconsistências lógicas e doutrinárias que deturpam a compreensão dos princípios e valores espíritas, tal qual Allan Kardec orientou, considera-se que esteja coerentemente alinhada com as obras fundamentais do Espiritismo.

            Far-se-ia necessário, entretanto, maior desenvolvimento sobre a questão do processo evolutivo do ser, tratada no Capítulo V – Doutrina e prática – Deturpações orientais, p. 58 e 59. Ary Lex, restringindo o conceito de vida somente à manifestação dos seres orgânicos (pela presença do fluido vital) e a desvinculando da atividade por si só do princípio inteligente, afirma inexistir qualquer atuação direta desse princípio no reino mineral, contrastando com outras abordagens doutrinárias sobre a relação natural entre o espírito e a matéria (ver, por exemplo, LE–27, LE-28, LE-540, LE-585, dentre outras). Os conceitos de “força mecânica nos seres inorgânicos”, “vida” e “atividade” do princípio inteligente deveriam ser desenvolvidos com mais clareza pelo autor, porém essa discussão não prejudica a qualidade e a proposta da obra.

            O próprio conceito de “pureza doutrinária”, ainda que compreensível quando concebido como plena adesão ao ensino dos Espíritos validados pelo critério da universalidade que não se misturam ou confundem com princípios e conceitos de outras doutrinas, pode levar a interpretações que limitam o próprio caráter progressivo da doutrina (pois algo puro já se encontra no grau máximo de limpidez e clareza, logo não necessitaria ser depurado ou progredir). O termo “coerência doutrinária” representa mais adequadamente a intenção do autor, uma vez que o avanço do conhecimento espírita perante novos fatos e comprovações objetivas é previsto, logo, o conhecimento pode ser ampliado e não se encontra inerte em seu grau máximo.

  

Avaliador: Marco Milani 

Cidade: Holambra 

Data: 28/04/2024


Fonte: 

Banco de Pareceres de Livros – USE – União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (usesp.org.br)


quarta-feira, 1 de maio de 2024

Progresso espírita e manipulação semântica

 

Progresso espírita e manipulação semântica

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 32, maio de 2024, p. 7-8

 

Allan Kardec, ao apontar como condição indispensável que todas as partes do conjunto da doutrina estivessem determinadas com precisão e clareza para assegurar a sua unidade no futuro, já reafirmava a relevância do significado das palavras.[1] Sem ambiguidades, o Espiritismo não deveria gerar interpretações variadas de seus ensinos e conceitos quando estudados de maneira sincera, responsável e intelectualmente madura.

Tal característica didática também seria uma medida adequada para se enfrentar um problema contextual. Kardec conhecia as motivações menos nobres daqueles que, por vaidade ou outros interesses, tentariam inovar e reescrever o Espiritismo objetivando satisfazer desejos e ambições pessoais, culminando por fomentar dissidências e cismas.

Outro aspecto relevante à consolidação do Espiritismo é o seu caráter progressivo, compreendido por Kardec como aquele aberto ao aperfeiçoamento das ideias que se mostrarem verdadeiras perante fatos e comprovações diretas, porém refutando propostas utópicas, fantasiosas e opinativas que carecerem de validação objetiva.

O dinamismo, portanto, está previsto na ortodoxia espírita, rejeitando-se o imobilismo, mas respeitando-se a prudência necessária para se aceitar algo novo e modificar ou abandonar o antigo.

Assim como na época de Kardec, atualmente identificam-se adeptos ávidos a reformular o Espiritismo sob interesses diversos, não somente para visibilidade pessoal, mas para o favorecimento de concepções que variam do misticismo supersticioso e fantástico à militância político-ideológica. Em geral, alegam que novas informações surgiram e não se pode ficar preso no tempo, mas nenhum deles segue a prudência metodológica para se validar objetivamente as “novidades” a serem aceitas universalmente, servindo-se fartamente de falaciosos argumentos de autoridade.

A heterodoxia, propensa a uma alteração afoita dos princípios doutrinários mediante a adoção de novidades, atribui a certos médiuns, Espíritos, palestrantes, escritores, representantes de correntes sociológicas, dentre outros, uma pretensa autoridade moral ou intelectual suficiente para negar a contemporaneidade dos ensinos contido nas obras fundamentais do Espiritismo. Sinteticamente, consideram que o conhecimento doutrinário que foi validado pelo critério da universalidade do ensino dos Espíritos está, de forma parcial ou integral, obsoleto ou inválido.

Especificamente no grupo de atualizadores com fins políticos, muitos consideram que seus modelos utópicos de sociedade representam um novo estágio moral para a humanidade e, desrespeitando a convivência democrática e a liberdade de consciência, usam a narrativa totalitária de que qualquer um que divergir de suas propostas reformistas são seres moralmente inferiores e contrários ao progresso que não mereceriam viver em sociedade. Ao transportarem sua beligerância à seara espírita, afirmam que o mundo de regeneração será implantado na Terra quando suas propostas políticas forem concretizadas e, ainda, que o caráter progressivo do próprio Espiritismo levará, naturalmente, à defesa de seus modelos utópicos. Quem for politicamente contrário, não poderá, segundo eles, ser considerado espírita pois não teria a moralidade esperada do verdadeiro adepto.

Certamente, o caráter progressivo do Espiritismo refere-se ao desenvolvimento do conhecimento doutrinário relacionado à compreensão da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal, mas não se coaduna com transitórias, enviesadas e limitadas disputas político-partidárias.

O maniqueísmo presente nas disputas de narrativas políticas reduz os adversários e contraditores a um único grupo estereotipado e estigmatizado para melhor ser combatido, assim como tenta capturar o monopólio das virtudes por declarar-se integrante do grupo “correto ou moralmente avançado”.

A manipulação semântica da palavra e do conceito de progresso e de suas derivações (progressivo, progressista etc.) para uso político, por exemplo, é fruto de má-fé intelectual com a clara intenção de ressignificar o termo, afastando-se da concepção espírita que não se atrela a qualquer tendência político-partidária. O Espiritismo está acima de qualquer legenda ou ideologia política, seja de que época ou local for.

O espírita, como cidadão, tem a liberdade de escolher o caminho político que achar mais conveniente, seja qual for essa opção, e ninguém tem autoridade e legitimidade para tentar colocar cabresto no adepto para direcionar qual regime ou sistema de governo ele deve defender.

Durante as reuniões das Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas lideradas por Kardec sentavam-se, lado a lado, indivíduos com diferentes opções políticas e sociais. Liberais, socialistas, monarquistas, republicanos e outras denominações da época estavam unidos pelo laço de fraternidade esperado aos espíritas sinceros, independentemente das divergências de suas escolhas pessoais.

O Espiritismo não se confunde com aqueles que se declaram espíritas, os quais possuem, por sua vez, diferentes graus de maturidade doutrinária e variadas preferências e ocupações na sociedade.

A manipulação semântica de termos e conceitos doutrinários promove incompreensão, ilusões, animosidades, além de fornecer armas aos detratores e incentivar cismas.

A clareza e a objetividade dos conceitos espíritas devem servir para unir os adeptos e contribuir para a transformação moral de cada um pelo conhecimento da realidade espiritual, refletindo na construção de uma sociedade melhor.[2]

 



[1] Ver Revista espírita, dez/1858, Constituição transitória do Espiritismo - Dos cismas.

[2] Ver Obras póstumas – 1ª parte – Liberdade, igualdade e fraternidade.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Desistiu sem saber...

 

Desistiu sem saber...

 

Marco Milani

 

Recentemente, foi disponibilizado um vídeo no Youtube intitulado “Por que desisti do espiritismo?”[1], em que uma pessoa trajada com um tipo de veste religiosa na cor branca discorre sobre sua trajetória de vida, informando que ingressou na Ordem Rosacruz ao 16 anos de idade e, simultaneamente, passou a frequentar um centro espírita. O depoente afirma que, com o passar do tempo, o Espiritismo deixou de atender às suas expectativas e, segurando um exemplar de O livro dos espíritos para aparentar conhecimento sobre o assunto, elenca os três motivos que o fizeram se afastar da doutrina espírita.

               O 1º motivo é que, segundo ele, haveria uma aceitação destemperada das dificuldades e das dores como consequências de erros do passado, levando a uma acomodação dos indivíduos. Seria uma aceitação passiva da dor e do sofrimento, diferentemente da postura de resistência e transformação que ele afirmou existir em algumas escolas “iniciáticas” e gnósticas.

               Certamente o autor do vídeo não compreendeu a proposta libertadora do Espiritismo com relação ao protagonismo do ser perante seu próprio futuro em um ambiente regido pelas leis de Justiça, Amor e Caridade e que valoriza-se o esforço do próprio aprimoramento moral e intelectual. Em momento algum o Espiritismo propõe o comodismo e o apassivamento do indivíduo, ao contrário. O ensino dos Espíritos nos permite compreender a Justiça divina no processo reencarnatório em que cada um depara-se com as consequências de suas próprias ações e é incentivado pelas leis naturais a progredir. Não existem milagres ou fórmulas místicas e mágicas que definam o futuro de alguém, a não ser ele mesmo interagindo com leis perfeitas e imutáveis. Sem esforço, não se progride. Não se revoltar perante as mazelas da vida, sabendo que tudo tem uma causa justa, não significa aceitação passiva, mas conhecimento que afasta o inconformismo raivoso contra Deus e sua Justiça. Se o autor do vídeo tivesse lido com mais atenção o Capítulo V da obra O evangelho segundo o espiritismo, por exemplo, dentre inúmeras outras passagens doutrinárias que explicitam a responsabilidade de nossas ações e suas consequências, talvez tivesse uma outra abordagem sobre o assunto.

               O 2º motivo alegado é que o Espiritismo teria uma visão eurocêntrica e cristã, desmerecendo ou ignorando que todos os povos do mundo possuem seus próprios caminhos e mestres, não sendo nenhum deles melhor que os demais. Para o autor, o Espiritismo se colocaria numa posição de primazia perante outras filosofias e essa seria uma atitude arrogante.

               Novamente, o autor do vídeo parece não ter compreendido a proposta universal do ensino dos Espíritos, uma vez que as leis divinas são as mesmas em qualquer lugar. Por uma questão lógica de coerência, não se pode importar conceitos com significados próprios de doutrinas variadas, ocidentais ou orientais, e aplicá-los com outras conotações, ainda que a essência possa se assemelhar em alguns aspectos, mas diferencia-se em outros. Em momento algum o Espiritismo desvaloriza as diferentes filosofias e culturas não cristãs existentes na humanidade, pois todas refletem determinado grau de compreensão local e temporal da realidade em que vivemos, mas não é por isso que renegará o avanço do conhecimento gerado por uma nova abordagem metodológica decorrente de comunicações mediúnicas obtidas não somente na França, mas em diferentes países com os quais Kardec se correspondia, inclusive em outros continentes. Igualmente, destacará as instruções e o exemplo de Jesus, apontado pelos Espíritos como o tipo de perfeição moral que o homem pode aspirar na Terra.

               O 3º motivo apontado pelo autor do vídeo seria um menosprezo do Espiritismo às tradições esotéricas e gnósticas.

               Considerando que o autor do vídeo demonstrou compartilhar crenças respeitáveis, porém místicas, como na Ordem Rosacruz, não é de se estranhar que exista um incômodo quanto às incompatibilidades de posturas. No Espiritismo, por exemplo, não se tem qualquer nível iniciático ou abraça-se hábitos de como se vestir, ou adota-se amuletos e talismãs, muito menos reserva-se segredos e informações restritas apenas a alguns. Apontar-se a ineficácia de tais práticas não significa desrespeitar quem as aprecia.

               Entretanto, um motivo que o autor não explicitou, mas transparece em seu desconforto com a não aceitação do misticismo pelo Espiritismo, é o fato de que ele elabora e comercializa “mapas numerológicos pessoais”, como anunciado no próprio vídeo que fez. Por acreditar que exista um significado oculto nos números que influenciam o comportamento e o destino dos homens, além de vender produtos a isso relacionados, não surpreende que tenha se afastado de uma doutrina que desmistifica essas práticas e não estimula o ganho financeiro com elas.

 



[1] Vídeo disponível em: https://youtu.be/OyQhwCq6L1o?si=XLTVsy3oIxbxj-X1

segunda-feira, 15 de abril de 2024

O real do Evangelho


O real do Evangelho

Marcelo Henrique*


Kardec teve coragem para publicar a “imitação” que virou “autêntica obra”, desafiando o poder clerical do seu tempo. Sua obra “O evangelho segundo o Espiritismo”, permanece provocando o desconforto de todo aquele “pregador” que pretende manter o “rebanho” sob suas rédeas, usufruindo algum benefício desta relação.

Em quinze de abril de 1864, depois de sete anos de seleção criteriosa de mensagens recebidas à sua vista ou enviadas por carta dos mais diferentes lugares, sobretudo da Europa, Allan Kardec resolveu publicar um livro que seria, ainda mais, afrontoso à moral religiosa vigente, seja ela católica ou protestante.

É fato que, desde a publicação do livro pioneiro – “O livro dos espíritos”, em abril de 1857 – os embates nem sempre eram amistosos, sobretudo da parte dos interlocutores religiosos. Mas, em “O que é o Espiritismo”, no Terceiro Diálogo, com o Padre, vemos um Kardec didático e compreensivo, como se ainda estivesse na cátedra escolar, proporcionando, por meio de dialéticas detalhadas, a compreensão mais acurada dos propósitos espiritistas.

Na Espanha, no entanto, o clero não estava nem um pouco disposto a dialogar e as ligações íntimas entre Igreja e Estado permitiram o confisco e a queima em praça pública de 300 volumes de obras espíritas, no “Auto de Fé de Barcelona” (9 de outubro de 1861).

Mas, ao publicar “Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo”, Rivail-Kardec alcança o coração da Igreja Romana, porque se “apropria” de um conhecimento que, até então, somente pertencia à religião institucionalizada. Vale lembrar que, de um universo de mais de cinquenta textos que falam dos feitos e das pregações de Jesus de Nazaré, apenas quatro deles tinham reconhecidos pela cúria romana como oficiais – canônicos – sendo, os demais, tratados como apócrifos.

A audácia de Rivail-Kardec

Como, então, poderia alguém não ligado à religião, falar da vida de “Nosso Senhor” e ainda interpretar parábolas, atos, ações e curas (“milagres”), no contexto compreendido entre o nascimento e a paixão e morte daquele Sublime Carpinteiro, dando interpretações bem distintas daquelas pertencentes aos dogmas religiosos?

Blasfêmia!

Preliminarmente, Kardec não se valeu do conteúdo integral dos textos atribuídos a João, Lucas, Marcos e Mateus. Numa análise completa do conteúdo do “Evangelho Espírita”, não será possível encontrar muitos dos textos que estão nos capítulos e versículos do “Novo Testamento”. Espero que isto não seja surpresa para você, que estuda o Espiritismo.

Afinal de contas, sabe-se, os Evangelhos sofreram diversas modificações no curso da História, perpetradas pelo poder religioso vigente, com a intenção de fundamentar a dogmática litúrgica. Historicamente, três dos quatro autores viveram proximamente a Jesus, sendo dois deles seus discípulos (Mateus e João). Marcos, provavelmente, tenha sido um adolescente cujos pais acompanhavam alguns dos feitos e pregações do Nazareno, recebendo informações dos mesmos, enquanto Lucas teria vivido distante de Jesus, mas buscou aproximação com Maria, sua mãe, ouvindo dela muitos dos relatos.

Mesmo assim, a Igreja Romana apropriou-se de tais relatos e impregnou os mesmos de elementos para justificar os fundamentos da religião e, numa análise espírita, com base nos princípios e fundamentos da Doutrina dos Espíritos, percebe-se o tom místico e sobrenatural que é presente em muitas das passagens evangélicas.

A proposta do Professor francês para falar da Ética de Yeshua

Então, o que fez Kardec em parceria com as Inteligências Superiores? Selecionou os trechos que seriam verossímeis e corresponderiam à Moral de Jesus para explica-los à luz do Espiritismo. É o que se vê, logo na abertura do livro, no subtítulo da obra, em sua versão definitiva – que não é mais “Imitação”, mas, sim, “O Evangelho segundo o Espiritismo” – onde se lê: “Contendo a explicação das máximas morais do Cristo, sua concordância com o Espiritismo e sua aplicação às diversas situações da vida”.

Eis, aí, o ROTEIRO da obra “mais religiosa” do Espiritismo. E esta delimitação dada por Kardec é essencial, não só para o entendimento do que figura nos vinte e sete capítulos temáticos da obra – excepciono o último, o XXVIII, porquanto ele exorbite a proposta inicial da obra, para servir de referência para os que quiserem praticar a prece “segundo” o Espiritismo – como para demonstrar a desnecessidade “doutrinária” de ir buscar, nos textos da Bíblia (Novo Testamento) católica, por exemplo, versículos que não foram apropriados e interpretados conforme a razão lógica espírita. E, tampouco, outros livros como cartas, epístolas ou os atos dos apóstolos.

Quer conhecer – e bem – o homem Yeshua (Jesus de Nazaré), filho biológico de Maria e José? Centre seus esforços, dedicação, tempo, interesse e muita atenção, nos textos de “O Evangelho”. Embora Jesus também apareça nas demais obras kardecianas, é neste que ele é desnudado, em “Espírito e Verdade”.

Não é à toa, também, que o Evangelho Espírita é o livro de maior tiragem e maior vendagem – em termos de edições e editoras que, até hoje, o comercializaram e comercializam. Os números editoriais consagraram-no como o “livro mais popular” entre os da literatura espírita clássica, demonstrando o forte viés religioso dos espíritas brasileiros.

Igreja? Seita? Religião? Não!

Mas Kardec não pretendeu fundar nenhuma igreja ou seita. Ao cunhar o Espiritismo como um neologismo – não vou discutir, aqui, se a palavra “Spiritsm” era ou não vigente na segunda metade do século XIX, por não ser o objetivo deste artigo e, também, por já existirem textos suficientes no meio espírita sobre isso – para definir a “Doutrina dos Espíritos”, ele a delimitou, no ramo dos conhecimentos humanos, como sendo uma “Filosofia Espiritualista com bases científicas e consequências ético-morais”. Nem mais, nem menos.

Este livro, que homenageamos em função da data, é muito mais do que um “livro de cabeceira”, apesar dele conter inúmeras mensagens relevantes para os distintos momentos da trajetória de vida dos espíritas (ou dos simpatizantes). É um livro para ser criteriosamente estudado, inclusive em face das interconexões que a obra tem com as demais.

Mas o estudioso dedicado do Espiritismo poderá perceber um outro elemento. Ao realizar o amplo exame do “laboratório mediúnico” de Rivail-Kardec, a “Revista de Estudos Psicológicos”, ou “Revue Spirite”, encontrará uma imensidão de textos que lá estiveram em maturação (1857-1869) para que, talvez, pela concordância universal dos ensinos dos Espíritos, em relação aos novos textos, pudesse proporcionado uma “edição revista e ampliada” d’“O Evangelho”, com muitas questões afetas a Jesus e o seu “ministério” de três anos sobre a Terra, com novos contornos, quem sabe, para as questões afetas às lições e às curas.

Remontando ao processo mediúnico, aquele professor esteve em contato espiritual, pela intuição – já que não era dotado de mediunidade ostensiva – com muitos Espíritos adiantados, em inteligência e moralidade, como Verdade, Erasto, Fénelon, S. Luís, Agostinho, Francisco, Antônio. Alguns identificados em mensagens, outros anônimos. Não nos resta dúvidas de que o Mestre Maior também estivesse presente na elucidação de muitas questões espirituais.

O Evangelho de Kardec, hoje

Hoje me pego folheando o Evangelho, não só para embasar as qualificadas e produtivas discussões que fazemos, já há três anos, recém-completados, em nossa “sala de aula virtual permanente”, o grupo “Espiritismo COM Kardec”, no Facebook, mas para alinhavar os significados espíritas para a personalidade ímpar do Rabi, com a atmosfera espiritual do Planeta e para a utilização do mesmo como plataforma de ação para a consolidação de uma Humanidade transformada, no adiante estágio regenerativo, dentro da progressão dos mundos.

Parabéns, Kardec! Sua coragem em publicar a “imitação” que virou “autêntica obra”, desafiando o poder clerical do seu tempo, permanece provocando o desconforto de todo aquele “pregador” que pretende manter o “rebanho” sob suas rédeas, usufruindo algum benefício desta relação.

Mas não entre nós. Porque o “Evangelho Espírita” é sinônimo e ferramenta de LIBERTAÇÃO espiritual! Este é o REAL sentido do Evangelho!

--------------

 *O autor é coordenador do grupo Espiritismo COM Kardec e preparou este texto em homenagem aos 160 anos do lançamento da obra O evangelho segundo o Espiritismo.


terça-feira, 2 de abril de 2024

Leitura (ou não) das obras fundamentais de Allan Kardec por dirigentes espíritas

 


Leitura (ou não) das obras fundamentais de Allan Kardec por dirigentes espíritas

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 31, abril de 2024, p. 9-10

 

Conforme levantamento realizado com 115 dirigentes espíritas (MILANI FILHO, 2022), constatou-se uma situação preocupante com relação à divulgação doutrinária: em média, apenas 56,5% dos respondentes afirmaram ter lido, integralmente e pelo menos uma vez, todas as 5 obras consideradas fundamentais do Espiritismo, de autoria de Allan Kardec.

Na Tabela 1, observa-se a frequência de respostas, por tempo declarado pelo dirigente de adesão ao Espiritismo.

 

Tabela 1 – Leitura integral das obras fundamentais

                         Fonte: Milani Filho, 2022

 Legenda

LE – O livro dos espíritos;  LM – O livro dos médiuns; ESE – O evangelho segundo o espiritismo; CI – O céu e o inferno; GEN – A gênese.

 

            Entre todos os respondentes, as obras mais lidas são: O livro dos espíritos (93,0%) e O evangelho segundo o espiritismo (91,3%). As obras menos lidas, por sua vez, são: O livro dos médiuns (78,3%), O céu e o inferno (70,4%) e A gênese (69,9%).

Conforme o esperado, os respondentes com mais tempo de vivência espírita apresentam maior familiaridade com as obras indicadas. Por exemplo, 71,2% dos dirigentes com mais de 30 anos declarados de adesão ao Espiritismo já leram todas as obras fundamentais, entretanto, isso significa que 28,8% desse grupo experiente não leram esse conjunto de livros. Certamente, essa ausência de leitura pode implicar desconhecimento de conteúdo doutrinário relevante.

A participação dos respondentes com tempo inferior a 5 anos de adesão é pequena (3,5%), mas verifica-se que desses, 50% nunca leram uma das obras fundamentais de maneira integral, 25% leram todas e os demais 25% leram, ao menos uma delas, de maneira completa.

            No grupo com tempo entre 6 e 10 anos de adesão, representando 8,7% do total da amostra, 90% já leram integralmente ao menos uma das obras, ou seja, 10% não leram integralmente nenhuma delas. Quase os mesmos percentuais do grupo de 11 a 20 anos.

            Na faixa de 21 a 30 anos, 52,0% leram todas as obras e, consequentemente, 48,0% desses dirigentes espíritas não leram pelo menos uma das cinco obras fundamentais em sua totalidade.

            O fato de 56,5% dos respondentes não terem lido integralmente ao menos uma das obras fundamentais pode sinalizar um problema na argumentação doutrinária, principalmente pelo fato dessas pessoas ocuparem posições de dirigentes em casas espiritas. Diante da frequência de leitura inferior de obras como O livro dos médiuns, O céu e o inferno e A gênese, a própria compreensão dos princípios e valores doutrinários fica comprometida.

            O desconhecimento das cinco obras fundamentais, sem contar o restante dos livros com riquíssimo conteúdo doutrinário que deveriam ser leitura obrigatória a qualquer um que realmente queira conhecer e praticar o Espiritismo, como a coleção da Revista Espírita, O que é o Espiritismo, Viagem espírita de 1862 etc., faz com que alguns adotem narrativas compensatórias para relativizar a relevância do estudo. Ao justificar, por exemplo, que o importante é fazer o bem e não ficar preocupado em estudar sobre a natureza, a origem e o destino dos Espíritos, assim como sobre as suas relações com o mundo corporal, aquele que se autodeclara espírita e não conhece os princípios da doutrina que supõe abraçar, pode desorientar alguém que realmente deseja conhecer o Espiritismo com ideias fantasiosas, místicas e supersticiosas se estiver na posição de dirigente de uma instituição espírita.

      Na edição de dez/1868 da Revista Espírita, ao apontar os riscos de cismas no Espiritismo, Allan Kardec destacou que o personalismo e as interpretações equivocadas do conteúdo doutrinário seriam algumas de suas causas.

          Ressaltando-se que a clareza e a objetividade do ensino deveriam ser os fatores relevantes para a unidade doutrinária, os diferentes graus de compreensão do Espiritismo, aliados às paixões pessoais de alguns supostos adeptos, podem promover a disseminação de ideias divergentes dos princípios doutrinários e provocar a desunião.

Desde sua origem, não faltaram no movimento espírita propostas fantasiosas feitas por místicos que desafiavam a lógica em nome do ocultismo e revelações exclusivas. Sempre “em nome do bem”. Todos foram, com fraternidade e firmeza, contra-argumentados por Kardec, o qual demonstrava a falta de coerência doutrinária e de sustentação filosófica e científica dessas propostas mirabolantes e supersticiosas.

            Ao dirigente espírita, portanto, não basta a boa vontade, mas o conhecimento para desempenhar seu papel orientador de maneira coerente. Estudar as obras de Kardec é fundamental.

 ---

*MILANI FILHO, M. A. F. Coerência doutrinária espírita: limites e desafios. In: FONSECA, A. Coerência doutrinária na pesquisa espírita. 1ª ed. São Paulo: CCDPE, 2022. Cap. 1, p. 21-51.