Ficção
espiritualista versus coerência doutrinária
Marco
Milani
A ampla difusão de obras literárias e audiovisuais de temática
espiritualista tem despertado interesse crescente pela sobrevivência da alma,
pela continuidade da vida após a morte e pela realidade do mundo invisível.
Esse movimento possui mérito inicial, pois convida à reflexão e rompe a
indiferença materialista. O problema surge quando produções pertencentes ao
campo da ficção espiritualista passam a ser tomadas como expressão fiel da
Doutrina Espírita, substituindo o estudo metódico das obras fundamentais por
impressões emocionais e lúdicas.
Para compreender o equívoco, é indispensável distinguir três planos. O
espiritualismo, em sentido amplo, constitui categoria filosófica aberta, que
admite múltiplas concepções sobre alma e transcendência. A ficção
espiritualista pode apresentar narrativas moralmente edificantes ou
simbolicamente expressivas, sem que isso lhe confira autoridade normativa. O
Espiritismo, por sua vez, conforme estruturado por Allan Kardec, funda-se em
método próprio, controle racional das comunicações mediúnicas e universalidade
do ensino dos Espíritos. Confundir esses níveis dissolve a especificidade
doutrinária em um conjunto indistinto de crenças emocionais.
O próprio Kardec esclarece a ordem pedagógica adequada ao afirmar, em
O Livro dos Médiuns, no capítulo dedicado ao método, que antes de tornar alguém
espírita é preciso torná-lo espiritualista. A recomendação indica que a
aceitação racional da existência da alma e da vida futura constitui preparação
necessária para a compreensão do corpo doutrinário. O espiritualismo é,
portanto, porta de entrada e não ponto de chegada. Quando a ficção é confundida
com Doutrina, essa ordem se inverte, pois a emoção narrativa antecede e por
vezes substitui o entendimento racional.
Sob perspectiva kardequiana, revelações individuais não constituem a doutrina.
Comunicações isoladas, ainda que elevadas moralmente ou atraentes
literariamente, carecem de validação pelo duplo crivo da razão e da
concordância universal. Narrativas espirituais podem consolar, sugerir imagens
simbólicas do além ou estimular reflexões morais, mas permanecem no domínio da
representação e não da definição doutrinária. Elevá-las à condição normativa
desloca o Espiritismo do campo do conhecimento progressivo para o da crença
afetiva.
Os riscos dessa substituição são concretos. Primeiramente,
introduzem-se concepções particulares não submetidas ao controle universal,
como descrições minuciosas do mundo espiritual, hierarquias específicas ou
mecanismos de comunicação não confirmados pela universalidade dos ensinos.
Aceitos sem exame, tais elementos adquirem aparência de verdade revelada e
passam a moldar o imaginário coletivo mais do que os princípios essenciais da
Doutrina. Em seguida ocorre a primazia da emoção sobre o entendimento. A força
estética da narrativa produz adesão afetiva imediata e reduz o impulso ao
estudo crítico, de modo que o indivíduo se comove, mas não necessariamente
compreende. Por fim instala-se a fragmentação interpretativa, na qual
diferentes obras romanceadas geram visões concorrentes do mundo espiritual e
enfraquecem a coerência construída pelo controle universal, multiplicando
concepções dependentes da imaginação e não das leis gerais.
A aceitação acrítica dessas produções revela dificuldade intelectual
típica de uma cultura dominada pela imagem. Em vez de submeter a narrativa ao
critério doutrinário, submete-se a doutrina ao impacto narrativo. A ilustração
converte-se em fundamento, a emoção em evidência e a ficção em referência. Tal
movimento não fortalece o Espiritismo, mas o aproxima do misticismo difuso que
o método kardequiano buscou superar.
Isso não implica rejeição absoluta de romances espiritualistas. Tais
obras podem cumprir função pedagógica indireta ao despertar interesse inicial
pelo estudo sério e preparar o terreno para a compreensão espiritualista
indicada por Kardec. O problema não está em sua existência, mas em sua elevação
indevida à condição de síntese doutrinária. A apreciação torna-se legítima
quando acompanhada de subordinação explícita às obras básicas, confronto
racional das ideias apresentadas e distinção clara entre edificação moral e
autoridade doutrinária. Sem essas balizas, a emoção substitui o conhecimento.
A responsabilidade não recai apenas sobre autores ou produtores, mas
também sobre instituições e lideranças que, por entusiasmo ou estratégia de
divulgação, acabam endossando implicitamente a equivalência entre ficção e
Doutrina. Quando espaços de estudo utilizam narrativas imaginativas como fonte
principal de ensino, contribuem para o empobrecimento metodológico do próprio
movimento. Divulgar não é legitimar e sensibilizar não é esclarecer.
Preservar a coerência doutrinária exige reconhecer que o Espiritismo
não se define por imagens sedutoras do além, mas por princípios racionais
universais relativos à natureza do Espírito, sua imortalidade, seu progresso e
sua responsabilidade moral. Toda representação concreta do mundo espiritual é
necessariamente parcial e provisória. O Espiritismo situa-se no plano das leis
gerais e não no dos cenários particulares.
Assim, a ficção espiritualista pode consolar, inspirar e conduzir
alguns ao estudo inicial, cumprindo o papel preparatório indicado por Kardec ao
recomendar formar primeiro o espiritualista. Contudo não representa o
Espiritismo em sentido doutrinário. Confundir ficção com revelação significa
abdicar do método que constitui a própria identidade e autoridade espírita. Sem
método o espiritualismo emociona, com método o Espiritismo esclarece, consola e
liberta da ignorância.


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