domingo, 1 de fevereiro de 2026

A caridade é voluntária

 

A caridade é voluntária

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 53, fev/2026, p.9-10

 

A caridade, na concepção espírita, é um ato essencialmente livre, inseparável da autonomia moral do indivíduo. Não nasce da imposição de normas externas nem da pressão exercida pelo meio social, mas da adesão consciente do Espírito ao bem. O ensino dos Espíritos é explícito ao afirmar, no capítulo 25, item 8, de O Evangelho segundo o Espiritismo, que não é por meio de leis que se decretam a caridade e a fraternidade, pois, se não estiverem no coração dos homens, o egoísmo sempre as asfixiará. Com isso, o problema da prática do bem é deslocado do campo jurídico ou institucional para o campo da educação moral, onde a liberdade interior ocupa lugar central.

Essa compreensão é aprofundada quando se observa o sentido preciso atribuído à caridade na questão 886 de O Livro dos Espíritos. Ali, ela não é definida como simples assistência material, mas como um conjunto de disposições morais permanentes, sintetizadas na benevolência para com todos, na indulgência para com as imperfeições alheias e no perdão das ofensas. Trata-se, portanto, de um estado interior do Espírito, incompatível com qualquer forma de coerção. Ninguém pode ser obrigado a ser benevolente, indulgente ou verdadeiramente disposto a perdoar. Essas atitudes só têm valor moral quando resultam de uma escolha íntima, consciente e livre.

Essa definição espírita entra em choque direto com propostas materialistas de reorganização social que, sob o discurso sedutor da igualdade e da justiça, pretendem reformar a sociedade por meio da imposição coletiva sobre o indivíduo. Tais concepções partem da ideia de que a transformação social precede e determina a transformação moral, e que a coerção é meio legítimo para produzir comportamentos considerados virtuosos. O Espiritismo rejeita essa inversão. Conforme os Espíritos, nenhuma ordem social será justa enquanto não houver progresso moral dos indivíduos que a compõem. A igualdade imposta por força externa pode produzir uniformidade aparente, mas não fraternidade. A justiça decretada sem renovação interior tende a degenerar em dominação e ressentimento.

A análise desenvolvida por Kardec na 2ª parte de Obras Póstumas é particularmente esclarecedora nesse ponto. Ao examinar o ideal de liberdade, igualdade e fraternidade no texto que leva esse título, Kardec demonstra que a fraternidade é a base real das duas outras. Sem ela, a igualdade se converte em nivelamento forçado e a liberdade se transforma em ameaça à própria ordem social. É o orgulho que resiste à igualdade e o egoísmo que inviabiliza a fraternidade. Enquanto essas chagas morais não forem combatidas no íntimo do ser, qualquer tentativa de reforma social fundada apenas em estruturas externas produzirá equilíbrios frágeis e conflitos recorrentes.

As propostas materialistas coletivistas ignoram esse dado essencial da natureza humana. Ao tratar o indivíduo como simples engrenagem de um projeto abstrato de sociedade, acabam por sacrificar a liberdade moral em nome de uma utopia que jamais se realiza. A coerção, apresentada como meio temporário para alcançar um suposto bem comum, tende a se perpetuar, pois não elimina as causas profundas do egoísmo e do orgulho. Apenas as desloca ou as mascara sob novas formas de poder.

A caridade voluntária, ao contrário, atua na raiz do problema. Ela não busca suprimir a individualidade, mas educá-la. Não pretende anular a liberdade, mas orientá-la. O Espiritismo não promete uma sociedade perfeita por decreto, nem se ilude com soluções rápidas baseadas em engenharia social. Sua proposta é mais exigente e mais duradoura: a transformação progressiva do Espírito, pela compreensão das leis morais e pela responsabilidade pessoal.

Essa perspectiva também lança luz sobre a realidade contemporânea, em que discursos de justiça social muitas vezes convivem com práticas de intolerância, coerção moral e perseguição simbólica a quem diverge. Quando a fraternidade é proclamada, mas não vivida, e quando a caridade é exigida, mas não escolhida, o resultado é a contradição entre palavras elevadas e atitudes excludentes. A moral espírita não se sustenta nesse terreno, pois reconhece que o bem imposto deixa de ser bem em sentido moral.

O Espiritismo propõe uma pedagogia da liberdade responsável. Seu método é único e não busca formar comportamentos padronizados nem consciências submissas, mas indivíduos capazes de agir pelo bem por convicção íntima diante do conhecimento das leis divinas. Por isso, Kardec insiste que a tarefa essencial do Espiritismo é melhorar os indivíduos pelo esclarecimento da realidade. Não se trata de multiplicar decretos, campanhas ou slogans, mas de incentivar a luta interior para a superação efetiva do orgulho e do egoísmo, únicos obstáculos reais ao progresso moral e social.

Ao afirmar que a caridade é voluntária, o Espiritismo não relativiza sua importância, mas a eleva à sua mais alta dignidade. Somente o ato livre, consciente e desinteressado, fundado na benevolência, na indulgência e no perdão, possui força real para transformar o Espírito e, por consequência, a sociedade. Leis podem organizar a convivência, mas não criam virtudes. É pelo aprimoramento íntimo do indivíduo, e não na coerção coletiva, que se constrói a fraternidade autêntica, a igualdade justa e a liberdade verdadeira.

 

 


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Entre a tolerância e a coerência doutrinária

Entre a tolerância e a coerência doutrinária

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.210, jan/fev 2026, p. 31-32

 

Em tempos de ampla exposição digital, quando inúmeros canais nas redes sociais se apresentam como difusores do Espiritismo, multiplicam-se conteúdos que mesclam noções verdadeiras com fantasias, opiniões pessoais e notícias falsas. Essa proliferação de discursos sem critério, amparada pela aparência de autoridade espiritual, tem produzido confusão e prejudicado a compreensão racional da doutrina espírita.

 O fenômeno não é novo: todas as doutrinas filosóficas, ao longo da história, enfrentaram o desafio de lidar com as crenças populares que se aproximavam de alguns de seus princípios, mas divergiam em outros. O Espiritismo não está imune a essa situação.

No cotidiano de algumas instituições espíritas, observa-se a presença de ideias e práticas que, embora bem-intencionadas, não se harmonizam com os fundamentos codificados por Allan Kardec. Surge, então, uma pergunta crucial aos dirigentes espíritas: até que ponto é legítimo tolerar certas distorções em nome da boa convivência e da fraternidade, sem comprometer a coerência doutrinária que garante a identidade do Espiritismo? A fé espírita é raciocinada, não cega. Ao considerar-se que a “fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade”[1], evidencia-se um dos pilares do Espiritismo. Estabelece-se uma linha divisória entre a crença que se sustenta na lógica e nas leis naturais e a crendice que repousa em opiniões, modismos ou influências culturais externas sem exame crítico.

A tolerância é virtude quando se refere às pessoas, mas torna-se conivência e omissão quando se aplica aos erros conceituais ou às práticas que desfiguram os princípios e valores espíritas. Os adeptos em geral, mas sobretudo os dirigentes espíritas, têm a responsabilidade de cultivar o acolhimento sem abrir mão da lucidez.

Não é de hoje que expressões de sincretismo e de misticismo infiltram-se no movimento espírita, muitas delas justificadas por argumentos como: “o que importa é o fundo, não a forma”, “Kardec não disse tudo”, ou ainda, “se for em nome amor, tudo vale”. Essas ideias, repetidas de modo aparentemente benevolente e sem o devido cuidado, têm servido como salvo-conduto para interpretações e práticas contrárias ao ensino doutrinário. Ao não exercer o compromisso ético com a fé raciocinada, ataca-se a identidade doutrinária e substitui-se o bom senso pelo sentimentalismo, a análise crítica pela crença lúdica e emocional.

O controle universal do ensino dos Espíritos não é mero adorno. Kardec não apresentou um conjunto místico, mas princípios estruturados por método experimental e filosófico. A atitude racional e investigativa é, portanto, parte indissociável da doutrina. Sem ela, comete-se um equívoco epistemológico.

Uma mensagem espiritual pode conter apelos morais elevados, mas se contradisser as leis naturais ou as bases da Codificação, não pode ser considerada espírita, por mais edificante que pareça. O fundo moral não redime o erro doutrinário; ao contrário, um erro bem-intencionado é ainda mais perigoso porque se mascara sob aparência de virtude.

A aceitação acrítica de crendices sob o argumento da caridade fraterna tem produzido efeitos sutis, porém marcantes, na cultura das instituições. Em muitos centros, multiplicam-se expressões que remetem a práticas mágicas, místicas ou ritualísticas, ainda que sob roupagem “espiritualizada”. Dirigentes, receosos de causar desconforto, preferem não corrigir equívocos e assim abrem espaço para que o erro se instale sob o pretexto de não julgar. A omissão, nesse caso, não é tolerância, mas negligência pedagógica.

O centro espírita é também uma escola, e ao dirigente cabe o papel de educador. A caridade genuína não dispensa o esclarecimento, pois é pelas luzes da verdade que o Espírito se liberta da ignorância.

É comum ouvir que o Espiritismo deve se adaptar aos tempos modernos, aceitando novas ideias e expressões espirituais. De fato, a doutrina é progressiva, no sentido de estar aberta à análise de descobertas da ciência. Contudo, progresso não significa relativismo.

A tolerância com ideias e práticas que deformam os princípios não é progresso, mas regressão à fase da crença cega que o Espiritismo veio justamente superar.

A postura do dirigente espírita deve, portanto, equilibrar firmeza doutrinária e fraternidade real. É possível acolher quem chega com visões distorcidas e, ao mesmo tempo, conduzir o grupo à compreensão lúcida da Doutrina. Isso exige preparo intelectual, estudo sistemático das obras de Allan Kardec e coerência no exemplo. O dirigente não é um censor, mas um orientador que ensina pela clareza, não pela imposição. Quando a instituição espírita se mantém coerente com os princípios doutrinários e aberta ao diálogo, cria um ambiente saudável, onde a razão e a fé se apoiam mutuamente. Tolerar as pessoas é expressão da caridade, mas tolerar o erro conceitual é abandonar a própria missão educativa que deveria caracterizar o dirigente espírita.

Em um mundo saturado de discursos emocionais e crenças instantâneas, a tentação de flexibilizar o rigor doutrinário em nome da inclusão é grande. No entanto, cada concessão feita à incoerência enfraquece a confiança na seriedade do Espiritismo e desorienta os que buscam nele uma filosofia sólida. A missão das casas espíritas é acolher, esclarecer e educar, não adaptar-se às modas da ocasião ou às expectativas de agradar a todos. O verdadeiro amor é lúcido e instrutivo.

 



[1] Ver O Evangelho segundo o Espiritismo, Capítulo XIX, item 7.

 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Temas para o 1º Encontro de Pesquisa e Ciência Espírita da USE


 Temas para o 1º Encontro de Pesquisa e Ciência Espírita da USE

 

Alexandre Fontes da Fonseca*

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.210, jan/fev 2026, p. 21-22

 

No último número da revista Dirigente Espírita, apresentamos uma nova atividade que ocorrerá no 19o Congresso Estadual da USE: o primeiro Encontro de Ciência e Pesquisa Espírita (EnCPE) da USE. Como a expressão “encontro de ciência e pesquisa” pode sugerir a ideia de que só participam pesquisadores experientes, mestres e doutores acadêmicos, ou ainda estudiosos tradicionais, preparamos esse artigo para esclarecimento. Na verdade, todo e qualquer adepto espírita pode participar do 1o EnCPE.

Um dos objetivos da Assessoria de Ciência e Pesquisa Espírita (ACPE) da USE é esclarecer e fomentar a contribuição do adepto espírita em geral para o avanço do conhecimento espírita, sem precisar ter títulos ou diplomas formais de pesquisador. No espiritismo, o conhecimento é mais importante que o título acadêmico, assim como para Deus, o sentimento é mais importante do que a hierarquia religiosa de uma pessoa. Na matéria anterior, citamos exemplos de teses que confrades espíritas comuns (incluindo os jovens) submeteram e apresentaram para discussão nos primeiros congressos da USE, desde 1947. A ideia é retomar isso, ainda que em menor escala.

O 1o EnCPE oferecerá ao congressista da USE a oportunidade de expor um estudo próprio para os demais participantes, não importa sua idade, formação ou experiência. Como o adepto espírita em geral não conhece esse tipo de atividade, ele(a) pode estar se perguntando “como e/ou que tipo de estudo ou contribuição, eu poderia submeter e apresentar?”

As explicações completas sobre o 1o EnCPE se encontram no documento do seguinte link: https://usesp.org.br/wp-content/ uploads/2025/11/Convite-EnCPE- -USE.pdf.

Aqui, nesta matéria, pretendemos responder à questão acima com exemplos e sugestões de temas:

- História do movimento espírita da sua região. Faça uma pesquisa junto aos confrades da sua região para saber qual foi, por exemplo, o primeiro centro espírita aberto, que pessoas o abriram, etc. Se puder, registre como o movimento espírita da região foi crescendo, expondo os números atuais de adeptos e casas espíritas. Não precisa fazer a pesquisa sozinho (isto é, a pesquisa pode ter coautores), nem precisa ser um volume de informações enorme, digno de um “doutorado” JANEIRO / FEVEREIRO 2026 No 210 21 no assunto. Basta obter um mínimo dessas informações e organizá-las para apresentar em 15 minutos aos demais.

- Coerência doutrinária de livros novos ou antigos. Esse é um tema muito importante e necessário pois permite o exercício da fé raciocinada com base no estudo dos fundamentos kardequianos. Escolha um livro ou, mesmo, um capítulo de um livro que você aprecia, e analise o conteúdo comparando as afirmações com os princípios da Doutrina Espírita.

- Nova atividade do centro espírita que você dirige/participa. Descreva alguma atividade de natureza assistencial, de estudos, de engajamento de novos adeptos, etc., implantados recentemente ou que você sabe não ser comum no meio espírita. Descreva a atividade e os resultados. Essa é uma oportunidade de compartilhar boas ideias com o movimento espírita paulista.

- Estudos da Revista Espírita (RE). A RE é riquíssima em exemplos de fenômenos, estudos e análises de Kardec. Escolha um ou mais artigos ou temas da RE, leia-os e prepare um resumo para apresentar aos demais. Essa é uma forma de exercitar o estudo e se preparar para futuras contribuições ao avanço do conhecimento espírita.

- Resumos de capítulos de alguma obra de Kardec. Escolha um capítulo da obra fundamental do espiritismo com a qual mais se afiniza. Leia-o e prepare um resumo apresentando seus pontos principais, os argumentos de Kardec, suas contribuições para o entendimento de fenômenos espíritas e consequências para o aprimoramento moral das pessoas. Qualquer capítulo de qualquer livro de Kardec é bem-vindo, incluindo os de natureza moral. Filosoficamente, o que ou quem define o escopo de pesquisa de uma área de conhecimento é ela própria. O Evangelho é parte integrante do espiritismo, portanto faz parte do seu escopo de pesquisa. Os capítulos d’O evangelho segundo o espiritismo ilustram bem a importância da fé raciocinada baseada nos princípios da Doutrina, para o entendimento correto de várias das afirmações de Jesus.

- Avanços da ciência ou filosofia e o espiritismo. Muitas pessoas têm apreço por estudos que tenham fundamentação kardequiana e esclarecem temas como saúde, justiça, relações sociais, etc. Outros têm interesse em temas de ciências naturais como a física e a química, e possíveis relações com conceitos espíritas como, por exemplo, o de fluidos. Essas relações podem ser bem-vindas desde que não se baseiem em interpretações superficiais da ciência ou do espiritismo.

- Ensino de espiritismo. Assim como todas as áreas do conhecimento possuem pesquisas no tocante ao seu ensino, o espiritismo também precisa desenvolver essa área de estudo e pesquisa. Portanto, se você tem alguma experiência diferente, nova, que envolva o estudo e ensino de espiritismo para crianças, jovens e adultos, aproveite a oportunidade de compartilhar esse conhecimento e experiências com o movimento espírita paulista. Escreva sobre a sua atividade, dando exemplos didáticos, exemplos de materiais e ferramentas de ensino, métodos, etc.

Outros exemplos de temas estão sugeridos no documento do link mais acima.

Se você se sente interessado em contribuir com o conhecimento espírita, não deixe a timidez impedi-lo(a) de aproveitar essa oportunidade de apresentar um estudo próprio ao movimento espírita paulista. Mesmo se você for jovem e/ou pessoa desconhecida no meio espírita, se estiver planejando participar do congresso, considere preparar e submeter um resumo do seu estudo para o 1o EnCPE.

No próximo número, explicaremos como preparar e escrever o resumo. Não precisa ser formador de opinião para ter um resumo aceito. A análise será feita do conteúdo e não do nome do autor. Para participar basta seguir as instruções do documento.

Não há nenhum custo adicional para participar do 1o EnCPE. Os resumos aprovados formarão os anais do 1o ENCPE – USE e serão posteriormente publicados nos anais do 19o Congresso Espírita. A ACPE está à disposição para tirar dúvidas pelo do endereço acpe@usesp.org.br.

 

*Alexandre Fontes da Fonseca é da Assessoria de Pesquisa e Ciência Espírita da USE.

Arrependimento, Expiação e Reparação na Justiça Divina

Arrependimento, Expiação e Reparação na Justiça Divina

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.210, jan/fev 2026, p. 12-13

 

A tríade apresentada em O Céu e o Inferno, arrependimento, expiação e reparação, constitui o núcleo racional e moral da justiça divina e, por consequência, do processo evolutivo do ser. Essa tríade não descreve um mecanismo punitivo imposto ao Espírito, mas um processo pedagógico profundamente vinculado à consciência, à liberdade e à responsabilidade moral. Ela explica como o Espírito progride a partir de si mesmo, sem condenações eternas e sem dependência de circunstâncias pessoais específicas.

O arrependimento representa o primeiro movimento autêntico de transformação interior. Ele não se confunde com o sofrimento ou com o simples remorso emocional, pois pode haver dor sem arrependimento e arrependimento sem dor intensa. O arrependimento verdadeiro nasce quando o Espírito reconhece racionalmente o erro cometido, compreende suas consequências morais e passa a desejar sinceramente não mais agir daquela forma. Trata-se de um ato da consciência desperta rompendo a identificação do Espírito com o erro. Enquanto o indivíduo se justifica, se vitimiza ou atribui suas faltas a outros ou a fatores externos, permanece moralmente estacionado. O arrependimento, ao contrário, desloca o eixo da responsabilidade para o próprio ser, tornando possível o progresso.

A expiação surge como consequência natural desse estado moral ainda imperfeito. Os Espíritos deixam claro a Kardec que a expiação não é um castigo infligido por Deus, mas o efeito inevitável do desequilíbrio interior do ser. O sofrimento expiatório pode manifestar-se no estado espiritual, pela lucidez dolorosa diante do bem negligenciado, ou no estado corporal, sob a forma de provas e dificuldades que estimulam o aprendizado moral. O ponto essencial é que a expiação não tem duração predeterminada nem finalidade punitiva. Ela persiste enquanto o Espírito não se transforma intimamente. Assim, não é o sofrimento em si que purifica, mas a compreensão que dele se extrai. Quando a disposição ao bem é sincera e conhece-se como praticá-lo, a expiação perde progressivamente sua razão de ser, pois o Espírito já não necessita desse recurso educativo.

A reparação constitui o momento decisivo da tríade. Ela é a consolidação do arrependimento interior pela ação moral positiva e efetiva. Reparar não significa apenas compensar materialmente um dano, mas reconstruir, pelo bem, aquilo que foi destruído ou negado pelo mal. A justiça divina não se realiza com o sofrimento estéril, mas com a harmonia reparadora. No entanto, essa ação não deve ser compreendida de maneira simplista ou literal, como se fosse obrigatória a convivência futura exatamente com as mesmas pessoas que foram prejudicadas no passado. Essa interpretação, além de reducionista, introduz um determinismo incompatível com a liberdade e a universalidade da lei moral.

A reparação não depende das pessoas específicas envolvidas no erro primário, mas da transformação moral do Espírito e de sua disposição em fazer o bem em sentido amplo. O mal praticado contra alguém é expressão de uma imperfeição moral, como egoísmo, orgulho, indiferença ou violência. A reparação verdadeira ocorre quando essa imperfeição é superada e substituída por atitudes opostas, como solidariedade, humildade, respeito e caridade, exercidas onde quer que o Espírito se encontre. Assim, quem abusou do poder repara aprendendo a servir; quem foi indiferente ao sofrimento alheio repara desenvolvendo sensibilidade e compromisso com o próximo; quem explorou repara trabalhando pelo bem comum. Não há exigência inflexível para que isso ocorra, necessariamente, com as mesmas pessoas do passado, ainda que possa ser possível. O essencial não é o cenário, mas o aprendizado moral. A justiça divina não se estrutura como um sistema de compensações aritméticas entre indivíduos identificáveis, mas como um processo educativo contínuo orientado ao aperfeiçoamento do Espírito.

A reencarnação é um meio, não um fim em si mesma, com oportunidades educativas compatíveis com as demandas evolutivas do indivíduo.

Compreendida dessa forma, a tríade arrependimento, expiação e reparação revela sua profunda relevância ao processo evolutivo espiritual, assegurando que ninguém está condenado ao erro passado e que a justiça divina opera por meio da consciência e da liberdade dentro das leis naturais. O Espírito evolui não porque sofre, mas porque compreende; não porque paga, mas porque se transforma; não porque repete o passado, mas porque aprende a superá-lo. Essa visão dissolve o medo, o fatalismo e o misticismo moral, substituindo-os por uma ética racional da responsabilidade e da esperança, na qual cada ser é, ao mesmo tempo, autor e beneficiário de sua própria regeneração.

O processo de transformação individual não se esgota na esfera íntima do Espírito, pois seus efeitos irradiam-se inevitavelmente para o meio social. À medida que o indivíduo supera imperfeições morais e consolida valores como responsabilidade, respeito e solidariedade, suas atitudes passam a influenciar positivamente as relações humanas, as instituições e a vida coletiva. O progresso moral de cada ser colabora diretamente para a redução dos conflitos, para o fortalecimento da confiança social e para a construção de uma convivência mais justa e cooperativa, demonstrando que a renovação da sociedade começa, necessariamente, pela renovação das consciências, e não como resultado de um suposto movimento histórico impessoal e determinista.

Dessa forma, a tríade arrependimento, expiação e reparação revela-se não apenas um princípio de justiça divina aplicado ao destino do Espírito, mas também um fundamento ético do progresso humano. Ao promover a responsabilidade individual e a superação consciente do erro, ela oferece uma base racional para o aprimoramento simultâneo do ser e da sociedade, indicando que a verdadeira evolução coletiva não resulta de imposições externas e materialistas, mas da soma das transformações morais livremente conquistadas por cada indivíduo ao longo de sua trajetória evolutiva.

 

sábado, 3 de janeiro de 2026

Duelos modernos

Duelos modernos

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 52, jan/2026, p.8-9


O duelo, tal como apresentado pelos Espíritos a Allan Kardec[1], revela uma forma de fuga moral. Longe de expressar coragem ou dignidade, ele evidencia a incapacidade do indivíduo de enfrentar as dificuldades do orgulho ou de seus valores materiais. O duelista não suporta a prova da ofensa perante olhos de terceiros, não aceita a contrariedade como exercício moral e foge ao esforço íntimo de dominar as próprias paixões. Ignora-se a experiência educativa que a vida oferece e nega-se a responsabilidade pessoal diante das próprias provas.

Sob o ponto de vista do processo evolutivo, Kardec é incisivo ao demonstrar que essa prática encerra duas formas de violação da lei divina. Quando o contendor mais experiente tira a vida do outro, comete assassinato, ainda que amparado por convenções sociais ou códigos artificiais de honra. Quando o ofendido, mais fraco ou menos habilidoso sucumbe, trata-se de suicídio indireto, pois aceita conscientemente uma situação que sabe poder levá-lo à morte. Nenhuma dessas circunstâncias atenua a gravidade do ato, pois a lei divina é clara ao repudiar o atentado contra a vida, seja ela própria ou alheia, nascida ou em gestação. A formalidade do ritual jamais altera a essência moral do crime nem lhe confere legitimidade.

Na raiz desse comportamento está o orgulho aliado à vaidade, sustentados por um falso conceito de honra que depende do olhar e da aprovação dos outros. Em vez de buscar a tranquilidade da própria consciência, o indivíduo submete-se ao julgamento externo e transforma a vida em instrumento de afirmação social. Esse suposto ponto de honra, tão valorizado em épocas passadas, nada mais é do que a exaltação do ego ferido. O Espiritismo demonstra que tais impulsos somente podem ser superados pela caridade, pela humildade e pelo amor ao próximo, virtudes que substituem a lógica da revanche pela da compreensão e da indulgência.

Na contemporaneidade, essa mesma lógica não desapareceu, apenas mudou de cenário. Os duelos modernos já não ocorrem em campos afastados ou salões reservados, mas nas redes sociais, onde o espaço físico foi substituído pelo ambiente virtual. Embora não haja espadas nem pistolas, o comportamento belicoso permanece essencialmente o mesmo. A honra, agora travestida de reputação digital, mede-se por curtidas, seguidores, compartilhamentos e pela aprovação de grupos ideologicamente alinhados. Uma crítica pública, um comentário discordante ou uma exposição indesejada são suficientes para deflagrar confrontos verbais intensos, marcados por agressividade, sarcasmo e desejo de aniquilação simbólica do outro.

O distanciamento físico introduzido pela mediação tecnológica agrava ainda mais esse quadro. Protegido por telas e perfis, o indivíduo sente-se menos responsável por suas palavras e atitudes, reduzindo os freios morais que normalmente regulam as interações presenciais. Ataca-se um nome, uma imagem ou um rótulo, não uma pessoa concreta, com história, sentimentos e limitações. A plateia virtual exerce papel semelhante ao público dos antigos embates, incentivando a escalada do conflito, premiando a ironia mais cruel e o ataque mais contundente. O resultado é a normalização da violência simbólica e a substituição da reflexão pelo impulso reativo.

Por essa razão, o fenômeno permanece contrário à lei de Amor, Justiça e Caridade, ainda que assuma formas aparentemente mais civilizadas. Trata-se da mesma prática atrasada e moralmente bárbara, agora disfarçada pela linguagem, pela ironia e pela exposição pública. Kardec não a combate apenas como costume histórico, mas como expressão de uma moralidade ainda primitiva, que confunde justiça com vingança e firmeza de convicção com intolerância. O Espiritismo propõe sua superação definitiva por meio do perdão, da fraternidade vivida e da educação moral, mostrando que somente quando o amor se tornar regra efetiva das relações humanas o reino de Deus encontrará condições para se estabelecer na Terra.

Isso não significa que não se possa discordar e discutir vitualmente como proposta elucidativa ou de busca de conhecimento, mas adequadamente quando se refere a ideias e não a pessoas.

É inegável que o abrandamento dos costumes revela certo progresso. A passagem do confronto armado para formas menos explícitas de agressão indica que a consciência coletiva começa a rejeitar a violência direta. No entanto, esse avanço permanece incompleto enquanto a transformação não ocorrer no íntimo do ser.

O objetivo do Espiritismo basicamente volta-se à melhoria do ser humano pelo conhecimento da realidade espiritual e das leis naturais, extinguindo o mal pela raiz e tornando o duelo uma recordação de um passado superado. Em seu lugar, propõe-se a ampliar a prática do bem, na qual os homens competem não para humilhar ou destruir, mas para alcançar a paz consciencial. Somente essa mudança interior consolida o verdadeiro progresso e liberta o indivíduo da escravidão do orgulho, conduzindo-o à paz da consciência e à harmonia com a lei divina.

As ferramentas de comunicação contemporâneas, portanto, são moralmente neutras, mas se transformam em instrumentos cujo valor depende do uso que delas se faz. Elas podem servir à repetição dos velhos vícios do orgulho, da agressividade e da intolerância, apenas deslocados para um novo ambiente, ou podem tornar-se meios poderosos de disseminação do bem, de esclarecimento e de aprimoramento pessoal. Cada palavra publicada, cada resposta oferecida e cada silêncio assumido refletem uma escolha íntima. É nesse campo de decisões individuais que se revela o verdadeiro progresso moral, não na tecnologia em si, mas na direção que o ser humano decide imprimir a ela.



[1] Ver O livro dos espíritos, questão nº 757 e O evangelho segundo o espiritismo, Capítulo 12, itens 11 a 16.

 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Análise crítica da edição brasileira da obra Socialismo e Espiritismo, publicada pela Casa Editora O Clarim


 

Análise crítica da edição brasileira da obra Socialismo e Espiritismo, publicada pela Casa Editora O Clarim

 

Marco Milani

 

Texto originalmente publicado no Jornal de Estudos Espíritas, em 1º/jan/2026*

 

Resumo

O presente artigo analisa criticamente a edição brasileira da obra Socialismo e Espiritismo, de Léon Denis, prefaciada por Freitas Nobre, traduzida e comentada por Wallace Leal Rodrigues e publicada pela Casa Editora O Clarim em 1982. Com base no texto original em francês (Socialisme et Spiritisme, 1924), examina-se a fidelidade da tradução e a introdução de elementos interpretativos anacrônicos que alteram o sentido doutrinário e filosófico pretendido por Denis. Este estudo analisa todo o livro, destacando passagens específicas de sua tradução e de seu prefácio, redigido por um político profissional, que confere ao texto um viés ideológico estranho ao conceito idealista originalmente proposto por Denis. Argumenta-se que tais modificações podem induzir o leitor a associações equivocadas, obscurecendo o fato de que a proposta de Denis, que ele denomina “socialismo espiritualista”, contrapõe-se às concepções socialistas calcadas no materialismo e no coletivismo. Conclui-se que a tradução de Rodrigues, embora mantenha, em linhas gerais, a coerência doutrinária e a sequência argumentativa da obra, carece de rigor terminológico e neutralidade interpretativa em determinadas passagens. Recomenda-se, ainda, revisões críticas da obra baseadas no texto original, a fim de contextualizar e restabelecer o pensamento de Denis direcionado à ênfase moral e meritória do indivíduo para seu progresso espiritual e, consequentemente, da sociedade.

Palavras-chave: Humanismo. Espiritismo. Socialismo. Anacronismo.

  

1. Introdução

 

            Léon Denis (1846–1927) foi um dos principais continuadores de Allan Kardec e figura central do movimento espírita francês da Terceira República. Autodidata e orador de reconhecida eloquência, dedicou-se à divulgação e à sistematização filosófica do Espiritismo após a morte de Kardec, defendendo-o como síntese entre ciência, filosofia e moral. Membro ativo da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e colaborador constante da Revista Espírita, sua obra foi marcada pela reflexão filosófica envolvendo o aperfeiçoamento do Espírito, questões religiosas e sociais, pautando-se por uma visão moral universalista.

            Entre fevereiro e outubro de 1924, Léon Denis publicou na Revista Espírita uma série de oito artigos sob o título Socialismo e Espiritismo. Esses textos, escritos nos últimos anos de sua vida, expressam suas preocupações sociais pensadas à luz dos princípios da filosofia espírita. Posteriormente reunidos sob forma de livro, os artigos representam a tentativa de Denis de conciliar o ideal de melhoria da sociedade com a lei de progresso moral e individual, afastando-se das correntes materialistas e revolucionárias do socialismo político. O autor examina a fraternidade e a solidariedade como marcas da evolução espiritual, propondo uma abordagem humanista e idealista que ele denominou, particularmente, de “socialismo”, fundado na reencarnação e na responsabilidade moral pessoal.

É fundamental compreender que o conceito de “socialismo” utilizado por Léon Denis difere, em muitos aspectos, do sentido político e econômico que a palavra adquiriu posteriormente. No início do século XX, o termo era empregado de modo amplo, abrangendo propostas de reforma moral e social inspiradas em valores cristãos, humanistas e espiritualistas, e não apenas nas concepções materialistas do marxismo (Vincent, 1992; Winock, 2017). Denis utiliza o vocábulo enfatizando um sentido ético e espiritual, associando solidariedade e fraternidade à lei de progresso moral, sem qualquer apelo à coletivização ou à luta de classes. Segundo Strube (2016), nesse período algumas correntes espiritualistas buscaram harmonizar fé e progresso da sociedade interpretando a questão social como problema moral e educativo. Assim, o “socialismo” denisano deve ser entendido como idealista e humanismo ético voltado à elevação moral do Espírito e convivência fraterna na sociedade.

É indispensável, assim, que as traduções contemporâneas dos artigos de Léon Denis mantenham fidelidade ao sentido histórico e filosófico original, evitando anacronismos ou leituras político-ideológicas distorcidas. Escritos há mais de um século, esses textos expressam preocupações morais e espirituais próprias de seu tempo, e não posições partidárias específicas. Reinterpretá-los segundo ideologias posteriores compromete a coerência doutrinária e o valor humanista da obra, que deve ser compreendida como reflexão espírita sobre o progresso moral, e não como elemento de legitimação de narrativas políticas atuais.

Nesse sentido, o objetivo deste estudo é analisar criticamente a primeira edição brasileira da obra Socialismo e Espiritismo, de Léon Denis, traduzida e comentada por Wallace Leal Rodrigues e publicada pela Casa Editora O Clarim em 1982.

O presente estudo justifica-se pela necessidade de contribuir para que as obras dos autores considerados clássicos do movimento espírita mundial, como Léon Denis, sejam compreendidas de modo fiel ao seu conteúdo original, sem distorções provocadas por interpretações subjetivas de tradutores ou comentadores. Versões adaptadas, paráfrases ou leituras ideologizadas que se sobrepõem ao texto podem comprometer a formação de um acervo confiável para a pesquisa acadêmica e o estudo sistemático da doutrina, além de oferecer argumentos falaciosos para associações indevidas sob aspectos político e econômico. Busca-se, portanto, fortalecer o compromisso com a autenticidade textual assegurando sua adequada transmissão às gerações futuras.

 

2. Método

 

Este estudo adota uma abordagem qualitativa e comparativa, centrada na análise textual e hermenêutica do conjunto de 8 artigos intitulados “Socialismo e Espiritismo”, publicados por Léon Denis na Revista Espírita em 1924, e da tradução brasileira do livro que reúne esses textos lançado pela Casa Editora O Clarim, em 1982. O livro conta com prefácio do advogado, espírita e político José Freitas Nobre, e com a tradução e comentários de Wallace Leal Rodrigues.

Os textos originais estão disponíveis nas edições da Revista Espírita (RE) no acervo digital da Bibliothèque nationale de France (BnF), para consulta eletrônica. Os oito artigos publicados na RE e que posteriormente foram transformados em capítulos do livro, na mesma ordem, são:

 


Capítulo 1 – Revista Espírita - fev/24

Capítulo 2 – Revista Espírita - mar/24

Capítulo 3 – Revista Espírita - abr/24

Capítulo 4 – Revista Espírita - mai/24

Capítulo 5 – Revista Espírita - jun/24

Capítulo 6 – Revista Espírita - jul/24

Capítulo 7 – Revista Espírita - ago/24

Capítulo 8 – Revista Espírita - out/24


 

Destaca-se que os elementos pré e pós-textuais, assim como prefácio, notas e comentários presentes no livro são de responsabilidade exclusiva dos editores, sem vinculação direta com Léon Denis.

O método segue princípios de crítica textual e fidelidade semântica, buscando avaliar a coerência da tradução com a concepção espírita de progresso moral e responsabilidade individual expressa por Denis.

A análise considera duas etapas complementares. A primeira consiste na verificação formal e conceitual da tradução brasileira por Rodrigues, observando a correspondência entre termos-chave do original francês e suas equivalentes expressões em português, especialmente aquelas relacionadas a conceitos doutrinários centrais como progresso, fraternidade, moral e socialismo. A segunda etapa compreende a avaliação interpretativa das escolhas de tradução e dos paratextos, em especial o prefácio e as notas editoriais, verificando se introduzem interpretações ideológicas ou anacrônicas que distorçam o sentido original da obra.

A análise adota, sequencialmente, quatro categorias principais: (1) fidelidade semântica, que verifica a correspondência de vocabulário e sentido; (2) coerência doutrinária, que examina a preservação dos princípios fundamentais da filosofia espírita; (3) neutralidade interpretativa, que identifica a inserção de juízos ideológicos ou políticos alheios ao texto; e (4) integridade estrutural, que observa eventuais omissões ou modificações na organização textual.

Essa abordagem insere-se no campo da crítica textual comparada, conforme proposto por Bardin (2011) e Spina (1977), aplicada aqui à literatura espírita clássica, com vistas à reconstituição fidedigna do pensamento do autor.

 

3. Análise comparativa

 

Nesta seção realiza-se a análise comparativa entre o conjunto de textos originais de Socialismo e Espiritismo (1924) e a tradução brasileira publicada pela Casa Editora O Clarim em 1982.

 

3.1 Prefácio

 

O prefácio da edição brasileira, escrito por José Freitas Nobre em 1982, é um texto extenso e fortemente ensaístico, distante do estilo e da intenção filosófica de Léon Denis. Diferentemente de um prefácio introdutório ou contextual, assume a forma de um manifesto social e político, com tom retórico e argumentativo. Estruturalmente, apresenta-se como um texto autônomo, repleto de citações bíblicas, doutrinárias e seculares, estendendo-se por cerca de dez páginas antes do capítulo I.

Logo no início, Nobre admite não conhecer o texto francês original que serviu de base à tradução e informa que o convite partiu do tradutor Wallace Leal Rodrigues. Este, ao incluir um político profissional, apesar de espírita, como prefaciador, extrapola o papel de mediador editorial, introduzindo um texto alheio à concepção da obra original.

O prefácio desenvolve um panorama ideológico do socialismo, combinando referências ao cristianismo social, à doutrina espírita e a críticas ao capitalismo. Citando Allan Kardec, Arthur Conan Doyle, Thomas Morus, Einstein, Léon Blum e Jean Jaurès, Nobre busca defender o que denomina “socialismo cristão”. No entanto, essa leitura tende a suavizar a posição de Denis, que rejeita explicitamente o socialismo materialista. Ao afirmar que o autor francês “não conheceu os principais experimentos políticos originados das teorias de Engels, Marx e Lênin” e que tais ideias “foram distorcidas com o tempo”, Nobre incorre em um duplo equívoco: primeiro, porque Denis recebeu notícias sobre os efeitos da Revolução Russa de 1917 e também criticou a concepção materialista da história; segundo, porque sua análise parte de princípios filosóficos que transcendem a conjuntura de seu tempo, baseados na liberdade individual e na responsabilidade moral, elementos centrais da lei de progresso e da ética espírita.

A tentativa de relativizar as críticas de Denis como fruto de desconhecimento histórico desvirtua o sentido original da obra, projetando sobre o autor uma tolerância inexistente no texto francês. Nobre comete ainda um anacronismo ao enquadrar Denis como precursor de um “socialismo cristão” ou de uma “terceira via moral”, diluindo o rigor conceitual do “socialismo espiritualista” que Denis propõe. Este conceito chega a tangenciar, em alguns aspectos, o liberalismo moral de Frédéric Bastiat e Alexis de Tocqueville e afasta-se da formulação coletivista materialista.

Denis considera que a liberdade individual e a propriedade justa são condições essenciais para o progresso moral e social, guardando uma certa semelhança com o pensamento de Bastiat, ainda que pudessem diferenciar sobre a intensidade do papel do Estado na vida dos cidadãos. Ambos, cada um com sua perspectiva, veem o Estado como instrumento limitado, que não deve substituir a consciência e a iniciativa pessoal, mas garantir justiça e segurança (BASTIAT, 2017). De Tocqueville, Denis compartilha a convicção de que a democracia e a igualdade só se sustentam quando fundadas na responsabilidade moral e na autonomia do cidadão (TOCQUEVILLE, 2014). Nessa concepção, a solidariedade verdadeira é sempre voluntária, fruto da regeneração interior e não de imposições políticas.

Ao tentar reconciliar o Espiritismo com o socialismo sob a retórica da “justiça social cristã”, Nobre não evidencia a profundidade da crítica de Denis, que visa libertar o ideal de fraternidade das amarras do estatismo e do igualitarismo compulsório. Denis não se distancia da concepção mais generalizada de socialismo por ignorância, mas por coerência filosófica: para ele, nenhuma reforma econômica ou política substitui a regeneração moral do indivíduo e o primado da consciência livre.

Portanto, o prefácio de Nobre deve ser compreendido como um acréscimo editorial de 1982, impregnado de um contexto político eclesial e social específico, e não como parte integrante da obra. Sua leitura requer cautela, pois tenta adaptar o pensamento espiritualista de Denis às disputas ideológicas do final do século XX. Essa apropriação altera a compreensão da mensagem original, que permanece firmemente ancorada na liberdade, na responsabilidade e no progresso moral como fundamentos da verdadeira fraternidade.

 

3.2. Capítulo I[1]

 

A definição de socialismo apresentada por Léon Denis como “o estudo, a pesquisa e a aplicação das leis e meios suscetíveis de melhorar a situação material, intelectual e moral da humanidade” é moralmente digna, mas conceitualmente inconsistente com o uso histórico e filosófico do termo.

Essa definição incorre numa distorção conceitual ao utilizar o termo “socialismo” num sentido genérico e harmonizador em um contexto histórico (1924) em que o termo já designava movimentos e doutrinas com fundamentos econômicos, políticos e materialistas bem definidos. Como observam Vincent (1992) e Winock (2017), na França da Terceira República o socialismo já estava ligado ao debate entre reformismo e marxismo, e não a um ideal de moral individual. Portanto, embora o intento de Denis fosse conciliador, seu conceito carece de precisão teórica e não pode ser equiparado nem ao socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier e Owen, nem ao marxista, configurando-se antes como um projeto ético-espiritual distinto, mas impropriamente nomeado.

A concepção denisiana de socialismo se afasta do princípio coercitivo implícito nas concepções socialistas clássicas. Desde suas origens, o socialismo, em suas diversas vertentes, pressupõe um projeto de reordenação coletiva da sociedade, frequentemente acompanhado da ideia de que o indivíduo deve submeter-se ao interesse comum, seja pela planificação estatal, pela redistribuição compulsória dos bens, eliminação ou restrição compulsória da propriedade privada ou pela disciplina de classe. Essa dimensão impositiva, que parte do coletivo para o indivíduo, constitui um dos eixos do pensamento socialista das diferentes correntes.

Seu “socialismo” espiritualista rejeita mecanismos impositivos de comportamentos e não estabelece sistemas de controle, mas propõe a adesão consciente e livre às leis morais universais, em harmonia com o princípio espírita de que “a transformação individual precede toda regeneração social”. Ao enfatizar a vontade e a responsabilidade pessoal, Denis rompe com o coletivismo coercitivo das propostas socialistas e reafirma que a verdadeira fraternidade só pode florescer em sociedades compostas por indivíduos moralmente livres. Nesse sentido, o autor utiliza o termo “socialismo” de modo metafórico e ético, mesmo com reflexos políticos e econômicos, situando sua proposta no domínio da educação moral e da evolução espiritual.

Na edição publicada pela Casa Editora O Clarim, o prefácio ou alguma Nota da editora ou do tradutor não fazem qualquer menção ao anacronismo e à impropriedade de se supor que o conceito de socialismo adotado por Léon Denis equivaleria ao sentido político e econômico contemporâneo. Ao omitir essa distinção fundamental, o texto introdutório conduz o leitor a uma leitura descontextualizada, sugerindo uma continuidade inexistente entre o ideal espiritualista de Denis e o socialismo partidário moderno. Essa ausência de ressalva metodológica reforça a necessidade de uma abordagem crítica das traduções e prefácios das obras clássicas espíritas, a fim de preservar a fidelidade histórica e doutrinária do pensamento original do autor.

 

3.3. Capítulo II[2]

 

Léon Denis desenvolve o exame moral e filosófico de sua concepção de socialismo, situando-o dentro da lei universal de evolução. Ele afirma que o verdadeiro progresso não pode ser alcançado por revoluções políticas ou imposições econômicas, mas apenas pela elevação moral e espiritual do ser humano.

A questão social é, para o autor, antes de tudo, uma questão de consciência: os males do mundo não se resolvem pela redistribuição de riquezas, mas pela reforma interior. Ele critica tanto o materialismo marxista quanto os dogmatismos religiosos, defendendo um “socialismo idealista” que una justiça e caridade sob a luz da reencarnação. Rejeita a violência e o despotismo, afirmando que “o despotismo de baixo é pior que o de cima”, e propõe uma sociedade baseada na solidariedade ativa, na educação moral e na fraternidade consciente. O capítulo conclui enfatizando que o Espiritismo oferece os princípios racionais e morais capazes de orientar uma verdadeira renovação social.

Novamente, neste capítulo, evidencia-se o contraste de Denis com as correntes socialistas materialistas do século XIX e posteriores. Enquanto Marx, Engels e os socialistas científicos concebiam o socialismo como resultado da luta de classes e da transformação das estruturas econômicas, Denis o definia como uma reforma moral e espiritual do indivíduo, conduzindo à regeneração social. Essa concepção elimina o conflito entre capital e trabalho como motor da história e substitui o determinismo materialista pela lei de evolução espiritual, baseada na responsabilidade e no livre-arbítrio.

Para Denis, nenhuma mudança duradoura pode surgir da violência ou da imposição coletiva, pois toda transformação verdadeira começa na consciência. Essa perspectiva espiritualista rompe com o princípio marxista da emancipação pela revolução e reforça a aproximação do pensamento de Denis de uma ética universalista inspirada na reencarnação, na fraternidade e na perfectibilidade do Espírito.

Sobre as categorias de análise da tradução de Wallace Rodrigues, aponta-se, a seguir, os aspectos mais relevantes.

Na questão semântica, há uma suavização da expressão da crítica social e política presentes no original em que Denis afirma que “le despotisme d’en bas n’est pas meilleur que celui d’en haut; il est plutôt pire”, traduzido de modo atenuado por Rodrigues como “o despotismo das classes inferiores não é melhor que o das superiores”. O adjetivo “pior” e o advérbio “plutôt” (ainda mais) são omitidos, diluindo o contraste moral pretendido.

Em um trecho específico, em que Denis comenta o período após a guerra (1914-1918) e escreve que “Do ponto de vista espiritual, é necessário regenerar o povo pelo trabalho e por uma nova orientação”, há uma significativa distorção na tradução, sob a perspectiva semântica, econômica e ética.  Na continuação da frase “... car c’est par le travail qu’on peut créer les objets nécessaires aux échanges qui sont les sources vitales de l’existence.”, que deveria ser traduzida por “... pois é pelo trabalho que se podem criar os objetos necessários às trocas, que são as fontes vitais da existência”, Rodrigues usa “mudanças” na tradução de “échanges” ao invés do conceito econômico de “trocas”, alterando, assim, o significado original.

Imediatamente na sequência, Rodrigues acrescenta uma frase, inexistente no texto em francês, a saber: “Como deter esse desbordamento de paixões que arrastam para o abismo?”. Com isso, o tradutor introduz um tom pessimista e emocional, que desloca o sentido reflexivo para um apelo moralista e apocalíptico. Esse acréscimo indevido fere o aspecto ético da tradução.

            Continuando a frase, a redação de Denis é “Qu’est-ce qui sert à l’échange? C’est l’argent. Donc l’argent, qui depuis la guerre avait perdu de sa valeur par suite de sa trop grande diffusion, devra la reprendre graduellement en raison de l’effort et du travail national.”. Rodrigues assim traduz esse trecho: “De que serve a troca? É o dinheiro! Pois o dinheiro, que depois da guerra havia perdido o seu valor, em seguida à sua grande defasagem, deverá restabelecer-se gradualmente, em razão do esforço e do trabalho nacional.”. Desta vez, Rodrigues utiliza o termo adequado para “échange” e traduz por “troca”. Ao optar pela tradução de “argent” como sendo “dinheiro”, semanticamente há respaldo para essa escolha, mas sob a perspectiva técnico-econômica, poderia usar o termo “moeda”. Outro conceito econômico usado por Denis, esse traduzido com significativa distorção, é “diffusion”, que Rodrigues opta por “defasagem”. O sentido correto relaciona-se à “expansão” da moeda e seria aceitável manter o que Denis chamou de “difusão”.

            Diante dessas observações, evidencia-se que as divergências encontradas envolvem tanto aspectos semânticos quanto éticos, sobretudo pela introdução de termos e expressões inexistentes no original, o que compromete a neutralidade da tradução e fere o princípio da retidão filológica. No campo econômico, a substituição de alguns conceitos demonstra incompreensão dos fundamentos técnico-econômicos subjacentes ao texto de Denis em seu contexto pós-guerra. Apesar dessas falhas, a tradução conserva coerência doutrinária com o Espiritismo ao manter a primazia da educação moral, da fraternidade e da responsabilidade individual como bases do progresso coletivo. Quanto à integridade estrutural, as alterações não comprometem o encadeamento das ideias, mas indicam a necessidade de revisão crítica que restabeleça a exatidão conceitual e o rigor semântico, assegurando a fidelidade ao pensamento original de Léon Denis.

 

3.4. Capítulo III[3]

 

Neste capítulo, Denis continua a refletir sobre a crise moral e espiritual da humanidade, reafirmando que a causa fundamental dos males sociais está no materialismo, egoísmo e na ignorância moral. Sua argumentação sustenta que a regeneração coletiva só pode ocorrer por meio da educação espiritual sem dogmatismos, do trabalho e da caridade, e não por revoluções ou imposições políticas. Nesse aspecto, a tradução de Wallace Rodrigues, mostra-se fluente, com poucos pontos a serem destacados, como por exemplo, ao substituir o termo “utopies” por “fantasias”, cujo significado é semelhante, mas pode esconder uma associação que deveria ser mais direta ao socialismo utópico. No original, Denis rejeita as “utopias”, isto é, as doutrinas sociais idealistas que ignoravam as leis morais da vida, e não a imaginação fantasiosa, simplesmente.

A tradução de Rodrigues conserva a coerência doutrinária com o Espiritismo, preservando a tese central de que o progresso social deriva do progresso moral do Espírito. Ainda que a substituição de “utopies” por “fantasias” empobreça o rigor conceitual e afaste o texto da tradição filosófica do socialismo utópico, o conteúdo espiritualista permanece íntegro. O capítulo mantém o equilíbrio entre ética e razão, reafirmando que a regeneração humana se realiza pelo trabalho e pela educação moral, e não pela revolução ou pela coerção política.

 

3.5 Capítulo IV[4]

 

O Capítulo IV de “Socialisme et Spiritisme, publicado na edição de maio/1924 da Revista Espírita, marca um ponto decisivo na argumentação de Léon Denis, pois nele o autor se afasta das concepções socialistas predominantes de sua época e estabelece os fundamentos no que denominou “socialismo idealista”, centrado na justiça moral e na liberdade individual. Denis, paradoxalmente, enaltece valores liberais, como a livre iniciativa, mérito e o esforço individual como elementos para o progresso social, criticando os socialistas franceses que tudo esperam do Estado. Denis, ainda, destaca que em quase todos os lugares que os socialistas se instalaram “constatou-se um recrudescimento dos procedimentos arbitrários e das desordens nas finanças”, demonstrando a incompetência desses administradores na gestão pública. Praticamente, Denis reproduz as críticas de pensadores liberais contra o socialismo, mas mesmo assim, ele considerou que sua concepção peculiar de socialismo, espiritualizado, seria uma denominação apropriada.

  O texto original é claro ao distinguir entre a legítima aspiração por equidade social e os sistemas materialistas que pretendiam alcançar esse ideal pela abolição da propriedade privada ou pela coerção política. Denis reconhece que a propriedade é um direito natural, decorrente do trabalho e da responsabilidade, e que se torna ilegítima apenas quando fundada na exploração e no egoísmo. Sua crítica dirige-se não à posse em si, mas ao uso imoral dos bens e aos problemas sociais que decorrem do orgulho humano. Assim, ele reafirma a necessidade de uma regeneração interior antes de qualquer reforma exterior, em plena coerência com a filosofia espírita, para a qual o progresso moral precede o progresso material (ver O Livro dos Espíritos, questão 793, de Allan Kardec).

Sobre Karl Marx, Denis o qualifica como “um homem ácido e odioso”, cuja doutrina baseava-se na luta de classes e no antagonismo, envenenando as relações humanas em vez de pacificá-las. Para ele, o marxismo reduz o homem ao interesse econômico e à revolta contra a ordem social, suprimindo a liberdade moral e espiritual. Inclusive, Denis destaca que “o marxismo foi o responsável pelo malogro econômico da revolução Russa”.

Em relação a Charles Fourier, Denis reconhece a engenhosidade de suas teorias de organização social e de harmonia das paixões, mas critica o caráter utópico e sensualista de suas propostas, desprovidas de base espiritual e de sentido moral. Quanto ao anarquista Pierre-Joseph Proudhon, o autor reprova sua oscilação entre o idealismo e o ceticismo, lembrando que, ao negar a divindade e afirmar que “a propriedade é um roubo”, o pensador francês destruiu o fundamento ético sobre o qual qualquer sociedade justa poderia se sustentar. Denis conclui que esses sistemas, embora inspirados pelo desejo sincero de justiça, permanecem condenados ao fracasso porque ignoram a lei superior de evolução do Espírito e substituem a fraternidade voluntária pela coerção coletiva.

Sob o ponto de vista analítico, a tradução apresenta fidelidade semântica ao preservar as ideias centrais e coerência doutrinária ao explicitar a defesa da propriedade justa e do progresso moral. A integridade estrutural é satisfatória, mas as longas notas opinativas e simpáticas do tradutor sobre Fourier, Proudhon e sobre o bolchevismo, comprometem, em parte, a esperada neutralidade interpretativa. Por outro lado, ao não emitir qualquer nota sobre outros autores citados, como Ludwig Büchner, Jacob Moleschott e Lucien Deslinières, pode-se questionar o motivo dessa omissão, principalmente porque tais nomes são representantes do materialismo. Deslinières, após passar um ano na “Russia Soviética”, abandonou completamente suas convicções marxistas e publicou, em 1923, a obra “Livrai-nos do marxismo!” (Délivrez-nous du Marxisme!)[5], da qual Denis transcreve alguns trechos e foram devidamente traduzidos por Rodrigues.

Por mais que possa parecer contraditório sob lentes anacrônicas de hoje, a posição de Léon Denis aproxima-se, sob determinados aspectos, de algumas concepções do liberalismo clássico, especialmente no que diz respeito à defesa da liberdade moral, da responsabilidade individual e do direito natural à propriedade. Denis reconhece que a harmonia social decorre do livre exercício das faculdades humanas sob o amparo da justiça e da moral, e não da coerção estatal. Compartilha, ainda, a convicção de que as leis econômicas são expressões da ordem natural e que a intervenção do Estado, quando excessiva, rompe o equilíbrio entre liberdade e justiça. Denis também se aproxima de Adam Smith (2017) e John Stuart Mill (2018) ao compreender a solidariedade autêntica como fruto da ação voluntária do indivíduo, e não como imposição legal. Da mesma forma, sua crença no progresso moral pela educação e pelo mérito encontra eco em Alexis de Tocqueville (2014), para quem a liberdade e a virtude constituem o fundamento ético da civilização democrática. Nesse sentido, o “socialismo idealista” de Denis dialoga com o humanismo liberal, em que a transformação social resulta do uso ético da liberdade e da consciência moral, e não de reformas políticas radicais e impostas ou de estruturas econômicas coercitivas, mesmo que Denis também demonstre grande simpatia pelo socialismo democrático, republicano e humanista de Jean Jaurès.

 

3.6 Capítulo V[6]

 

No Capítulo V, reforça-se a ideia de que toda reforma social depende, antes de tudo, da reforma moral e espiritual do homem. Enquanto os reformistas insistem em divulgar os direitos que todos deveriam ter, esquecem de detalhar os deveres inerentes a cada um. Denis afirma que “não há outro direito senão aquele que resulta dos méritos adquiridos, dos serviços prestados e de uma participação eficaz na obra de civilização e progresso”. Critica-se, ainda, os sistemas políticos que buscam corrigir desigualdades apenas pela redistribuição material, afirmando-se que a verdadeira transformação começa na consciência individual. Outra afirmação é que o progresso coletivo só se realiza quando o ser humano reconhece sua natureza espiritual e assume responsabilidade por seus atos.

Denis ressalta que a fraternidade e a caridade são forças regeneradoras capazes de harmonizar as relações entre classes e povos. Ele sustenta que a educação moral, iluminada pelo Espiritismo, deve substituir a coerção e o conflito como instrumentos de mudança social. O “socialismo idealista”, portanto, propõe a elevação do Espírito como motor do progresso, rejeitando tanto o determinismo econômico quanto o autoritarismo político.

A tradução desse capítulo por Rodrigues mantém, em linhas gerais, a estrutura e o conteúdo argumentativo de Léon Denis.

Em fidelidade semântica, a tradução é globalmente correta. A coerência doutrinária permanece íntegra, apontando para a prioridade do aperfeiçoamento moral e responsabilidade individual. Sobre a neutralidade interpretativa, não há mudanças que invertam a tese do autor. Por fim, a integridade estrutural é satisfatória, indicando que o capítulo está completo e na ordem, sem alterar o encadeamento das ideias.

 

3.7 Capítulo VI[7]

 

            Neste capítulo, Léon Denis argumenta que o Espiritismo oferece a base filosófica fundamental para uma transformação social positiva, substituindo o conflito pela fraternidade universal. Ele defende que este princípio, entendido como a fraternidade das almas em evolução, é a chave para resolver problemas sociais e dissipar ódios. Criticando o socialismo materialista por negligenciar o espírito imortal, o autor propõe o que ele supõe que seria o "verdadeiro socialismo" alinhado com as leis universais, que valorize o trabalho e compreenda o sofrimento como uma ferramenta essencial para o refinamento moral. Pela doutrina da reencarnação, que explica as desigualdades naturais e a estagnação moral aparente, o texto enfatiza que a reforma da sociedade começa com a educação e a reforma interior do indivíduo, culminando em uma visão esperançosa de que a solidariedade humana e uma nova revelação espiritual estão a preparar um futuro mais iluminado para a humanidade. Segundo Denis, o homem espiritualizado aprende a amar a família e a Pátria, com a plena noção da grande família humana.

A tradução do Capítulo VI realizada por Rodrigues preserva o conteúdo essencial do texto de Léon Denis. Em termos de fidelidade semântica, o tradutor respeita a sequência argumentativa e o sentido global do original. A coerência doutrinária é plenamente mantida, pois a tradução conserva a ênfase na fraternidade universal, na reencarnação como princípio de justiça e no trabalho como lei moral, em conformidade com a filosofia espírita. Sob o aspecto da neutralidade interpretativa, não há observação significativa e, quanto à integridade estrutural, o capítulo é completo e organizado conforme o original.

 

3.8 Capítulo VII[8]

 

            A ênfase desse capítulo difere dos anteriores por tratar, especificamente, de um tema político que Denis declarara inicialmente não querer enfatizar. O texto adquire um tom mais conjuntural, analisando as crises políticas e econômicas da Europa do pós-guerra, a decadência das instituições e a falência moral dos sistemas materialistas e revolucionários. Denis afirma que a humanidade vive um período de transição e sofrimento necessário, no qual as ideologias políticas, sejam conservadoras, socialistas ou anarquistas, fracassam por ignorar as leis espirituais que regem a evolução.

Ainda que reconheça a importância das reformas sociais e do trabalho coletivo, Denis insiste que nenhuma transformação será estável enquanto não houver uma renovação moral profunda do indivíduo. Ele reafirma que o Espiritismo oferece os princípios capazes de orientar essa reconstrução, por unir razão, fé e justiça. Para Denis, a solução da crise moderna não virá dos partidos nem das revoluções, mas da educação espiritual das massas e do despertar da consciência individual. O capítulo encerra com uma nota de esperança: após o caos político e moral, surgirá uma civilização mais solidária e fraterna, baseada no conhecimento da realidade da vida com a colaboração estreita do mundo invisível, na moral universal e na cooperação entre os povos.

A análise do capítulo VII da tradução de Wallace Leal Rodrigues em comparação com o texto original francês de Léon Denis mostra que, de modo geral, a tradução mantém-se adequada, mas há pequenas imprecisões na fidelidade semântica com reflexos doutrinários.

No penúltimo parágrafo, coerentemente Denis aponta a situação de que, desencarnado, o Espírito não possui necessidades orgânicas, mas pode manter os desejos e isso ser motivo de tormento. Em um trecho original, encontra-se a frase “si les besoins disparaissent avec le corps, les désirs, qui sont de l’esprit, persistent avec lui...”, em que Denis expressa uma afirmação categórica: as necessidades materiais efetivamente desaparecem com o corpo, mas os desejos do Espírito persistem. Trata-se de uma proposição ontológica, que descreve uma lei natural da sobrevivência do Espírito após a morte. Rodrigues, por sua vez, empregou o modo subjuntivo e traduziu por “se as necessidades desaparecessem com o corpo, os desejos que são do espírito persistem nele...”. O trecho traduzido introduz incerteza e transforma um ponto doutrinário em uma hipótese condicional, sugerindo dúvida quanto à extinção das necessidades físicas. Essa modificação compromete a fidelidade semântica e dilui a clareza filosófica do argumento de Denis. Do ponto de vista doutrinário, o trecho original está plenamente de acordo com o ensino dos Espíritos, conforme pode-se constatar no artigo de Allan Kardec intitulado Quadro da Vida Espírita, publicado na Revista Espírita em abril de 1859[9].

Em termos de neutralidade interpretativa, não há viés ideológico e a integridade estrutural não está comprometida.

 

3.9 Capítulo VIII[10]

 

O último da série de oito artigos de Léon Denis atua como uma síntese filosófica e moral das ideias desenvolvidas anteriormente, voltando-se à dimensão espiritual da transformação social.

O texto examina as significativas conquistas sociais da Terceira República Francesa, como a criação de seguros sociais, aposentadorias e a drástica redução do desemprego, fruto de um esforço reformista gradual e metódico. No entanto, apesar desses avanços materiais, persiste um estado de descontentamento e desconfiança entre a classe trabalhadora, que foi historicamente decepcionada. Este mal-estar revela que a solução para a questão social não reside apenas em melhorias econômicas, mas exige também uma resposta aos anseios morais e à demanda por justiça.

Como solução, o autor propõe o "socialismo espiritualista", um modelo que alia reformas práticas, como garantir o bem-estar, a educação integral e a proteção aos mais vulneráveis, a um ideal moral elevado. O Espiritismo é apresentado como a base filosófica essencial para esta visão, pois oferece uma fundamentação racional para os princípios de solidariedade e fraternidade, demonstrando que eles são, na verdade, leis universais que regem a evolução humana, e não meras construções sociais passageiras.

A obra conclui que a verdadeira regeneração social só será alcançada quando um "pensamento elevado" irradiar sobre a sociedade, dissipando os conflitos de classe e unindo esforços em torno de um objetivo comum. Assim, o futuro depende da fusão entre o progresso material e a renovação espiritual, onde o Espiritismo, com sua doutrina consoladora e sua visão de justiça imanente, serve como o guia para estabelecer instituições sociais mais sábias, harmoniosas e verdadeiramente fraternas.

A proposta de Léon Denis em Socialisme et Spiritisme define um “socialismo espiritualista” que se afasta das correntes materialistas e revolucionárias do socialismo europeu do século XIX, aproximando-se, com ressalvas, ao socialismo humanista de Jean Jaurès e, ainda, dialogando com princípios do liberalismo econômico clássico. Para Denis, a regeneração social não depende da imposição de reformas econômicas ou de um Estado controlador, mas da elevação moral e da liberdade de consciência do indivíduo. O progresso verdadeiro nasce da responsabilidade pessoal e da solidariedade espontânea, não da coerção. Assim, a ação solidária só tem valor ético se for voluntária, motivada pelo reconhecimento da fraternidade espiritual entre os homens, e não pelo dever imposto por leis ou instituições. Essa visão guarda afinidade com o pensamento liberal de que a liberdade individual e a livre iniciativa são condições indispensáveis para o desenvolvimento social e moral, uma vez que a caridade forçada, como o assistencialismo estatal ou o igualitarismo coercitivo, destrói o mérito, a autonomia e a virtude.

Denis, portanto, propõe um humanismo espiritual que harmoniza liberdade e responsabilidade, reconhecendo que as leis econômicas naturais, quando iluminadas pela moral do Evangelho e pela consciência do Espírito, conduzem ao equilíbrio social mais eficaz do que qualquer revolução política.

A tradução realizada por Rodrigues, de forma geral, manteve-se fiel ao texto deste capítulo, tanto nos aspectos semânticos, quanto doutrinários, de neutralidade ideológica e com relação à integridade estrutural.

 

3.10 Síntese Analítica

 

A análise dos oito capítulos e do prefácio da edição brasileira de Socialismo e Espiritismo evidencia um conjunto de tensões entre o texto original de Léon Denis, publicado em 8 artigos na Revista Espírita no ano de 1924 e a versão publicada pela Casa Editora O Clarim em 1982. O prefácio redigido por José Freitas Nobre, com forte viés político e interpretativo, insere um discurso anacrônico e ideológico que se afasta da proposta filosófico-espiritual de Denis, reinterpretando a obra sob o prisma do “socialismo cristão” e do contexto brasileiro da redemocratização. Tal inserção extrapola o papel de mediação editorial e altera a recepção do texto original, justificando a necessidade de uma leitura crítica e histórica dessa edição.

No conjunto dos capítulos, a tradução de Wallace Leal Rodrigues demonstra esforço de preservação doutrinária, apesar de apresentar oscilações de fidelidade semântica e precisão conceitual. Em alguns trechos, há substituições terminológicas que suavizam a crítica econômica ou inserem expressões inexistentes no original, como no Capítulo II, onde se introduz frase alheia ao texto francês, e em outros pontos em que se observa incompreensão de termos técnicos ou filosóficos, como “échange” (troca) e “diffusion” (difusão ou expansão monetária). Ainda assim, a estrutura geral da obra foi mantida, e a coerência doutrinária essencial ao Espiritismo, baseada no livre-arbítrio, na fraternidade voluntária e na responsabilidade moral, permanece íntegra.

No plano filosófico e social, a leitura integral revela que Léon Denis constrói uma crítica sistemática às concepções materialistas do socialismo e propõe um “socialismo espiritualista” (ou idealista), com semelhanças à proposta de Jean Jaurès e, simultaneamente, ao humanismo liberal e ético.

Ao contrário da maioria dos socialistas de seu tempo, Denis defende a propriedade privada legitimada pelo trabalho e condena a coerção coletiva e o autoritarismo estatal, sustentando que a verdadeira solidariedade é fruto da adesão livre e consciente às leis morais universais. Essa visão coloca a regeneração social como consequência do progresso interior e não de reformas políticas ou econômicas impostas.

A tradução brasileira, embora mantenha a estrutura e a sequência argumentativa, carece por vezes de neutralidade interpretativa e rigor terminológico, pois Rodrigues se predispõe a oferecer notas de contextualização parciais, omitindo-se sobre os cuidados contra a interpretação descontextualizada sob lentes atuais, o que evidencia a importância de edições críticas que restabeleçam o sentido filosófico e moral pretendido por Denis, sem anacronismo nem interferências ideológicas.

 

4. Considerações finais

           

A análise crítica da edição brasileira de Socialismo e Espiritismo, publicada pela Casa Editora O Clarim em 1982, permite concluir que a obra apresenta problemas estruturais e interpretativos que podem comprometer a compreensão fiel do pensamento de Léon Denis sem a devida contextualização. O principal problema é a inclusão de um prefácio ideologicamente enviesado, redigido por José Freitas Nobre que, apesar de espírita, assume sua condição de político profissional partidário das propostas socialistas modernas, que altera substancialmente o enquadramento filosófico da obra original. O texto prefacial, com caráter de ensaio político, procura aproximar o Espiritismo de um “socialismo cristão” adaptado às discussões sociais e partidárias do Brasil dos anos 1980, o que descaracteriza a proposta espiritualista e liberal de Denis. Essa inserção indevida projeta sobre o autor francês uma tolerância e uma conotação política inexistentes no texto original de 1924, reduzindo a profundidade de sua crítica ao socialismo materialista e deslocando o foco da obra de seu eixo moral e filosófico para um discurso social de matriz ideológica.

Outro problema relevante é inserção de notas explicativas para determinados personagens e fatos históricos, mas a completa ausência de notas que pudessem orientar o leitor quanto ao sentido conceitual do termo “socialismo” utilizado por Denis. Essa omissão favorece interpretações anacrônicas e confusões entre o “socialismo espiritualista”, entendido por Denis como fraternidade moral e aperfeiçoamento individual mediante o conhecimento das leis divinas, e as correntes socialistas materialistas de cunho econômico e político que se desenvolveram ao longo do século XX e adentraram no século XXI. Ao não advertir o leitor sobre a diferença entre o ideal ético de Denis e o socialismo partidário moderno, a edição de O Clarim contribui involuntariamente para uma associação equivocada, que aproxima indevidamente o Espiritismo de concepções coletivistas e estatistas.

Além dessas distorções paratextuais, embora a tradução de Wallace Leal Rodrigues mantenha, em linhas gerais, a coerência doutrinária e a sequência argumentativa da obra, faltam-lhe rigor terminológico e neutralidade interpretativa. Em alguns trechos, a escolha lexical insere expressões inexistentes no original, comprometendo a precisão semântica, como em alguns conceitos econômicos. A ausência de uma postura crítica mais explícita diante do contexto histórico e terminológico da obra impede que a edição brasileira cumpra integralmente seu papel de mediação filológica.

Recomenda-se, portanto, a publicação de edições fundamentadas exclusivamente no texto original em francês, tal como publicado na Revue Spirite em 1924, acompanhadas de aparato crítico e explicativo que situe o leitor quanto ao contexto intelectual, político e semântico da época em que Léon Denis escreveu a obra.

Iniciativas recentes, como as do Portal Luz Espírita[11], ao promoverem novas traduções e comentários, caminham nessa direção ao alertar para as diferenças entre as acepções do termo “socialismo” no início do século XX e aquelas predominantes na contemporaneidade. Esse esforço hermenêutico é essencial para evitar leituras anacrônicas e interpretações ideologizadas. Torna-se igualmente necessário restabelecer, de modo inequívoco, a distinção entre o socialismo espiritualista de Denis, alicerçado na liberdade individual, na responsabilidade moral e na fraternidade voluntária, e as correntes materialistas, como a marxista, que ele analisou criticamente e refutou de forma explícita. Somente assim será possível preservar a coerência doutrinária e a relevância filosófica da obra, permitindo que o leitor contemporâneo compreenda seu real alcance moral e espiritual, sem projeções conceituais estranhas ao pensamento do autor.

 

Referências

 

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* Link para acesso ao texto: https://doi.org/10.22568/jee.v14.artn.010201