quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Reencarnação e população mundial

 


REENCARNAÇÃO E POPULAÇÃO MUNDIAL

 

Uma questão recorrente feita por neófitos ou não-espíritas é: Se somos os mesmos Espíritos reencarnando, por que a população mundial é crescente?

 Considere os seguintes motivos:

 1)     A população de desencarnados é maior que a de encarnados;

Para essa estimativa, basta saber que todos os globos que circulam o espaço são habitados e que o espaço universal é infinito (LE-55 e GEN. Cap. VI i. 1), logo a população da Terra tende a zero se comparada ao todo. A questão LE-87 permite saber que os Espíritos estão por toda a parte e povoam o espaço infinito, portanto não podemos restringir a população espiritual somente aos habitantes encarnados da Terra.

 2) Há muitas moradas no Universo e a Terra não é um sistema fechado, ocorrendo imigração e emigração de Espíritos;

A encarnação ocorre nos diferentes mundos (ESE-Cap. 3 - i.2) e habitaremos aqueles compatíveis com nossas necessidades evolutivas (CI - Cap. 3, i. 11 e GEN - Cap. XI, i 27). A Terra não é o primeiro nem será o último planeta que reencarnaremos, pois já habitamos outros mundos e poderemos voltar, ou não, a habitar este planeta. Todos os mundos são solidários (LE-172 a 176 e LE-184) e há constante fluxo de emigração e imigração de Espíritos (GEN - Cap. XI, i. 33 a 35).

 3)  Deus nunca cessou de criar

Conforme encontramos na questão LE-80, a criação dos espíritos é permanente desde a eternidade.


Siglas

LE - O Livro dos Espíritos

ESE - O Evangelho Segundo o Espiritismo

CI - O Céu e o Inferno

GEN - A Gênese (1ª edição)



terça-feira, 8 de setembro de 2020

Sobre o caráter apolítico da USE

 

SOBRE O CARÁTER APOLÍTICO DA USE

 Da Redação

 (Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, da USE, ed. 179, set/out 20, p.24)


 Conforme evidencia-se no Artigo 1º de seu Estatuto Social, a União das Sociedades Espírita do Estado de São Paulo é, dentre outras características, uma pessoa jurídica de direito privado apolítica.

Allan Kardec, em texto dirigido aos espíritas lioneses, registrado na Revista Espírita - fev/1862, fez o seguinte alerta: "Não vos deixeis cair nessa armadilha; afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quanto se refere à política e às questões irritantes; a tal respeito, as discussões apenas suscitarão embaraços...".

De maneira compreensível para a maioria das pessoas, o uso do termo “apolítico” sob a perspectiva institucional refere-se à necessidade de não se imiscuir nas escolhas particulares, respeitando-se o livre-arbítrio e a liberdade de consciência de cada indivíduo.

Alguns, entretanto, no afã de verem as próprias convicções políticas e partidárias galgadas a temas pertinentes e prioritários nas reuniões de diferentes naturezas, inclusive nas reuniões espíritas, procuram provocar o embate ideológico com a finalidade de impor a sua receita de como consertar o mundo e materializar o paraíso na Terra, estigmatizando e condenando aqueles que possuem outros olhares sobre os mesmos problemas.

    Servindo-se de passagens convenientemente pinçadas de trechos doutrinários e aplicando-as aos seus objetivos de persuasão com narrativas próprias, aqueles que tentam promover a militância política nas fileiras espíritas se autointitulam “bons” e acusam de omissão todos os que não compactuam com suas propostas de reformas sociais ou, ainda, apontam e classificam desrespeitosamente quem posiciona-se de maneira diversa. Esse tipo de comportamento faz com que surjam grupos que capturam a denominação espírita com o acréscimo de adjetivos relacionados às suas opções políticas.

Allan Kardec, no terceiro diálogo descrito no Capítulo I do livro O que é o Espiritismo, afirma que a “liberdade de consciência é consequência da liberdade de pensar, que é um dos atributos do homem; e o Espiritismo, se não a respeitasse, estaria em contradição com os seus princípios de liberdade e tolerância”.

Assim, a tolerância com relação à pluralidade de ideias, o respeito e a defesa da liberdade de consciência fazem parte do caráter espírita. A tentativa de imposição de pautas ideológico-partidárias que suscitam a discórdia e a divisão, sob a justificava de debate necessário, enquadra-se como a armadilha preparada por detratores encarnados e desencarnados que Kardec alertou aos espíritas lioneses.

Ainda enfatizando-se a sábia orientação de Kardec na obra supra citada e alinhando-se diretamente com o papel da USE, o Espiritismo, como doutrina moral, só impõe uma coisa: a necessidade de fazer o bem e evitar o mal; quanto às questões secundárias, ele as deixa à consciência de cada um.

Fundamental, portanto, que todo dirigente da USE expresse e exemplifique esse caráter apolítico em qualquer atividade sob a égide institucional, uma vez que não se deve falsear a noção de que todos somos seres políticos por natureza e confundir as ações e preferências particulares com a pessoa jurídica que representam.

A responsabilidade doutrinária e a consistente divulgação do Espiritismo com fraternidade são algumas das prioridades da USE que a fazem conhecida e respeitada e, necessariamente, colaboram para o entendimento do verdadeiro sentido de união.

 

Fonte: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/09/DE179-C.pdf


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

A relevância da obra A Gênese e a polêmica 5ª edição

 


A relevância da obra A Gênese e a polêmica 5ª edição

Marco Milani

 (Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, ed. 179, set/out 2020, p. 7)


Lançado no mês de janeiro de 1868, esse que é o livro mais maduro das chamadas obras fundamentais, contém o complemento e o desenvolvimento de aspectos considerados desde o início da estruturação do corpo doutrinário espírita. Conforme declarou o próprio Allan Kardec na introdução, essa nova obra representa “um passo à frente nas consequências e aplicações do Espiritismo” e, ainda, que a respectiva publicação veio a seu tempo, quando as ideias chegaram à maturidade. A relevância dos assuntos abordados exigiu se “evitar qualquer precipitação”.

Ressalta-se que o caráter essencial da doutrina é a generalidade e concordância do ensino dos Espíritos, pois o resultado dos ensinamentos coletivos e convergentes sobrepõem-se às simples opiniões isoladas. Para se alterar esses ensinamentos, portanto, não basta haver opiniões divergentes, mas a coletividade e a concordância dos Espíritos devem, obrigatoriamente, posicionarem-se em sentido oposto.

Kardec salienta que a redação de A Gênese foi presidida com os mesmos escrúpulos das obras anteriores quanto à generalidade do ensino, com exceção de algumas hipóteses devidamente apontadas como opiniões pessoais e que careceriam de confirmação. Tais hipóteses não se confundem com o ensino dos Espíritos validado pelo critério da universalidade.

Muitas das ideias desenvolvidas em A Gênese foram apresentadas na forma de esboços na Revista Espírita, pois a mesma representaria um terreno de ensaio destinado a sondar a opinião dos homens e dos Espíritos sobre alguns princípios antes de serem admitidos como partes constitutivas da doutrina. Assim, não basta ter sido publicada nesse periódico para a ideia ser considerada um ensino geral dos Espíritos, pois necessita ser criteriosamente validada.

Ao explicitar as relações perenes entre os dois elementos constitutivos do universo, o espiritual e o material, a obra destaca que qualquer fenômeno natural, para ser plenamente compreendido, deve levar em conta essa interação constante. O Espiritismo, nesse sentido, pode oferecer a chave para a compreensão dessa reciprocidade e dos fatos decorrentes das leis da natureza, marchando lado a lado com a ciência.

O conteúdo desenvolvido em A Gênese, portanto, requer a atenção de qualquer adepto espírita.

Desde o final de 2017, quando o detalhado trabalho de pesquisa documental realizado por Simoni Privato Goidanich veio a público pelo livro de sua autoria intitulado O Legado de Allan Kardec, reacendeu-se uma polêmica iniciada em 1884, com o artigo Uma Infâmia, de Henri Sausse. Na ocasião, Sausse denunciou no jornal Le Spiritisme, órgão de divulgação da União Espírita Francesa, que as alterações sofridas na 5ª edição impactavam significativamente a obra e citou, como exemplo, a supressão do item 67 do capítulo XV, o qual reafirma que Jesus teve um corpo carnal e aponta hipóteses plausíveis para justificar o desaparecimento de seu corpo após sua morte. Sausse finaliza o artigo lançando suspeitas de que essa supressão beneficiaria os partidários de determinadas ideias que contrariavam a lógica. Podemos depreender que Sausse se referia a partidários roustanguistas, os quais defendiam a hipótese docetista de que a natureza do corpo de Jesus não era material, como qualquer encarnado, mas fluídica. Assim, essa denúncia voltava-se para uma eventual adulteração da obra por terceiros, após a morte de Kardec em março de 1869 e destacava a deturpação doutrinária roustanguista, infiltrada no movimento espírita francês naqueles tempos.

Em 1884, os integrantes da União Espírita Francesa, como Gabriel Delanne, Leon Denis e a confidente de Amelie Boudet, Berthe Froppo, dentre outros, criticavam os desvios de conduta e as incoerências doutrinárias do secretário-gerente da Revista Espírita e administrador da Sociedade Anônima da Caixa Geral e Central do Espiritismo, Pierre-Gaetan Leymarie.

A polêmica prolongou-se por mais alguns meses, com réplicas e tréplicas de Leymarie e outros envolvidos, como Armand Desliens, antigo administrador da Sociedade Anônima no período de 1870 a 1871. Ainda que o caso gerasse tensão e embates de narrativas no fragilizado movimento espírita francês, a denúncia de Sausse não se perpetuou e tendeu ao adormecimento com o passar dos anos, até a descoberta de registros históricos realizada por Simoni Privato que lançou novas luzes sobre o caso.

Após a apresentação à comunidade espírita mundial de evidências históricas que colocavam em dúvida a autoria das modificações ocorridas na 5ª edição da obra A Gênese, diversos estudiosos e demais interessados passaram a acompanhar o desenvolvimento das investigações e a explorar aspectos, até então, despercebidos.

 Graças à pesquisa de Simoni Privato, a obra mais madura de Kardec recebeu o desvelo compatível à sua relevância, justamente em seu sesquicentenário.

Recentemente, fatos como a descoberta de uma suposta 5ª edição de A Gênese publicada em meados de 1869 e a análise de manuscritos originais de Kardec, revelando detalhes relacionados não somente à rotina de trabalho do Codificador do Espiritismo, mas também contendo informações cotidianas e pessoais, alimentaram a busca por novas evidências capazes de auxiliar a identificação da autoria das modificações em sua totalidade ou, ainda, parcialmente.

Sobre as hipóteses envolvendo a autoria da 5ª edição, pode-se considerar:

H0: Kardec não é responsável pelas modificações;

H1: Kardec é parcialmente responsável pelas modificações;

H2: Kardec é integralmente responsável pelas modificações.

          Se a acusação proposta por Sausse fosse restrita à adulteração da obra, sem prejuízo doutrinário gerado pelas alterações, o aceite de uma das hipóteses anteriores encaminharia o caso. Sausse, entretanto, destaca haver prejuízo doutrinário na análise comparativa entre as edições original e modificada, citando os capítulos XV e XVIII, por exemplo.

          Enquanto as investigações avançam sobre a autoria das modificações, a análise comparativa sob a perspectiva doutrinária também se desenvolve por diferentes grupos de pesquisadores para se verificar se, efetivamente, houve prejuízo sofrido na 5ª edição.

Pode parecer estranho e desnecessário para alguns, ou até um “sacrilégio” para outros mais afeitos à idolatria, realizar-se uma análise comparativa entre as edições, pois o mais importante, para eles, seria a autoria. Não é incomum encontrarmos pessoas que afirmam que, se H2 for confirmada, então a 5ª edição estaria, necessariamente, mais adequada e correta do que a 4ª edição e deveria ser aceita sem qualquer questionamento. Kardec, entretanto, recomenda que façamos justamente o contrário sobre qualquer objeto de estudo, que analisemos criteriosamente sob a égide da razão e não do personalismo ou da credulidade cega. No mínimo, o estudo comparativo entre as edições original e modificada enriquece o conhecimento de quem assim procede e, ainda, se as hipóteses H0 ou H1 não puderem ser rejeitadas, reforça-se a necessidade de análise de eventual impacto doutrinário devido às alterações.

Desde 2018 a União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE-SP) vem incentivando a formação de grupos de estudos comparativos entre as edições original e modificada de A Gênese e promovendo análises doutrinárias sobre essa questão, fomentando o debate de ideias e não de pessoas.

O produto dessas discussões vem sendo publicado no periódico Dirigente Espírita (DE), veículo oficial de comunicação da USE-SP, e diferentes prejuízos doutrinários ou de compreensão do texto já foram identificados na 5ª edição, como detalhado nas análises dos capítulos XIV, XV e XVIII publicadas, respectivamente, no DE nºs 169, 167 e 168.

Adicionalmente, pode-se afirmar que houve melhorias e correções gramaticais em determinados trechos de capítulos da 5ª edição, sem impacto doutrinário. Esse fato não confirma nenhuma das hipóteses sobre a autoria.

Mesmo mantendo a expectativa de que em algum dia contemos com evidências objetivas para se aceitar com segurança qualquer uma das hipóteses elencadas anteriormente, as análises comparativas já realizadas permitem afirmar que, sob o aspecto da coerência doutrinária e clareza do texto, a 4ª edição de A Gênese mostra-se mais adequada do que a 5ª edição em diferentes passagens, fazendo com que o estudo comparativo seja fortemente indicado a todo adepto espírita.


Fonte: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/09/DE179-C.pdf

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Julgamentos morais: ainda sobre o aborto

 


Julgamentos morais: ainda sobre o aborto 


Marco Milani 

          Em um mundo de expiações e provas, não precisamos procurar muito para nos depararmos com os chamados escândalos, aqui entendidos como sendo todos os acontecimentos que se tornam públicos e provocam intensos debates morais e legais, geralmente por contrariarem condutas esperadas ou desejadas em determinado contexto.

A reflexão contribui para a pertinente discussão sobre os princípios e valores de uma sociedade e expõe, rudemente, os problemas e desafios que devemos superar.

Muitas pessoas são movidas pela sincera intenção de expressar a sua visão de mundo e como esse deveria ser, porém, outras buscam explorar os fatos, sejam esses quais forem, com suas calculadas narrativas, objetivando persuadir e convencer o maior número de indivíduos a abraçarem as suas convicções pessoais e, até, bandeiras político-ideológicas.

O recente caso envolvendo o estupro crônico de vulnerável com a consequente gravidez, ainda que não seja incomum, certamente choca e desperta o recorrente debate sobre a pertinência ou não da interrupção provocada da gestação.

O relativismo moral, tão marcante em ideologias materialistas, já tem o discurso pró-abortivo pronto. Sob a perspectiva espírita, por sua vez, a posição pró-vida é nítida, ressalvando-se a situação em que a mãe corra o risco de morrer mediante a continuidade da gravidez, conforme encontramos na questão nº 359, de O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec.

Não se pode esperar que materialistas acreditem ou confiem na Justiça Divina, pois a estreiteza de visão desconsidera a realidade espiritual e considera apenas uma existência terrena sem a mínima noção da harmonia natural que regula as relações humanas e a jornada evolutiva dos seres. Tipicamente, a histeria materialista manifesta-se contra todos aqueles que não compactuam com as mesmas opiniões limitadas, supondo que o aborto representaria um alívio perante a expectativa de uma vida mundana eivada de dor e sofrimentos pela maternidade indesejada.

Igualmente, o fanatismo religioso direciona a sua fúria aos descrentes que não se servem dos mesmos argumentos de autoridade supostamente divinos, gerando um conflito de extremistas que não conseguem dialogar e muito menos avançar quanto ao conhecimento baseado nos fatos e na razão.

Assim, fanáticos, sejam materialistas ou espiritualistas, tendem a incentivar e promover o linchamento moral dos adversários.

          O ensino dos Espíritos, validado pelo critério da universalidade adotado por Kardec, contrapõe-se naturalmente à posição materialista e afasta-se da fé cega que gera o fanatismo religioso. Ao destacar a liberdade e responsabilidade de cada um perante os próprios atos, não busca forçar comportamentos pela imposição de preceitos dogmáticos, da mesma maneira que não esconde ou relativiza as consequências.

          Sinteticamente, quem compreende o ensino doutrinário espírita sabe que qualquer ato provoca consequências e a gravidade do ato, aliada à intenção e à compreensão dessas consequências, determinará os reflexos. Todos os envolvidos em uma ação violenta contra um encarnado, como no caso de um estupro, ou a um ser em processo de reencarnação, como na interrupção provocada de uma gravidez, responderão à própria consciência perante as Leis Naturais e não se eximirão dessa responsabilidade.

       Religiosos e materialistas exaltados que tentam se sentir melhor por “lutarem” pela imposição de sua visão limitada de mundo, também trilham os próprios caminhos educativos e rumam ao progresso espiritual, mas não é por isso que deixarão de ser julgados com a mesma intensidade que estigmatizarem e condenarem o próximo.



sexta-feira, 26 de junho de 2020

A necessária evolução dos métodos produtivos a favor do homem


A revolução industrial foi fundamental para o aumento da produtividade e consequente melhora no padrão de vida da sociedade.


Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1864 > Março > Instruções dos Espíritos >


Objetivo final do homem na Terra 


Outrora os homens eram atrelados à charrua; eram sacrificados em trabalhos gigantescos, e a construção das muralhas da Babilônia, onde vários carros marchavam em linha; a edificação das Pirâmides e a instalação da Esfinge custaram mais que dez batalhas sangrentas. Mais tarde os animais foram subjugados, em concorrência com os homens, e vimos, na jovem Lutécia, bois de canga arrastarem a carruagem em que espaireciam os reis desocupados da segunda raça.

Este preâmbulo visa mostrar aos que nos ouvem que todas as perguntas feitas neste centro simpático aos Espíritos obtêm sua solução, por um ou outro de nós. Esse caro Jacquard, essa glória do tear, esse artífice engenhoso, que caiu como um soldado valente no campo de honra do trabalho, tratou de um aspecto das questões econômicas que se ligam ao trabalho humanitário. Ele me pôs um tanto em causa, falando das modificações que eu tinha feito na arte do tecelão, e chamou-me, por assim dizer, para fazer a minha parte nesse concerto espiritual. Eis por que, encontrando entre vós um médium, como eu nascido na velha cidade dos alóbrogos, essa rainha do Grésivaudan, dele me apodero com a permissão de seus guias habituais e venho completar por uma parte a exposição que meu ilustre amigo de Lyon vos deu por outro médium.

Em sua dissertação, aliás muito notável, ele ainda exprime certas queixas que sob o inventor revelam o operário ansioso por seu ganha-pão e temeroso do desemprego homicida. Sente-se que o pai de família teme uma suspensão do trabalho, do qual depende a vida dos seus; adivinha-se o cidadão que freme ante o desastre que pode atingir a maioria de seus concidadãos. Esse sentimento é, certamente, dos mais honrosos, mas denota um ponto de vista de certa estreiteza. Venho tratar da mesma questão que Jacquard, senão mais largamente que ele, ao menos de um ponto de vista mais geral. Contudo, devo constatar, para homenagear a quem de direito, que a generosa conclusão da comunicação de meu amigo resgata amplamente o lado defeituoso que assinalo.

O homem não foi feito para ficar como instrumento ininteligente de produção. Por suas aptidões, por seu lugar na criação e por seu destino, ele é chamado a outra função que não a de máquina; a um outro papel que não o do cavalo de carrossel. Nos limites fixados por seu adiantamento, ele deve chegar a produzir mais e mais intelectualmente e, enfim, emancipar-se desse estado de servilismo e de engrenagem ininteligente a que, durante tantas gerações, ficou escravizado.

O operário é chamado a tornar-se engenheiro, a ver seus braços laboriosos substituídos por máquinas ativas, mais infatigáveis e mais precisas do que ele. O artífice deve tornar-se artista e conduzir o trabalho mecânico por um esforço do seu pensamento, e não mais por um esforço de seus braços. Aí está a prova irrecusável desta lei tão larga do progresso, que rege todas as humanidades.

Agora que vos é permitido entrever, por um passeio pela vida futura, a verdade dos destinos humanos; agora, que estais convencidos de que esta existência não passa de um dos elos de vossa vida imortal, posso exclamar: Que importa que cem mil indivíduos sucumbam, quando uma máquina foi descoberta para fazer o trabalho desses cem mil indivíduos? Para o filósofo, que se eleva acima dos preconceitos e interesses terrenos, este fato prova, com muita singeleza, que o homem não estava mais em seu caminho quando ele se consagrava a esse labor condenado pela Providência. Com efeito, é no campo de sua inteligência que doravante o homem deve fazer passar a grade e a charrua que fecundam. É só por sua inteligência que poderá, que deverá chegar ao melhor.

Peço que não deis às minhas palavras um sentido muito revolucionário. Não! Mas deixai-lhes o sentido largo e superior que comporta um ensino espírita que se dirige a inteligências já adiantadas e prontas a compreender todo o alcance de nossas instruções.

Sabe-se que se, de hoje para amanhã, o artífice abandonasse o tear que o sustenta, sob o pretexto de que, num dado momento, este seria substituído por um mecanismo ou qualquer outro invento, é sabido que ele seguiria via fatal e contrária a todas as lições dadas pelo Espiritismo.

Entretanto, todas as nossas reflexões têm um só objetivo, o de demonstrar que ninguém deve gritar contra o progresso, que substitui braços humanos por dispositivos e engrenagens mecânicas.

Além disso, é bom acrescentar que a Humanidade pagou largo contributo à miséria e que, penetrando mais e mais em todas as camadas sociais, a instrução tornará cada indivíduo cada vez mais apto para funções tão inteligentemente chamadas liberais.

É difícil para um Espírito que pela primeira vez se comunica através de um médium, exprimir seu pensamento com bastante clareza. Assim, desculpareis a desorganização da minha comunicação, cuja conclusão aqui está em duas palavras:

O homem é um agente espiritual que deve chegar, em período não distante, a submeter ao seu serviço e para todas as operações materiais à própria matéria, dando-lhe como único motor a inteligência, que se expande nos cérebros humanos.

VAUCANSON*


Jacques de Vaucanson (Grenoble, 24 de fevereiro de 1709 — 21 de novembro de 1782) foi um inventor e artista francês que criou vários autômatos inovativos.