O progresso pela verdade
Marco Milani
Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.213, jul/ago 26, p. 18-19
A afirmação atribuída ao filósofo estoico Marco Aurélio, segundo a
qual se alguém lhe demonstrasse o erro em algum pensamento ou ação ele se
corrigiria de bom grado[1],
exprime uma virtude essencial: a submissão do amor-próprio à verdade. Em Allan
Kardec, essa mesma disposição ganha alcance metodológico com a afirmação de que
o Espiritismo, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro sobre algum
ponto, modificar-se-ia nesse ponto e aceitaria a verdade nova[2].
Erasto, por sua vez, destaca o mesmo compromisso com a verdade sob a forma da
prudência crítica ante comunicações mediúnicas: “Melhor é repelir dez verdades
do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.”[3]
As três formulações convergem para um núcleo comum: a verdade deve
prevalecer sobre a vaidade, a precipitação e o erro. Marco Aurélio fala da
retificação moral do indivíduo; Kardec, da abertura racional da doutrina ao
progresso do conhecimento; Erasto, da cautela indispensável para não
transformar a falsidade em fundamento de crença. Em conjunto, essas ideias
formam uma ética do conhecimento, em que é preciso corrigir-se quando o erro é
demonstrado, aceitar a verdade quando ela se impõe e rejeitar o que não resiste
ao exame racional.
Para Marco Aurélio, a correção nasce da disciplina interior. O homem
que busca a sabedoria não se sente humilhado por reconhecer o equívoco, porque
a verdade não o diminui. Ao contrário, liberta-o de uma falsa segurança.
Persistir no erro por orgulho seria trocar a razão pela vaidade. A retificação,
nesse caso, não é concessão ao adversário, mas vitória sobre si mesmo. Quem
muda diante de uma demonstração legítima não revela fraqueza; revela grandeza
moral.
Kardec adota um princípio análogo para o plano doutrinário e atesta
que o Espiritismo não se apresenta como sistema fechado, impermeável à
investigação, mas como corpo de princípios submetido à razão, aos fatos e à
coerência geral do ensino.
Essa abertura, porém, não equivale a instabilidade doutrinária. Kardec
não autoriza a substituição de princípios por impressões pessoais, modismos
intelectuais, narrativas mediúnicas isoladas ou hipóteses sem controle. A
condição é clara: a modificação só se justifica quando novas descobertas
demonstram o erro. Portanto, a verdade precisa apresentar força probatória,
consistência lógica e coerência com os fatos e com os princípios doutrinários não
refutados após o exame crítico. Não basta ser novidade; é preciso ser verdade
demonstrada.
É nesse ponto que Erasto completa a reflexão. Sua advertência impede
que a abertura ao progresso seja confundida com credulidade, típica dos
novidadeiros exaltados que adoram bradar “Kardec não disse tudo” para
justificar suas recentes certezas. Ao afirmar que é preferível repelir dez
verdades a admitir uma única falsidade, ele não exalta o ceticismo estéril, mas
a prudência metodológica. Uma verdade recusada provisoriamente, por falta de
demonstração clara e lógica, poderá ser reconhecida mais tarde por um fato
decisivo ou por prova irrefutável. Uma falsidade admitida, porém, pode servir
de base a todo um sistema de erros, que desmoronará diante da verdade como
construção feita sobre areia movediça.
Essa advertência é especialmente relevante no campo mediúnico. Erasto
não nega a possibilidade de comunicações elevadas nem de revelações
verdadeiras; ao contrário, exige que elas sejam preservadas do erro pela
análise séria. A mediunidade, sem método, pode converter impressões, opiniões
particulares ou mistificações em supostas verdades espirituais. Por isso, a
razão e o bom senso não são obstáculos à espiritualidade; são defesas
necessárias contra o falso. Rejeitar o duvidoso não é fechar-se à verdade, mas
impedir que a mentira ganhe autoridade indevida.
A articulação entre Marco Aurélio, Kardec e Erasto permite evitar dois
desvios opostos. O primeiro é o dogmatismo, que se recusa a corrigir qualquer
ponto, ainda que a evidência demonstre o erro. O segundo é o relativismo, que
aceita qualquer novidade como se a simples aparência de inovação bastasse para
substituir o que foi racionalmente estabelecido. O primeiro confunde coerência
com rigidez; o segundo confunde progresso com abandono de critério. O
Espiritismo, segundo Kardec e Erasto, não se enquadra em nenhum dos dois.
A coerência doutrinária, portanto, exige dupla virtude: humildade para
retificar o erro e prudência para não acolher a falsidade. Sem humildade, a
verdade é recusada quando contraria preferências pessoais. Sem prudência, o
erro é aceito porque se apresenta com aparência sedutora. A primeira virtude
impede a obstinação; a segunda impede a credulidade. Ambas são indispensáveis
ao estudo sério do Espiritismo.
A frase de Marco Aurélio educa o indivíduo para não se apegar ao
próprio erro. A afirmação de Kardec orienta a doutrina a aceitar a verdade
demonstrada. A advertência de Erasto protege o movimento espírita contra a
precipitação de admitir teorias falsas. As três, em conjunto, ensinam que a
verdade não deve ser sacrificada nem ao orgulho de ter razão, nem ao entusiasmo
pelas novidades, nem ao receio de rever posições secundárias.
A retificação pela verdade é, assim, uma disciplina moral e
intelectual. Exige coragem para abandonar o erro, método para reconhecer a
verdade e vigilância para rejeitar a mentira. Em Marco Aurélio, ela aperfeiçoa
o caráter. Em Kardec, preserva a natureza progressiva do Espiritismo. Em
Erasto, resguarda a doutrina contra a falsificação do verdadeiro. Onde há
compromisso real com a verdade, corrigir-se não é derrota; é coerência com a
razão.
[1] MARCO
AURÉLIO. Meditações. São Paulo: Editora 34, 2019. Livro VI, item 21
[2] KARDEC,
Allan. A gênese. São Paulo: USE, 2022. cap. I, item 55.
[3] KARDEC,
Allan. O livro dos médiuns. Brasília: FEB, 2020. Segunda parte, cap. XX,
item 230.
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