sexta-feira, 8 de maio de 2026

O perigo de ser o maior

O PERIGO DE SER O MAIOR

 

Artigo de Irmão Saulo (José Herculano Pires), publicado no jornal Unificação, ano 1, no 2, maio de 1953 e reproduzido na Revista Dirigente Espírita, ed. 212, p.20.

 

 A propagação do espiritismo se tem feito, entre nós, muito mais através da prática do que da teoria, ou seja, do estudo doutrinário. Contam-se por verdadeira multidão as pessoas que se tornaram espíritas e frequentam sessões sem jamais haverem lido O livro dos espíritos ou qualquer outra das obras básicas da Doutrina.

Quando muito, essas pessoas têm ouvido falar de Kardec nas palestras e conferências espíritas, e têm recebido alguns ensinamentos através da leitura de uma página ou outra de O evangelho segundo o espiritismo, nas deficientes sessões teóricas que alguns centros ainda praticam, uma vez por semana.

Essa situação do espiritismo no Brasil é a mais estranha e paradoxal que se poderia imaginar. Espiritismo é doutrina. Bastaria isto para nos mostrar a impossibilidade de se praticar espiritismo sem o conhecimento dos seus princípios.

A prática doutrinária devia ser uma consequência do estudo e da assimilação da teoria. As sessões teóricas, por isso mesmo, deviam ser mais numerosas do que as sessões práticas. Ao invés de cada centro realizar três ou quatro sessões práticas por semana e apenas uma de teoria, o contrário é que devia ser feito. Vejamos um exemplo corriqueiro. Pode alguém praticar a odontologia, curar e arrancar dentes, sem primeiro ter aprendido a profissão? Antigamente existiam os dentistas-práticos, e ainda hoje existem alguns licenciados. É verdade que eles não cursaram escolas mas, antes de se entregarem à prática, tiveram de aprender com outro profissional.

Outro exemplo, ainda mais banal, é o do barbeiro. Pode alguém abrir um salão e praticar a arte, sem antes ter aprendido? O mesmo se dá no futebol. É possível jogá-lo, sem conhecer as regras do jogo, sem antes aprender? Esses exemplos, pela sua própria natureza popular, de fácil compreensão por todos, devem estar constantemente na boca dos doutrinadores e dos dirigentes de associações espíritas.

Ora, se para ser dentista, barbeiro ou futebolista, ninguém pode deixar de lado a teoria, o estudo, aprendizado, que dizer do espiritismo, que é coisa muito superior à odontologia, à arte de barbear e ao jogo de futebol?

Se ninguém pode realizar com perfeição e segurança um simples ato material, mecânico, sem grande importância, como pode entregar-se a coisas muito mais sérias e complicadas, como a recepção e doutrinação de Espírito? O erro fundamental do movimento espírita, em nosso país, está justamente nesse problema, que precisamos solucionar.

A mistificação tomou conta de grande número de nossas sociedades, porque os seus dirigentes não se prepararam devidamente para a tarefa árdua, difícil e séria, que resolveram tomar sobre os ombros. Mas o responsável por esse fato não é a ignorância, como pensam muitos. Não. A ignorância tem a sua parte de responsabilidade, sem dúvida, mas a responsabilidade maior é a da vaidade, do orgulho, da pretensão. Porque a pessoa pode ser ignorante e não ser vaidosa. Então, ela não se arrogará o direito de dirigir os outros, de ensinar o que não sabe, de acreditar na tapeação dos chamados “guias”, que lhe dizem a todo instante ser ela “a maior” no grupo ou centro a que pertence.

O combate à prática indiscriminada do espiritismo, feita sem o devido conhecimento da Doutrina, deve, portanto, ser desenvolvido sem esmorecimentos.

Esse combate tem também objetivo e consequências morais, visando a reforma intima dos nossos confrades. Mostrando-lhes os erros em que têm incorrido, contribuímos para que eles compreendam o erro maior, que está nos seus próprios corações, ou seja, o erro da vaidade, e da mais tola das vaidades, porque aquela que não se baseia senão em si mesma.

É necessário que esclareçamos bem este ponto. Vamos, pois, a um exemplo material, pois nada melhor do que as figuras para dizerem as coisas de maneira eficiente. Quem não conhece a história daquele homem que, por força dos elogios, se convenceu de que era peão e montou um burro chucro, para ser logo atirado ao chão pelo animal? Pois essa história nos dá a imagem perfeita do presidente de Centro, diretor de trabalhos ou doutrinador que não estudou, não estuda e não conhece a Doutrina. Os Espíritos mistificadores dizem que ele “é o tal”, ensinam-lhe uma porção de bobagens, que ele não pode saber se estão certas ou erradas, e depois o atiram-no no lombo de um burro chucro.

É por isso que vemos por aí, em tantos centros. presidentes e doutrinadores com os olhos cheios de areia. Não enxergam nada, porque caíram do burro e a areia lhes tapou a vista. Para ser espírita é preciso conhecer o espiritismo. Para doutrinar Espírito é preciso saber doutrina. O que é doutrinar? Não é ensinar doutrina? E como pode alguém doutrinar, se não conhecer doutrina? O resultado dessa confusão é que os doutrinadores se afundam num emaranhado de bobagens, ensinando coisas que o espiritismo condena. Fazem como os fariseus, de que falava Jesus, que não entram no céu e não deixam os outros entrar. Eles não aprendem doutrina e não deixam os outros aprender, porque cheios de si e vazios de Cristo, só falam das suas próprias tolices.

Cada presidente de centro, cada orador, cada doutrinador espírita, tem sobre os ombros uma grande responsabilidade, que é a da difusão da verdadeira Doutrina. Que cada qual, pois, se compenetre dessa responsabilidade, e não se assuste de ser ignorante, pois todos os somos, numa coisa ou noutra, mas não queira nunca ser o peão que os falsos elogios atiraram ao lombo do burro chucro.

A ignorância tem remédio, através do estudo; mas a vaidade, essa é cega e teimosa como uma bruxa.


 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Prece sem hora marcada

Prece sem hora marcada

 

Marco Milani

Fernando Porto

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.212, mai/jun 2026, p. 29-30

 

A leitura superficial de trechos nas obras fundamentais, isolados de seu contexto, pode gerar interpretações doutrinariamente equivocadas quando associadas aos conceitos e práticas de outras tradições filosóficas e religiosas. Tal é o caso da efetividade de preces realizadas por um grupo de pessoas, como mencionada n’O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XXVII, item 15.

Os Espíritos ensinam que é o pensamento que caracteriza o poder da prece, independentemente das palavras, do lugar e do momento em que é feita, sendo a sinceridade e a humildade suas condições necessárias. Quando realizada em conjunto, portanto, não é a quantidade de pessoas, mas a qualidade dos pensamentos e as intenções individuais o que realmente importa. Havendo perfeita sintonia, a prece em comum pode amplificar a atração do concurso dos bons Espíritos.

Os problemas interpretativos partem, entretanto, não do reconhecimento de que a convergência sincera de intenções seja benéfica, mas da mecanização e quantificação do processo de comunicação entre encarnados e desencarnados sob uma imprecisa perspectiva material e mística. Ao supor que a repetição sistemática e o agendamento temporal por meio de horários fixos para a prece em conjunto despertarão mais atenção espiritual ou produzirão “combinações fluídicas” para serem utilizadas em algum processo terapêutico em larga escala, identifica-se fragilidade doutrinária dessa concepção que reintroduz elementos de ritualismo incompatíveis com a natureza essencialmente racional, livre e não litúrgica do Espiritismo.

A ação dos Espíritos não está condicionada a relógios, fusos horários ou agendas organizadas por encarnados em prece. Ao contrário, a assistência espiritual é contínua, dinâmica e orientada por critérios superiores, alheios à pretensão de controle humano. Esse tipo de proposta aproxima-se das práticas devocionais do igrejismo dogmático como novenas, terços e correntes.

Kardec foi claro ao afastar qualquer forma de culto exterior, fórmula sacramental ou rituais por meio de mecanismos repetitivos que pretenda conferir eficácia automática à prática espiritual.

Outro aspecto crítico é a noção de “corrente vibratória” como instrumento de intervenção coletiva. O termo não possui definição rigorosa nas obras espíritas fundamentais e frequentemente é empregado de maneira vaga e simbólica como emissão difusa de bons pensamentos com efeitos amplos e pouco definidos. Ao se afirmar que grupos organizados, em horários fixos, formariam uma “corrente de auxílio” capaz de influenciar cenários complexos, como conflitos geopolíticos, induz uma pueril visão mecanicista da espiritualidade. Essa perspectiva simplifica indevidamente a realidade e sugere que a soma de intenções simultâneas produziria efeitos proporcionais, como se se tratasse de um fenômeno físico mensurável.

A adesão a esse tipo de prática pode ser parcialmente explicada, do ponto de vista da psicologia social, por fenômenos como coesão grupal e viés de confirmação. A realização simultânea de uma atividade simbólica tende a intensificar a percepção de pertencimento e propósito, frequentemente interpretada como evidência de efetividade. Tais efeitos, contudo, dizem respeito à experiência subjetiva dos participantes e não constituem, por si, demonstração de ampliação causal no plano espiritual. A distinção entre vivência psicológica e ação espiritual efetiva é necessária para evitar que percepções internas sejam indevidamente convertidas em explicações sobre a dinâmica da intervenção dos Espíritos.

Outro ponto que merece reflexão é o efeito institucional dessas práticas. Ao serem promovidas por organizações e lideranças representativas, acabam por legitimar uma forma de espiritualidade mística, centrada em gestos simbólicos e emocionalmente confortáveis. Isso contribui para o empobrecimento intelectual do movimento, deslocando o eixo do estudo sistemático das obras kardequianas e do autoconhecimento para práticas coletivas de fácil adesão. O resultado é a formação de um público cada vez mais distante da base doutrinária e mais suscetível a interpretações lúdicas.

É importante destacar que a crítica aqui não se dirige à prece em si, que é amplamente reconhecida na doutrina como recurso legítimo de elevação moral e conexão com o plano espiritual, nem no hábito salutar de atividades agendadas previamente fora do centro espírita, como reuniões doutrinárias de estudo realizadas por uma família (comumente denominadas de Evangelho no Lar). O problema está na sua transformação em prática coletivizada sob moldes que lembram rituais religiosos tradicionais. A prece espírita é essencialmente livre, espontânea e individual, podendo, no entanto, ser organizada ou realizada coletivamente sem perder seu caráter pessoal. O que não se sustenta é a tentativa de conferir-lhe eficácia especial por meio da simultaneidade organizada.

O atavismo religioso presente em alguns adeptos talvez explique parcialmente a preferência pelo misticismo ritualístico, mas cabe ao dirigente espírita contribuir para que a coerência doutrinária prevaleça em nome da racionalidade.

 

 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Desafios da Educação Espírita

Desafios da Educação Espírita

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.212, mai/jun 2026, p. 16-17

 

A educação espírita sempre esteve associada ao estudo. Apresentado pelo distinto professor Rivail, o Espiritismo se apresentou como uma doutrina que exige reflexão, análise comparada e leitura sistemática. Obras como O Livro dos Espíritos e O Que é o Espiritismo foram elaboradas em forma de diálogo racional, com perguntas, argumentos e explicações progressivas. Isso pressupõe um leitor capaz de acompanhar raciocínios encadeados, interpretar conceitos abstratos e relacionar ideias ao longo de textos extensos.

Entretanto, o contexto cultural contemporâneo apresenta novos desafios para a educação de forma geral. Jovens e adultos da atual geração vivem em um ambiente de intensa mediação tecnológica. O acesso à informação tornou-se rápido, difuso e frequentemente superficial. Plataformas digitais privilegiam mensagens curtas, vídeos breves e estímulos visuais constantes. Nesse cenário, a atenção tende a ser mais dispersa e a disposição para leituras prolongadas diminui.

Pesquisas como a da neurocientista Maryanne Wolf (2018) apontam uma redução da capacidade média de leitura profunda entre jovens e adultos. Mesmo pessoas altamente expostas a ferramentas tecnológicas, incluindo sistemas generativos de conteúdo por inteligência artificial, frequentemente apresentam dificuldades para manter concentração prolongada em textos densos. Isso não significa ausência de interesse, mas revela um padrão cognitivo fortemente condicionado por ambientes informacionais rápidos e fragmentados.

Esse quadro representa um desafio direto para a educação espírita. A compreensão adequada da doutrina exige estudo progressivo, leitura cuidadosa e comparação entre obras. Os textos fundamentais não foram concebidos como mensagens motivacionais breves ou conteúdos simplificados. Ao contrário, apresentam raciocínios filosóficos, discussões sobre princípios metafísicos e análises de fenômenos mediúnicos que demandam atenção e esforço intelectual.

Quando o hábito de leitura profunda se enfraquece, cresce o risco de interpretações rasas ou de dependência excessiva de resumos, vídeos ou comentários de terceiros. O resultado pode ser a formação de um conhecimento fragmentado, no qual conceitos complexos são assimilados apenas parcialmente. No campo espírita, isso pode gerar confusões conceituais, misturas com ideias externas ou simplificações incompatíveis com a coerência doutrinária.

Nesse contexto, observa-se também a tendência de supervalorização de romances mediúnicos e de obras secundárias como fontes de informação doutrinária. Embora possam apresentar narrativas interessantes ou reflexões úteis, tais produções não substituem as obras de Allan Kardec, que foram elaboradas sob critérios metodológicos específicos e submetidas ao Controle Universal do Ensino dos Espíritos. A utilização desses livros como referência principal, em detrimento dos textos fundamentais, pode contribuir para a formação de compreensões parciais ou distorcidas, afastando o estudo do seu eixo racional e comparativo.

A educação espírita, portanto, enfrenta uma tarefa dupla. Por um lado, precisa reconhecer as características cognitivas do público contemporâneo. Por outro, não pode abandonar o rigor intelectual que caracteriza o estudo da doutrina. A solução não consiste em substituir o estudo das obras por conteúdos simplificados, mas em desenvolver estratégias pedagógicas que reintroduzam progressivamente o hábito da leitura reflexiva.

Uma primeira medida consiste em valorizar a leitura orientada. Em vez de apenas recomendar a leitura individual das obras básicas, grupos de estudo podem dedicar tempo à leitura comentada de trechos específicos. A análise coletiva permite esclarecer conceitos, contextualizar passagens e estimular a participação ativa dos estudantes.

Outra estratégia importante é a progressão pedagógica. Muitos leitores iniciantes encontram dificuldade ao se deparar diretamente com textos robustos. Um percurso gradual, iniciando com conceitos fundamentais e avançando progressivamente para temas mais complexos, facilita a assimilação e reduz a sensação de dificuldade inicial.

Também é necessário estimular o desenvolvimento de habilidades cognitivas relacionadas à leitura profunda. A capacidade de formular perguntas, identificar premissas e acompanhar encadeamentos lógicos deve ser cultivada deliberadamente. O próprio método utilizado por Kardec, o Controle Universal do Ensino dos Espíritos, pode servir de inspiração para práticas educativas que incentivem a investigação e o raciocínio crítico.

O uso de tecnologias, por sua vez, não precisa ser rejeitado. Ferramentas digitais podem auxiliar na divulgação de conteúdos, na organização de materiais de estudo e na disseminação de obras. Contudo, elas não devem substituir o contato direto com as obras fundamentais. O recurso tecnológico deve ser entendido como porta de entrada ou instrumento de apoio, e não como substituto do estudo sistemático.

Outro ponto relevante diz respeito ao exemplo oferecido pelos próprios educadores e trabalhadores espíritas. Quando dirigentes, expositores e instrutores demonstram familiaridade com as obras e citam diretamente as fontes doutrinárias, reforçam a importância do estudo. Ao contrário, quando predominam opiniões pessoais ou conteúdos desvinculados das obras básicas, transmite-se implicitamente a ideia de que o estudo profundo é dispensável.

Por fim, é importante reconhecer que a educação espírita não se limita à transmissão de informações. Trata-se de um processo de formação intelectual e moral. O estudo das obras de Allan Kardec não tem apenas finalidade informativa, mas visa desenvolver a capacidade de compreender a realidade espiritual e orientar a própria conduta.

Diante das transformações culturais contemporâneas, o desafio da educação espírita consiste em preservar o caráter reflexivo da doutrina, ao mesmo tempo em que se adapta às condições cognitivas do público atual. Isso exige método, paciência pedagógica e compromisso com a coerência doutrinária.

Se o Espiritismo nasceu do estudo e da investigação racional, sua continuidade também dependerá da capacidade de formar novas gerações de leitores atentos, capazes de dialogar seriamente com os textos que constituem o seu fundamento intelectual.

 

Referências

WOLF, Maryanne. Reader, come home: The reading brain in a digital world. New York: Harper, 2018.

 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

A experiência individual não equivale a verdade universal

 

 

A experiência individual não equivale a verdade universal

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, n.56, mai/26, p. 9-10

 

A análise das experiências espirituais individuais exige, no âmbito do Espiritismo, um critério rigoroso que distinga fenômeno de interpretação. A história de Emanuel Swedenborg, examinada por Allan Kardec na Revista Espírita de novembro de 1859, oferece um exemplo doutrinariamente decisivo dessa distinção. Trata-se de um caso em que a autenticidade da experiência não impediu o erro na sua compreensão, demonstrando que a percepção espiritual, por si só, não constitui critério de verdade.

Swedenborg descreveu, com notável minúcia, o que considerava ser o mundo dos Espíritos. Suas obras apresentam ambientes organizados, relações entre entidades e estruturas que, em muitos aspectos, lembram construções do mundo físico. Durante certo tempo, tais descrições foram tomadas como representações diretas da realidade espiritual. No entanto, a análise espírita, apoiada tanto na comparação de comunicações quanto no exame racional, evidenciou limitações substanciais em seu sistema.

Na referida edição da Revista Espírita, uma comunicação atribuída a Swedenborg reconhece explicitamente o equívoco fundamental: a confusão entre aquilo que percebia e a realidade objetiva. Ele admite ter tomado como existentes, de maneira literal, imagens e construções que eram, em grande medida, resultantes de sua própria percepção, influenciada por suas crenças e por seu contexto intelectual. Essa confissão, independentemente da discussão sobre sua origem mediúnica, possui valor metodológico inequívoco, pois confirma, pelo próprio exemplo, a tese de que a experiência individual não é suficiente para estabelecer uma verdade universal.

Kardec, ao comentar esse caso, não nega a possibilidade de Swedenborg ter efetivamente percebido algo no plano espiritual. Ao contrário, admite que indivíduos dotados de certas faculdades podem, em estado de emancipação da alma, entrar em contato com realidades extrafísicas. O ponto central, contudo, não está na realidade do fenômeno, mas na validade da interpretação. O observador, ao traduzir suas percepções, o faz por meio de categorias mentais pré-existentes, o que pode levá-lo a conclusões errôneas.

Esse princípio tem implicações diretas para a análise de relatos contemporâneos, sejam eles mediúnicos ou anímicos. Durante o sono, o sonambulismo ou outros estados de emancipação, o Espírito pode experimentar percepções que lhe parecem tão concretas quanto aquelas do estado de vigília. Não é incomum que tais experiências sejam descritas como visitas a cidades, instituições ou comunidades espirituais organizadas. A riqueza de detalhes e a coerência interna desses relatos frequentemente impressionam e induzem à aceitação imediata.

Entretanto, à luz do método espírita, essas descrições devem ser tratadas com cautela. A semelhança com estruturas do mundo físico pode resultar de um processo de adaptação perceptiva, pelo qual o Espírito, ainda condicionado por suas experiências terrenas, interpreta o que vê segundo formas conhecidas. Assim, aquilo que é percebido como uma “cidade” pode não corresponder a uma organização material análoga às cidades terrestres, mas sim a uma representação funcional ou simbólica de relações entre Espíritos.

A distinção entre percepção e realidade é, portanto, essencial. O fato de um indivíduo relatar ter visto determinado ambiente não implica que esse ambiente exista tal como descrito. Do mesmo modo, a concordância interna de um conjunto de relatos oriundos de um mesmo grupo não constitui validação, pois pode refletir influências comuns, conscientes ou inconscientes. É precisamente para evitar esse tipo de ilusão coletiva que o Espiritismo estabelece o princípio do controle universal do ensino dos Espíritos.

Segundo esse critério, nenhuma informação adquire estatuto doutrinário por sua origem ou por sua aparência de veracidade. Ela deve ser submetida à comparação com comunicações independentes, obtidas por diferentes médiuns, em distintos locais e sem contato entre si. Somente a concordância ampla e espontânea, aliada à coerência com os princípios já estabelecidos e ao exame da razão, pode conferir algum grau de confiabilidade à informação.

O caso de Swedenborg evidencia, de maneira concreta, os riscos da ausência desse controle. Sua obra, embora fruto de observação sincera, não foi submetida a um processo de validação intersubjetiva. Como resultado, incorporou elementos que, posteriormente, se revelaram inconsistentes com um conjunto mais amplo de observações. Sua experiência, legítima enquanto fenômeno, tornou-se limitada enquanto interpretação.

Essa lição permanece atual. Em um contexto em que proliferam relatos de experiências espirituais, frequentemente divulgados como descrições fiéis do além, torna-se ainda mais necessário reafirmar o critério espírita de validação. A aceitação acrítica dessas narrativas, sobretudo quando baseadas em fontes únicas, compromete a coerência doutrinária e favorece a formação de concepções imaginárias.

O Espiritismo não nega a realidade das experiências de emancipação da alma, mas delimita seu alcance cognitivo. Ver não é conhecer; experimentar não é compreender. Relatos individuais, por mais vívidos e sinceros que sejam, não correspondem necessariamente a fatos reais tal como percebidos. Somente o exame rigoroso, a comparação entre fontes independentes e a submissão ao crivo da razão permitem transformar impressões pessoais em conhecimento confiável. O exemplo de Swedenborg, analisado por Kardec, permanece como advertência clara contra a ilusão de que a experiência individual possa, por si só, constituir verdade universal.

 

 


domingo, 26 de abril de 2026

Léon Denis entre o Espiritualismo e o Anacronismo Ideológico: uma leitura crítica da edição brasileira do livro Socialismo e Espiritismo

 

Léon Denis entre o Espiritualismo e o Anacronismo Ideológico:
uma leitura crítica da edição brasileira do livro Socialismo e Espiritismo[1]

 

Marco Milani

 

Artigo originalmente publicado na The Spiritist Magazine em abril-junho de 2026*

 

Entre os textos tardios de Léon Denis, Socialismo e Espiritismo ocupa um lugar singular. Não se trata de um livro autônomo, mas sim de um conjunto de oito artigos independentes publicados na Revista Espírita ao longo de 1924, refletindo as preocupações sociais de um pensador espírita maduro, moldado pelo contexto europeu do pós-guerra e comprometido com a ideia do progresso moral do Espírito e com a regeneração ética da sociedade.

Fora do Brasil, esses artigos permaneceram predominantemente consultados em sua forma original ou em compilações técnicas, digitais ou editoriais discretas, sem extensos prefácios ou enquadramentos ideológicos. A edição brasileira lançada em 1982 em formato de livro pela Casa Editora O Clarim, contudo, introduz intervenções editoriais que exigem leitura crítica cuidadosa, sob pena de comprometer a compreensão fiel do pensamento do autor.

Denis jamais foi um teórico político no sentido moderno do termo. Discípulo intelectual de Allan Kardec e atento aos ensinamentos dos Espíritos, compreendia a questão social como consequência direta da condição moral dos indivíduos. Em Socialismo e Espiritismo, o autor emprega o termo “socialismo” de maneira muito particular, desvinculada das formulações materialistas e coletivistas já consolidadas no início do século XX e predominantes hoje. Trata-se de um uso ético e espiritual do conceito, associado à fraternidade voluntária, à responsabilidade individual e à lei do progresso moral.

É precisamente nesse ponto que surgem as principais dificuldades da edição brasileira. O prefácio assinado por José Freitas Nobre, político profissional e militante das ideias socialistas de seu tempo, assume caráter ensaístico e ideológico, ultrapassando o papel introdutório esperado. Em vez de contextualizar historicamente o texto de Denis, o prefácio projeta categorias políticas posteriores sobre o autor francês, sugerindo afinidade com o chamado “socialismo cristão” e relativizando a crítica explícita de Denis ao materialismo marxista.

Essa operação interpretativa é problemática. Denis não rejeita o socialismo marxista por ignorância histórica, como sugere o prefácio, mas por coerência filosófica. Conhecedor dos desdobramentos da Revolução Russa, afirma reiteradamente que nenhuma transformação social duradoura pode nascer da coerção, da luta de classes ou da supressão da liberdade individual. Para Denis, a verdadeira fraternidade é fruto da consciência esclarecida, jamais de imposições estatais ou de igualitarismo compulsório.

O risco de anacronismo torna-se ainda mais evidente pela ausência de advertências editoriais claras ao leitor contemporâneo. A edição de 1982 não distingue adequadamente o uso espiritualista do termo “socialismo” por Denis dos significados políticos e econômicos que vieram a predominar ao longo do século XX. Essa omissão favorece leituras equivocadas, aproximando indevidamente o Espiritismo de projetos ideológicos coletivistas e estatizantes que lhe são estranhos, quando não abertamente incompatíveis com seus princípios fundamentais.

No que diz respeito à tradução de Wallace Leal Rodrigues, o quadro é mais sutil. Em termos gerais, a versão em português preserva a estrutura argumentativa da obra e mantém sua coerência doutrinária essencial, especialmente quanto à centralidade do livre-arbítrio, da responsabilidade moral e da educação espiritual como motores do progresso social. Ainda assim, há inconsistências pontuais relevantes no rigor semântico e na neutralidade interpretativa que merecem atenção.

Algumas escolhas lexicais suavizam críticas incisivas presentes no texto francês ou introduzem termos ausentes no original, alterando sutilmente o tom e o alcance conceitual de determinadas passagens. Em especial, conceitos de natureza econômica, como “troca”, “expansão monetária” e “trabalho”, sofrem deslocamentos que enfraquecem a precisão do pensamento de Denis, embora não revertam sua tese central. Há também momentos em que o tradutor acrescenta frases ou comentários de caráter emocional ou moralizante, afastando-se do princípio de neutralidade filológica esperado em traduções críticas.

Do ponto de vista filosófico, uma leitura abrangente da obra confirma que o chamado “socialismo espiritualista” de Denis aproxima-se mais de um humanismo ético fundado na liberdade do que das tradições socialistas clássicas. O autor defende a propriedade legitimada pelo trabalho, critica a hipertrofia do Estado e rejeita qualquer forma de despotismo, seja “de cima” ou “de baixo”. Para ele, a regeneração social é consequência do aperfeiçoamento íntimo dos indivíduos, e não resultado de reformas políticas impostas.

Essa concepção também dialoga, ainda que implicitamente, com tradições do liberalismo europeu, particularmente no reconhecimento da autonomia da consciência, do mérito individual e da solidariedade voluntária. Denis não propõe a abolição das estruturas sociais existentes, mas sua moralização progressiva à luz das leis divinas, reafirmando que a justiça externa só pode se sustentar quando fundamentada na justiça interior.

Diante desse conjunto de elementos, impõe-se uma conclusão clara. A edição brasileira de Socialismo e Espiritismo desempenha papel relevante na difusão da obra de Léon Denis, mas carece de adequada mediação crítica. O prefácio de orientação ideológica e certas fragilidades na tradução comprometem a leitura histórica e doutrinária do texto, exigindo do leitor uma postura hermenêutica vigilante.

É desejável, portanto, que sejam publicadas edições críticas baseadas diretamente no texto original francês, acompanhadas de notas explicativas que esclareçam o contexto semântico e intelectual do início do século XX. Somente assim será possível preservar a coerência do pensamento de Léon Denis, evitar projeções ideológicas alheias à sua obra e assegurar que seu legado intelectual seja compreendido em sua profundidade moral, filosófica e autenticamente espírita, livre de vieses políticos anacrônicos.

 

 

Marco Milani é economista e professor universitário. No movimento espírita, atua como coordenador da Liga de Pesquisadores do Espiritismo (LIHPE), diretor do Departamento de Doutrina da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE), além de palestrante e escritor.

 

* https://www.magcloud.com/webviewer/3309817



[1] Este artigo decorre de um estudo mais amplo publicado previamente no Jornal de Estudos Espíritas, disponível na versão inglesa em https://surl.li/kdoemi e na versão portuguesa em https://educadorespirita1.blogspot.com/2026/01/analise-critica-da-edicao-brasileira-da.html


quarta-feira, 22 de abril de 2026

Jorge de Burgos ficaria satisfeito: a cruzada contra o riso e o aplauso em certos centros espíritas


 

Jorge de Burgos ficaria satisfeito: a cruzada contra o riso e o aplauso em certos centros espíritas

 

Marco Milani

 

Eventualmente, observam-se em algumas casas espíritas restrições ao aplauso após palestras ou outras apresentações públicas. Em tais ambientes, o público é orientado a substituir o gesto espontâneo de reconhecimento por movimentos silenciosos das mãos ou, em situações mais rígidas, por completo silêncio. O expositor, ao final, permanece sem qualquer indicativo claro da recepção de sua fala, como se a expressão natural de apreço representasse risco à harmonia espiritual do ambiente.

              Essa preocupação com a contenção de manifestações espontâneas está longe de ser uma inovação de alguns espíritas. Na excelente obra O Nome da Rosa, Umberto Eco constrói uma narrativa em que o verdadeiro risco não reside na ignorância, mas na leveza e descontração diante do que alguns supõem deveria aparentar sisudez. É nesse ambiente que destaca-se a figura severa do personagem Jorge de Burgos, um monge beneditino da Idade Média para quem o riso representaria uma forma muito perigosa de perturbação: não por seu conteúdo, mas por seu efeito corrosivo sobre o temor e a autoridade. Afinal, se o homem risse, talvez deixasse de temer; e, se deixasse de temer, a reverência perderia parte de sua eficácia. Para alguns adeptos, a lógica assume contornos mais técnicos: não seria o riso em si o problema, mas o ruído que ele produziria, capaz de interferir em uma suposta harmonia fluídica do ambiente. Guardadas as proporções, o paralelo permanece sugestivo: quando o aplauso precisa ser administrado como variável de risco vibratório, talvez não seja o som que incomode, mas a dificuldade de lidar com manifestações humanas que não se deixam enquadrar pelo silêncio protocolar presente na cultura de algumas casas espíritas.

Tal postura apresentada como prudência espiritual não encontra respaldo na obra de Allan Kardec. Em O Livro dos Médiuns, por exemplo, Kardec dedica extensa análise às condições dos fenômenos mediúnicos, destacando fatores como a qualidade moral dos participantes, a seriedade dos propósitos e a disciplina do grupo. Em nenhum momento, contudo, sugere que manifestações naturais de apreço, como o aplauso, comprometeriam a chamada harmonia dos fluidos espirituais. A preocupação kardequiana dirige-se ao conteúdo moral e à intenção dos participantes, não à supressão de gestos sociais legítimos. Se assim não fosse, bastaria o silêncio exterior para garantir elevação espiritual.

Kardec distingue claramente a frivolidade da leveza. A primeira compromete a finalidade da reunião; a segunda não é sequer objeto de censura. Ao contrário, a ênfase recai sempre sobre o discernimento, e não sobre a imposição de regras de conduta desvinculadas de fundamentação doutrinária.

Há, na excessiva vigilância sonora, um deslocamento sutil, mas relevante, do eixo de análise das apresentações. Em vez de se avaliar o conteúdo da mensagem, a intenção do expositor e o benefício moral da atividade, passa-se a monitorar a forma exterior de reação do público, como se a espiritualidade dependesse de um controle acústico do ambiente. Esse deslocamento aproxima-se mais de uma estética do comportamento do que de uma ética fundamentada em princípios. E, nesse ponto, o paralelo com a obra de Eco deixa de ser apenas literário e passa a ser interpretativo.

Não se trata, evidentemente, de defender o aplauso indiscriminado ou de ignorar que certos ambientes requerem sobriedade silenciosa. A questão é outra. Trata-se de reconhecer que a elevação espiritual não decorre da supressão sistemática de manifestações humanas legítimas, mas do aprimoramento moral que lhes dá sentido. Quando a forma passa a prevalecer sobre o conteúdo, corre-se o risco de transformar a disciplina em formalismo e a prudência em rigidez infundada.

Em última instância, a pergunta que se impõe é simples. O que efetivamente desarmoniza um ambiente espiritual? Um breve aplauso de reconhecimento ou a substituição da espontaneidade por um conjunto de práticas cuja justificativa repousa mais em tradição local do que em fundamento doutrinário claro? A resposta, ao que tudo indica, não se resolve no plano do ruído, mas no da coerência entre princípios e práticas.

 


sexta-feira, 10 de abril de 2026

Mundos transitórios não são “colônias espirituais”

 

Mundos transitórios não são “colônias espirituais”

Marcelo Henrique

Marco Milani


 Texto publicado simultaneamente no Canal Espiritismo Com Kardec

***

Nossa tarefa permanente é a de enfocar e repetir, muitas vezes, acerca da necessária diferenciação entre a teoria espírita e seus fundamentos e qualquer outra construção literária que tenha aparência espírita, porque verse sobre temas espirituais.

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Pode ser um tanto óbvio para quem se dedica ao estudo sério do Espiritismo, mas os chamados mundos transitórios, apresentados pelos Espíritos, nas obras de Allan Kardec (1804-1869), não guardam qualquer relação com a noção ficcional de colônias espirituais circunscritas com rotinas típicas de cidades materiais descritas em alguns romances mediúnicos.

Inicialmente, convém definir que, conforme o item 234, de “O livro dos Espíritos”, mundos transitórios são estações de repouso para Espíritos que se encontram em longo período de erraticidade, estado esse um pouco penoso.

Em complemento, as Inteligências Invisíveis destacam que tais mundos não seriam habitados simultaneamente por seres corporais (encarnados) e Espíritos (desencarnados). A Terra, segundo se informa, já teria sido um desses mundos durante o período de sua formação geológica, a teor do item 236, da mesma obra.

Do contrário, o conceito de colônias espirituais, as quais figuram em alguns romances mediúnicos, como por exemplo “Nosso Lar” (de autoria de Francisco Cândido Xavier, lançado em 1944), afasta-se significativamente da definição kardeciana, acima referida, por supostamente se apresentarem como centros urbanos, caracterizados pela concentração de atividades administrativas, comerciais e de serviços. Uma cópia, portanto, não-material, da ambiência física em que estamos acostumados a viver.

No caso, a citada colônia estaria situada nas imediações da cidade do Rio de Janeiro, cujos habitantes seriam humanos recém-desencarnados e outros falecidos há mais tempo. Nessa condição transitória, segundo esta literatura, existiriam ocupações como as nossas, com a distribuição de tarefas e a circulação por diversos ambientes, de labor, educação, descanso e familiares. Há, ainda, algo que parece bastante pitoresco, nos relatos, que é a convivência com animais.

Este “padrão” de relatos é seguido por muitas outras obras, posteriores ao livro em tela, que acabam sendo mais “detalhistas” quanto a situações de “vivência espiritual” na condição de Erraticidade, como recompensas por trabalhos e realizações (o “bônus-hora” descrito no livro de Chico Xavier), alimentos e – pasmem – a circunstância de relações sexuais entre os desencarnados resultando em gravidez!

Todavia, o tema não é da contemporaneidade (séculos XX e XXI), do chamado “Espiritismo à brasileira”. Esta noção de “cidades” ou “regiões” etéreas, espirituais, vem de muito longe, presente em tradições religiosas ancestrais e recebendo denominações diversas (Jerusalém Celestial, Ilha dos Bem-aventurados, Campos Elíseos, além das representações de Dante Alighieri, quanto aos “andares” do Paraíso Celeste e do Inferno). No século de Kardec (XIX), o tema também “apareceu”, quando médiuns como Emanuel Swedenborg (1688-1772) se valeram de analogias, com descrições similares. Mas não é somente ele. Desde o Século VII, alguns autores (certamente, alguns deles também inspirados mediunicamente por desencarnados que se encontravam no “véu da ilusão”, trataram de ambientes, paisagens, formas e objetos no chamado “mundo dos Espíritos”, isto é, a condição de imaterialidade. Benchaya (2021) faz um importante escorço de obras e autores que trataram deste assunto.

Vale lembrar, no entanto, e, principalmente para aqueles que tentam “validar” a fórceps essa mera teoria, que o próprio Swedenborg  a desmentiu, conforme o relato espiritual contido na Revue Spirite, de novembro de 1859, intitulada “Comunicação de Swedenborg”. Lá, o Espírito afirma, entre outras coisas:

 

“A minha moral espírita e a minha doutrina não estão isentas de grandes erros, que hoje reconheço.  [...] Também aquilo que eu dizia do mundo dos Anjos, que é o que pregam nos templos, não passava de ilusão dos meus sentidos. De boa-fé eu julgava ver, e o disse, mas me enganei. Vós, sim, estais no melhor caminho, porque estais mais esclarecidos do que estávamos em meu tempo”.

Nesta dissertação, também constam perguntas que Kardec fez diretamente ao comunicante, que merecem registro:

“6. ─ Aquele Espírito vos fez escrever coisas que hoje reconheceis como errôneas, fê-lo com boa ou com má intenção?

─ Não o fez com má intenção. Ele próprio estava enganado, pois não era bastante esclarecido. Hoje eu vejo que as ilusões do meu próprio Espírito e da minha inteligência o influenciavam, malgrado seu. Entretanto, no meio de alguns erros de sistema, fácil é reconhecer grandes verdades.

7. ─ O fundamento da vossa doutrina repousa sobre as correspondências. Ainda acreditais nessas relações que descobríeis entre cada coisa do mundo material e cada coisa do mundo moral?

─ Não. É uma ficção.

[...]

11. ─ Poderíeis dizer-nos de que maneira eram recebidas por vós as comunicações dos Espíritos? Escrevíeis aquilo que vos era revelado, à maneira dos médiuns, ou por inspiração?

─ Quando eu estava em silêncio e em recolhimento, meu Espírito como que ficava deslumbrado, em êxtase, e eu via claramente uma imagem à minha frente, que me falava e ditava o que eu deveria escrever. Por vezes, minha imaginação se misturava a isso.

[...]

13. ─ Qual a vossa opinião sobre a Doutrina Espírita, tal qual é hoje?

─ Eu vos disse que estais num caminho mais seguro que o meu, visto que as vossas luzes são em geral mais amplas. Eu tinha que lutar contra uma ignorância muito maior e sobretudo contra a superstição”.

 

Vejamos que Swedenborg assume sua ficção. André Luiz declarou não ter vocabulário para descrever a realidade espiritual e romanceou o que lhe parecia real e verdadeiro. Sobre a natureza de obras ficcionais, escreveu Milani (2026, grifos do original):

“Assim, a ficção espiritualista pode consolar, inspirar e conduzir alguns ao estudo inicial, cumprindo o papel preparatório indicado por Kardec, ao recomendar formar primeiro o espiritualista. Contudo não representa o Espiritismo em sentido doutrinário. Confundir ficção com revelação significa abdicar do método que constitui a própria identidade e autoridade espírita. Sem este método, o espiritualismo emociona; com ele, o Espiritismo esclarece, consola e liberta da ignorância”.

Eis, aí, a diferença cabal entre conhecimento e ilusão. As manifestações de Espíritos, pela mediunidade, como ressaltou Kardec em diversas oportunidades e contextos são, apenas e tão-somente, opiniões. A condição de estar desencarnado, desprovido da matéria e das limitações que esta, provisoriamente, nos impõe, não eleva ninguém à condição de sabedoria e plenitude espiritual. Daí porque o Professor francês ter consignado, no bojo da Filosofia Espírita, o exame lógico-racional de todas as comunicações e a submissão, delas, ao critério da universalidade dos ensinos, afastando, de pronto, toda e qualquer afirmação que não corresponderia à principiologia espírita.

Pela dicção da Doutrina dos Espíritos, não há em toda a obra kardeciana qualquer menção à existência de colônias espirituais ou congêneres, como locais de permanência dos Espíritos, quando desencarnados. A Erraticidade – condição dos Espíritos errantes – não se refere nem se acha circunscrita a “ambientes” ou “lugares” específicos, onde “viveriam” os desencarnados, realizando tarefas e se relacionando à moda similar da vida físico-material.

O que ressalta, em relação aos espíritas “apaixonados” e sua “defesa incondicional” das colônias, é um apego fortíssimo à materialidade (das relações, das convivências, dos cenários e das pessoas), como se o post-morten permitisse a repetição das vivências e experiências que o Espírito acaba de deixar. Neste sentido, Rivé e Henrique (2024) apontam:

“Talvez por isso Nosso Lar tenha se tornado mesmo, entre os adeptos das ideias espíritas, um sonho de consumo, um objeto de apego, um desejo fervoroso e, até, como ilustra o título deste artigo, um fetiche, como forma de algo perseguido pelos humanos, que, desde já, durante a vida física, imaginam como será a sua (futura) vida, espiritual, participando da rotina de tais “colônias”, como que “aproveitando a estadia” naqueles “locais”, que são fictícios ou fruto da imaginação”.

No mesmo sentido, Henrique (2022) também afirma:

“Os espíritas passam a existência toda “aguardando” a vida espiritual. Fazem projetos. Cultivam desejos. Imaginam-se como se já estivessem do “outro lado”. Alguns chegam a dizer que gostariam de estar em uma colônia, como “Nosso Lar”. Outros apavoram-se, arrepiam-se ante a iminência de poderem ser direcionados a um lugar de sofrimento – expresso em livros ditos espíritas – como o “Umbral”. Já ouvi, também, e repetidas vezes, que há “sanatórios espirituais”, lugares para onde são direcionados os “espíritas que não seguiram as orientações espirituais” ou que “não se tornaram homens de bem, os verdadeiros espíritas” – descritos nas obras kardecianas”.

Para nós que frequentamos instituições espíritas e dialogamos com frequentadores e trabalhadores, é muito comum ouvir, desses, que seria um “sonho” estar em Nosso Lar, após desencarnarem. Teixeira (2024), a esse respeito, comenta: “julgarmos que ser espírita é uma espécie de salvo conduto que garantirá uma entrada triunfal em Nosso Lar e congêneres”.

O contraste entre mundos transitórios e supostas colônias espirituais, portanto, é evidente. Em específico, as estações de repouso de Espíritos fatigados pela longa erraticidade em planetas sem convivência de encarnados (como consta da chamada literatura kardeciana) versus cidades assemelhadas a centros urbanos tipicamente materiais, com fluxo de recém-desencarnados e outros falecidos há mais tempo, em relações de convivialidade, como se fosse um planeta como o nosso.

Neste sentido, a obra “Nosso Lar” é fruto da liberdade de pensamento e expressão de seu autor espiritual (André Luiz). A obra, assim como as demais que lhe seguiram, compondo uma série, merece ser respeitada e considerada como um relato espiritual. A crítica sobre uma obra literária é um dever de todo espírita estudioso e sensato. Criticar a obra não é desmerecer seu autor – nem o encarnado, médium, tampouco o Espírito que ditou o relato. Isto precisa ser entendido pelo meio espírita.

Um aspecto metodologicamente relevante nessa comparação é o fato de que as informações mediúnicas sobre mundos transitórios foram organizadas por Kardec respeitando-se, como já afirmado, o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos (CUEE). Já as descrições detalhadas de colônias espirituais advêm de fontes romanceadas difusas. Não raramente a ausência de familiaridade com os critérios que fundamentam a autoridade da Doutrina Espírita (vide, na Introdução de “O evangelho segundo o Espiritismo”, o tópico com este título), faz com que adeptos exaltados alardeiem que Kardec “não disse tudo” então pode-se, equivocadamente, assumir como verdade comunicações mais recentes, ainda que fantasiosas (Milani, 2025).

Resta-nos, por “dever de ofício”, enfocar e repetir, muitas vezes, acerca da necessária diferenciação entre a teoria espírita e seus fundamentos e qualquer outra construção literária que tenha aparência espírita, porque verse sobre temas espirituais. É o que fazemos, presentemente, inclusive como incentivo para que grupos e instituições espíritas, valendo-se de textos como esse (e os demais, mencionados abaixo, em “Fontes”) sejam debatidos com tranquilidade e efetividade no meio espírita.

 

Fontes:

Benchaya, S. J. (2021). Os espíritas e as colônias espirituais. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 25. Jan. 2021. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/os-espiritas-e-as-colonias-espirituais/>. Acesso em 8. Abr. 2026.

Henrique, M. (2022). Liberte-se! “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 17. Set. 2022. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/liberte-se-por-marcelo-henrique/>. Acesso em 8. Abr. 2026.

Kardec, A. (2003). “O evangelho segundo o Espiritismo”. Trad. J. Herculano Pires. 59. Ed. São Paulo: LAKE.

Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.

Kardec, A. (1964). “Revue Spirite”. Trad. Julio Abreu Filho. Supervisão de J. Herculano Pires. São Paulo: Edicel.

Milani, M. (2025). ‘Kardec não disse tudo’ e a falácia do apelo à ignorância. “Educador Espírita”. 1. Mar. 2025. Disponível em <https://educadorespirita1.blogspot.com/2025/03/kardec-nao-disse-tudo-e-falacia-do.html>. Acesso em 8. Abr. 2026.

Milani, M. (2026). Ficção espiritualista versus coerência doutrinária. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 14. Mar. 2026. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/ficcao-espiritualista-versus-coerencia-doutrinaria-por-marco-milani/ >. Acesso em 8. Abr. 2026.

Netto, H. (2022). Colônias? “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 7. Ago. 2022. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/colonias-por-henri-netto/>. Acesso em 8. Abr. 2026.

Rivé, M. C.; Henrique, M. (2024). O fetiche por ‘Nosso Lar’. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 31. Mar. 2024. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/o-fetiche-por-nosso-lar-por-maria-cristina-rive-e-marcelo-henrique/>. Acesso em 8. Abr. 2026.

Teixeira, M. (2024). Grande Prêmio Nosso Lar. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 30. Jan. 2024. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/grande-premio-nosso-lar-por-marcelo-teixeira/>. Acesso em 8. Abr. 2026.

Xavier, F. C. (2014). “Nosso Lar”. Espírito André Luiz. 64. Ed. Brasília: FEB.