segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Velha tática dos adversários do Espiritismo

 

Velha tática dos adversários do Espiritismo

 

Marco Milani

 

(Texto publicado na revista Dirigente Espírita, ed. 193, jan/fev 2023, p. 11-12)

 

               Em junho de 1865, Allan Kardec publicou na Revista Espírita o importante artigo “Nova tática dos adversários do Espiritismo”, no qual destacava o incômodo gerado por essa filosofia nascente que rompia com as carcomidas tradições religiosas firmadas sobre a fé cega e, principalmente, desmascarava o ilusório e alienante materialismo, declarando-o como o seu maior antagonista.

               Ao rapidamente disseminar suas ideias e angariar adeptos e simpatizantes em dezenas de países e em todas as camadas sociais, o Espiritismo enfrentou a forte resistência ególatra daqueles que viram suas convicções mais profundas sobre a realidade serem questionadas ou refutadas.

               Na ocasião, Kardec alertou que os adversários tentavam comprometer, ridicularizar e desacreditar a doutrina, semeando de forma sub-reptícia a divisão e lançando fachos de discórdia para fomentar a perturbação entre os adeptos e orientou:

 

É, pois, um dever de todos os espíritas sinceros e devotados repudiar e desautorizar abertamente, em seu nome, os abusos de todo gênero que pudessem comprometê-la, a fim de não lhes assumir a responsabilidade; pactuar com os abusos seria tornar-se cúmplice e fornecer armas aos nossos adversários.[1]

 

               Além de propostas sincréticas que tentavam misturar crendices e ideias místicas no ensino dos Espíritos, outras questões poderiam servir de munição aos detratores. Uma delas era a tentativa de impor uma roupagem partidária à doutrina espírita, como se o Espiritismo pudesse ser reduzido a um apêndice de ideologias políticas ou regimes em voga.

               Na Revista Espírita de fevereiro de 1863 são relatados diversos ataques proferidos por sacerdotes católicos durante seus sermões, acusando o Espiritismo de pregar a desunião da família, o adultério, o aborto e o comunismo. Sobre esses fatos, Kardec comenta a insensatez desses detratores de imputarem à doutrina espírita o que ela, justamente, prega o oposto.[2]

               Kardec afirmou que bastava o estudo sério do Espiritismo para refutar tais acusações e ainda destacou: “Quem poderá crer que pregamos o comunismo depois das instruções dadas a respeito no discurso publicado in extenso no relatório de nossa viagem em 1862?”[3]

               Na referida viagem, Kardec dirigiu-se aos operários lioneses citando uma esclarecedora e objetiva mensagem mediúnica de Erasto sobre o engodo materialista expresso em propostas utópicas e totalitárias.

 

Acabo de pronunciar a palavra igualitária. Julgo útil nela deter-me um pouco, porque não vimos pregar, em vosso meio, utopias impraticáveis, pois, ao contrário, repelimos energicamente tudo quanto pareça ligar-se às prescrições de um comunismo antissocial. Antes de tudo, somos essencialmente propagandistas da liberdade individual, indispensável ao desenvolvimento dos encarnados. Consequentemente, somos inimigos declarados de tudo quanto se aproxime dessas legislações conventuais, que aniquilam brutalmente os indivíduos. Embora me dirija a um auditório em parte composto de artífices e proletários, sei que suas consciências, esclarecidas pelas radiações da verdade espírita, já repeliram todo contato com as teorias antissociais dadas com apoio da palavra igualdade.[4]

 

               Em oposição ao que alguns poderiam supor, por má-fé ou ignorância, Kardec nunca isentou-se de enfatizar a participação ativa do espírita nos rumos da sociedade, contribuindo para a melhoria das relações humanas, mas nunca prescreveu cartilhas partidárias ou ideológicas para o exercício espontâneo da solidariedade e fraternidade. O alerta sobre as ideologias totalitárias serviu de orientação sobre os direitos e as escolhas individuais, valorizando o livre-arbítrio e a liberdade de consciência.

               Nas reuniões regulares da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas sentavam-se, lado a lado, monarquistas, liberais e socialistas e o que os unia era o mesmo ideal espírita. As discordâncias e discussões apaixonadas sobre os modelos para se dirigir e melhorar a sociedade não eram pautas a serem debatidas por seus simpatizantes diante do ideal maior da união fraterna entre todos, indistintamente. Sobre essa questão, Kardec assim se posiciona:

 

Devo ainda assinalar-vos outra tática dos nossos adversários, a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua alçada e que, a justo título, poderiam despertar suscetibilidades e desconfianças. Não vos deixeis cair nessa armadilha; afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quanto se refere à política e a questões irritantes; a tal respeito, as discussões apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém terá nada a objetar à moral, quanto esta for boa.[5]

 

               Quase 160 anos depois, a tática dos adversários do Espiritismo envelheceu, mas não se alterou. Adaptando-se ao progresso tecnológico, os detratores continuam a tentar desacreditar a doutrina e fomentar cizânia entre os espíritas.

               A disseminação de práticas sincréticas, informações supersticiosas e místicas, além do recrudescimento de infiltrações de caráter político-ideológico são recorrentes e exigem dos adeptos conscientes a aplicação da fé raciocinada para separar o joio do trigo e repudiar abertamente essas deturpações que não possuem nada de novo em sua essência.

 

 

Fonte:    https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2023/01/DE193.pdf

 

 



[1] Revista Espírita, junho/1865. Nova tática dos adversários do Espiritismo.

[3] Idem.

[4] Revista Espírita, outubro/1861. Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses.

[5] Revista Espírita, fevereiro/1862. Resposta à mensagem de ano novo dos Espíritas lioneses.


sábado, 28 de janeiro de 2023

Espiritismo: libertador de consciências?

 

ESPIRITISMO: LIBERTADOR DE CONSCIÊNCIAS?

Marco Antonio Milani Filho


(Artigo publicado no Jornal Espírita, em ano estimado de 1994)


 A Doutrina Espírita firmou-se como um dos mais poderosos meios de transformação moral do planeta, consolando e esclarecendo multidões, convidando para a reflexão raciocinada sobre a realidade existencial do ser e reconhecendo a infinita bondade e sabedoria de Deus.

 Fundamentada em bases sólidas, expande-se em função de suas ideias claras e propostas sinceras, conquistando através da lógica e de sua simplicidade.

 Tem como bandeira a Caridade, e combate energicamente as chagas morais da Humanidade: o orgulho e o egoísmo.

 Promovendo a reforma íntima, através do autoconhecimento, incentiva o indivíduo a tornar-se agente do desenvolvimento de si mesmo e da sociedade, libertando-o de seus vícios e defeitos, por atos e pensamentos equilibrados.

 Sendo uma doutrina dinâmica, sem dogmas ou preconceitos, está aberta à análise e discussão de todos os seus princípios, permitindo seu exame crítico por todos, espíritas ou não.

 Deste modo, são saudáveis os questionamentos sinceros, que busquem o conhecimento como forma de aprendizagem, seguindo a mesma linha metodológica de Kardec, não aceitando uma informação sem antes analisá-la logicamente.

 Existem, por sua vez, aqueles que pesquisam e indagam, motivados exclusivamente para descobrir um suposto aspecto falho na doutrina, mas que também são muito úteis, pois testam a veracidade e a solidez doutrinária.

 Até hoje, todos aqueles que iniciaram pesquisas científicas ou perquirições, visando a unicamente demolir os argumentos espíritas, terminaram por comprovar a solidez destes, provocando, em vários detratores, a revisão de seus pontos de vista e conformação diante dos fatos.

 Percebe-se, por sua vez, o compromisso com a verdade que possui o Espiritismo.

 E este compromisso impele os espíritas à constante reflexão sobre seus próprios atos e sobre as inúmeras ideias que tentam misturar-se na doutrina, deturpando seu conteúdo. Prova disso é que Kardec afirmava ser “dever dos verdadeiros espíritas repudiarem e desautorizarem abertamente os abusos que possam comprometer o Espiritismo” e ainda, que “pactuar com os abusos seria tornar-se cúmplice e fornecer armas aos nossos adversários” (ver Revista Espírita - Junho/1865 - “Nova tática dos adversários do Espiritismo”).

 A identificação dos verdadeiros espíritas, aos quais Kardec se referia, aqueles que lutam pela divulgação e bom entendimento do Espiritismo, é feita como Jesus ponderou, reconhecendo a árvore pelos seus frutos.

 Valorosos trabalhadores da seara espírita, como Carlos Imbassahy, Herculano Pires, Canuto Abreu, Deolindo Amorim, entre outros, lutaram incansavelmente pela compreensão doutrinária, alertando para possíveis desvios e erros de interpretação que poderiam estar sendo praticados.

 Aprofundaram-se o quanto puderam nos ensinamentos dos Espíritos, oferecendo importantes obras para o desenvolvimento moral, científico e filosófico.

 É comum, entretanto, levantarem-se algumas vozes incomodadas com a não aceitação, no meio espírita, de teorias mirabolantes ou fantásticas, sem cunho científico, pendendo frequentemente para o misticismo, ou ainda os modismos atribuídos ao progresso.

 Acusam a doutrina de sectarista e fechada em si mesma, refratária a algumas ideias que, segundo eles, são plenamente válidas e pertinentes, concluindo que o Espiritismo é avesso a novas práticas e tendências, fugindo do dinamismo apregoado. Chegam a afirmar que Kardec está ultrapassado.

 Convenhamos, em primeiro lugar o bom senso!

 Tudo deve ser encarado racionalmente, demonstrando que a verdadeira fé “é aquela que pode enfrentar a razão, face a face, em todas as épocas da Humanidade” (Evangelho Segundo o Espiritismo - cap. XIX - item 7).

 Se novas ideias ou práticas se mostrarem em desacordo com os princípios adotados, depois de analisados criteriosamente, como Kardec procedia com as informações dos Espíritos, não devem ser difundidas como práticas espíritas.

 Almejar a pureza doutrinária não cerceia a liberdade do indivíduo, que pode acreditar em que achar mais coerente. O importante é que ele pratique o bem, e existem diversas religiões e escolas filosóficas justamente para atender às suas necessidades, de acordo com seu estágio evolutivo.

 O respeito aos irmãos de outras crenças é ato de caridade, assim como para com aqueles que não abraçaram o Espiritismo.

 É também ato de caridade a busca da verdade. Por isso, qualquer afirmação ou postura filosófica e científica é passível de exame minucioso.

 Da mesma forma, ninguém pode intitular-se defensor das verdades espíritas, fechar-se em si mesmo (ou em seu Centro), e condenar qualquer tipo de discussão doutrinária. É um comportamento tão radical e desequilibrado quanto aquele que aceita prontamente qualquer novidade sem refletir sobre ela.

 Kardec, quando conclama os espíritas a repudiarem os abusos que possam comprometer a doutrina, dirige-se aos espíritas sinceros, de bom senso, e não exclusivamente a uma pessoa.

 É o estudo constante e a fraternidade que determinarão o grau de compreensão que possuímos desta maravilhosa doutrina cristã, libertadora de consciências.




 


sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Resposta de Kardec à mensagem de ano novo dos Espíritas lioneses

 

Resposta de Kardec à mensagem de ano novo dos Espíritas lioneses

 

Texto publicado na Revista Espírita, fev/1862

  

Meus caros irmãos e amigos de Lyon.

 

A mensagem coletiva que tivestes a bondade de me enviar pela passagem do ano novo causou-me viva satisfação, provando que conservastes de mim uma boa recordação. Mas o que me deu maior prazer, em vosso ato espontâneo, foi o de encontrar, entre as numerosas assinaturas, representação de quase todos os grupos, pois é um sinal da harmonia reinante entre eles. Sinto-me feliz por terdes compreendido o objetivo desta organização, cujos resultados já podeis apreciar, pois agora vos deve ser evidente que uma sociedade única teria sido quase impossível.

 

Agradeço-vos, meus bons amigos, os votos que me formulais. Eles me são tanto mais agradáveis quanto sei que partem do coração, e são os que Deus escuta. Ficai satisfeitos porque ele os escuta diariamente, dando-me a alegria inaudita no estabelecimento de uma nova doutrina, de ver aquela a que me devotei crescer e prosperar, em meus dias, com rapidez maravilhosa. Encaro como um grande favor do Céu o ser testemunha do bem que ela já faz. Essa certeza, da qual diariamente recebo os mais tocantes testemunhos, me paga com usura todas as penas e fadigas. Só uma graça peço a Deus, a de me dar a força física necessária para ir até o fim de minha tarefa, que está longe de ser concluída.

 

Mas, haja o que houver, terei sempre a consolação da certeza de que a semente das ideias novas, agora espalhada por toda a parte, é imperecível. Mais feliz que muitos outros, que não trabalharam senão para o futuro, a mim me é dado ver os primeiros frutos. Se algo lamento, é que a exiguidade de meus recursos pessoais não me permita pôr em execução os planos que tracei para seu mais rápido desenvolvimento. Se, porém, em sua sabedoria, Deus o quis de outro modo, legarei esse plano aos meus sucessores que, sem dúvida, serão mais felizes.

 

Malgrado a penúria de recursos materiais, o movimento de opinião que se opera ultrapassou toda expectativa. Crede, meus irmãos, que vosso exemplo não deixou de ter influência nisso.

 

Recebei nossas felicitações pela maneira pela qual sabeis compreender e praticar a doutrina. Sei quão grandes são as provas que muitos de vós tendes de suportar. Só Deus lhes conhece o termo aqui na Terra. Mas, também, quanta força contra a adversidade nos dá a fé no futuro! Oh! Lamentai os que acreditam no nada após a morte, pois para eles o mal presente não tem compensação. O incrédulo infeliz é como o doente que não espera a cura. Ao contrário, o espírita é como aquele que, doente hoje, sabe que amanhã estará curado.

 

Pedis que continue com os meus conselhos. Eu os dou de boa vontade aos que os pedem e creem que deles necessitam. Mas só a esses. Aos que julgam saber muito e que dispensam as lições da experiência, nada tenho a dizer, a não ser que desejo não tenham um dia de lamentar-se por terem confiado demais nas próprias forças. Tal pretensão, aliás, acusa um sentimento de orgulho, contrário ao verdadeiro espírito do Espiritismo. Ora, pecando pela base, aqueles provam, só por isto, que se afastam da verdade. Não sois desse número, meus amigos, por isso aproveito a circunstância para vos dirigir algumas palavras que vos provarão que, de perto ou de longe, sou todo vosso.

 

No ponto em que hoje as coisas se acham e considerando-se a marcha do Espiritismo por meio dos obstáculos semeados em sua rota, pode-se dizer que as principais dificuldades foram vencidas. Ele tomou o seu lugar e assentou-se em bases que de agora em diante desafiam os esforços dos adversários.

 

Pergunta-se como pode ter adversários uma doutrina que nos torna felizes e melhores. Isto é muito natural. Em seu início, o estabelecimento das melhores coisas sempre fere interesses. Não tem sido assim com todas as invenções e descobertas, que revolucionam a Indústria? Não tiveram inimigos encarniçados aquelas que hoje são consideradas como benefícios e das quais não nos poderíamos privar? Toda lei que reprime abusos não tem contra si os que vivem do abuso? Como queríeis que uma doutrina que conduz ao reino da caridade efetiva não fosse combatida por quantos vivem no egoísmo? E sabeis como estes são numerosos na Terra! No princípio esperavam matá-lo pela zombaria. Hoje veem que tal arma é impotente e que, sob o fogo cerrado dos sarcasmos ele continuou sua rota sem tropeços. Não penseis que eles se confessarão vencidos. Não, o interesse material é mais tenaz. Reconhecendo que é uma potência que agora deve ser levada em conta, vão desfechar ataques mais sérios, mas que servirão para melhor provar a fraqueza deles. Uns o atacarão abertamente, em palavras e atos, e persegui-lo-ão até na pessoa de seus adeptos, tentando desencorajá-los à força de intrigas, enquanto outros sub-repticiamente, por vias indiretas, procurarão miná-lo surdamente. Ficai avisados: a luta não terminou. Estou prevenindo que eles vão tentar um supremo esforço. Não temais, entretanto, pois o penhor do sucesso está nesta divisa, que é a de todos os verdadeiros espíritas: Fora da caridade não há salvação. Hasteai-a bem alto, porque ela é a cabeça de Medusa para os egoístas.

 

A tática ora em ação pelos inimigos dos espíritas, mas que vai ser empregada com novo ardor, é a de tentar dividi-los, criando sistemas divergentes e suscitando entre eles a desconfiança e a inveja. Não vos deixeis cair na armadilha, e tende certeza de que quem quer que procure, seja por qual meio for, romper a boa harmonia, não pode ter boas intenções. Eis por que vos advirto para que tenhais a maior circunspeção na formação dos vossos grupos, não só para a vossa tranquilidade, mas no próprio interesse dos vossos trabalhos.

 

A natureza dos trabalhos espíritas exige calma e recolhimento. Ora, isto não é possível se somos distraídos pelas discussões e pela expressão de sentimentos malévolos. Se houver fraternidade, não haverá sentimentos malévolos, mas não pode haver fraternidade com egoístas, ambiciosos e orgulhosos. Com orgulhosos que se chocam e se ferem por tudo; com ambiciosos que se desiludem quando não têm a supremacia; com egoístas que só pensam em si mesmos, a cizânia não tardará a ser introduzida. Daí, vem a dissolução. É o que queriam nossos inimigos e é o que tentarão fazer.

 

Se um grupo quiser estar em condições de ordem, de tranquilidade, de estabilidade, é preciso que nele reine um sentimento fraterno. Todo grupo ou sociedade que se formar sem ter por base a caridade efetiva não terá vitalidade, enquanto os que se formarem segundo o verdadeiro espírito da doutrina olhar-se-ão como membros de uma mesma família que, não podendo viver todos sobre o mesmo teto, moram em lugares diversos. Entre eles, a rivalidade seria uma insensatez, pois ela não poderia existir onde reina a verdadeira caridade, porque a caridade não pode ser entendida de duas maneiras. Reconhecei, pois, o verdadeiro espírita pela prática da caridade em pensamentos, palavras e atos, e dizei a vós mesmos que aquele que em sua alma nutre sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja e de ciúme mente para si mesmo se deseja compreender e praticar o Espiritismo.

 

O egoísmo e o orgulho matam as sociedades particulares, como matam os povos e as sociedades em geral. Lede a história e vereis que os povos sucumbem sob o amplexo desses dois mortais inimigos da felicidade humana. Quando se apoiarem nas bases da caridade, serão indissolúveis, porque estarão em paz entre si e consigo mesmos, cada um respeitando os bens e os direitos dos vizinhos. Essa será a nova era predita, da qual o Espiritismo é o precursor, e para a qual todo espírita deve trabalhar, cada um na sua esfera de atividade. É uma tarefa que lhes incumbe, e da qual serão recompensados conforme a maneira pela qual a tenham realizado, pois Deus saberá distinguir os que no Espiritismo só procuraram a sua satisfação pessoal daqueles que ao mesmo tempo trabalharam pela felicidade de seus irmãos.

 

Devo ainda assinalar-vos outra tática dos nossos adversários, a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua alçada e que, a justo título, poderiam despertar suscetibilidades e desconfianças.

 

Não vos deixeis cair também nesse laço. Em vossas reuniões, afastai cuidadosamente tudo quando se refere à política e a questões irritantes. A tal respeito, as discussões apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém terá nada a objetar à moral, quanto esta for boa.

 

Procurai no Espiritismo aquilo que vos pode melhorar. Eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais realmente úteis serão uma consequência natural. Trabalhando pelo progresso moral, lançareis os verdadeiros e mais sólidos fundamentos de todas as melhoras. Deixai a Deus o cuidado de fazer com que cheguem no devido tempo. No próprio interesse do Espiritismo, que é ainda jovem, mas que amadurece depressa, oponde uma firmeza inquebrantável aos que buscarem arrastar-vos por uma via perigosa.

 

Visando desacreditar o Espiritismo, pretendem alguns que ele vá destruir a religião. Sabeis exatamente o contrário, pois a maioria de vós, que apenas acreditáveis em Deus e na alma, agora creem; quem não sabia o que era orar, ora com fervor; quem não mais punha os pés nas igrejas, agora vai com recolhimento.

 

Aliás, se a religião devesse ser destruída pelo Espiritismo, é que ela seria destrutível e o Espiritismo seria mais poderoso. Dizê-lo seria uma inabilidade, pois seria confessar a fraqueza de uma e a força do outro. O Espiritismo é uma doutrina moral que fortifica os sentimentos religiosos em geral e se aplica a todas as religiões. Ele é de todas, e não é de nenhuma em particular. Por isso não diz a ninguém que a troque. Deixa a cada um a liberdade de adorar Deus à sua maneira e de observar as práticas ditadas pela consciência, pois Deus leva mais em conta a intenção do que o fato. Ide, pois, cada um ao templo do vosso culto, e assim provai que vos caluniam, quando vos taxam de impiedade.

 

Na impossibilidade material em que me acho de manter relações com todos os grupos, pedi a um de vossos confrades que me representasse mais especialmente em Lyon, como o fiz alhures: é o Sr. Villon, cujo zelo e devotamento são do vosso conhecimento, tanto quanto a pureza de seus sentimentos. Além disso, sua posição independente lhe dá mais folga para a tarefa de que se quer encarregar. É tarefa dura, mas ele não recuará. O grupo por ele formado em sua casa o foi sob os meus auspícios e conforme as minhas instruções, quando de minha última viagem. Ali encontrareis excelentes conselhos e salutares exemplos. É com viva satisfação que verei todos os que me honram com sua confiança a ele se ligarem, como a um centro comum. Se alguns quiserem fazer um grupo à parte, não os olheis com prevenção. Se vos atirarem pedras, nem as recolhais, nem as devolvais. Entre eles e vós, Deus será o juiz dos sentimentos de cada um. Que aqueles que se julgam os únicos certos o provem por maior caridade e maior abnegação de amor-próprio, porque a verdade não estaria ao lado dos que desconhecem o primeiro preceito da doutrina. Se estiverdes em dúvida, fazei sempre o bem. Os erros do espírito pesam menos na balança de Deus que os erros do coração.

 

Repetirei o que tenho dito noutras ocasiões: Em caso de divergência de opiniões, o meio fácil de sair da dúvida é ver qual a que reúne a maioria, pois há nas massas um bom-senso inato, que não engana. O erro só seduz alguns espíritos enriquecidos pelo amor-próprio e por um falso julgamento, mas a verdade sempre acaba vencendo. Tende certeza, portanto, que o erro deserta das fileiras que se esclarecem e que há uma obstinação irracional em crer que um só tenha razão contra todos. Se os princípios que eu professo só tivessem ecos isolados, e se tivessem sido repelidos pela opinião geral, eu seria o primeiro a reconhecer que me havia enganado. Mas vendo crescer incessantemente o número dos aderentes em todas as camadas da Sociedade e em todos os países do mundo, devo acreditar na solidez das bases sobre as quais repousam. Eis por que vos digo com toda a segurança para que marcheis com passo firme na via que vos é traçada.

 

Dizei aos antagonistas que se eles querem que os sigais, que vos ofereçam uma doutrina mais consoladora, mais clara, mais inteligível, que melhor satisfaça à razão e que, ao mesmo tempo, seja uma garantia melhor para a ordem social. Pela vossa união, frustrai os cálculos dos que vos queiram dividir. Provai, enfim, pelo vosso exemplo, que a doutrina nos torna mais moderados, mais brandos, mais pacientes, mais indulgentes, o que será a melhor resposta aos detratores, ao mesmo tempo que a vista dos resultados benéficos é o melhor meio de propaganda.

 

Eis, meus amigos, os conselhos que vos dou e aos quais junto os meus votos para o ano que começa. Não sei que provas Deus nos destina para este ano, mas sei que, sejam quais forem, as suportareis com firmeza e resignação, pois sabeis que para vós, como para o soldado, a recompensa é proporcional à coragem.

 

Quanto ao Espiritismo, pelo qual vos interessais mais que por vós mesmos, e cujo progresso, pela minha posição, posso julgar melhor que ninguém, sinto-me feliz em dizer-vos que o ano se inicia sob os mais favoráveis auspícios, e que ele verá, sem dúvida nenhuma, o número dos adeptos crescer numa proporção imprevisível. Mais alguns anos como estes que se passaram, e o Espiritismo terá a seu favor três quartas partes da população.

 

Deixai que vos cite um fato entre milhares.

 

Num departamento vizinho de Paris, há uma cidadezinha onde o Espiritismo penetrou apenas há seis meses. Em poucas semanas tomou um desenvolvimento considerável. Uma oposição formidável logo foi organizada contra os seus partidários, ameaçando até os seus interesses particulares. Eles enfrentaram tudo com uma coragem e um desinteresse dignos dos maiores elogios. Entregaram-se à Providência e a Providência não lhes faltou. Essa cidade conta com uma população operária numerosa, em cujo meio as ideias espíritas, graças à oposição levantada, aumenta dia a dia. Ora, um fato digno de nota é que as mulheres e as moças esperaram sua gratificação de ano novo para comprarem as obras necessárias à sua instrução e só para essa cidade um livreiro teve que remetê-las às centenas.

 

Não é prodigioso ver simples operárias reservarem suas economias para comprar livros de moral e de filosofia em vez de romances e bugigangas? Homens preferindo essa leitura às alegrias ruidosas e embrutecedoras dos cabarés? Ah! É que aqueles homens e aquelas mulheres, que sofrem como vós, agora compreendem que não é aqui que se realiza a seu destino. Abrem-se as cortinas, e eles entreveem os esplêndidos horizontes do futuro. Essa cidadezinha é Chauny, no departamento do Aisne. Novos filhos da grande família, eles vos saúdam, irmãos de Lyon, como seus irmãos maiores, e desde já formam um dos elos da cadeia espiritual que une Paris, Lyon, Metz, Sens, Bordeaux e outras, e que em breve ligarão todas as cidades do mundo num sentimento de mútua confraternidade, porque em toda parte o Espiritismo lançou sementes fecundas e seus filhos se dão as mãos por cima das barreiras dos preconceitos de seitas, castas e nacionalidades.

 

Vosso dedicado irmão e amigo,

 

ALLAN KARDEC


quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Primórdios do Departamento de Doutrina da USE

 

Primórdios do Departamento de Doutrina da USE

Marco Milani

 Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, ed. 192, nov/dez 2022, p. 41-42

               Desde a fundação da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE), em 1947, a coerência doutrinária foi uma das preocupações constantes desta instituição. Na organização de comissões e departamentos internos, sempre buscou-se pautar pela solidez dos princípios e valores espíritas apresentados por Allan Kardec.

               Considerando a própria natureza agregadora da USE, a qual foi formada pelos esforços conjuntos das quatro maiores entidades federativas da época sediadas na capital (Federação Espírita do Estado de São Paulo, Liga Espírita, União Espírita e Sinagoga Espírita), tornou-se assunto recorrente a necessidade de orientação a todos dirigentes das casas associadas e dos órgãos representativos para a harmonização do embasamento teórico-doutrinário das práticas adotadas.

               Registra-se na Ata do Conselho Deliberativo Estadual (CDE) da USE, em reunião realizada em 26/03/1949, a criação de uma comissão específica para analisar e favorecer a padronização das práticas das entidades[1]. Essa comissão, composta por Luiz Monteiro de Barros, Emilio Manso Vieira e Ary Lex, foi a precursora do Departamento de Doutrina (DD), formalmente constituído em 1951.

               Além do contribuir ativamente com seus pareceres e orientações sobre diversas questões doutrinárias solicitadas pelo CDE e pela Diretoria Executiva, o DD também atuava na organização de cursos específicos, como o de mediunidade e de passes.

               Dois tópicos recorrentes de atenção e que se apresentavam fortemente relacionados eram o sincretismo religioso e deturpações doutrinárias abraçadas por alguns dirigentes e adeptos. Por exemplo, registra-se na reunião do CDE, em 15/03/1959[2], a aprovação do documento “Movimentos paralelos ao Espiritismo”, elaborado pelo então diretor do DD, Luiz Monteiro de Barros, enfatizando a necessidade de se zelar pela Doutrina Espírita ante a teorias, conceitos e práticas estranhas ao Espiritismo. Tal documento foi encaminhado ao Conselho Federativo Nacional para consequente ciência aos demais órgãos federativos estaduais e à Federação Espírita Brasileira.

               Outros exemplos de suporte às deliberações institucionais são verificados na reunião do CDE, em 13/03/1960[3], quando os conselheiros solicitaram ao DD uma análise e manifestação sobre as obras de Osvaldo Polidoro, o qual se considerava a reencarnação de Allan Kardec e propagou a doutrina denominada Divinismo e na reunião de 12/03/1961, mediante a solicitação de análise sobre o movimento OSCAL – Organização Social Cristã-Espírita André Luiz.

               Com o documento “Kardec e a unificação”, o DD apresenta ao CDE, em 12/06/1961, um elaborado trabalho em prol da unidade doutrinária e, nesta mesma reunião, solicita-se ao DD a preparação de textos em linguagem mais populares sobre o que seja o Espiritismo para envio aos jornais de grande circulação. De acordo com o depoimento do 1º tesoureiro, Carlos Dias, durante conversa com Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, em Uberaba, o médium mineiro destacou sobre responsabilidade da USE no que toca à garantia da pureza doutrinária.[4]

               Em comunicação mediúnica recebida por Emílio Manso Vieira, na reunião do CDE, em 11/06/1966, enfatiza-se a necessidade de “intransigente respeito à Pureza Doutrinária, não se permitindo que ideias estranhas venham contaminá-la.”[5]

Diante de sua função natural de análise e suporte doutrinário aos órgãos deliberativos e executivos da USE, o DD manteve-se disponível e com regularidade para o atendimento das solicitações recebidas sobre diversos temas e atividades. Na reunião do dia 06/06/1969, por exemplo, o CDE aprovou a realização da Campanha Evangelho no Lar, porém todas as sugestões sobre a temática deveriam ser encaminhadas por escrito ao DD, para triagem e futura publicação.[6] Temas sociais polêmicos, como controle de natalidade, também foram objeto de reflexões do DD para consequente manifestação do CDE.[7]

Um assunto com grande repercussão nos meios espíritas, no ano de 1975, contou com pormenorizado parecer do DD apresentado ao CDE sobre a adulteração de O evangelho segundo o Espiritismo, traduzido por Paulo Alves de Godoy e editado pela FEESP. Ressaltou-se a relevância doutrinária de não modificarem-se os termos do texto, vocábulos ou expressões originais que constem da obra original. O CDE aprovou a publicação de uma Nota Oficial, em nome da Diretoria Executiva, nesse sentido.[8] Doze anos depois e com menor repercussão, o DD também ofereceu elementos ao CDE para que se criticasse outra tradução da mesma obra, então feita por Roque Jacinto e que se publicasse manifestação formal da USE, inclusive informando o CFN.[9]

Inúmeras outras atividades foram desenvolvidas com sucesso pelo DD na história da USE, portanto, pode-se afirmar que este departamento foi um componente ativo no fortalecimento do movimento espírita paulista.


terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Na noite de Natal (poema mediúnico)


 Na noite de Natal

 

– “Minha mãe, por que Jesus,

Cheio de amor e grandeza,

Preferiu nascer no mundo

Nos caminhos da pobreza?

Por que não veio até nós,

Entre flores e alegrias,

Num berço todo enfeitado

De sedas e pedrarias?”

– “Acredito, meu filhinho,

Que o Mestre da Caridade

Mostrou, em tudo e por tudo,

A luminosa humildade!...

Às vezes, penso também

Nos trabalhos deste mundo,

Que a Manjedoura revela

Ensino bem mais profundo!”

E a pobre mãe, de olhos fixos

Na luz do céu que sorria,

Concluiu com sentimento,

Em terna melancolia:

– “Por certo, Jesus ficou

Nas palhas, sem proteção,

Por não lhe abrirmos na Terra

As portas do coração.”

 

 João de Deus

Poema transcrito do livro Parnaso de além-túmulo, de Francisco Cândido Xavier


segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Opinião e Razão

 

Opinião e Razão

Marco Milani


Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, ed. 192, nov/dez 2022, p. 16-17

                Allan Kardec, ao destacar que os Espíritos desencarnados, sobre muitos pontos, não emitiam mais do que as próprias opiniões[1] e que essas poderiam ser divergentes entre si, evidencia uma questão metodológica fundamental para a validação do conhecimento espírita: a concordância das informações obtidas por fontes independentes que não se influenciam mutuamente.

               Atualmente, considerando a rapidez que as informações se propagam no ambiente eletrônico, dificilmente grupos mediúnicos e seus componentes estão alheios ao que é divulgado nos diferentes meios de comunicação. Tratando-se de informação que colide com o ensino doutrinário apresentado nas obras de Allan Kardec, sua aceitação implica abandonar ou ignorar o conhecimento já firmado de maneira afoita e imponderada.

               Certamente, o Espiritismo é dinâmico e prevê o avanço desse conhecimento, porém em condições específicas que permitam validá-lo perante elementos objetivos, racionais e lógicos. Caso não existam evidências robustas, novas informações devem ser consideradas apenas hipóteses, sujeitas a validação futura e passíveis de questionamentos sobre a respectiva veracidade.

               A prudência na atitude científica marca a seriedade esperada dos pesquisadores. A aceitação cega de hipóteses, muitas vezes devido a aspectos emocionais e a interesses particulares, destoa da busca do conhecimento verdadeiro. Em contraposição, o relativismo irresponsável que flexibiliza a razão diante da inexistência de fatos comprobatórios e pelo uso de argumentos falaciosos para escamotear a realidade, presta um desserviço à busca da verdade.

               Com relação às informações produzidas mediunicamente, a prudência exige que o conteúdo seja analisado sob as lentes da razão, sem aceitação ou refutação prévia baseada na assinatura do suposto Espírito comunicante ou de quem seja o intermediário encarnado.

               Inexiste argumento de autoridade mediúnica, ou seja, a validade do conteúdo da mensagem independe da simpatia ou afeição que se possa ter pelo mensageiro. Se assim não fosse, Kardec não teria rejeitado várias comunicações com assinaturas veneráveis e obtidas pelos mesmos médiuns que colaboravam na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e intermediavam elevados ensinamentos de nobres Espíritos.[2]

               Encarnados devem passar pelo mesmo escrutínio. Ao ocupar uma tribuna ou expressar-se pela escrita na condição de um representante espírita, o conteúdo manifesto demanda análise criteriosa adotando como referência comparativa o conjunto de conhecimentos apresentados por Allan Kardec. Como assevera José Herculano Pires em sua obra A pedra e o joio, no Espiritismo a pedra de toque é a obra de Kardec.

               Ao revolucionar a proposta de geração de conhecimento sobre a realidade espiritual, o Espiritismo provoca uma ruptura cultural com o dogmatismo igrejeiro que se pressupunha monopolista da fé baseada em mistérios sagrados e aproxima-se da investigação científica lastreado em seu método investigativo.

A centralidade da epistemologia espírita situa-se na análise crítica e na concordância das informações reveladas via intercâmbio mediúnico, capazes de promover a consistência interna de seu arcabouço teórico-doutrinário que diferencia-se de qualquer outra proposta explicativa da realidade espiritual apresentada à humanidade.

               As consequências morais decorrentes desse conhecimento espiritual que abrange as questões filosóficas fundamentais representam o aspecto norteador da conduta pessoal e determinam o esclarecimento sobre o sentido da existência.

               A bagagem cultural dos adeptos varia significativamente, fazendo com que o grau de compreensão dos princípios e valores doutrinários não seja uniforme. Assim, apesar de haver apenas um Espiritismo, há diferentes graus de maturidade doutrinária daqueles que se autodeclaram espíritas e esse fato leva um observador externo a supor, incorretamente, que a diversidade interpretativa dos conceitos e das práticas decorram de um corpo teórico fragmentado.

               Ao assumir informações doutrinariamente desconectadas como sendo espíritas, sem qualquer fundamentação lógica baseada em fatos ou na concordância universal, o indivíduo ignora a coerência metodológica necessária para se validar o conhecimento. Assim procede ao incorporar opiniões próprias ou de terceiros, inclusive de origem mediúnica, como argumentos suficientes para contraporem-se com os ensinos dos Espíritos apresentados por Kardec.

               A admiração e a aderência afetiva a médiuns e palestrantes fazem com que os adeptos presos em posturas e práticas típicas de religiões tradicionais depositem a validade das informações em seus ídolos encarnados, como se esses últimos fossem elos legítimos com o sagrado. A fé cega não encontra respaldo na base doutrinária espírita, porém pode se manifestar naqueles que ainda encontram-se em período de adaptação à cultura espírita.

               Opiniões sobre qualquer assunto são perfeitamente compreensíveis diante da liberdade de expressão e de consciência, mas o respectivo reconhecimento como integrantes do conhecimento espírita depende da atitude racional, analítica e coerente das mesmas com o método de validação e com os princípios espíritas já consolidados.



[1] Vide o capítulo II, item 99, da obra O que é o espiritismo, de Allan Kardec.

[2] Vide o capítulo XXXI de O livro dos médiuns, de Allan Kardec.


terça-feira, 27 de setembro de 2022

Não, Jesus não era um socialista


 Não, Jesus não era um socialista

Lawrence W. Reed

 “A caridade cristã, sendo voluntária e sincera, é totalmente distinta das imposições compulsórias e impessoais do Estado.”

 

A afirmação de que Jesus Cristo era um socialista tornou-se um refrão popular entre os esquerdistas, mesmo entre alguns cujo cristianismo é, na melhor das hipóteses, morno. Mas há alguma verdade nisso?

Essa pergunta não pode ser respondida sem uma definição confiável de socialismo. Há um século, ele era amplamente considerado como sendo a propriedade estatal dos meios de produção. Jesus nem uma vez sequer insinuou esse conceito, muito menos o endossou. No entanto, a definição mudou ao longo do tempo. Quando as críticas de economistas como Ludwig von Mises, F. A. Hayek e Milton Friedman demoliram qualquer argumento intelectual para a forma original de socialismo, e a realidade provou que eles estavam devastadoramente certos, os socialistas mudaram para outra versão: o planejamento central da economia.

Pode-se vasculhar o Novo Testamento e não se encontrará nenhuma palavra de Jesus que exija poder de políticos ou burocratas para alocar recursos, escolher vencedores e perdedores, dizer aos empresários como administrar seus negócios, impor salário mínimo ou preços máximos, obrigar trabalhadores a se filiarem a sindicatos, ou mesmo para aumentar os impostos. Quando os fariseus tentaram enganar Jesus de Nazaré para endossar a evasão fiscal, ele permitiu que outros decidissem o que pertence ao Estado, respondendo: “Dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

No entanto, uma das acusações que levaram à crucificação de Jesus foi, de fato, o incentivo a não pagar tributos a César.

 

Alterando a Definição

 

Com a reputação de planejadores centrais no lixo em todo o mundo, os socialistas passaram em grande parte para uma ênfase diferente: o estado de bem-estar. O socialismo de Bernie Sanders e sua jovem aliada Alexandria Ocasio-Cortez é o do Estado benevolente e igualitário onde o rico Pedro é roubado para pagar o pobre Paulo. É caracterizado por muitas “coisas gratuitas” do governo – o que obviamente não é gratuito. É bastante caro tanto em termos de taxas burocráticas de corretagem quanto na dependência desmoralizante que produz entre seus beneficiários. É isso que Jesus tinha em mente?

Dificilmente. Sim, em meio ao feriado, é especialmente oportuno pensar em ajudar os pobres. Afinal, era uma parte muito importante da mensagem de Jesus. Como ajudar os pobres deve ser feito, no entanto, é muito importante.

Os cristãos são direcionados nas Escrituras a amar, orar, ser bondosos, servir, perdoar, ser verdadeiros, adorar o único Deus, aprender e crescer tanto em espírito quanto em caráter. Todas essas coisas são muito pessoais. Eles não exigem políticos, policiais, burocratas, partidos políticos ou programas.

“Os pobres você sempre terá com você, e você pode ajudá-los quando quiser”, diz Jesus em Mateus 26:11 e Marcos 14:7. As palavras-chave que existem são: você pode ajudar e quer ajudar. Ele não disse: “Vamos fazer você ajudar, goste ou não”.

Em Lucas 12:13-15, Jesus é abordado com um pedido de redistribuição. “Mestre, fale com meu irmão para que ele reparta a herança comigo”, um homem pede. Jesus respondeu: “Homem, quem me constituiu juiz ou divisor de vocês?” Então ele repreendeu o peticionário por sua inveja.

O Cristianismo não se refere a passar a responsabilidade para o governo quando se trata de aliviar a situação dos pobres. Cuidar deles significa ajudá-los a superar a situação; não pagá-los para permanecerem pobres ou torná-los dependentes do Estado é um fato essencial na vida de um verdadeiro cristão há 2.000 anos. A caridade cristã, sendo voluntária e sincera, é totalmente distinta das imposições compulsórias e impessoais do Estado.

 

O que as Escrituras dizem?

 

Mas não acredite na minha palavra. Considere o que o apóstolo Paulo diz em 2 Coríntios 9:7: “Cada um de vocês deve dar o que decidiu em seu coração dar, não com relutância ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria.”

E na Parábola do Bom Samaritano de Jesus, o viajante é considerado “bom” porque ajudou pessoalmente o ferido na beira da estrada com seu próprio tempo e recursos. Se, em vez disso, ele tivesse instado o sujeito indefeso a esperar a chegada de um cheque do governo, provavelmente o conheceríamos hoje como o Samaritano Imprestável.

Jesus claramente sustentou que a compaixão é um valor saudável para se ter, mas não conheço nenhuma passagem no Novo Testamento que sugira que seja um valor que ele imporia à força ou à mão armada – em outras palavras, pela política socialista.

Os socialistas gostam de sugerir que Jesus desdenhava os ricos, citando dois momentos particulares: sua atitude perante os mercadores do Templo e sua observação de que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. No primeiro caso, Jesus ficou zangado porque a casa de Deus estava sendo mal utilizada. Na verdade, ele nunca expulsou um negociante de um banco ou do mercado. Na segunda, ele estava avisando que com grandes riquezas, também vêm grandes tentações.

Estas eram advertências contra prioridades equivocadas, não mensagens de guerra de classes.

 

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Tradução livre do texto publicado originalmente em inglês no link:

https://fee.org/articles/no-jesus-wasnt-a-socialist/?fbclid=IwAR0pK9ftapJwuv0FfOJ3TgXb8OB_T3BAOlsdKfnNXEDqAd6g_HXjt_tKgwk

Fonte: FEE – Foundation for Economic Education