Mundos
transitórios não são “colônias espirituais”
Marcelo
Henrique
Marco
Milani
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Nossa
tarefa permanente é a de enfocar e repetir, muitas vezes, acerca da necessária
diferenciação entre a teoria espírita e seus fundamentos e qualquer outra
construção literária que tenha aparência espírita, porque verse sobre temas
espirituais.
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Pode
ser um tanto óbvio para quem se dedica ao estudo sério do Espiritismo, mas os
chamados mundos transitórios, apresentados pelos Espíritos, nas obras de Allan
Kardec (1804-1869), não guardam qualquer relação com a noção ficcional de colônias
espirituais circunscritas com rotinas típicas de cidades materiais descritas em
alguns romances mediúnicos.
Inicialmente,
convém definir que, conforme o item 234, de “O livro dos Espíritos”, mundos
transitórios são estações de repouso para Espíritos que se encontram em longo
período de erraticidade, estado esse um pouco penoso.
Em
complemento, as Inteligências Invisíveis destacam que tais mundos não seriam
habitados simultaneamente por seres corporais (encarnados) e Espíritos
(desencarnados). A Terra, segundo se informa, já teria sido um desses mundos
durante o período de sua formação geológica, a teor do item 236, da mesma obra.
Do
contrário, o conceito de colônias espirituais, as quais figuram em alguns
romances mediúnicos, como por exemplo “Nosso Lar” (de autoria de Francisco
Cândido Xavier, lançado em 1944), afasta-se significativamente da definição kardeciana,
acima referida, por supostamente se apresentarem como centros urbanos,
caracterizados pela concentração de atividades administrativas, comerciais e de
serviços. Uma cópia, portanto, não-material, da ambiência física em que estamos
acostumados a viver.
No
caso, a citada colônia estaria situada nas imediações da cidade do Rio de
Janeiro, cujos habitantes seriam humanos recém-desencarnados e outros falecidos
há mais tempo. Nessa condição transitória, segundo esta literatura, existiriam
ocupações como as nossas, com a distribuição de tarefas e a circulação por
diversos ambientes, de labor, educação, descanso e familiares. Há, ainda, algo
que parece bastante pitoresco, nos relatos, que é a convivência com animais.
Este
“padrão” de relatos é seguido por muitas outras obras, posteriores ao livro em
tela, que acabam sendo mais “detalhistas” quanto a situações de “vivência
espiritual” na condição de Erraticidade, como recompensas por trabalhos e
realizações (o “bônus-hora” descrito no livro de Chico Xavier), alimentos e –
pasmem – a circunstância de relações sexuais entre os desencarnados resultando em gravidez!
Todavia,
o tema não é da contemporaneidade (séculos XX e XXI), do chamado “Espiritismo à
brasileira”. Esta noção de “cidades” ou “regiões” etéreas, espirituais, vem de
muito longe, presente em tradições religiosas ancestrais e recebendo
denominações diversas (Jerusalém Celestial, Ilha dos Bem-aventurados, Campos
Elíseos, além das representações de Dante Alighieri, quanto aos “andares” do
Paraíso Celeste e do Inferno). No século de Kardec (XIX), o tema também
“apareceu”, quando médiuns como Emanuel Swedenborg (1688-1772) se valeram de
analogias, com descrições similares. Mas não é somente ele. Desde o Século VII,
alguns autores (certamente, alguns deles também inspirados mediunicamente por
desencarnados que se encontravam no “véu da ilusão”, trataram de ambientes,
paisagens, formas e objetos no chamado “mundo dos Espíritos”, isto é, a
condição de imaterialidade. Benchaya (2021) faz um importante escorço de obras
e autores que trataram deste assunto.
Vale
lembrar, no entanto, e, principalmente para aqueles que tentam “validar” a
fórceps essa mera teoria, que o próprio Swedenborg a desmentiu, conforme o relato espiritual
contido na Revue Spirite, de novembro de 1859, intitulada “Comunicação
de Swedenborg”. Lá, o Espírito afirma, entre outras coisas:
“A minha moral espírita e a minha
doutrina não estão isentas de grandes erros, que hoje reconheço. [...] Também aquilo que eu dizia do mundo dos
Anjos, que é o que pregam nos templos, não passava de ilusão dos meus sentidos.
De boa-fé eu julgava ver, e o disse, mas me enganei. Vós, sim, estais no melhor
caminho, porque estais mais esclarecidos do que estávamos em meu tempo”.
Nesta dissertação, também constam
perguntas que Kardec fez diretamente ao comunicante, que merecem registro:
“6. ─ Aquele Espírito vos fez
escrever coisas que hoje reconheceis como errôneas, fê-lo com boa ou com má
intenção?
─ Não o fez com má intenção. Ele
próprio estava enganado, pois não era bastante esclarecido. Hoje eu vejo que as
ilusões do meu próprio Espírito e da minha inteligência o influenciavam,
malgrado seu. Entretanto, no meio de alguns erros de sistema, fácil é
reconhecer grandes verdades.
7. ─ O fundamento da vossa doutrina
repousa sobre as correspondências. Ainda acreditais nessas relações que
descobríeis entre cada coisa do mundo material e cada coisa do mundo moral?
─ Não. É uma ficção.
[...]
11. ─ Poderíeis dizer-nos de que
maneira eram recebidas por vós as comunicações dos Espíritos? Escrevíeis aquilo
que vos era revelado, à maneira dos médiuns, ou por inspiração?
─ Quando eu estava em silêncio e em
recolhimento, meu Espírito como que ficava deslumbrado, em êxtase, e eu via
claramente uma imagem à minha frente, que me falava e ditava o que eu deveria
escrever. Por vezes, minha imaginação se misturava a isso.
[...]
13. ─ Qual a vossa opinião sobre a
Doutrina Espírita, tal qual é hoje?
─ Eu vos disse que estais num caminho
mais seguro que o meu, visto que as vossas luzes são em geral mais amplas. Eu
tinha que lutar contra uma ignorância muito maior e sobretudo contra a
superstição”.
Vejamos
que Swedenborg assume sua ficção. André Luiz declarou não ter vocabulário para
descrever a realidade espiritual e romanceou o que lhe parecia real e
verdadeiro. Sobre a natureza de obras ficcionais, escreveu Milani (2026, grifos
do original):
“Assim,
a ficção espiritualista pode consolar, inspirar e conduzir alguns ao
estudo inicial, cumprindo o papel preparatório indicado por Kardec, ao
recomendar formar primeiro o espiritualista. Contudo não representa o
Espiritismo em sentido doutrinário. Confundir ficção com revelação significa abdicar
do método que constitui a própria identidade e autoridade
espírita. Sem este método, o espiritualismo emociona; com ele, o Espiritismo
esclarece, consola e liberta da ignorância”.
Eis,
aí, a diferença cabal entre conhecimento e ilusão. As manifestações de
Espíritos, pela mediunidade, como ressaltou Kardec em diversas oportunidades e
contextos são, apenas e tão-somente, opiniões. A condição de estar
desencarnado, desprovido da matéria e das limitações que esta, provisoriamente,
nos impõe, não eleva ninguém à condição de sabedoria e plenitude espiritual.
Daí porque o Professor francês ter consignado, no bojo da Filosofia Espírita, o
exame lógico-racional de todas as comunicações e a submissão, delas, ao
critério da universalidade dos ensinos, afastando, de pronto, toda e qualquer
afirmação que não corresponderia à principiologia espírita.
Pela
dicção da Doutrina dos Espíritos, não há em toda a obra kardeciana qualquer
menção à existência de colônias espirituais ou congêneres, como locais de
permanência dos Espíritos, quando desencarnados. A Erraticidade – condição dos
Espíritos errantes – não se refere nem se acha circunscrita a “ambientes” ou
“lugares” específicos, onde “viveriam” os desencarnados, realizando tarefas e
se relacionando à moda similar da vida físico-material.
O que
ressalta, em relação aos espíritas “apaixonados” e sua “defesa incondicional”
das colônias, é um apego fortíssimo à materialidade (das relações, das
convivências, dos cenários e das pessoas), como se o post-morten permitisse a
repetição das vivências e experiências que o Espírito acaba de deixar. Neste
sentido, Rivé e Henrique (2024) apontam:
“Talvez
por isso Nosso Lar tenha se tornado mesmo, entre os adeptos das ideias
espíritas, um sonho de consumo, um objeto de apego, um desejo fervoroso e, até,
como ilustra o título deste artigo, um fetiche, como forma de algo perseguido
pelos humanos, que, desde já, durante a vida física, imaginam como será a sua
(futura) vida, espiritual, participando da rotina de tais “colônias”, como que
“aproveitando a estadia” naqueles “locais”, que são fictícios ou fruto da
imaginação”.
No
mesmo sentido, Henrique (2022) também afirma:
“Os
espíritas passam a existência toda “aguardando” a vida espiritual. Fazem
projetos. Cultivam desejos. Imaginam-se como se já estivessem do “outro lado”.
Alguns chegam a dizer que gostariam de estar em uma colônia, como “Nosso Lar”.
Outros apavoram-se, arrepiam-se ante a iminência de poderem ser direcionados a
um lugar de sofrimento – expresso em livros ditos espíritas – como o “Umbral”.
Já ouvi, também, e repetidas vezes, que há “sanatórios espirituais”, lugares
para onde são direcionados os “espíritas que não seguiram as orientações
espirituais” ou que “não se tornaram homens de bem, os verdadeiros espíritas” –
descritos nas obras kardecianas”.
Para
nós que frequentamos instituições espíritas e dialogamos com frequentadores e
trabalhadores, é muito comum ouvir, desses, que seria um “sonho” estar em Nosso
Lar, após desencarnarem. Teixeira (2024), a esse respeito, comenta: “julgarmos
que ser espírita é uma espécie de salvo conduto que garantirá uma entrada
triunfal em Nosso Lar e congêneres”.
O
contraste entre mundos transitórios e supostas colônias espirituais, portanto, é
evidente. Em específico, as estações de repouso de Espíritos fatigados pela
longa erraticidade em planetas sem convivência de encarnados (como consta da
chamada literatura kardeciana) versus cidades assemelhadas a centros
urbanos tipicamente materiais, com fluxo de recém-desencarnados e outros
falecidos há mais tempo, em relações de convivialidade, como se fosse um planeta
como o nosso.
Neste
sentido, a obra “Nosso Lar” é fruto da liberdade de pensamento e expressão de
seu autor espiritual (André Luiz). A obra, assim como as demais que lhe
seguiram, compondo uma série, merece ser respeitada e considerada como um
relato espiritual. A crítica sobre uma obra literária é um dever de todo
espírita estudioso e sensato. Criticar a obra não é desmerecer seu autor – nem
o encarnado, médium, tampouco o Espírito que ditou o relato. Isto precisa ser
entendido pelo meio espírita.
Um
aspecto metodologicamente relevante nessa comparação é o fato de que as
informações mediúnicas sobre mundos transitórios foram organizadas por Kardec
respeitando-se, como já afirmado, o Controle Universal dos Ensinos dos
Espíritos (CUEE). Já as descrições detalhadas de colônias espirituais advêm de
fontes romanceadas difusas. Não raramente a ausência de familiaridade com os
critérios que fundamentam a autoridade da Doutrina Espírita (vide, na
Introdução de “O evangelho segundo o Espiritismo”, o tópico com este título),
faz com que adeptos exaltados alardeiem que Kardec “não disse tudo” então
pode-se, equivocadamente, assumir como verdade comunicações mais recentes,
ainda que fantasiosas (Milani, 2025).
Resta-nos,
por “dever de ofício”, enfocar e repetir, muitas vezes, acerca da necessária
diferenciação entre a teoria espírita e seus fundamentos e qualquer outra
construção literária que tenha aparência espírita, porque verse sobre temas
espirituais. É o que fazemos, presentemente, inclusive como incentivo para que
grupos e instituições espíritas, valendo-se de textos como esse (e os demais,
mencionados abaixo, em “Fontes”) sejam debatidos com tranquilidade e
efetividade no meio espírita.
Fontes:
Benchaya, S. J. (2021). Os
espíritas e as colônias espirituais. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 25. Jan.
2021. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/os-espiritas-e-as-colonias-espirituais/>.
Acesso em 8. Abr. 2026.
Henrique, M. (2022).
Liberte-se! “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 17. Set. 2022. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/liberte-se-por-marcelo-henrique/>.
Acesso em 8. Abr. 2026.
Kardec, A. (2003). “O
evangelho segundo o Espiritismo”. Trad. J. Herculano Pires. 59. Ed. São Paulo:
LAKE.
Kardec, A. (2004). “O
livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.
Kardec, A. (1964). “Revue
Spirite”. Trad. Julio Abreu Filho. Supervisão de J. Herculano Pires. São Paulo:
Edicel.
Milani, M. (2025). ‘Kardec
não disse tudo’ e a falácia do apelo à ignorância. “Educador Espírita”. 1. Mar.
2025. Disponível em <https://educadorespirita1.blogspot.com/2025/03/kardec-nao-disse-tudo-e-falacia-do.html>.
Acesso em 8. Abr. 2026.
Milani, M. (2026). Ficção
espiritualista versus coerência doutrinária. “Espiritismo COM Kardec – ECK”.
14. Mar. 2026. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/ficcao-espiritualista-versus-coerencia-doutrinaria-por-marco-milani/
>. Acesso em 8. Abr. 2026.
Netto, H. (2022).
Colônias? “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 7. Ago. 2022. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/colonias-por-henri-netto/>.
Acesso em 8. Abr. 2026.
Rivé, M. C.; Henrique, M.
(2024). O fetiche por ‘Nosso Lar’. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 31. Mar. 2024.
Disponível em <https://www.comkardec.net.br/o-fetiche-por-nosso-lar-por-maria-cristina-rive-e-marcelo-henrique/>.
Acesso em 8. Abr. 2026.
Teixeira, M. (2024).
Grande Prêmio Nosso Lar. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 30. Jan. 2024. Disponível
em <https://www.comkardec.net.br/grande-premio-nosso-lar-por-marcelo-teixeira/>.
Acesso em 8. Abr. 2026.
Xavier, F. C. (2014).
“Nosso Lar”. Espírito André Luiz. 64. Ed. Brasília: FEB.






