sexta-feira, 26 de junho de 2020

A necessária evolução dos métodos produtivos a favor do homem


A revolução industrial foi fundamental para o aumento da produtividade e consequente melhora no padrão de vida da sociedade.


Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1864 > Março > Instruções dos Espíritos >


Objetivo final do homem na Terra 


Outrora os homens eram atrelados à charrua; eram sacrificados em trabalhos gigantescos, e a construção das muralhas da Babilônia, onde vários carros marchavam em linha; a edificação das Pirâmides e a instalação da Esfinge custaram mais que dez batalhas sangrentas. Mais tarde os animais foram subjugados, em concorrência com os homens, e vimos, na jovem Lutécia, bois de canga arrastarem a carruagem em que espaireciam os reis desocupados da segunda raça.

Este preâmbulo visa mostrar aos que nos ouvem que todas as perguntas feitas neste centro simpático aos Espíritos obtêm sua solução, por um ou outro de nós. Esse caro Jacquard, essa glória do tear, esse artífice engenhoso, que caiu como um soldado valente no campo de honra do trabalho, tratou de um aspecto das questões econômicas que se ligam ao trabalho humanitário. Ele me pôs um tanto em causa, falando das modificações que eu tinha feito na arte do tecelão, e chamou-me, por assim dizer, para fazer a minha parte nesse concerto espiritual. Eis por que, encontrando entre vós um médium, como eu nascido na velha cidade dos alóbrogos, essa rainha do Grésivaudan, dele me apodero com a permissão de seus guias habituais e venho completar por uma parte a exposição que meu ilustre amigo de Lyon vos deu por outro médium.

Em sua dissertação, aliás muito notável, ele ainda exprime certas queixas que sob o inventor revelam o operário ansioso por seu ganha-pão e temeroso do desemprego homicida. Sente-se que o pai de família teme uma suspensão do trabalho, do qual depende a vida dos seus; adivinha-se o cidadão que freme ante o desastre que pode atingir a maioria de seus concidadãos. Esse sentimento é, certamente, dos mais honrosos, mas denota um ponto de vista de certa estreiteza. Venho tratar da mesma questão que Jacquard, senão mais largamente que ele, ao menos de um ponto de vista mais geral. Contudo, devo constatar, para homenagear a quem de direito, que a generosa conclusão da comunicação de meu amigo resgata amplamente o lado defeituoso que assinalo.

O homem não foi feito para ficar como instrumento ininteligente de produção. Por suas aptidões, por seu lugar na criação e por seu destino, ele é chamado a outra função que não a de máquina; a um outro papel que não o do cavalo de carrossel. Nos limites fixados por seu adiantamento, ele deve chegar a produzir mais e mais intelectualmente e, enfim, emancipar-se desse estado de servilismo e de engrenagem ininteligente a que, durante tantas gerações, ficou escravizado.

O operário é chamado a tornar-se engenheiro, a ver seus braços laboriosos substituídos por máquinas ativas, mais infatigáveis e mais precisas do que ele. O artífice deve tornar-se artista e conduzir o trabalho mecânico por um esforço do seu pensamento, e não mais por um esforço de seus braços. Aí está a prova irrecusável desta lei tão larga do progresso, que rege todas as humanidades.

Agora que vos é permitido entrever, por um passeio pela vida futura, a verdade dos destinos humanos; agora, que estais convencidos de que esta existência não passa de um dos elos de vossa vida imortal, posso exclamar: Que importa que cem mil indivíduos sucumbam, quando uma máquina foi descoberta para fazer o trabalho desses cem mil indivíduos? Para o filósofo, que se eleva acima dos preconceitos e interesses terrenos, este fato prova, com muita singeleza, que o homem não estava mais em seu caminho quando ele se consagrava a esse labor condenado pela Providência. Com efeito, é no campo de sua inteligência que doravante o homem deve fazer passar a grade e a charrua que fecundam. É só por sua inteligência que poderá, que deverá chegar ao melhor.

Peço que não deis às minhas palavras um sentido muito revolucionário. Não! Mas deixai-lhes o sentido largo e superior que comporta um ensino espírita que se dirige a inteligências já adiantadas e prontas a compreender todo o alcance de nossas instruções.

Sabe-se que se, de hoje para amanhã, o artífice abandonasse o tear que o sustenta, sob o pretexto de que, num dado momento, este seria substituído por um mecanismo ou qualquer outro invento, é sabido que ele seguiria via fatal e contrária a todas as lições dadas pelo Espiritismo.

Entretanto, todas as nossas reflexões têm um só objetivo, o de demonstrar que ninguém deve gritar contra o progresso, que substitui braços humanos por dispositivos e engrenagens mecânicas.

Além disso, é bom acrescentar que a Humanidade pagou largo contributo à miséria e que, penetrando mais e mais em todas as camadas sociais, a instrução tornará cada indivíduo cada vez mais apto para funções tão inteligentemente chamadas liberais.

É difícil para um Espírito que pela primeira vez se comunica através de um médium, exprimir seu pensamento com bastante clareza. Assim, desculpareis a desorganização da minha comunicação, cuja conclusão aqui está em duas palavras:

O homem é um agente espiritual que deve chegar, em período não distante, a submeter ao seu serviço e para todas as operações materiais à própria matéria, dando-lhe como único motor a inteligência, que se expande nos cérebros humanos.

VAUCANSON*


Jacques de Vaucanson (Grenoble, 24 de fevereiro de 1709 — 21 de novembro de 1782) foi um inventor e artista francês que criou vários autômatos inovativos.

domingo, 5 de abril de 2020

Relação de artigos sobre as alterações da 5ª ed. de A Gênese



Comentários sobre as alterações da 5ª edição

Marco Milani

...
...


quinta-feira, 19 de março de 2020

Seria Kardec o autor das alterações da 5a. ed. de A Gênese?


Seria Kardec o autor das alterações da 5ª edição de A Gênese?

Marco Milani*

(Artigo publicado originalmente na revista Dirigente Espírita, ed. nº 177, mai/jun 2020, p. 8)

     Desde a relevante pesquisa documental e bibliográfica de Simoni Privato Goidanich, publicada pela Confederação Espírita Argentina no livro El Legado de Allan Kardec, em 2017, as alterações sofridas e questões envolvendo a legitimidade da 5ª edição francesa da obra A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo, passaram a ser discutidas por entidades federativas e estudiosos espíritas de vários países.  
     A recente notícia de que foi localizado em uma biblioteca suíça um exemplar da 5ª edição datado em sua capa com o ano de 1869, gerou incontida euforia por alguns, curiosidade histórica e científica por outros e, para muitos adeptos, não chegou a ser o tipo de assunto pelo qual se sentem atraídos e mostram-se indiferentes.
     Ao que tudo indica, o conteúdo do referido exemplar é idêntico àquele depositado legalmente na Biblioteca Nacional da França em 1872 e registrado como 5ª edição.
     Mas por que esse fato despertou o interesse de muitos estudiosos? Porque a qualidade das alterações da 5ª edição são questionáveis, tanto em aspectos estruturais no texto quanto em aspectos conceituais e até doutrinários. Há também o aspecto legal, pois se houve alteração da obra sem o conhecimento e autorização de Allan Kardec em vida, caracterizaria-se uma adulteração.
     Assim, criou-se uma polêmica em torno do assunto com pessoas afirmando ou negando ter sido Kardec o autor dessas alterações e a busca por evidências que contribuiriam para esse esclareceimento se intensificou desde então.
     Como em tudo que envolve o ser humano, opiniões especulativas, manifestações passionais e pseudocientíficas podem ocorrer em parcela do público que acompanha o desenrolar dessa polêmica. Outros envolvidos, com um pouco mais de sobriedade, procuram fundamentar suas argumentações em fatos e, diante da dúvida e ausência de provas, optam, prudentemente, por não atestar a autoria das modificações.
     Nesse sentido, é possível construir hipóteses para o caso, porém é inegável que a análise comparativa do conteúdo deva ser um elemento essencial para se discutir a questão.
     A União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE-SP), alinhada com outras entidades federativas brasileiras e internacionais, protagoniza e fomenta estudos comparativos entre a edição original e a 5ª edição desde 2018 e conta com uma coluna específica em seu jornal Dirigente Espírita dedicada às principais modificações e eventuais impactos doutrinários identificados.
     As alterações ocorreram em todos os 18 capítulos da 5ª edição, algumas mais e outras menos significativas, porém bastaria uma única modificação que não tenha sido autorizada ou feita por Kardec para se ferir o aspecto legal e, igualmente, bastaria uma única modificação com desvirtuamento doutrinário para se questionar se Kardec teria se contradito e gerado prejuízo conceitual à obra.
     Grupos que defendem afoitamente que Kardec teria sido o autor sem examinar a qualidade doutrinária das alterações ou, de maneira insensata, negam a priori qualquer impacto prejudicial no texto, deveriam rever tais posições.
      Apenas como exemplo, aponta-se a distorção encontrada no capítulo 14, logo em seu item 1.
     Na edição original, Kardec enfatiza que os fenômenos espirituais não podem ser explicados pelas leis da matéria. Isso está plenamente coerente com todas as afirmações anteriores de Kardec.
     Na 5ª edição, entretanto, a palavra "matéria" foi substituída por "natureza" e claramente mudou o significado, pois as leis naturais abrangem tanto os elementos materiais quanto os espirituais e, ao fazer essa substituição, os fenomenos espirituais são excluídos das leis naturais e passam a ser "sobrenaturais". A frase fica incoerente.
     Assim, conceitualmente há um problema que contradiz todos os usos que Kardec fez da expressão "leis da natureza" nesta obra. Basta se verificar o capítulo 13, o qual é imediatamente anterior a esse e expressa a compreensão de Kardec sobre o tema, nos itens 1, 8, 9, 10, 13, 16 e 17, dentre outros.
     Para mais detalhes sobre essa modificação, pode-se consultar o artigo disponível no link a seguir:

     Teria sido mesmo Kardec quem alterou esse texto?
     Tal questionamento pode ser feito para várias das alterações, portanto, cabe a cada um comparar e analisar ponderadamente as edições, sem posições apaixonadas e desprovidas de razão, para embasar e conitibuir com argumentações mais adequadas.
     Essa discussão não retira a possibilidade de Kardec ter sido o autor de deturpações como essa, apesar de improvável, dado o seu cuidado doutriário, mas antes de se afirmar isso, recomenda-se se abster se tiver dúvida.
     Certamente, alguns procurarão negar tais distorções dizendo que, se somente agora esses problemas estão sendo discutidos, é porque nunca foram importantes e não seria agora que eles passariam a ser apontados como distorções.
         Mas um fato pitoresco pode auxiliar a entender que o problema sempre existiu, mas não havia divulgação e investigação suficientes sobre isso. Na versão brasileira da 5ª edição pela LAKE Editora (16ª edição, do 106º ao 110º milheiros - mar/1988), a qual contou com apresentação e notas de Herculano Pires e a tradução de Victor Tollendal Pacheco, essa distorção encontrada no item 1 do Capítulo 14 foi "corrigida". A palavra "natureza" foi substituída por "matéria", como na edição original! Assim, o tradutor ou revisor percebeu a distorção da 5a. edição francesa e decidiu corrigir, arbitrariamente, o problema.
        Considerando que A Gênese nunca havia recebido tanta atenção de pesquisadores como agora e, ainda, que a edição original praticamente não era divulgada, esse tipo de problema nao ficava evidente. Sem estudos comparativos com a edição original, como se saberia se a 5ª edição estaria mais adequada ou não?
     Fica o convite para todos os interessados em participar dessas discussões que, antes, analisem cuidadosamente o conteúdo de ambas as edições e não se baseiem em especulações afoitas para afirmarem se Kardec foi, ou não, o autor de inconsistências doutrinárias.

* Diretor do Departamento de Doutrina da USE-SP



sábado, 14 de março de 2020

Comentários adicionais sobre as inconsistências doutrinárias do Cap. XVIII - 5ª ed - A Gênese



Comentários adicionais sobre o Capítulo XVIII da 5ª edição de A Gênese:
Seria Kardec o autor dessas alterações?

Marco Milani

Algumas pessoas ainda estão em dúvida se as alterações no texto da 5ª edição francesa da obra A Gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo, são doutrinariamente relevantes. É uma dúvida saudável, pois incentiva o estudo comparativo da edição original com essa edição publicada posteriormente à morte de Allan Kardec.

Em todos os seus 18 capítulos, na 5ª edição de A Gênese registram-se supressões, acréscimos e/ou reordenamentos de trechos e até de itens inteiros. Em alguns capítulos, não houve comprometimento doutrinário significativo, porém, em outros, houve. Um desses é o Capítulo XVIII, intitulado “Os tempos são chegados”.

Comentários sintéticos sobre as inconsistências doutrinárias das alterações encontradas nesse capítulo da 5ª edição já foram anteriormente publicados no jornal Dirigente Espírita, nov/dez 2018, p.5, e está disponível para consulta no seguinte link:

Adicionalmente, os comentários abaixo, também referenciados em outras obras, objetivam apenas detalhar algumas relações conceituais que favorecem o exame desse capítulo de A Gênese.

O ensino dos Espíritos, analisado, organizado e publicado por Allan Kardec, é bastante claro ao se contrapor a crendices supersticiosas e místicas que vinculam o destino das pessoas à influência dos astros. Cada ser humano possui livre-arbítrio e é responsável por seus atos e consequências, sendo irrelevante a posição astronômica em que os orbes celestes se encontravam quando o indivíduo nasceu.

Sobre esse tema, podemos citar, por exemplo, a questão nº 867, de O Livro dos Espíritos, reproduzida a seguir:

867. Donde vem a expressão: Nascer sob uma boa estrela?
Antiga superstição, que prendia às estrelas os destinos dos homens. Alegoria que algumas pessoas fazem a tolice de tomar ao pé da letra.”

Igualmente, Kardec critica a ilusória influência que as constelações teriam sobre os homens no Capítulo 5, item 12, na própria obra A Gênese, tanto em sua 1ª edição quanto na 5ª edição. Após consistentes esclarecimentos sobre os motivos de já não se poder levar a sério tal crendice diante do avanço do conhecimento, assim ele conclui o item:

A crença na influência das constelações, sobretudo das que constituem os doze signos do zodíaco, proveio da ideia ligada aos nomes que elas trazem. Se à que se chama leão fosse dada o nome de asno ou de ovelha, certamente lhe teriam atribuído outra influência.”

Como movimento natural do desenvolvimento das ideias, certamente a humanidade progride desvendando a realidade baseada em fatos, conjecturando e analisando as causas dos diferentes fenômenos observados. Nesse sentido, Kardec situa a astrologia e outras tentativas de explicar a realidade e prever acontecimentos como a expressão do conhecimento de determinada época, mas que foi superada pelo avanço da ciência. No Capítulo 1, da obra O que é o Espiritismo, durante o diálogo com o cético, Kardec assim escreve:

Antes dos progressos sérios da Astronomia, acreditava-se na Astrologia. Será razoável dizer-se que a Astronomia para nada serve, porque já não se pode encontrar na influência dos astros o prognóstico do destino?
Assim como a Astronomia destronou os astrólogos, o Espiritismo veio destronar os adivinhos, os feiticeiros e os que liam a buena-dicha. Ele é, para a magia, o que é a Astronomia para a Astrologia, a Química para a Alquimia.

Ao questionar se os acontecimentos já estavam fatalmente determinados, Kardec obteve a seguinte resposta na questão nº 851, de O Livro dos Espíritos, em que se destaca a clara separação entre provas físicas e decisões morais dos indivíduos:

851 – Há uma fatalidade nos acontecimentos da vida, segundo o sentido ligado a essa palavra, quer dizer, todos os acontecimentos são predeterminados? Nesse caso, em que se torna o livre-arbítrio?
A fatalidade não existe senão pela escolha que fez o Espírito, em se encarnando, de suportar tal ou tal prova. Escolhendo, ele se faz uma espécie de destino que é a consequência mesma da posição em que se encontra. Falo das provas físicas, porque para o que é prova moral e tentações, o Espírito, conservando seu livre-arbítrio sobre o bem e sobre o mal, é sempre senhor de ceder ou resistir. Um bom Espírito, vendo-o fraquejar, pode vir em sua ajuda, mas não pode influir sobre ele de maneira a dominar sua vontade. Um Espírito mau, quer dizer, inferior, mostrando-lhe, exagerando-lhe um perigo físico, pode abalá-lo e assustá-lo; mas a vontade do Espírito encarnado não fica menos livre de todos os entraves.”

Acontecimentos físicos, portanto, não implicam fatalidades sob o aspecto moral, dado o livre-arbítrio do homem. As transformações morais dependem das escolhas e ações dos Espíritos, independentemente de ocorrências físicas, sejam essas coletivas ou individuais.

Naturalmente a humanidade progride sob os aspectos morais e intelectuais e, individualmente, o Espírito nunca retroage (LE-118). Considerando que há épocas em que esses progressos se caracterizam de maneira mais intensa, é possível registrar momentos marcantes que atestam essa marcha evolutiva. No Capítulo I do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, temos, por exemplo, as três revelações como movimentos evolutivos do conhecimento sobre a realidade espiritual e nossa relação com Deus, com muitos séculos de espaçamento entre elas. Sob a perspectiva espiritual, esses movimentos podem ser previstos porque os seres evoluem e é por isso que os Espíritos afirmaram a Kardec que o período de regeneração da humanidade já havia se iniciado. Isso não se trata de previsão astrológica, mas natural desenvolimento moral.

Os registros bíblicos que associam o final dos tempos (para início da era de regeneração) estavam fartamente associados a imagens que deveriam impressionar os sentidos e o senso comum.

No item 50, do Capítulo XVII de A Gênese, ao tratar dos sinais precursores, encontramos uma citação evangélica, novamente usando a figura da queda de estrelas:

50. Logo depois desses dias de aflição, o Sol se obscurecerá e a Lua deixará de dar sua luz; as estrelas cairão do céu e as potestades dos céus serão abaladas. Então, o sinal do Filho do homem aparecerá no céu e todos os povos da Terra estarão em prantos e em gemidos e verão o Filho do homem vindo sobre as nuvens do céu com grande majestade. (Mt, 24:29-30)

Os Espíritos explicaram, no item 54 desse Capítulo XVII, que esse quadro do fim dos tempos “era evidentemente alegórico”, para impressionar inteligências ainda rudes. No item 55, destacam que “entre os antigos, os tremores de terra e o obscurecimento do Sol eram acessórios forçados de todos os acontecimentos e de todos os presságios sinistros”, e ainda comentam que a figura de uma queda de estrelas do céu “não passa de ficção”.

Assim, imagens ficcionais relacionadas a vaticínios povoaram a imaginaçãos de gerações, fazendo com que as crendices supersticiosas do passado ainda possam estar presentes no comportamento atávico de muitas pessoas.

Uma pessoa em particular, entretanto, não demonstrou nenhuma tendência mística e supersticiosa durante a estruturação da Doutrina Espírita: Allan Kardec.

Durante toda a sua trajetória, o Codificador se pautou pelo rigor metodológico e argumentação criteriosa baseada na razão.

Estranhamente, há uma nota do autor (ou seja, supostamente de Kardec) acrescentada na 5ª edição de A Gênese, referente ao item 10 do Capítulo XVIII, o qual trata de relações entre acontecimentos físicos e morais, reproduzida a seguir:

Nota: A terrível epidemia que, de 1866 a 1868, dizimou a população da Ilha Mauricia foi precedida por uma chuva tão extraordinária e tão abundante de estrelas cadentes, em novembro de 1866, que os habitantes ficaram terrificados. A partir desse momento, a doença, que grassava desde alguns meses de maneira muito benigna, tornou-se um verdadeiro flagelo devastador. Sem dúvida houve um sinal do céu, e talvez nesse sentido que era preciso entender as estrelas caindo do céu de que fala o Evangelho, como um dos sinais dos tempos. (Detalhes sobre a epidemia da Ilha Mauricia, Revista Espírita, julho de 1867, p. 208; novembro de 1868, p. 321.)

Allan Kardec faria a afirmação supersticiosa de que “sem dúvida” a chuva de estrelas cadentes era um “sinal dos céus” para algum flagelo?

Para explorar o assunto, faz-se necessário ler sobre a epidemia ocorrida na Ilha Maurícia, na Revista Espírita de nov/1868. Duas cartas escritas por espíritas moradores nessa ilha foram lidas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e, depois, verificaram-se comunicações mediúnicas sobre o caso.

Especificamente, em trecho da segunda carta lida na ocasião, o missivista afirma:

“… Em nosso ponto de vista espiritualista, poderíamos ver aí uma aplicação do prefácio do Evangelho Segundo o Espiritismo, porque o período nefasto que atravessamos foi marcado, no começo, por uma extraordinária chuva de estrelas cadentes, caída em Maurícia na noite de 13 de para 14 de novembro de 1866. Posto que o fenômeno fosse conhecido, por ter sido muito frequente de setembro a novembro em certa épocas periódicas, não é menos admirável que, desta vez, as estrelas cadentes foram tão numerosas que fizeram tremer e impressionaram os que as observaram. Esse imponente espetáculo ficará gravado em nossa memória, porque foi precisamente depois desse acontecimento que a moléstia tomou um caráter aflitivo. Desde esse momento tornou-se geral e mortal, o que hoje nos pode autorizar a pensar, como diz o Dr. Demeure, que chegamos ao período de transformação dos habitantes da terra, por seu adiantamento moral.

A respectiva Nota atribuída a Kardec na 5ª edição captura parte do conteúdo da carta acima do habitante da Ilha Maurícia, cujo embasamento doutrinário é altamente questionável, pendendo para a interpretação supersticiosa dos “sinais dos céus” pressagiando acontecimentos terríveis associados ao período de regeneração da Terra. O missivista se posicionar expressando crendices do passado é compreensível, pois o amadurecimento doutrinário varia de pessoa para pessoa, porém seria surpreendente se Kardec assim se expressasse.

Logo após a leitura das cartas, registrou-se a comunicação mediúnica de Clélie Duplantier, em 16/10/1868. Tal comunicação, é passível de análise quanto ao conteúdo. A seguir, apresentam-se os parágrafos iniciais da mensagem:

Em todos os tempos fizeram preceder os grandes cataclismos fisiológicos de sinais manifestos da cólera dos deuses. Fenômenos particulares precediam a irrupção do mal, como uma advertência para se prepararem para o perigo. Essas manifestações, com efeito, ocorreram não como um presságio sobrenatural, mas como sintomas da iminência da perturbação.
Como tivemos oportunidade de dizer-vos, nas crises em aparência as mais anormais que dizimam passo a passo as diferentes regiões do globo, nada foi deixado ao acaso; elas são a consequência das influências dos mundos e dos elementos uns sobre os outros (outubro de 1868); elas são preparadas de longa data, e sua causa é, por consequência, perfeitamente normal.
A saúde é o resultado do equilíbrio das forças naturais; se uma doença epidêmica devasta qualquer lugar, ela não pode ser senão a consequência de uma ruptura desse equilíbrio; daí o estado particular da atmosfera e os fenômenos singulares que aí podem ser observados.
Os meteoros conhecidos pelo nome de estrelas cadentes são compostos de elementos materiais, como tudo o que cai sob os nossos sentidos. Eles não aparecem senão graças à fosforescência desses elementos em combustão, e cuja natureza especial por vezes desenvolve no ar respirável, influências deletérias e mórbidas. As estrelas cadentes eram, para a Ilha Maurícia, não o presságio, mas a causa secundária do flagelo. Por que sua ação se exerceu em particular sobre aquela região? Primeiro, porque, como disse muito bem o vosso correspondente, ela é um dos meios destinados a regenerar a Humanidade e a Terra propriamente dita, provocando a partida de encarnados e a modificação dos elementos materiais. Depois, porque as causas que determinam essas espécies de epidemias em Madagascar, no Senegal e por toda parte onde a febre palustre e a febre amarela exercem sua devastação não existem na Ilha Maurícia, a violência e a persistência do mal deveria determinar a pesquisa séria de sua fonte e atrair a atenção sobre a parte que aí podiam tomar as influências de ordem psicológica.

As mensagens publicadas na Revista Espírita são registros históricos relevantes e fontes de pesquisa, porém há diferentes tipos de comunicações, conforme o grau de conhecimento e elevação moral do Espírito comunicante. A mensagem acima inicia-se de maneira evidentemente mística, fazendo referência à cólera dos deuses e às supostas crises fatalistas “preparadas de longa data”, além de reforçar uma suposta inter-relação de acontecimentos físicos com a regeneração moral da humanidade, caracterizando-se por desencarnações coletivas. Chega a associar influências mórbidas e deletérias dos elementos químicos dos meteoros no “ar respirável” da região em que se precipitam, assim as estrelas cadentes agora não seriam mais um presságio (como sinalizado no início da comunicação), mas em uma “causa secundária do flagelo”!

Na Revista Espírita, Allan Kardec não comentou, nem as cartas dos moradores da Ilha Maurícia nem as respectivas comunicações mediúnicas. Estranhamente, foram acrescentados no Capítulo XVIII da 5ª edição, itens sobre a influência mútua dos astros relacionados a acontecimentos morais (ver o item 10, por exemplo) e, gerando perplexidade, também foi acrescentada uma Nota “do autor” com teor supersticioso.

Diante desses fatos, cada leitor pode ponderar se o conteúdo supersticioso deve ser atribuído a Kardec. A mesma pergunta é possível de ser feita diante de fragilizações e outras inconsistências presentes nos demais capítulos dessa 5a. Edição de A Gênese, que anuncia em sua capa “revista, corrigida e aumentada”. Na dúvida ou reconhecendo que as alterações distorcem os conceitos espíritas, fiquemos com a edição original.

domingo, 8 de março de 2020

Sumiço de trecho relevante - A Gênese em esperanto - FEB



Sumiço de um trecho relevante na edição da FEB em esperanto da obra A Gênese

Marco Milani

     Independentemente da atual polêmica sobre as fragilizações no texto e problemas doutrinários existentes na 5a edição francesa da obra A Gênese, cuja autoria das modificações perante a obra original é desconhecida, um fato relevante merece a atenção de todos os leitores de sua versão em esperanto, publicada pela Federação Espírita Brasileira (FEB), em 2003.
     Esse fato já havia sido mencionado em 2018 pelo pesquisador Fernando Porto, durante seminário promovido pela USE-SP na capital paulista. Na ocasião, um contato com a editora foi tentado para alertar sobre o problema.
     Na edição original de A Gênese, especificamente no capítulo XV, item 66, afirma-se que Jesus teve um corpo carnal como qualquer homem e discorre-se sobre os motivos de tal fato. Estranhamente, o trecho que conclui esse item desapareceu na versão em esperanto desse livro.
     A seguir, reproduz-se o referido item no original francês e posteriormente em português, na íntegra, destacando-se, em negrito, o trecho que não consta na edição em esperanto publicada pela FEB.

66.- Aux faits matériels viennent s'ajouter des considérations morales toutes puissantes. Si Jésus avait été, durant sa vie, dans les conditions des êtres fluidiques, il n'aurait éprouvé ni la douleur, ni aucun des besoins du corps ; supposer qu'il en a été ainsi, c'est lui ôter tout le mérite de la vie de privations et de souffrances qu'il avait choisie comme exemple de résignation. Si tout en lui n'était qu'apparence, tous les actes de sa vie, l'annonce réitérée de sa mort, la scène douloureuse du jardin des Oliviers, sa prière à Dieu d'écarter le calice de ses lèvres, sa passion, son agonie, tout, jusqu'à son dernier cri au moment de rendre l'Esprit, n'aurait été qu'un vain simulacre pour donner le change sur sa nature et faire croire au sacrifice illusoire de sa vie, une comédie indigne d'un simple honnête homme, à plus forte raison d'un être aussi supérieur ; en un mot, il aurait abusé de la bonne foi de ses contemporains et de la postérité. Telles sont les conséquences logiques de ce système, conséquences qui ne sont pas admissibles, car c'est l'abaisser moralement, au lieu de l'élever.
Jésus a donc eu, comme tout le monde, un corps charnel et un corps fluidique, ce qu'attestent les phénomènes matériels et les phénomènes psychiques qui ont signalé sa vie.
(Allan Kardec, La Genèse – 5e ed, 1872)

“66. Aos fatos materiais juntam-se fortíssimas considerações morais. Se Jesus tivesse estado durante sua vida nas condições dos seres fluídicos, ele não teria experimentado nem a dor, nem as necessidades do corpo. Supor que ele fosse assim é tirar-lhe todo o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolhera, como exemplo de resignação. Se tudo nele fosse apenas aparência, todos os atos de sua vida, o anúncio reiterado de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras, sua prece a Deus para que lhe afastasse o cálice de seus lábios, sua paixão, sua agonia, tudo, até seu último brado, no momento de entregar o Espírito, não teria passado de vão simulacro, para enganar quanto à sua natureza e fazer crer no sacrifício ilusório de sua vida, uma farsa indigna de um homem simples honesto, e com mais forte razão de um ser tão superior. Em uma palavra: Ele teria abusado da boa-fé de seus contemporâneos e da posteridade. Tais são as consequências lógicas desse sistema, consequências inadmissíveis, porque o rebaixariam moralmente, em vez de elevá-lo.
Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que marcaram sua existência.
(Allan Kardec, A Gênese - tradução da 5a. ed. por Vitor T. Pacheco. Ed. Lake, 1988)

Na edição da FEB em esperanto, o trecho incompleto, encontrado nas páginas 369 e 370, é o seguinte:

66. – Al la materialaj faktoj aldoniøas fortegaj moralaj konsideroj. Se Jesuo, dum sia vivo, troviøis en la stato de la fluidecaj estuloj, li do ne estus spertinta doloron, nek korpajn bezonojn. Supozi, ke tiel okazis, estas senhavigi lin je la merito de vivo plena de necesbezonoj kaj suferoj, kiun li elektis, kiel ekzemplon de rezignacio. Se æio æe li estus þajna, do æiuj agoj de lia vivo, la ripetata antaýdiro pri lia morto, la dolora sceno sur la Monto Olivarba, lia preøo al Dio, ke estu forportita de li la kaliko de amaraåoj, lia suferado, lia agonio, æio, øis lia lasta ekkrio en la momento, kiam li ellasas sian Spiriton, estus nenio alia krom vana þajnigo, celanta trompi pri lia naturo kaj kredigi pri ia iluzia ofero de lia vivo, per komedio malinda je simple honesta homo, do des pli prave malinda je tiel supera estulo. Unuvorte: li estus ekspluatinta la konfidon de siaj samtempuloj kaj de la posteularo. Tiaj estas la logikaj sekvoj de tiu sistemo, sekvoj ja ne akcepteblaj, æar, anstataý lin altigi, ili lin morale malaltigus.
(Allan Kardec, La Genezo - El la franca lingvo tradukis: Affonso Soares. FEB, 2003)

É possível acessar a obra no link a seguir, disponibilizado pela FEB: https://www.febnet.org.br/ba/file/livro%20em%20esperanto/lagenezo.pdf

     Considerando que o desaparecimento do parágrafo foi apenas descuido na edição da FEB em esperanto, reforça-se o pedido para que tal falha seja sanada no corpo de nova edição ou, ao menos, que uma nota seja emitida em sinal de respeito aos leitores da obra.