sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Ficção espiritualista versus coerência doutrinária

Ficção espiritualista versus coerência doutrinária

 

Marco Milani


 Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 54, mar/2026, p. 8-9


A ampla difusão de obras literárias e audiovisuais de temática espiritualista tem despertado interesse crescente pela sobrevivência da alma, pela continuidade da vida após a morte e pela realidade do mundo invisível. Esse movimento possui mérito inicial, pois convida à reflexão e rompe a indiferença materialista. O problema surge quando produções pertencentes ao campo da ficção espiritualista passam a ser tomadas como expressão fiel da Doutrina Espírita, substituindo o estudo metódico das obras fundamentais por impressões emocionais e lúdicas.

Para compreender o equívoco, é indispensável distinguir três planos. O espiritualismo, em sentido amplo, constitui categoria filosófica aberta, que admite múltiplas concepções sobre alma e transcendência. A ficção espiritualista pode apresentar narrativas moralmente edificantes ou simbolicamente expressivas, sem que isso lhe confira autoridade normativa. O Espiritismo, por sua vez, conforme estruturado por Allan Kardec, funda-se em método próprio, controle racional das comunicações mediúnicas e universalidade do ensino dos Espíritos. Confundir esses níveis dissolve a especificidade doutrinária em um conjunto indistinto de crenças emocionais.

O próprio Kardec esclarece a ordem pedagógica adequada ao afirmar, em O Livro dos Médiuns, no capítulo dedicado ao método, que antes de tornar alguém espírita é preciso torná-lo espiritualista. A recomendação indica que a aceitação racional da existência da alma e da vida futura constitui preparação necessária para a compreensão do corpo doutrinário. O espiritualismo é, portanto, porta de entrada e não ponto de chegada. Quando a ficção é confundida com Doutrina, essa ordem se inverte, pois a emoção narrativa antecede e por vezes substitui o entendimento racional.

Sob perspectiva kardequiana, revelações individuais não constituem a doutrina. Comunicações isoladas, ainda que elevadas moralmente ou atraentes literariamente, carecem de validação pelo duplo crivo da razão e da concordância universal. Narrativas espirituais podem consolar, sugerir imagens simbólicas do além ou estimular reflexões morais, mas permanecem no domínio da representação e não da definição doutrinária. Elevá-las à condição normativa desloca o Espiritismo do campo do conhecimento progressivo para o da crença afetiva.

Os riscos dessa substituição são concretos. Primeiramente, introduzem-se concepções particulares não submetidas ao controle universal, como descrições minuciosas do mundo espiritual, hierarquias específicas ou mecanismos de comunicação não confirmados pela universalidade dos ensinos. Aceitos sem exame, tais elementos adquirem aparência de verdade revelada e passam a moldar o imaginário coletivo mais do que os princípios essenciais da Doutrina. Em seguida ocorre a primazia da emoção sobre o entendimento. A força estética da narrativa produz adesão afetiva imediata e reduz o impulso ao estudo crítico, de modo que o indivíduo se comove, mas não necessariamente compreende. Por fim instala-se a fragmentação interpretativa, na qual diferentes obras romanceadas geram visões concorrentes do mundo espiritual e enfraquecem a coerência construída pelo controle universal, multiplicando concepções dependentes da imaginação e não das leis gerais.

A aceitação acrítica dessas produções revela dificuldade intelectual típica de uma cultura dominada pela imagem. Em vez de submeter a narrativa ao critério doutrinário, submete-se a doutrina ao impacto narrativo. A ilustração converte-se em fundamento, a emoção em evidência e a ficção em referência. Tal movimento não fortalece o Espiritismo, mas o aproxima do misticismo difuso que o método kardequiano buscou superar.

Isso não implica rejeição absoluta de romances espiritualistas. Tais obras podem cumprir função pedagógica indireta ao despertar interesse inicial pelo estudo sério e preparar o terreno para a compreensão espiritualista indicada por Kardec. O problema não está em sua existência, mas em sua elevação indevida à condição de síntese doutrinária. A apreciação torna-se legítima quando acompanhada de subordinação explícita às obras básicas, confronto racional das ideias apresentadas e distinção clara entre edificação moral e autoridade doutrinária. Sem essas balizas, a emoção substitui o conhecimento.

A responsabilidade não recai apenas sobre autores ou produtores, mas também sobre instituições e lideranças que, por entusiasmo ou estratégia de divulgação, acabam endossando implicitamente a equivalência entre ficção e Doutrina. Quando espaços de estudo utilizam narrativas imaginativas como fonte principal de ensino, contribuem para o empobrecimento metodológico do próprio movimento. Divulgar não é legitimar e sensibilizar não é esclarecer.

Preservar a coerência doutrinária exige reconhecer que o Espiritismo não se define por imagens sedutoras do além, mas por princípios racionais universais relativos à natureza do Espírito, sua imortalidade, seu progresso e sua responsabilidade moral. Toda representação concreta do mundo espiritual é necessariamente parcial e provisória. O Espiritismo situa-se no plano das leis gerais e não no dos cenários particulares.

Assim, a ficção espiritualista pode consolar, inspirar e conduzir alguns ao estudo inicial, cumprindo o papel preparatório indicado por Kardec ao recomendar formar primeiro o espiritualista. Contudo não representa o Espiritismo em sentido doutrinário. Confundir ficção com revelação significa abdicar do método que constitui a própria identidade e autoridade espírita. Sem método o espiritualismo emociona, com método o Espiritismo esclarece, consola e liberta da ignorância.

 

 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Tutela eleitoral de espíritas?

 

Tutela eleitoral de espíritas?

 

Marco Milani

 

Periodicamente ressurgem, com certa previsibilidade, aqueles que se consideram iluminados para orientar, sugerir, induzir ou constranger em quem o espírita deve ou não votar. A iniciativa costuma vir revestida de boas intenções, linguagem edificante e apelos morais elevados. Falta apenas um detalhe elementar: coerência com o próprio princípio de liberdade de consciência que sustenta o Espiritismo.

A Doutrina Espírita não instituiu clero, hierarquia de mando nem diretório eleitoral. Não há procuração espiritual que autorize terceiros a substituir o juízo individual. O espírita é convidado ao estudo, à reflexão e à responsabilidade pessoal por seus atos. Isso inclui, naturalmente, suas escolhas políticas. Pretender uniformizar votos em nome de uma suposta consistência doutrinária revela menos zelo moral e mais inclinação ao controle.

Curioso é que tal postura frequentemente se apresenta como defesa do bem. O argumento implícito parece ser o seguinte: se o eleitor não votar como eu considero correto, então está moralmente equivocado. A conclusão prática dispensa comentários. Trata-se de uma forma de substituir a consciência alheia pela própria convicção. Nada mais distante do exame racional proposto pela Doutrina.

Há também um equívoco conceitual recorrente. Confunde-se orientação moral geral com prescrição política específica. O Espiritismo propõe valores universais como caridade, responsabilidade e progresso moral. Não fornece, contudo, listas eleitorais, slogans partidários ou manuais de voto correto. A passagem do princípio ético à escolha concreta pertence ao campo da liberdade individual. É exatamente aí que alguns parecem sentir grave desconforto.

O fenômeno lembra antigas práticas de voto de cabresto, agora com verniz espiritualizado. Antes, a pressão vinha do poder econômico ou coronelista. Hoje, por vezes, tenta vir da autoridade moral autoatribuída. A embalagem mudou. A lógica de tutela permanece. O eleitor continua sendo tratado como incapaz de discernir por si mesmo. Apenas trocaram o chicote visível por uma recomendação piedosa.

Outro aspecto digno de nota é a seletividade indignada. Quando o voto alheio coincide com a preferência do orientador, celebra-se a consciência esclarecida e o progresso. Quando diverge, denuncia-se ignorância, alienação e falta de sensibilidade social. Liberdade e tolerância, nesse modelo, são reconhecidas sob condição de concordância prévia.

Convém recordar o óbvio. Casas espíritas não são comitês eleitorais. Reuniões doutrinárias não são palanques. Médiuns não são cabos eleitorais. Misturar esses planos empobrece o ambiente espiritual, reduz a reflexão e introduz divisões desnecessárias. O resultado raramente é elevação moral. Geralmente é apenas mais ruído e divisão.

Isso não significa indiferença ética diante da vida pública. O espírita, como qualquer cidadão, pode e deve refletir sobre justiça, responsabilidade social e consequências coletivas das decisões políticas. O que não pode é transferir essa responsabilidade a um tutor ideológico travestido de guia moral. A maturidade começa exatamente quando termina a dependência intelectual.

No fundo, a pretensão de dirigir o voto alheio revela uma contradição silenciosa. Fala-se em evolução do Espírito, mas desconfia-se da capacidade de escolha do próximo. Exalta-se a consciência, mas tenta-se administrá-la. Defende-se liberdade, mas apenas até o ponto em que ela diverge.

Talvez fosse mais simples admitir que divergências políticas entre espíritas são naturais. A Doutrina não promete uniformidade de opiniões, e sim aperfeiçoamento moral individual com reflexo coletivo. Esperar unanimidade eleitoral é desconhecer a própria diversidade humana que o Espiritismo admite.

Assim, a solução é menos grandiosa do que alguns imaginam. Basta respeitar a consciência alheia. Cada espírita estuda, pondera e vota conforme seu entendimento. Sem cabresto, sem tutela e sem necessidade de autorização moral externa. Liberdade verdadeira dispensa intermediários e, principalmente, dispensa os que insistem em administrá-la.

 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A apropriação indevida do caráter progressivo do Espiritismo por militantes político-partidários


 A apropriação indevida do caráter progressivo do Espiritismo por militantes político-partidários

 

Marco Milani

 

Existe uma habilidade retórica bastante difundida no ambiente político contemporâneo que consiste em tomar palavras de forte valor moral e esvaziá-las de seu significado original para preenchê-las com conteúdo ideológico conveniente. O expediente não é novo, mas segue funcional. Nos Estados Unidos, por exemplo, correntes marcadamente intervencionistas há décadas se autodenominam liberais, apesar de defenderem precisamente a ampliação do poder estatal que o liberalismo histórico surgiu para limitar. A contradição é evidente, mas a persistência do uso mostra que, muitas vezes, vencer no vocabulário parece mais fácil do que vencer no campo das ideias.

Algo semelhante ocorre quando militantes político-partidários tentam anexar ao seu discurso o caráter progressivo do Espiritismo. A operação semântica é ardilosa. Parte-se de uma palavra nobre (progresso), descola-se do seu sentido doutrinário e, em seguida, cola-se o rótulo em programas baseados em coerção legal, centralização econômica, tutela do indivíduo e desapropriação de bens. O resultado é uma aparência de afinidade moral que não resiste a uma análise séria.

No Espiritismo, progresso não significa uniformização material nem nivelamento imposto por decretos. Progresso é transformação moral do Espírito, ampliação da consciência, responsabilidade pessoal crescente e liberdade de escolher o bem de forma lúcida. Trata-se de movimento interior, gradual e livre, incompatível com qualquer tentativa de fabricar virtudes por meio de mecanismos compulsórios. A lei divina educa, não força. Esclarece, não enquadra. Exige mérito, não submissão burocrática.

Quando projetos estatizantes se apresentam como expressão desse progresso, a contradição torna-se quase pedagógica. A Doutrina afirma a autonomia do Espírito; a proposta política enfatiza dependência estrutural. A Doutrina valoriza responsabilidade individual; o discurso militante desloca a causa dos problemas sempre para entidades abstratas que devem ser controladas por mais poder central. A Doutrina confia no aperfeiçoamento moral; a engenharia social confia em regulamentos, punições e redistribuições impostas. Chamar isso de convergência não é interpretação generosa. É simples inversão de sentido.

Convém lembrar, ademais, que a preocupação com a melhoria das condições de vida, a redução do sofrimento material e o desenvolvimento social da população não constitui monopólio moral de nenhuma corrente econômica ou ideológica. Trata-se de objetivo compartilhado, ainda que por caminhos distintos, por diferentes tradições de pensamento que buscam promover prosperidade, dignidade humana e oportunidades reais de progresso. Transformar essa preocupação universal em selo exclusivo de virtude política não eleva o debate; apenas o empobrece.

Há também um componente de conveniência psicológica nessa apropriação. Ligar-se a uma proposta espiritual respeitada confere legitimidade simbólica imediata. O militante deixa de parecer apenas um defensor de determinado programa político e passa a vestir a aparência de agente moral do progresso humano. O problema é que essa legitimidade é obtida por empréstimo indevido. Não nasce da coerência com os princípios doutrinários, mas da expectativa de que poucos irão verificar a compatibilidade real entre discurso e fundamento.

O método kardequiano, contudo, não abraça confusões desse tipo. Ele exige definição clara de conceitos, exame racional das ideias e distinção entre opinião pessoal e princípio doutrinário. Sob esse critério, reduzir o progresso espiritual a plataformas políticas específicas revela mais sobre a fragilidade intelectual do argumento do que sobre a Doutrina que se pretende invocar. É tentativa de transformar preferência ideológica em necessidade moral universal, expediente comum na retórica partidária e estranho à postura crítica que caracteriza o pensamento espírita.

Nada disso impede que espíritas, como cidadãos livres, possuam posições políticas variadas. A liberdade de consciência é elemento central da própria Doutrina. O problema começa quando essa liberdade é abandonada em favor de uma identificação obrigatória entre Espiritismo e determinada agenda político-ideológica. Nesse momento, deixa-se o campo da convicção pessoal e entra-se no terreno da instrumentalização religiosa, prática antiga, pouco elegante e intelectualmente duvidosa.

No fim, a apropriação indevida do caráter progressivo do Espiritismo por militantes políticos revela menos sobre política e mais sobre linguagem. Muda-se o significado das palavras esperando que a realidade acompanhe a mudança. Progresso passa a significar controle, liberdade passa a significar tutela, solidariedade passa a significar coerção administrada. A retórica pode até soar elevada, mas a inversão permanece visível para quem ainda leva conceitos a sério.

O progresso espírita continua sendo aquilo que sempre foi. Ele começa no indivíduo, desenvolve-se pela consciência e realiza-se pela liberdade responsável. Não precisa de slogans, decretos ou partidos para existir. Talvez seja justamente por isso que tantos tentem capturá-lo no discurso. Onde há prestígio moral, sempre aparece quem deseje usá-lo como bandeira. Entretanto, rótulos políticos mudam com o tempo. Princípios espirituais, quando autênticos, não.


domingo, 1 de fevereiro de 2026

A caridade é voluntária

 

A caridade é voluntária

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 53, fev/2026, p.9-10

 

A caridade, na concepção espírita, é um ato essencialmente livre, inseparável da autonomia moral do indivíduo. Não nasce da imposição de normas externas nem da pressão exercida pelo meio social, mas da adesão consciente do Espírito ao bem. O ensino dos Espíritos é explícito ao afirmar, no capítulo 25, item 8, de O Evangelho segundo o Espiritismo, que não é por meio de leis que se decretam a caridade e a fraternidade, pois, se não estiverem no coração dos homens, o egoísmo sempre as asfixiará. Com isso, o problema da prática do bem é deslocado do campo jurídico ou institucional para o campo da educação moral, onde a liberdade interior ocupa lugar central.

Essa compreensão é aprofundada quando se observa o sentido preciso atribuído à caridade na questão 886 de O Livro dos Espíritos. Ali, ela não é definida como simples assistência material, mas como um conjunto de disposições morais permanentes, sintetizadas na benevolência para com todos, na indulgência para com as imperfeições alheias e no perdão das ofensas. Trata-se, portanto, de um estado interior do Espírito, incompatível com qualquer forma de coerção. Ninguém pode ser obrigado a ser benevolente, indulgente ou verdadeiramente disposto a perdoar. Essas atitudes só têm valor moral quando resultam de uma escolha íntima, consciente e livre.

Essa definição espírita entra em choque direto com propostas materialistas de reorganização social que, sob o discurso sedutor da igualdade e da justiça, pretendem reformar a sociedade por meio da imposição coletiva sobre o indivíduo. Tais concepções partem da ideia de que a transformação social precede e determina a transformação moral, e que a coerção é meio legítimo para produzir comportamentos considerados virtuosos. O Espiritismo rejeita essa inversão. Conforme os Espíritos, nenhuma ordem social será justa enquanto não houver progresso moral dos indivíduos que a compõem. A igualdade imposta por força externa pode produzir uniformidade aparente, mas não fraternidade. A justiça decretada sem renovação interior tende a degenerar em dominação e ressentimento.

A análise desenvolvida por Kardec na 2ª parte de Obras Póstumas é particularmente esclarecedora nesse ponto. Ao examinar o ideal de liberdade, igualdade e fraternidade no texto que leva esse título, Kardec demonstra que a fraternidade é a base real das duas outras. Sem ela, a igualdade se converte em nivelamento forçado e a liberdade se transforma em ameaça à própria ordem social. É o orgulho que resiste à igualdade e o egoísmo que inviabiliza a fraternidade. Enquanto essas chagas morais não forem combatidas no íntimo do ser, qualquer tentativa de reforma social fundada apenas em estruturas externas produzirá equilíbrios frágeis e conflitos recorrentes.

As propostas materialistas coletivistas ignoram esse dado essencial da natureza humana. Ao tratar o indivíduo como simples engrenagem de um projeto abstrato de sociedade, acabam por sacrificar a liberdade moral em nome de uma utopia que jamais se realiza. A coerção, apresentada como meio temporário para alcançar um suposto bem comum, tende a se perpetuar, pois não elimina as causas profundas do egoísmo e do orgulho. Apenas as desloca ou as mascara sob novas formas de poder.

A caridade voluntária, ao contrário, atua na raiz do problema. Ela não busca suprimir a individualidade, mas educá-la. Não pretende anular a liberdade, mas orientá-la. O Espiritismo não promete uma sociedade perfeita por decreto, nem se ilude com soluções rápidas baseadas em engenharia social. Sua proposta é mais exigente e mais duradoura: a transformação progressiva do Espírito, pela compreensão das leis morais e pela responsabilidade pessoal.

Essa perspectiva também lança luz sobre a realidade contemporânea, em que discursos de justiça social muitas vezes convivem com práticas de intolerância, coerção moral e perseguição simbólica a quem diverge. Quando a fraternidade é proclamada, mas não vivida, e quando a caridade é exigida, mas não escolhida, o resultado é a contradição entre palavras elevadas e atitudes excludentes. A moral espírita não se sustenta nesse terreno, pois reconhece que o bem imposto deixa de ser bem em sentido moral.

O Espiritismo propõe uma pedagogia da liberdade responsável. Seu método é único e não busca formar comportamentos padronizados nem consciências submissas, mas indivíduos capazes de agir pelo bem por convicção íntima diante do conhecimento das leis divinas. Por isso, Kardec insiste que a tarefa essencial do Espiritismo é melhorar os indivíduos pelo esclarecimento da realidade. Não se trata de multiplicar decretos, campanhas ou slogans, mas de incentivar a luta interior para a superação efetiva do orgulho e do egoísmo, únicos obstáculos reais ao progresso moral e social.

Ao afirmar que a caridade é voluntária, o Espiritismo não relativiza sua importância, mas a eleva à sua mais alta dignidade. Somente o ato livre, consciente e desinteressado, fundado na benevolência, na indulgência e no perdão, possui força real para transformar o Espírito e, por consequência, a sociedade. Leis podem organizar a convivência, mas não criam virtudes. É pelo aprimoramento íntimo do indivíduo, e não na coerção coletiva, que se constrói a fraternidade autêntica, a igualdade justa e a liberdade verdadeira.

 

 


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Entre a tolerância e a coerência doutrinária

Entre a tolerância e a coerência doutrinária

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.210, jan/fev 2026, p. 31-32

 

Em tempos de ampla exposição digital, quando inúmeros canais nas redes sociais se apresentam como difusores do Espiritismo, multiplicam-se conteúdos que mesclam noções verdadeiras com fantasias, opiniões pessoais e notícias falsas. Essa proliferação de discursos sem critério, amparada pela aparência de autoridade espiritual, tem produzido confusão e prejudicado a compreensão racional da doutrina espírita.

 O fenômeno não é novo: todas as doutrinas filosóficas, ao longo da história, enfrentaram o desafio de lidar com as crenças populares que se aproximavam de alguns de seus princípios, mas divergiam em outros. O Espiritismo não está imune a essa situação.

No cotidiano de algumas instituições espíritas, observa-se a presença de ideias e práticas que, embora bem-intencionadas, não se harmonizam com os fundamentos codificados por Allan Kardec. Surge, então, uma pergunta crucial aos dirigentes espíritas: até que ponto é legítimo tolerar certas distorções em nome da boa convivência e da fraternidade, sem comprometer a coerência doutrinária que garante a identidade do Espiritismo? A fé espírita é raciocinada, não cega. Ao considerar-se que a “fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade”[1], evidencia-se um dos pilares do Espiritismo. Estabelece-se uma linha divisória entre a crença que se sustenta na lógica e nas leis naturais e a crendice que repousa em opiniões, modismos ou influências culturais externas sem exame crítico.

A tolerância é virtude quando se refere às pessoas, mas torna-se conivência e omissão quando se aplica aos erros conceituais ou às práticas que desfiguram os princípios e valores espíritas. Os adeptos em geral, mas sobretudo os dirigentes espíritas, têm a responsabilidade de cultivar o acolhimento sem abrir mão da lucidez.

Não é de hoje que expressões de sincretismo e de misticismo infiltram-se no movimento espírita, muitas delas justificadas por argumentos como: “o que importa é o fundo, não a forma”, “Kardec não disse tudo”, ou ainda, “se for em nome amor, tudo vale”. Essas ideias, repetidas de modo aparentemente benevolente e sem o devido cuidado, têm servido como salvo-conduto para interpretações e práticas contrárias ao ensino doutrinário. Ao não exercer o compromisso ético com a fé raciocinada, ataca-se a identidade doutrinária e substitui-se o bom senso pelo sentimentalismo, a análise crítica pela crença lúdica e emocional.

O controle universal do ensino dos Espíritos não é mero adorno. Kardec não apresentou um conjunto místico, mas princípios estruturados por método experimental e filosófico. A atitude racional e investigativa é, portanto, parte indissociável da doutrina. Sem ela, comete-se um equívoco epistemológico.

Uma mensagem espiritual pode conter apelos morais elevados, mas se contradisser as leis naturais ou as bases da Codificação, não pode ser considerada espírita, por mais edificante que pareça. O fundo moral não redime o erro doutrinário; ao contrário, um erro bem-intencionado é ainda mais perigoso porque se mascara sob aparência de virtude.

A aceitação acrítica de crendices sob o argumento da caridade fraterna tem produzido efeitos sutis, porém marcantes, na cultura das instituições. Em muitos centros, multiplicam-se expressões que remetem a práticas mágicas, místicas ou ritualísticas, ainda que sob roupagem “espiritualizada”. Dirigentes, receosos de causar desconforto, preferem não corrigir equívocos e assim abrem espaço para que o erro se instale sob o pretexto de não julgar. A omissão, nesse caso, não é tolerância, mas negligência pedagógica.

O centro espírita é também uma escola, e ao dirigente cabe o papel de educador. A caridade genuína não dispensa o esclarecimento, pois é pelas luzes da verdade que o Espírito se liberta da ignorância.

É comum ouvir que o Espiritismo deve se adaptar aos tempos modernos, aceitando novas ideias e expressões espirituais. De fato, a doutrina é progressiva, no sentido de estar aberta à análise de descobertas da ciência. Contudo, progresso não significa relativismo.

A tolerância com ideias e práticas que deformam os princípios não é progresso, mas regressão à fase da crença cega que o Espiritismo veio justamente superar.

A postura do dirigente espírita deve, portanto, equilibrar firmeza doutrinária e fraternidade real. É possível acolher quem chega com visões distorcidas e, ao mesmo tempo, conduzir o grupo à compreensão lúcida da Doutrina. Isso exige preparo intelectual, estudo sistemático das obras de Allan Kardec e coerência no exemplo. O dirigente não é um censor, mas um orientador que ensina pela clareza, não pela imposição. Quando a instituição espírita se mantém coerente com os princípios doutrinários e aberta ao diálogo, cria um ambiente saudável, onde a razão e a fé se apoiam mutuamente. Tolerar as pessoas é expressão da caridade, mas tolerar o erro conceitual é abandonar a própria missão educativa que deveria caracterizar o dirigente espírita.

Em um mundo saturado de discursos emocionais e crenças instantâneas, a tentação de flexibilizar o rigor doutrinário em nome da inclusão é grande. No entanto, cada concessão feita à incoerência enfraquece a confiança na seriedade do Espiritismo e desorienta os que buscam nele uma filosofia sólida. A missão das casas espíritas é acolher, esclarecer e educar, não adaptar-se às modas da ocasião ou às expectativas de agradar a todos. O verdadeiro amor é lúcido e instrutivo.

 



[1] Ver O Evangelho segundo o Espiritismo, Capítulo XIX, item 7.

 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Temas para o 1º Encontro de Pesquisa e Ciência Espírita da USE


 Temas para o 1º Encontro de Pesquisa e Ciência Espírita da USE

 

Alexandre Fontes da Fonseca*

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.210, jan/fev 2026, p. 21-22

 

No último número da revista Dirigente Espírita, apresentamos uma nova atividade que ocorrerá no 19o Congresso Estadual da USE: o primeiro Encontro de Ciência e Pesquisa Espírita (EnCPE) da USE. Como a expressão “encontro de ciência e pesquisa” pode sugerir a ideia de que só participam pesquisadores experientes, mestres e doutores acadêmicos, ou ainda estudiosos tradicionais, preparamos esse artigo para esclarecimento. Na verdade, todo e qualquer adepto espírita pode participar do 1o EnCPE.

Um dos objetivos da Assessoria de Ciência e Pesquisa Espírita (ACPE) da USE é esclarecer e fomentar a contribuição do adepto espírita em geral para o avanço do conhecimento espírita, sem precisar ter títulos ou diplomas formais de pesquisador. No espiritismo, o conhecimento é mais importante que o título acadêmico, assim como para Deus, o sentimento é mais importante do que a hierarquia religiosa de uma pessoa. Na matéria anterior, citamos exemplos de teses que confrades espíritas comuns (incluindo os jovens) submeteram e apresentaram para discussão nos primeiros congressos da USE, desde 1947. A ideia é retomar isso, ainda que em menor escala.

O 1o EnCPE oferecerá ao congressista da USE a oportunidade de expor um estudo próprio para os demais participantes, não importa sua idade, formação ou experiência. Como o adepto espírita em geral não conhece esse tipo de atividade, ele(a) pode estar se perguntando “como e/ou que tipo de estudo ou contribuição, eu poderia submeter e apresentar?”

As explicações completas sobre o 1o EnCPE se encontram no documento do seguinte link: https://usesp.org.br/wp-content/ uploads/2025/11/Convite-EnCPE- -USE.pdf.

Aqui, nesta matéria, pretendemos responder à questão acima com exemplos e sugestões de temas:

- História do movimento espírita da sua região. Faça uma pesquisa junto aos confrades da sua região para saber qual foi, por exemplo, o primeiro centro espírita aberto, que pessoas o abriram, etc. Se puder, registre como o movimento espírita da região foi crescendo, expondo os números atuais de adeptos e casas espíritas. Não precisa fazer a pesquisa sozinho (isto é, a pesquisa pode ter coautores), nem precisa ser um volume de informações enorme, digno de um “doutorado” JANEIRO / FEVEREIRO 2026 No 210 21 no assunto. Basta obter um mínimo dessas informações e organizá-las para apresentar em 15 minutos aos demais.

- Coerência doutrinária de livros novos ou antigos. Esse é um tema muito importante e necessário pois permite o exercício da fé raciocinada com base no estudo dos fundamentos kardequianos. Escolha um livro ou, mesmo, um capítulo de um livro que você aprecia, e analise o conteúdo comparando as afirmações com os princípios da Doutrina Espírita.

- Nova atividade do centro espírita que você dirige/participa. Descreva alguma atividade de natureza assistencial, de estudos, de engajamento de novos adeptos, etc., implantados recentemente ou que você sabe não ser comum no meio espírita. Descreva a atividade e os resultados. Essa é uma oportunidade de compartilhar boas ideias com o movimento espírita paulista.

- Estudos da Revista Espírita (RE). A RE é riquíssima em exemplos de fenômenos, estudos e análises de Kardec. Escolha um ou mais artigos ou temas da RE, leia-os e prepare um resumo para apresentar aos demais. Essa é uma forma de exercitar o estudo e se preparar para futuras contribuições ao avanço do conhecimento espírita.

- Resumos de capítulos de alguma obra de Kardec. Escolha um capítulo da obra fundamental do espiritismo com a qual mais se afiniza. Leia-o e prepare um resumo apresentando seus pontos principais, os argumentos de Kardec, suas contribuições para o entendimento de fenômenos espíritas e consequências para o aprimoramento moral das pessoas. Qualquer capítulo de qualquer livro de Kardec é bem-vindo, incluindo os de natureza moral. Filosoficamente, o que ou quem define o escopo de pesquisa de uma área de conhecimento é ela própria. O Evangelho é parte integrante do espiritismo, portanto faz parte do seu escopo de pesquisa. Os capítulos d’O evangelho segundo o espiritismo ilustram bem a importância da fé raciocinada baseada nos princípios da Doutrina, para o entendimento correto de várias das afirmações de Jesus.

- Avanços da ciência ou filosofia e o espiritismo. Muitas pessoas têm apreço por estudos que tenham fundamentação kardequiana e esclarecem temas como saúde, justiça, relações sociais, etc. Outros têm interesse em temas de ciências naturais como a física e a química, e possíveis relações com conceitos espíritas como, por exemplo, o de fluidos. Essas relações podem ser bem-vindas desde que não se baseiem em interpretações superficiais da ciência ou do espiritismo.

- Ensino de espiritismo. Assim como todas as áreas do conhecimento possuem pesquisas no tocante ao seu ensino, o espiritismo também precisa desenvolver essa área de estudo e pesquisa. Portanto, se você tem alguma experiência diferente, nova, que envolva o estudo e ensino de espiritismo para crianças, jovens e adultos, aproveite a oportunidade de compartilhar esse conhecimento e experiências com o movimento espírita paulista. Escreva sobre a sua atividade, dando exemplos didáticos, exemplos de materiais e ferramentas de ensino, métodos, etc.

Outros exemplos de temas estão sugeridos no documento do link mais acima.

Se você se sente interessado em contribuir com o conhecimento espírita, não deixe a timidez impedi-lo(a) de aproveitar essa oportunidade de apresentar um estudo próprio ao movimento espírita paulista. Mesmo se você for jovem e/ou pessoa desconhecida no meio espírita, se estiver planejando participar do congresso, considere preparar e submeter um resumo do seu estudo para o 1o EnCPE.

No próximo número, explicaremos como preparar e escrever o resumo. Não precisa ser formador de opinião para ter um resumo aceito. A análise será feita do conteúdo e não do nome do autor. Para participar basta seguir as instruções do documento.

Não há nenhum custo adicional para participar do 1o EnCPE. Os resumos aprovados formarão os anais do 1o ENCPE – USE e serão posteriormente publicados nos anais do 19o Congresso Espírita. A ACPE está à disposição para tirar dúvidas pelo do endereço acpe@usesp.org.br.

 

*Alexandre Fontes da Fonseca é da Assessoria de Pesquisa e Ciência Espírita da USE.

Arrependimento, Expiação e Reparação na Justiça Divina

Arrependimento, Expiação e Reparação na Justiça Divina

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.210, jan/fev 2026, p. 12-13

 

A tríade apresentada em O Céu e o Inferno, arrependimento, expiação e reparação, constitui o núcleo racional e moral da justiça divina e, por consequência, do processo evolutivo do ser. Essa tríade não descreve um mecanismo punitivo imposto ao Espírito, mas um processo pedagógico profundamente vinculado à consciência, à liberdade e à responsabilidade moral. Ela explica como o Espírito progride a partir de si mesmo, sem condenações eternas e sem dependência de circunstâncias pessoais específicas.

O arrependimento representa o primeiro movimento autêntico de transformação interior. Ele não se confunde com o sofrimento ou com o simples remorso emocional, pois pode haver dor sem arrependimento e arrependimento sem dor intensa. O arrependimento verdadeiro nasce quando o Espírito reconhece racionalmente o erro cometido, compreende suas consequências morais e passa a desejar sinceramente não mais agir daquela forma. Trata-se de um ato da consciência desperta rompendo a identificação do Espírito com o erro. Enquanto o indivíduo se justifica, se vitimiza ou atribui suas faltas a outros ou a fatores externos, permanece moralmente estacionado. O arrependimento, ao contrário, desloca o eixo da responsabilidade para o próprio ser, tornando possível o progresso.

A expiação surge como consequência natural desse estado moral ainda imperfeito. Os Espíritos deixam claro a Kardec que a expiação não é um castigo infligido por Deus, mas o efeito inevitável do desequilíbrio interior do ser. O sofrimento expiatório pode manifestar-se no estado espiritual, pela lucidez dolorosa diante do bem negligenciado, ou no estado corporal, sob a forma de provas e dificuldades que estimulam o aprendizado moral. O ponto essencial é que a expiação não tem duração predeterminada nem finalidade punitiva. Ela persiste enquanto o Espírito não se transforma intimamente. Assim, não é o sofrimento em si que purifica, mas a compreensão que dele se extrai. Quando a disposição ao bem é sincera e conhece-se como praticá-lo, a expiação perde progressivamente sua razão de ser, pois o Espírito já não necessita desse recurso educativo.

A reparação constitui o momento decisivo da tríade. Ela é a consolidação do arrependimento interior pela ação moral positiva e efetiva. Reparar não significa apenas compensar materialmente um dano, mas reconstruir, pelo bem, aquilo que foi destruído ou negado pelo mal. A justiça divina não se realiza com o sofrimento estéril, mas com a harmonia reparadora. No entanto, essa ação não deve ser compreendida de maneira simplista ou literal, como se fosse obrigatória a convivência futura exatamente com as mesmas pessoas que foram prejudicadas no passado. Essa interpretação, além de reducionista, introduz um determinismo incompatível com a liberdade e a universalidade da lei moral.

A reparação não depende das pessoas específicas envolvidas no erro primário, mas da transformação moral do Espírito e de sua disposição em fazer o bem em sentido amplo. O mal praticado contra alguém é expressão de uma imperfeição moral, como egoísmo, orgulho, indiferença ou violência. A reparação verdadeira ocorre quando essa imperfeição é superada e substituída por atitudes opostas, como solidariedade, humildade, respeito e caridade, exercidas onde quer que o Espírito se encontre. Assim, quem abusou do poder repara aprendendo a servir; quem foi indiferente ao sofrimento alheio repara desenvolvendo sensibilidade e compromisso com o próximo; quem explorou repara trabalhando pelo bem comum. Não há exigência inflexível para que isso ocorra, necessariamente, com as mesmas pessoas do passado, ainda que possa ser possível. O essencial não é o cenário, mas o aprendizado moral. A justiça divina não se estrutura como um sistema de compensações aritméticas entre indivíduos identificáveis, mas como um processo educativo contínuo orientado ao aperfeiçoamento do Espírito.

A reencarnação é um meio, não um fim em si mesma, com oportunidades educativas compatíveis com as demandas evolutivas do indivíduo.

Compreendida dessa forma, a tríade arrependimento, expiação e reparação revela sua profunda relevância ao processo evolutivo espiritual, assegurando que ninguém está condenado ao erro passado e que a justiça divina opera por meio da consciência e da liberdade dentro das leis naturais. O Espírito evolui não porque sofre, mas porque compreende; não porque paga, mas porque se transforma; não porque repete o passado, mas porque aprende a superá-lo. Essa visão dissolve o medo, o fatalismo e o misticismo moral, substituindo-os por uma ética racional da responsabilidade e da esperança, na qual cada ser é, ao mesmo tempo, autor e beneficiário de sua própria regeneração.

O processo de transformação individual não se esgota na esfera íntima do Espírito, pois seus efeitos irradiam-se inevitavelmente para o meio social. À medida que o indivíduo supera imperfeições morais e consolida valores como responsabilidade, respeito e solidariedade, suas atitudes passam a influenciar positivamente as relações humanas, as instituições e a vida coletiva. O progresso moral de cada ser colabora diretamente para a redução dos conflitos, para o fortalecimento da confiança social e para a construção de uma convivência mais justa e cooperativa, demonstrando que a renovação da sociedade começa, necessariamente, pela renovação das consciências, e não como resultado de um suposto movimento histórico impessoal e determinista.

Dessa forma, a tríade arrependimento, expiação e reparação revela-se não apenas um princípio de justiça divina aplicado ao destino do Espírito, mas também um fundamento ético do progresso humano. Ao promover a responsabilidade individual e a superação consciente do erro, ela oferece uma base racional para o aprimoramento simultâneo do ser e da sociedade, indicando que a verdadeira evolução coletiva não resulta de imposições externas e materialistas, mas da soma das transformações morais livremente conquistadas por cada indivíduo ao longo de sua trajetória evolutiva.