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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Cartas consoladoras: vigilância, discernimento e análise criteriosa


CARTAS CONSOLADORAS: VIGILÂNCIA, DISCERNIMENTO E ANÁLISE CRITERIOSA

 

Julia Nezu

 Presidente da USE

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.214, set/out 26, p. 4

 

Kardec dedicava-se à Codificação do espiritismo, utilizando-se das comunicações dos Espíritos. Ao mesmo tempo, fazendo uso da Revista Espírita, estava atento ao que acontecia à sua volta. Analisava os fenômenos quanto à possível charlatanice e fraude. Destacava que era dever do espírita desmascarar seus autores e para não comprometer a Doutrina em desenvolvimento.

 Recentemente, um programa de televisão exibiu uma reportagem sobre supostas fraudes envolvendo cartas consoladoras. A matéria apresentou denúncias de familiares que receberam cartas psicografadas contendo informações pessoais que, segundo alegam, teriam sido obtidas por meio de pesquisas em redes sociais.

Não é intenção desta mensagem julgar a veracidade dessas denúncias, questão que caberá à Justiça apurar. O objetivo é alertar os espíritas para a necessidade de analisar toda e qualquer mensagem com bom senso, à luz dos critérios doutrinários oferecidos pelas obras da Codificação de Allan Kardec, a fim de evitar a aceitação de eventuais fraudes, práticas de charlatanismo ou mistificações. No entanto, não se pode condenar todos os médiuns que produzem cartas consoladoras psicografadas pelo fato de existirem pessoas que fraudam comunicações espirituais. Generalizações dessa natureza seriam injustas e desconsiderariam a seriedade com que muitos exercem a mediunidade.

Ao tratar desse tema, é inevitável recordar o médium Chico Xavier, que recebeu mais de 10 mil cartas consoladoras ao longo de sua trajetória mediúnica, confortando familiares enlutados e contribuindo para a divulgação da ideia da imortalidade da alma e de sua continuidade após a desencarnação. Para isso, nunca se utilizou, previamente, de cadastro ou coleta de informações pessoais de interessados e de seus entes queridos.

O capítulo XXVIII de O livro dos médiuns aborda justamente a questão dos médiuns interesseiros e das fraudes espíritas. No item 306, Allan Kardec esclarece que os médiuns interesseiros não são apenas aqueles que exigem remuneração material por seus serviços, mas também os que se deixam conduzir por ambições de toda espécie, alimentando expectativas e interesses pessoais. Mais adiante, no item 323, ao tratar das manifestações inteligentes, Kardec afirma que elas oferecem maiores garantias de autenticidade do que as manifestações de efeitos físicos. Ainda assim, adverte que a fraude pode insinuar-se em toda parte, exigindo principalmente dos dirigentes espíritas vigilância, discernimento e análise criteriosa para separar o joio do trigo, ou seja, da carta consoladora verdadeira da falsa.

 

 

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

A prudência doutrinária perante romances mediúnicos

 

A prudência doutrinária perante romances mediúnicos


 Marco Milani


 Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, Ed. 202, set/out 2024, p. 33-34


Não é raro, principalmente entre neófitos, encontrar quem considera a vasta literatura romanceada e ficcional voltada ao mercado editorial espírita como sendo parte integrante da Doutrina Espírita. Ao equiparar romances mediúnicos às obras doutrinárias, comete-se um equívoco metodológico significativo. Allan Kardec adotou um critério de validação das informações obtidas por diferentes médiuns e em diferentes locais, denominado Controle Universal do Ensino dos Espíritos, o qual consistia em identificar o conteúdo convergente nas comunicações mediúnicas obtidas em diferentes grupos, por médiuns que não se conheciam entre si. Somente as informações que fossem corroboradas por múltiplas fontes, de maneira coerente e universal, eram aceitas como ensino dos Espíritos, integrantes do Espiritismo. Esse método não limitava a validade de princípios e valores a um único médium ou Espírito desencarnado.

Por outro lado, textos escritos por uma única fonte espiritual ou mediúnica podem expressar, isoladamente, apenas a opinião do Espírito comunicante.

Os romances mediúnicos merecem ser apreciados e estudados. O próprio Kardec incluiu vários deles no Catálogo Racional para se fundar uma biblioteca espírita, sugerindo ao estudioso espírita que tomasse contato com eles. Embora possam trazer informações e reflexões valiosas sobre a vida espiritual, não passam pelo mesmo rigor metodológico. Eles são frequentemente o produto da interpretação e das vivências de um determinado Espírito. Por isso, esses livros apresentam visões parciais, mais focados em impressões particularizadas do que em conhecimentos universais.

Certamente, os romances ditos “mediúnicos” são muito populares, ocupando lugar de destaque no gênero dos livros mais comercializados. Utilizando uma linguagem próxima do cotidiano e contando com histórias emocionantes que facilitam a identificação do leitor com as experiências narradas, romances ficcionais sensibilizam. Além disso, como são obras mais recentes, alguns chegam a acreditar que elas ofereceriam uma visão mais atualizada do mundo espiritual. Essa percepção, no entanto, tende a ser enganosa, pois a validade das informações não depende da data em que foram transmitidas, mas sim do método pelo qual foram verificadas. A história envolvente e convincente desses romances, atrelada à simpatia e à idoneidade dos médiuns, também pode levar muitos leitores a aceitarem essas obras como relatos fidedignos do mundo espiritual, sem o devido ceticismo ou análise crítica.

Especular que os romances mediúnicos sejam realistas e doutrinariamente mais robustos do que as obras de Kardec, baseando-se em argumentos de autoridade (quem assina a comunicação, quem foi o médium etc.) sem a necessária validação metodológica, é uma imprudência grave, que fere a esperada fé raciocinada. Tudo deve ser questionado e não se deve aceitar cegamente as informações mediúnicas de fonte única.

Assim, é relevante aos adeptos do Espiritismo distinguir entre o valor literário e moral dos romances mediúnicos e a Doutrina Espírita propriamente dita. Os romances podem ser motivacionais e úteis para reflexões pessoais, inclusive para a formulação de hipóteses descritivas da realidade espiritual, mas não devem ser confundidos com a doutrina estabelecida através do CUEE. Essa falta de distinção e a aceitação irrefletida de informações supostamente mediúnicas como verdades objetivas podem levar a distorções na compreensão do Espiritismo e à perpetuação de crenças não fundamentadas.

              Leiamos o que quisermos, mas com as lentes da razão.


domingo, 2 de janeiro de 2022

A prudência perante questões controversas

 


A prudência perante questões controversas

 Marco Milani

 (Texto publicado na revista Dirigente Espírita, ed. 187, pp. 43 a 45)


            Ao discorrer sobre o porquê do Espiritismo não se posicionar abertamente sobre questões controversas, que podem parecer claras e resolvidas para uns, mas não para todos, Allan Kardec destaca a relevância da prudência.

Assim ocorreu com relação à teoria da geração espontânea, a qual se propunha a explicar a formação de determinados seres vivos nos reinos vegetal e animal. Apresentada na obra A Gênese como uma hipótese corroborada por alguns pesquisadores, enfatizou-se ser prematuro o seu apoio incondicional. Ao contrário, Kardec finaliza a abordagem desse tema recomendando legar ao tempo o aprofundamento científico adequado, caso algum dia ele possa ser devidamente investigado.1 Essa teoria não foi, portanto, um ensinamento doutrinário.

            O tempo demonstrou, de fato, que tal teoria era falsa. Graças aos trabalhos de diversos pesquisadores, dentre eles Louis Pasteur, os fatos observados seguindo-se métodos científicos com instrumentos mais modernos, ajudaram a aclarar diversos fenômenos. Essas revelações se deram pelo avanço da ciência e não por revelações mediúnicas.

            O respeito que Kardec possuía com o Espiritismo fez com que ele, mesmo tendo um olhar favorável à teoria, não misturasse sua opinião pessoal com o ensino doutrinário. Assim ele se manifestou:

 

“Não sendo a doutrina baseada em probabilidades, não podíamos resolver uma questão de tal importância, apenas surgida, e que ainda está em litígio entre os especialistas. Afirmando a coisa sem restrição, teria sido comprometer a doutrina prematuramente, o que não fazemos nunca, mesmo para fazer prevalecerem as nossas simpatias.” 2

 

            Kardec enfatiza que o Espiritismo não estabeleceu nenhum princípio absoluto sobre uma opinião particular, seja de encarnado ou desencarnado, mas “somente depois que esse princípio recebeu a consagração da experiência e de uma demonstração rigorosa, resolvendo todas as dificuldades da questão”. 2

            A mesma sensatez e prudência deveríamos aplicar, individualmente, quando expressamos algo sobre assuntos abertos, sem direcionamento fundamentado em fatos e na razão, apenas em hipóteses ou argumentação opinativa.

            Temas que claramente dependem de uma ampliação do conhecimento sobre a realidade espiritual e sobre o processo evolutivo do ser, ainda que delineados nas obras fundamentais do Espiritismo, não podem ser afoitamente concluídos por suposições ou hipóteses.

            Um claro exemplo de questões com essas características é a evolução das espécies orgânicas e do princípio inteligente. De maneira infundada, alguns adeptos supõem que todas as possibilidades de combinações materiais para a formação de corpos que o princípio inteligente se servirá para a continuidade de seu desenvolvimento espiritual estão representadas e restritas ao planeta Terra e desconsideram os infinitos planetas e ambientes no universo que esses corpos podem se formar. Em outras palavras, tentam atrelar a cadeia evolutiva do princípio inteligente, desde a sua criação até o momento que desperta para a razão e adentra na humanidade, a este minúsculo orbe e suas espécies do passado e do presente.

            A solidariedade entre todos os seres no universo faz com que se considere o processo evolutivo em todos os inúmeros planetas, não somente em um. Inútil tentar localizar na Terra um “elo perdido” que ligaria o animal mais desenvolvido com o homem mais primitivo sob a perspectiva espiritual, uma vez que os animais também estão presentes em mundos superiores e em estágios mais aperfeiçoados.3

            A afirmação de que não existem animais na erraticidade não é uma opinião, mas o produto de um ensino coletivo que foi registrado em diferentes passagens4, 5 e 6. As minúcias das etapas progressivas do princípio inteligente em outros e neste orbe, entretanto, fogem da compreensão atual e, nesse sentido, é imprudente tentar se fechar questão com os parcos conhecimentos atuais ou, de maneira mais ilógica, contestar a afirmação presente nas obras fundamentais sem qualquer evidência, a não ser opiniões.

            As precipitações teóricas decorrem, muitas vezes, do desejo do desbravamento sem método, em que novidades e supostas revelações mediúnicas são abraçadas afoitamente, sem o zelo da atenção e análise crítica. A história aponta que o tempo de maturação das ideias pode levar anos, séculos ou milênios, dependendo da capacidade de compreensão do homem.

Há pelo menos dois mil anos que a referência sobre o que seja amar o próximo foi apresentada, mas ainda engatinha-se nessa vivência. O progresso pode ser imperceptível para uma geração, mas é paulatino e constante sob a perspectiva espiritual.

Como frisou o Espírito da Verdade, o amor e a instrução devem ser os mandamentos a serem seguidos7. Nem um, nem outro, isoladamente. Ambos devem ser entendidos e praticados.

O conhecimento da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal deve ser conquistado conforme a capacidade e esforço do homem.

            Hipóteses são bem-vindas, pois ajudam a exercitar a inteligência, mas a fé raciocinada exige, antes de tudo, prudência na aceitação e no estabelecimento de verdades.

 

Referências

1. Kardec, Allan. A Gênese. Capítulo X, itens 20 a 23.

2. Kardec, Allan. Revista Espírita. Jul/1868. A geração espontânea e A Gênese.

3. Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 603 e 604.

4. Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 600.

5. Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. Capítulo XXV, item 283.

6. Kardec, Allan. Revista Espírita. Mai/1865.  Questões e problemas. Manifestação do espírito dos animais.

7. Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo VI, item 5.

 

Fonte: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2022/01/DE187-C.pdf