Viver no mundo sem a ilusão da falsa santidade
Marco
Milani
Texto
publicado na Revista Candeia Espírita, nº 60, set 2026, p.10-11
Uma das distorções mais persistentes da religiosidade é transformar
espiritualidade em aparência de santidade. Em vez de estimular consciência,
responsabilidade e transformação moral, alguns passam a valorizar hábitos
exteriores, modos de vestir, formas de falar e escolhas privadas como sinais de
elevação espiritual. Mais grave é quando dirigentes ou trabalhadores religiosos
assumem para si o papel de determinar como os outros devem viver.
Essa postura é incompatível com o princípio espírita da liberdade de
consciência.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XVII, a
mensagem “O Homem no Mundo” rejeita a ideia de uma vida mística afastada da
realidade social. O espírita trabalha, constitui família, administra seus bens,
convive socialmente, diverte-se e faz escolhas próprias da condição humana.
A espiritualização não exige representar o papel de santo.
O problema moral não está, necessariamente, em frequentar determinados
ambientes, usufruir lazer, possuir bens, escolher uma forma de vestir ou
decidir o que colocar no próprio prato. A questão está no uso da liberdade, no
respeito ao próximo e na responsabilidade pelos próprios atos.
Essa distinção deveria ser elementar nos centros espíritas.
O dirigente pode organizar a instituição, estabelecer regras para suas
atividades e exigir dos trabalhadores o cumprimento de compromissos assumidos.
Mas autoridade administrativa não significa autoridade sobre consciências. O
dirigente espírita não é diretor da vida privada dos colaboradores e
frequentadores.
Por isso, é especialmente inadequado quando alguém se sente autorizado
a interrogar ou censurar a vida privada de alguém “em nome do Espiritismo”.
Esse comportamento é contraditório quando parte de quem afirma
defender liberdade e fraternidade. Vigiar o outro pode revelar justamente
aquilo que o Espiritismo recomenda combater: orgulho, presunção moral e intolerância.
Em O Livro dos Espíritos, nas questões 836 e 837, verificamos
que ninguém tem o direito de criar obstáculos à liberdade de consciência de
outra pessoa e, ainda, que constranger alguém a agir contra aquilo que pensa
favorece a hipocrisia.
A advertência é direta. Se uma pessoa modifica exteriormente sua
conduta apenas para evitar censura ou reprimenda dentro de uma instituição, não
houve transformação moral. Houve submissão social.
Kardec também afirma que a convicção não se impõe. O papel de quem
esclarece é apresentar princípios, argumentos e consequências. A decisão
pertence ao indivíduo.
Isso não significa relativismo moral. Liberdade de consciência não
quer dizer que todas as ações sejam equivalentes. O Espiritismo oferece
critérios para a conduta: justiça, caridade, responsabilidade, respeito ao
próximo e combate ao egoísmo e ao orgulho. Mas existe enorme diferença entre
orientar e controlar.
A exigência moral deveria dirigir-se prioritariamente a nós mesmos.
Para os outros, deveriam prevalecer respeito, compreensão e persuasão.
Infelizmente, algumas comunidades religiosas fazem o contrário.
Demonstram tolerância com as próprias imperfeições e rigor na fiscalização dos
hábitos alheios. Assim nasce a falsa santidade: cria-se um modelo exterior de
pessoa espiritualizada e passa-se a medir os outros por ele.
Uma pessoa pode falar suavemente, aparentar fraternidade e ser
profundamente intolerante. Pode seguir normas sociais e alimentar orgulho,
vaidade ou desejo de domínio. Pode vigiar as ações alheias e descuidar da
própria agressividade.
Kardec oferece outro critério: reconhece-se o verdadeiro espírita por entender
os princípios e valores doutrinários e colocá-los em prática pela transformação
moral e pelos esforços para domar as más inclinações. O foco está no trabalho
sobre si mesmo, não na vigilância sobre os demais.
O centro espírita deve ser espaço de estudo, reflexão, convivência
fraterna e desenvolvimento da autonomia moral. Não deveria produzir pessoas
dependentes da aprovação de dirigentes para decidir como viver, votar, vestir-se,
divertir-se ou alimentar-se.
Dirigentes espíritas possuem responsabilidades, não superioridade
espiritual. Podem coordenar atividades e oferecer orientação. Não receberam
mandato para governar escolhas privadas.
Quem procura o Espiritismo não entrega sua liberdade moral ao entrar
pela porta de um centro. A Doutrina esclarece. A consciência decide. A pessoa
responde por suas preferências e atos.
O Espiritismo não fabrica santos aparentes. Contribui para formar
pessoas mais conscientes, responsáveis e moralmente melhores.
E quem realmente compreende a liberdade de consciência deveria
preocupar-se menos com a vida dos outros e muito mais com o governo de si
mesmo.

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