terça-feira, 1 de setembro de 2026

Viver no mundo sem a ilusão da falsa santidade

 


Viver no mundo sem a ilusão da falsa santidade

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 60, set 2026, p.10-11

 

Uma das distorções mais persistentes da religiosidade é transformar espiritualidade em aparência de santidade. Em vez de estimular consciência, responsabilidade e transformação moral, alguns passam a valorizar hábitos exteriores, modos de vestir, formas de falar e escolhas privadas como sinais de elevação espiritual. Mais grave é quando dirigentes ou trabalhadores religiosos assumem para si o papel de determinar como os outros devem viver.

Essa postura é incompatível com o princípio espírita da liberdade de consciência.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XVII, a mensagem “O Homem no Mundo” rejeita a ideia de uma vida mística afastada da realidade social. O espírita trabalha, constitui família, administra seus bens, convive socialmente, diverte-se e faz escolhas próprias da condição humana.

A espiritualização não exige representar o papel de santo.

O problema moral não está, necessariamente, em frequentar determinados ambientes, usufruir lazer, possuir bens, escolher uma forma de vestir ou decidir o que colocar no próprio prato. A questão está no uso da liberdade, no respeito ao próximo e na responsabilidade pelos próprios atos.

Essa distinção deveria ser elementar nos centros espíritas.

O dirigente pode organizar a instituição, estabelecer regras para suas atividades e exigir dos trabalhadores o cumprimento de compromissos assumidos. Mas autoridade administrativa não significa autoridade sobre consciências. O dirigente espírita não é diretor da vida privada dos colaboradores e frequentadores.

Por isso, é especialmente inadequado quando alguém se sente autorizado a interrogar ou censurar a vida privada de alguém “em nome do Espiritismo”.

Esse comportamento é contraditório quando parte de quem afirma defender liberdade e fraternidade. Vigiar o outro pode revelar justamente aquilo que o Espiritismo recomenda combater: orgulho, presunção moral e intolerância.

Em O Livro dos Espíritos, nas questões 836 e 837, verificamos que ninguém tem o direito de criar obstáculos à liberdade de consciência de outra pessoa e, ainda, que constranger alguém a agir contra aquilo que pensa favorece a hipocrisia.

A advertência é direta. Se uma pessoa modifica exteriormente sua conduta apenas para evitar censura ou reprimenda dentro de uma instituição, não houve transformação moral. Houve submissão social.

Kardec também afirma que a convicção não se impõe. O papel de quem esclarece é apresentar princípios, argumentos e consequências. A decisão pertence ao indivíduo.

Isso não significa relativismo moral. Liberdade de consciência não quer dizer que todas as ações sejam equivalentes. O Espiritismo oferece critérios para a conduta: justiça, caridade, responsabilidade, respeito ao próximo e combate ao egoísmo e ao orgulho. Mas existe enorme diferença entre orientar e controlar.

A exigência moral deveria dirigir-se prioritariamente a nós mesmos. Para os outros, deveriam prevalecer respeito, compreensão e persuasão.

Infelizmente, algumas comunidades religiosas fazem o contrário. Demonstram tolerância com as próprias imperfeições e rigor na fiscalização dos hábitos alheios. Assim nasce a falsa santidade: cria-se um modelo exterior de pessoa espiritualizada e passa-se a medir os outros por ele.

Uma pessoa pode falar suavemente, aparentar fraternidade e ser profundamente intolerante. Pode seguir normas sociais e alimentar orgulho, vaidade ou desejo de domínio. Pode vigiar as ações alheias e descuidar da própria agressividade.

Kardec oferece outro critério: reconhece-se o verdadeiro espírita por entender os princípios e valores doutrinários e colocá-los em prática pela transformação moral e pelos esforços para domar as más inclinações. O foco está no trabalho sobre si mesmo, não na vigilância sobre os demais.

O centro espírita deve ser espaço de estudo, reflexão, convivência fraterna e desenvolvimento da autonomia moral. Não deveria produzir pessoas dependentes da aprovação de dirigentes para decidir como viver, votar, vestir-se, divertir-se ou alimentar-se.

Dirigentes espíritas possuem responsabilidades, não superioridade espiritual. Podem coordenar atividades e oferecer orientação. Não receberam mandato para governar escolhas privadas.

Quem procura o Espiritismo não entrega sua liberdade moral ao entrar pela porta de um centro. A Doutrina esclarece. A consciência decide. A pessoa responde por suas preferências e atos.

O Espiritismo não fabrica santos aparentes. Contribui para formar pessoas mais conscientes, responsáveis e moralmente melhores.

E quem realmente compreende a liberdade de consciência deveria preocupar-se menos com a vida dos outros e muito mais com o governo de si mesmo.

 


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