sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ler e entender Kardec

Ler e entender Kardec

 

Marco Milani

 

Texto publicado no jornal Correio Fraterno, ed. 530, jul/ago 2026, p.13

 

Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, mostram que a taxa de analfabetismo no Brasil, pela primeira vez, ficou abaixo de 5%. Ainda assim, cerca de 8,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não sabem ler nem escrever.

O alcance dessa redução, porém, precisa ser compreendido. Para o IBGE, é alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever um bilhete simples. O indicador mede, portanto, o analfabetismo absoluto. Não avalia se o indivíduo compreende textos mais extensos, acompanha raciocínios ou utiliza a leitura para adquirir conhecimentos com autonomia.

Parte da queda decorre da substituição geracional, pois as gerações mais jovens tiveram maior acesso à escolarização, enquanto o analfabetismo absoluto permanece concentrado entre os idosos. O país ampliou a alfabetização elementar, mas não necessariamente formou leitores capazes de compreender conteúdos complexos.

Essa diferença aparece quando os dados são comparados aos resultados do Indicador de Alfabetismo Funcional, conhecido pela sigla INAF. Segundo sua edição mais recente, 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. São cerca de 40 milhões de pessoas que reconhecem palavras, frases ou informações simples, mas apresentam limitações importantes para interpretar textos e utilizar a leitura, a escrita e a matemática no cotidiano.

Mais preocupante é sua permanência. O analfabetismo funcional era 29% da população avaliada em 2018 e permaneceu no mesmo patamar em 2024. Embora tenha ocorrido melhora nos primeiros anos deste século, os avanços praticamente estagnaram a partir de 2009.

Há, assim, duas dimensões do mesmo problema. Diminui o número de pessoas incapazes de ler e escrever um bilhete simples, sem que melhore, de maneira consistente, a capacidade de compreender textos, interpretar ideias e desenvolver raciocínios mais elaborados. O país avançou na redução do analfabetismo absoluto, mas permanece estagnado na qualidade do alfabetismo.

Ler palavras não significa necessariamente compreender ideias. Uma pessoa pode percorrer uma página e não identificar sua tese central, distinguir uma afirmação de sua justificativa ou perceber suas consequências. Nessas condições, a leitura isolada deixa de ser instrumento suficiente de instrução.

O problema merece atenção especial no movimento espírita. O Espiritismo exige reflexão, análise comparada e estudo sistemático. Obras como O Livro dos Espíritos e O Que é o Espiritismo foram organizadas por meio de questões, objeções e esclarecimentos progressivos. Sua compreensão pressupõe capacidade de acompanhar raciocínios, interpretar conceitos abstratos e relacionar ideias.

Não basta colocar uma obra de Allan Kardec nas mãos de alguém e supor que o simples ato de ler produzirá automaticamente conhecimento doutrinário. Essa expectativa ignora diferenças de escolaridade, repertório cultural, experiência leitora e capacidade de interpretação. Também deve ser considerada a distância histórica e linguística, pois as obras fundamentais foram escritas na França do século dezenove.

Essa constatação não justifica substituir Kardec por resumos, romances ou obras mais fáceis, nem simplificar a Doutrina até deformá-la. Ao contrário, quanto maiores forem as dificuldades de compreensão, mais necessária será a mediação pedagógica que possibilite o contato efetivo com as fontes fundamentais.

Os centros espíritas não deveriam restringir o ensino à recomendação de leituras individuais, à distribuição de capítulos ou à sucessão de comentários espontâneos. Reunir pessoas em torno de um livro não assegura que esteja ocorrendo um processo educativo. Sem objetivos, ordenação dos conteúdos e verificação da aprendizagem, o estudo pode limitar-se à leitura coletiva acompanhada por opiniões pessoais.

A educação espírita requer método, planejamento e progressão. O coordenador precisa esclarecer o vocabulário, contextualizar as questões, distinguir conceitos, formular perguntas e verificar se as ideias foram compreendidas.

A leitura orientada é importante. Em vez de apenas recomendar que o participante leia sozinho uma obra extensa, o grupo pode examinar trechos selecionados, identificar a questão discutida, acompanhar os argumentos e relacionar a passagem a outras partes da obra. O objetivo não é substituir a leitura individual, mas desenvolver gradualmente a autonomia necessária para realizá-la com maior proveito.

A participação ativa, as perguntas e o confronto racional de interpretações desenvolvem habilidades que a simples recepção de informações não produz. Ensinar Espiritismo não consiste apenas em transmitir respostas, mas em favorecer a capacidade de examinar ideias.

A Doutrina Espírita valoriza a fé raciocinada. Entretanto, não se pode exigir raciocínio sem criar condições para que ele seja desenvolvido. Em uma sociedade na qual quase um terço da população adulta apresenta limitações funcionais de leitura, a instituição que apenas aconselha “leia Kardec” pode imaginar que promove o estudo, mas a compreensão poderá ser variável.

A redução do analfabetismo absoluto é uma conquista, mas está longe de resolver o problema educacional brasileiro. Para o movimento espírita, os dados constituem um chamado à responsabilidade. Preservar a centralidade das obras fundamentais não significa apenas disponibilizá-las, mas criar condições para que sejam compreendidas. A leitura continua indispensável, porém a formação de leitores atentos exige orientação, diálogo, método e mediação pedagógica.

 

Referência

 

Ação Educativa, & Conhecimento Social Estratégia e Gestão. (2025). Indicador de Alfabetismo Funcional: Inaf Brasil 2024 — Resultados. https://alfabetismofuncional.org.br/metodologia/

 

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