Ler e entender Kardec
Marco
Milani
Texto
publicado no jornal Correio Fraterno, ed. 530, jul/ago 2026, p.13
Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
Contínua, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -
IBGE, mostram que a taxa de analfabetismo no Brasil, pela primeira vez, ficou
abaixo de 5%. Ainda assim, cerca de 8,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou
mais não sabem ler nem escrever.
O alcance dessa redução, porém, precisa ser compreendido. Para o IBGE,
é alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever um bilhete simples. O indicador
mede, portanto, o analfabetismo absoluto. Não avalia se o indivíduo compreende
textos mais extensos, acompanha raciocínios ou utiliza a leitura para adquirir
conhecimentos com autonomia.
Parte da queda decorre da substituição geracional, pois as gerações
mais jovens tiveram maior acesso à escolarização, enquanto o analfabetismo
absoluto permanece concentrado entre os idosos. O país ampliou a alfabetização
elementar, mas não necessariamente formou leitores capazes de compreender
conteúdos complexos.
Essa diferença aparece quando os dados são comparados aos resultados
do Indicador de Alfabetismo Funcional, conhecido pela sigla INAF. Segundo sua
edição mais recente, 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos
funcionais. São cerca de 40 milhões de pessoas que reconhecem palavras, frases
ou informações simples, mas apresentam limitações importantes para interpretar
textos e utilizar a leitura, a escrita e a matemática no cotidiano.
Mais preocupante é sua permanência. O analfabetismo funcional era 29%
da população avaliada em 2018 e permaneceu no mesmo patamar em 2024. Embora
tenha ocorrido melhora nos primeiros anos deste século, os avanços praticamente
estagnaram a partir de 2009.
Há, assim, duas dimensões do mesmo problema. Diminui o número de
pessoas incapazes de ler e escrever um bilhete simples, sem que melhore, de
maneira consistente, a capacidade de compreender textos, interpretar ideias e
desenvolver raciocínios mais elaborados. O país avançou na redução do
analfabetismo absoluto, mas permanece estagnado na qualidade do alfabetismo.
Ler palavras não significa necessariamente compreender ideias. Uma
pessoa pode percorrer uma página e não identificar sua tese central, distinguir
uma afirmação de sua justificativa ou perceber suas consequências. Nessas
condições, a leitura isolada deixa de ser instrumento suficiente de instrução.
O problema merece atenção especial no movimento espírita. O
Espiritismo exige reflexão, análise comparada e estudo sistemático. Obras como
O Livro dos Espíritos e O Que é o Espiritismo foram organizadas por meio de questões,
objeções e esclarecimentos progressivos. Sua compreensão pressupõe capacidade
de acompanhar raciocínios, interpretar conceitos abstratos e relacionar ideias.
Não basta colocar uma obra de Allan Kardec nas mãos de alguém e supor
que o simples ato de ler produzirá automaticamente conhecimento doutrinário.
Essa expectativa ignora diferenças de escolaridade, repertório cultural,
experiência leitora e capacidade de interpretação. Também deve ser considerada
a distância histórica e linguística, pois as obras fundamentais foram escritas
na França do século dezenove.
Essa constatação não justifica substituir Kardec por resumos, romances
ou obras mais fáceis, nem simplificar a Doutrina até deformá-la. Ao contrário,
quanto maiores forem as dificuldades de compreensão, mais necessária será a
mediação pedagógica que possibilite o contato efetivo com as fontes
fundamentais.
Os centros espíritas não deveriam restringir o ensino à recomendação
de leituras individuais, à distribuição de capítulos ou à sucessão de
comentários espontâneos. Reunir pessoas em torno de um livro não assegura que
esteja ocorrendo um processo educativo. Sem objetivos, ordenação dos conteúdos
e verificação da aprendizagem, o estudo pode limitar-se à leitura coletiva
acompanhada por opiniões pessoais.
A educação espírita requer método, planejamento e progressão. O
coordenador precisa esclarecer o vocabulário, contextualizar as questões,
distinguir conceitos, formular perguntas e verificar se as ideias foram
compreendidas.
A leitura orientada é importante. Em vez de apenas recomendar que o
participante leia sozinho uma obra extensa, o grupo pode examinar trechos
selecionados, identificar a questão discutida, acompanhar os argumentos e
relacionar a passagem a outras partes da obra. O objetivo não é substituir a
leitura individual, mas desenvolver gradualmente a autonomia necessária para
realizá-la com maior proveito.
A participação ativa, as perguntas e o confronto racional de
interpretações desenvolvem habilidades que a simples recepção de informações
não produz. Ensinar Espiritismo não consiste apenas em transmitir respostas,
mas em favorecer a capacidade de examinar ideias.
A Doutrina Espírita valoriza a fé raciocinada. Entretanto, não se pode
exigir raciocínio sem criar condições para que ele seja desenvolvido. Em uma
sociedade na qual quase um terço da população adulta apresenta limitações
funcionais de leitura, a instituição que apenas aconselha “leia Kardec” pode
imaginar que promove o estudo, mas a compreensão poderá ser variável.
A redução do analfabetismo absoluto é uma conquista, mas está longe de
resolver o problema educacional brasileiro. Para o movimento espírita, os dados
constituem um chamado à responsabilidade. Preservar a centralidade das obras
fundamentais não significa apenas disponibilizá-las, mas criar condições para
que sejam compreendidas. A leitura continua indispensável, porém a formação de
leitores atentos exige orientação, diálogo, método e mediação pedagógica.
Referência
Ação Educativa,
& Conhecimento Social Estratégia e Gestão. (2025). Indicador de
Alfabetismo Funcional: Inaf Brasil 2024 — Resultados. https://alfabetismofuncional.org.br/metodologia/

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