Cremação e Espiritismo
Marco
Milani
Texto
publicado na Revista Candeia Espírita, n.58, jul/26, p. 8-9
A cremação acompanha a história humana, assumindo significados
culturais, religiosos e sanitários distintos conforme a época e a civilização.
Entre hindus, gregos e romanos, o fogo frequentemente simbolizava purificação,
transformação ou libertação. Na Índia antiga, a cremação consolidou-se como
prática religiosa tradicional associada ao desprendimento da alma e ao
encerramento rápido do vínculo corporal. Já no mundo greco-romano, sobretudo
durante parte do Império Romano, era frequentemente relacionada à honra social
e militar.
As tradições religiosas desenvolveram posições bastante distintas
sobre a cremação e sobre o tempo considerado adequado entre a morte e o destino
do corpo. O hinduísmo tradicionalmente realiza a cremação poucas horas após o
óbito, geralmente em até um dia, entendendo o fogo como elemento renovador.
Algumas escolas budistas também admitem a cremação, embora possam recomendar
breve período de espera em respeito ao processo de desligamento da consciência.
Em contraste, o judaísmo ortodoxo e o islamismo historicamente rejeitam a
cremação e valorizam o sepultamento rápido do corpo íntegro. O cristianismo,
especialmente sob influência católica, resistiu por séculos à cremação devido à
associação histórica da prática com correntes materialistas e anticristãs, embora
atualmente a aceite desde que não represente negação da sobrevivência da alma.
Durante a Idade Média, a cremação praticamente desapareceu em grande
parte da Europa cristã. Os enterramentos religiosos tornaram-se predominantes e
os cemitérios passaram a integrar o espaço social e simbólico das igrejas.
Apenas a partir do século XIX, em razão do crescimento urbano, das crises
sanitárias e da superlotação dos cemitérios, a cremação voltou gradualmente a
ganhar espaço. Argumentos ligados à higiene pública, à racionalização do espaço
urbano e à redução de custos favoreceram sua reintrodução em diversos países.
No contexto francês do século XIX, período em que Allan Kardec
estruturou a Doutrina Espírita, a cremação ainda era prática rara e socialmente
controversa. A França permanecia fortemente vinculada ao sepultamento
tradicional, em grande parte sob influência cultural católica. A cremação
somente foi legalmente autorizada em 1887, quase duas décadas após a
desencarnação de Kardec, ocorrida em 1869. Isso pode ajudar a compreender por
que o codificador praticamente não tratou diretamente da cremação como prática
funerária específica.
As preocupações de Kardec concentravam-se principalmente nos fenômenos
de morte aparente, letargia, catalepsia e desprendimento gradual do Espírito.
No século XIX, os recursos diagnósticos médicos eram limitados, e o temor de
enterramentos prematuros era socialmente relevante. Em O Livro dos Espíritos,
questão 155-a, encontra-se a observação de que “a separação definitiva da alma
e do corpo pode ocorrer antes da cessação completa da vida orgânica”. Kardec
também analisou, em diferentes edições da Revista Espírita, casos de
estados catalépticos e letárgicos confundidos com a morte verdadeira. Não se
encontra, nas obras fundamentais de Kardec, condenação ou recomendação
específica contrária à cremação.
O processo de desencarnação ocorre de maneira variável. Espíritos
moralmente elevados ou pouco vinculados às sensações proporcionadas pela
matéria podem desprender-se rapidamente, enquanto outros permanecem mentalmente
identificados com o corpo por período maior, independentemente de haver
cremação ou sepultamento. Por meio do perispírito, o Espírito desencarnado pode
manter momentânea sintonia com as antigas sensações corporais. Intervenções
bruscas, como a cremação precoce, poderiam desencadear impressões desagradáveis
no Espírito ainda identificado com o corpo, não por transmissão de dor física,
mas pela interpretação psíquica que ele faz do que ocorre com os restos
mortais. Alguns Espíritos readquirem rapidamente a lucidez e sentem-se
desvinculados das antigas vestes carnais, enquanto outros permanecem
temporariamente impressionados pelas sensações e imagens da vida material.
Essa distinção encontra apoio no caso denominado “O suicida da
Samaritana”, apresentado por Kardec em O Céu e o Inferno. Evocado seis
dias após a morte, o Espírito afirmava sentir os vermes que lhe roíam o corpo e
demonstrava acreditar que sua vida ainda não se extinguira. Kardec relaciona
essa experiência à perturbação e à ilusão de o desencarnado ainda se considerar
vivo e ligado ao organismo. A impressão era subjetivamente penosa, mas não
correspondia à sensibilidade física do cadáver.
Na mesma obra, Segunda Parte, capítulo VIII, “Expiações terrestres”,
Szymel Slizgol declara ter permanecido “ligado pelo meu perispírito ao meu
corpo em decomposição” e ter-se sentido, “até à sua completa putrefação, roído
pelos vermes”. Na Segunda Parte, capítulo I, “A passagem”, item 5, Kardec
afirma que, enquanto subsistirem numerosos pontos de contato entre o corpo e o
perispírito, “a alma poderá sentir os efeitos da decomposição do corpo até que
o laço seja completamente rompido”. Essa passagem deve ser lida em conjunto com
o item 3 do mesmo capítulo, segundo o qual a matéria inerte é insensível e,
estando a alma efetivamente separada, a desorganização do corpo não lhe causa
dano. Os relatos podem envolver, portanto, tanto a repercussão de um desprendimento
ainda incompleto quanto percepções ilusórias decorrentes da perturbação e da
persistência da imagem corporal.
A discussão mais conhecida no meio espírita brasileiro sobre o tema
decorre da recomendação atribuída ao Espírito Emmanuel, pelo médium Francisco
Xavier, sugerindo que se aguarde 72 horas antes da cremação. Em O Consolador,
questão 151, Emmanuel menciona a persistência de “ecos de sensibilidade” entre
o Espírito desencarnado e o corpo físico nas primeiras horas após a morte.
Posteriormente, no programa Pinga-Fogo, exibido pela TV Tupi em 1971,
Chico Xavier reiterou essa orientação prudencial.
Contudo, essa recomendação não possui natureza normativa dentro da
Doutrina Espírita. Trata-se de orientação opinativa, e não de princípio
doutrinário estabelecido pelo critério da universalidade. A cautela quanto ao
momento da cremação também deve respeitar exigências médicas, legais e
periciais. A medicina contemporânea reduziu drasticamente os riscos de
diagnósticos equivocados de morte, mas o intervalo ainda pode ser relevante
para a investigação de mortes suspeitas, a emissão de documentos e a autorização
formal do procedimento.
Ainda que alguns conservem vínculos perispirituais ou forte identificação mental com o corpo, tal condição não seria exclusiva da cremação, pois impressões semelhantes também aparecem associadas à decomposição natural. Mais importante do que a preservação dos despojos físicos é o amparo oferecido ao desencarnante por meio de preces, pensamentos de carinho e vibrações de serenidade emanadas pelos Espíritos amigos, capazes de auxiliá-lo no processo de adaptação à vida espiritual.

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