Análise
crítica da edição brasileira da obra Socialismo e Espiritismo, publicada pela
Casa Editora O Clarim
Marco Milani
Texto
originalmente publicado no Jornal de Estudos Espíritas, em 1º/jan/2026*
Resumo
O presente artigo
analisa criticamente a edição brasileira da obra Socialismo e Espiritismo, de
Léon Denis, prefaciada por Freitas Nobre, traduzida e comentada por Wallace
Leal Rodrigues e publicada pela Casa Editora O Clarim em 1982. Com base no
texto original em francês (Socialisme et Spiritisme, 1924), examina-se a
fidelidade da tradução e a introdução de elementos interpretativos anacrônicos
que alteram o sentido doutrinário e filosófico pretendido por Denis. Este
estudo analisa todo o livro, destacando passagens específicas de sua tradução e
de seu prefácio, redigido por um político profissional, que confere ao texto um
viés ideológico estranho ao conceito idealista originalmente proposto por Denis.
Argumenta-se que tais modificações podem induzir o leitor a associações
equivocadas, obscurecendo o fato de que a proposta de Denis, que ele denomina
“socialismo espiritualista”, contrapõe-se às concepções socialistas calcadas no
materialismo e no coletivismo. Conclui-se que a tradução de Rodrigues, embora
mantenha, em linhas gerais, a coerência doutrinária e a sequência argumentativa
da obra, carece de rigor terminológico e neutralidade interpretativa em
determinadas passagens. Recomenda-se, ainda, revisões críticas da obra baseadas
no texto original, a fim de contextualizar e restabelecer o pensamento de Denis
direcionado à ênfase moral e meritória do indivíduo para seu progresso
espiritual e, consequentemente, da sociedade.
Palavras-chave: Humanismo. Espiritismo. Socialismo.
Anacronismo.
1. Introdução
Léon Denis (1846–1927) foi um dos principais
continuadores de Allan Kardec e figura central do movimento espírita francês da
Terceira República. Autodidata e orador de reconhecida eloquência, dedicou-se à
divulgação e à sistematização filosófica do Espiritismo após a morte de Kardec,
defendendo-o como síntese entre ciência, filosofia e moral. Membro ativo da
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e colaborador constante da Revista
Espírita, sua obra foi marcada pela reflexão filosófica envolvendo o
aperfeiçoamento do Espírito, questões religiosas e sociais, pautando-se por uma
visão moral universalista.
Entre fevereiro e outubro de 1924, Léon Denis publicou na
Revista Espírita uma série de oito artigos sob o título Socialismo e
Espiritismo. Esses textos, escritos nos últimos anos de sua vida, expressam
suas preocupações sociais pensadas à luz dos princípios da filosofia espírita.
Posteriormente reunidos sob forma de livro, os artigos representam a tentativa
de Denis de conciliar o ideal de melhoria da sociedade com a lei de progresso
moral e individual, afastando-se das correntes materialistas e revolucionárias
do socialismo político. O autor examina a fraternidade e a solidariedade como marcas
da evolução espiritual, propondo uma abordagem humanista e idealista que ele
denominou, particularmente, de “socialismo”, fundado na reencarnação e na
responsabilidade moral pessoal.
É
fundamental compreender que o conceito de “socialismo” utilizado por Léon Denis
difere, em muitos aspectos, do sentido político e econômico que a palavra
adquiriu posteriormente. No início do século XX, o termo era empregado de modo
amplo, abrangendo propostas de reforma moral e social inspiradas em valores
cristãos, humanistas e espiritualistas, e não apenas nas concepções
materialistas do marxismo (Vincent, 1992; Winock, 2017). Denis utiliza o
vocábulo enfatizando um sentido ético e espiritual, associando solidariedade e
fraternidade à lei de progresso moral, sem qualquer apelo à coletivização ou à
luta de classes. Segundo Strube (2016), nesse período algumas correntes
espiritualistas buscaram harmonizar fé e progresso da sociedade interpretando a
questão social como problema moral e educativo. Assim, o “socialismo” denisano
deve ser entendido como idealista e humanismo ético voltado à elevação moral do
Espírito e convivência fraterna na sociedade.
É
indispensável, assim, que as traduções contemporâneas dos artigos de Léon Denis
mantenham fidelidade ao sentido histórico e filosófico original, evitando
anacronismos ou leituras político-ideológicas distorcidas. Escritos há mais de
um século, esses textos expressam preocupações morais e espirituais próprias de
seu tempo, e não posições partidárias específicas. Reinterpretá-los segundo
ideologias posteriores compromete a coerência doutrinária e o valor humanista
da obra, que deve ser compreendida como reflexão espírita sobre o progresso
moral, e não como elemento de legitimação de narrativas políticas atuais.
Nesse
sentido, o objetivo deste estudo é analisar criticamente a primeira edição
brasileira da obra Socialismo e Espiritismo, de Léon Denis, traduzida e
comentada por Wallace Leal Rodrigues e publicada pela Casa Editora O Clarim em
1982.
O
presente estudo justifica-se pela necessidade de contribuir para que as obras
dos autores considerados clássicos do movimento espírita mundial, como Léon
Denis, sejam compreendidas de modo fiel ao seu conteúdo original, sem
distorções provocadas por interpretações subjetivas de tradutores ou
comentadores. Versões adaptadas, paráfrases ou leituras ideologizadas que se
sobrepõem ao texto podem comprometer a formação de um acervo confiável para a
pesquisa acadêmica e o estudo sistemático da doutrina, além de oferecer
argumentos falaciosos para associações indevidas sob aspectos político e
econômico. Busca-se, portanto, fortalecer o compromisso com a autenticidade
textual assegurando sua adequada transmissão às gerações futuras.
2. Método
Este
estudo adota uma abordagem qualitativa e comparativa, centrada na análise
textual e hermenêutica do conjunto de 8 artigos intitulados “Socialismo e
Espiritismo”, publicados por Léon Denis na Revista Espírita em 1924, e da
tradução brasileira do livro que reúne esses textos lançado pela Casa Editora O
Clarim, em 1982. O livro conta com prefácio do advogado, espírita e político
José Freitas Nobre, e com a tradução e comentários de Wallace Leal Rodrigues.
Os
textos originais estão disponíveis nas edições da Revista Espírita (RE) no
acervo digital da Bibliothèque nationale de France (BnF), para consulta
eletrônica. Os oito artigos publicados na RE e que posteriormente foram
transformados em capítulos do livro, na mesma ordem, são:
Capítulo 1 – Revista
Espírita - fev/24
Capítulo
2 – Revista Espírita - mar/24
Capítulo
3 – Revista Espírita - abr/24
Capítulo 4 –
Revista Espírita - mai/24
Capítulo
5 – Revista Espírita - jun/24
Capítulo
6 – Revista Espírita - jul/24
Capítulo
7 – Revista Espírita - ago/24
Capítulo 8 – Revista Espírita -
out/24
Destaca-se
que os elementos pré e pós-textuais, assim como prefácio, notas e comentários
presentes no livro são de responsabilidade exclusiva dos editores, sem
vinculação direta com Léon Denis.
O
método segue princípios de crítica textual e fidelidade semântica, buscando
avaliar a coerência da tradução com a concepção espírita de progresso moral e
responsabilidade individual expressa por Denis.
A
análise considera duas etapas complementares. A primeira consiste na
verificação formal e conceitual da tradução brasileira por Rodrigues,
observando a correspondência entre termos-chave do original francês e suas
equivalentes expressões em português, especialmente aquelas relacionadas a
conceitos doutrinários centrais como progresso, fraternidade, moral e
socialismo. A segunda etapa compreende a avaliação interpretativa das escolhas de
tradução e dos paratextos, em especial o prefácio e as notas editoriais,
verificando se introduzem interpretações ideológicas ou anacrônicas que
distorçam o sentido original da obra.
A
análise adota, sequencialmente, quatro categorias principais: (1) fidelidade
semântica, que verifica a correspondência de vocabulário e sentido; (2)
coerência doutrinária, que examina a preservação dos princípios fundamentais da
filosofia espírita; (3) neutralidade interpretativa, que identifica a inserção
de juízos ideológicos ou políticos alheios ao texto; e (4) integridade
estrutural, que observa eventuais omissões ou modificações na organização
textual.
Essa
abordagem insere-se no campo da crítica textual comparada, conforme proposto
por Bardin (2011) e Spina (1977), aplicada aqui à literatura espírita clássica,
com vistas à reconstituição fidedigna do pensamento do autor.
3. Análise
comparativa
Nesta
seção realiza-se a análise comparativa entre o conjunto de textos originais de
Socialismo e Espiritismo (1924) e a tradução brasileira publicada pela Casa
Editora O Clarim em 1982.
3.1 Prefácio
O
prefácio da edição brasileira, escrito por José Freitas Nobre em 1982, é um
texto extenso e fortemente ensaístico, distante do estilo e da intenção
filosófica de Léon Denis. Diferentemente de um prefácio introdutório ou
contextual, assume a forma de um manifesto social e político, com tom retórico
e argumentativo. Estruturalmente, apresenta-se como um texto autônomo, repleto
de citações bíblicas, doutrinárias e seculares, estendendo-se por cerca de dez
páginas antes do capítulo I.
Logo
no início, Nobre admite não conhecer o texto francês original que serviu de
base à tradução e informa que o convite partiu do tradutor Wallace Leal
Rodrigues. Este, ao incluir um político profissional, apesar de espírita, como
prefaciador, extrapola o papel de mediador editorial, introduzindo um texto
alheio à concepção da obra original.
O
prefácio desenvolve um panorama ideológico do socialismo, combinando
referências ao cristianismo social, à doutrina espírita e a críticas ao
capitalismo. Citando Allan Kardec, Arthur Conan Doyle, Thomas Morus, Einstein,
Léon Blum e Jean Jaurès, Nobre busca defender o que denomina “socialismo
cristão”. No entanto, essa leitura tende a suavizar a posição de Denis, que
rejeita explicitamente o socialismo materialista. Ao afirmar que o autor
francês “não conheceu os principais experimentos políticos originados das
teorias de Engels, Marx e Lênin” e que tais ideias “foram distorcidas com o
tempo”, Nobre incorre em um duplo equívoco: primeiro, porque Denis recebeu
notícias sobre os efeitos da Revolução Russa de 1917 e também criticou a
concepção materialista da história; segundo, porque sua análise parte de
princípios filosóficos que transcendem a conjuntura de seu tempo, baseados na
liberdade individual e na responsabilidade moral, elementos centrais da lei de
progresso e da ética espírita.
A
tentativa de relativizar as críticas de Denis como fruto de desconhecimento
histórico desvirtua o sentido original da obra, projetando sobre o autor uma
tolerância inexistente no texto francês. Nobre comete ainda um anacronismo ao
enquadrar Denis como precursor de um “socialismo cristão” ou de uma “terceira
via moral”, diluindo o rigor conceitual do “socialismo espiritualista” que
Denis propõe. Este conceito chega a tangenciar, em alguns aspectos, o
liberalismo moral de Frédéric Bastiat e Alexis de Tocqueville e afasta-se da formulação
coletivista materialista.
Denis
considera que a liberdade individual e a propriedade justa são condições
essenciais para o progresso moral e social, guardando uma certa semelhança com
o pensamento de Bastiat, ainda que pudessem diferenciar sobre a intensidade do
papel do Estado na vida dos cidadãos. Ambos, cada um com sua perspectiva, veem
o Estado como instrumento limitado, que não deve substituir a consciência e a
iniciativa pessoal, mas garantir justiça e segurança (BASTIAT, 2017). De
Tocqueville, Denis compartilha a convicção de que a democracia e a igualdade só
se sustentam quando fundadas na responsabilidade moral e na autonomia do
cidadão (TOCQUEVILLE, 2014). Nessa concepção, a solidariedade verdadeira é
sempre voluntária, fruto da regeneração interior e não de imposições políticas.
Ao
tentar reconciliar o Espiritismo com o socialismo sob a retórica da “justiça
social cristã”, Nobre não evidencia a profundidade da crítica de Denis, que
visa libertar o ideal de fraternidade das amarras do estatismo e do
igualitarismo compulsório. Denis não se distancia da concepção mais
generalizada de socialismo por ignorância, mas por coerência filosófica: para
ele, nenhuma reforma econômica ou política substitui a regeneração moral do
indivíduo e o primado da consciência livre.
Portanto,
o prefácio de Nobre deve ser compreendido como um acréscimo editorial de 1982,
impregnado de um contexto político eclesial e social específico, e não como
parte integrante da obra. Sua leitura requer cautela, pois tenta adaptar o
pensamento espiritualista de Denis às disputas ideológicas do final do século
XX. Essa apropriação altera a compreensão da mensagem original, que permanece
firmemente ancorada na liberdade, na responsabilidade e no progresso moral como
fundamentos da verdadeira fraternidade.
3.2. Capítulo I[1]
A
definição de socialismo apresentada por Léon Denis como “o estudo, a pesquisa e
a aplicação das leis e meios suscetíveis de melhorar a situação material,
intelectual e moral da humanidade” é moralmente digna, mas conceitualmente
inconsistente com o uso histórico e filosófico do termo.
Essa
definição incorre numa distorção conceitual ao utilizar o termo “socialismo”
num sentido genérico e harmonizador em um contexto histórico (1924) em que o
termo já designava movimentos e doutrinas com fundamentos econômicos, políticos
e materialistas bem definidos. Como observam Vincent (1992) e Winock (2017), na
França da Terceira República o socialismo já estava ligado ao debate entre
reformismo e marxismo, e não a um ideal de moral individual. Portanto, embora o
intento de Denis fosse conciliador, seu conceito carece de precisão teórica e
não pode ser equiparado nem ao socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier e
Owen, nem ao marxista, configurando-se antes como um projeto ético-espiritual
distinto, mas impropriamente nomeado.
A
concepção denisiana de socialismo se afasta do princípio coercitivo implícito
nas concepções socialistas clássicas. Desde suas origens, o socialismo, em suas
diversas vertentes, pressupõe um projeto de reordenação coletiva da sociedade,
frequentemente acompanhado da ideia de que o indivíduo deve submeter-se ao
interesse comum, seja pela planificação estatal, pela redistribuição
compulsória dos bens, eliminação ou restrição compulsória da propriedade
privada ou pela disciplina de classe. Essa dimensão impositiva, que parte do
coletivo para o indivíduo, constitui um dos eixos do pensamento socialista das
diferentes correntes.
Seu
“socialismo” espiritualista rejeita mecanismos impositivos de comportamentos e
não estabelece sistemas de controle, mas propõe a adesão consciente e livre às
leis morais universais, em harmonia com o princípio espírita de que “a
transformação individual precede toda regeneração social”. Ao enfatizar a
vontade e a responsabilidade pessoal, Denis rompe com o coletivismo coercitivo
das propostas socialistas e reafirma que a verdadeira fraternidade só pode
florescer em sociedades compostas por indivíduos moralmente livres. Nesse
sentido, o autor utiliza o termo “socialismo” de modo metafórico e ético, mesmo
com reflexos políticos e econômicos, situando sua proposta no domínio da
educação moral e da evolução espiritual.
Na
edição publicada pela Casa Editora O Clarim, o prefácio ou alguma Nota da
editora ou do tradutor não fazem qualquer menção ao anacronismo e à
impropriedade de se supor que o conceito de socialismo adotado por Léon Denis
equivaleria ao sentido político e econômico contemporâneo. Ao omitir essa
distinção fundamental, o texto introdutório conduz o leitor a uma leitura
descontextualizada, sugerindo uma continuidade inexistente entre o ideal
espiritualista de Denis e o socialismo partidário moderno. Essa ausência de
ressalva metodológica reforça a necessidade de uma abordagem crítica das
traduções e prefácios das obras clássicas espíritas, a fim de preservar a
fidelidade histórica e doutrinária do pensamento original do autor.
3.3. Capítulo II[2]
Léon
Denis desenvolve o exame moral e filosófico de sua concepção de socialismo,
situando-o dentro da lei universal de evolução. Ele afirma que o verdadeiro
progresso não pode ser alcançado por revoluções políticas ou imposições
econômicas, mas apenas pela elevação moral e espiritual do ser humano.
A
questão social é, para o autor, antes de tudo, uma questão de consciência: os
males do mundo não se resolvem pela redistribuição de riquezas, mas pela
reforma interior. Ele critica tanto o materialismo marxista quanto os
dogmatismos religiosos, defendendo um “socialismo idealista” que una justiça e
caridade sob a luz da reencarnação. Rejeita a violência e o despotismo,
afirmando que “o despotismo de baixo é pior que o de cima”, e propõe uma
sociedade baseada na solidariedade ativa, na educação moral e na fraternidade
consciente. O capítulo conclui enfatizando que o Espiritismo oferece os
princípios racionais e morais capazes de orientar uma verdadeira renovação
social.
Novamente,
neste capítulo, evidencia-se o contraste de Denis com as correntes socialistas materialistas
do século XIX e posteriores. Enquanto Marx, Engels e os socialistas científicos
concebiam o socialismo como resultado da luta de classes e da transformação das
estruturas econômicas, Denis o definia como uma reforma moral e espiritual do
indivíduo, conduzindo à regeneração social. Essa concepção elimina o conflito
entre capital e trabalho como motor da história e substitui o determinismo
materialista pela lei de evolução espiritual, baseada na responsabilidade e no
livre-arbítrio.
Para
Denis, nenhuma mudança duradoura pode surgir da violência ou da imposição
coletiva, pois toda transformação verdadeira começa na consciência. Essa
perspectiva espiritualista rompe com o princípio marxista da emancipação pela
revolução e reforça a aproximação do pensamento de Denis de uma ética
universalista inspirada na reencarnação, na fraternidade e na perfectibilidade
do Espírito.
Sobre
as categorias de análise da tradução de Wallace Rodrigues, aponta-se, a seguir,
os aspectos mais relevantes.
Na
questão semântica, há uma suavização da expressão da crítica social e política
presentes no original em que Denis afirma que “le despotisme d’en bas n’est
pas meilleur que celui d’en haut; il est plutôt pire”, traduzido de modo
atenuado por Rodrigues como “o despotismo das classes inferiores não é melhor
que o das superiores”. O adjetivo “pior” e o advérbio “plutôt” (ainda mais) são
omitidos, diluindo o contraste moral pretendido.
Em
um trecho específico, em que Denis comenta o período após a guerra (1914-1918)
e escreve que “Do ponto de vista espiritual, é necessário regenerar o povo pelo
trabalho e por uma nova orientação”, há uma significativa distorção na
tradução, sob a perspectiva semântica, econômica e ética. Na continuação da frase “... car
c’est par le travail qu’on peut créer les objets nécessaires aux échanges qui
sont les sources vitales de l’existence.”, que deveria ser traduzida por
“... pois é pelo trabalho que se podem criar os objetos necessários às trocas,
que são as fontes vitais da existência”, Rodrigues usa “mudanças” na tradução
de “échanges” ao invés do conceito econômico de “trocas”, alterando,
assim, o significado original.
Imediatamente
na sequência, Rodrigues acrescenta uma frase, inexistente no texto em
francês, a saber: “Como deter esse desbordamento de paixões que arrastam
para o abismo?”. Com isso, o tradutor introduz um tom pessimista e emocional,
que desloca o sentido reflexivo para um apelo moralista e apocalíptico. Esse
acréscimo indevido fere o aspecto ético da tradução.
Continuando a frase, a redação de Denis é “Qu’est-ce
qui sert à l’échange? C’est l’argent. Donc l’argent, qui depuis la guerre avait
perdu de sa valeur par suite de sa trop grande diffusion, devra la reprendre
graduellement en raison de l’effort et du travail national.”. Rodrigues
assim traduz esse trecho: “De que serve a troca? É o dinheiro! Pois o dinheiro,
que depois da guerra havia perdido o seu valor, em seguida à sua grande
defasagem, deverá restabelecer-se gradualmente, em razão do esforço e do
trabalho nacional.”. Desta vez, Rodrigues utiliza o termo adequado para “échange”
e traduz por “troca”. Ao optar pela tradução de “argent” como sendo “dinheiro”,
semanticamente há respaldo para essa escolha, mas sob a perspectiva técnico-econômica,
poderia usar o termo “moeda”. Outro conceito econômico usado por Denis, esse traduzido
com significativa distorção, é “diffusion”, que Rodrigues opta por
“defasagem”. O sentido correto relaciona-se à “expansão” da moeda e seria
aceitável manter o que Denis chamou de “difusão”.
Diante dessas observações, evidencia-se que as
divergências encontradas envolvem tanto aspectos semânticos quanto éticos,
sobretudo pela introdução de termos e expressões inexistentes no original, o
que compromete a neutralidade da tradução e fere o princípio da retidão
filológica. No campo econômico, a substituição de alguns conceitos demonstra
incompreensão dos fundamentos técnico-econômicos subjacentes ao texto de Denis
em seu contexto pós-guerra. Apesar dessas falhas, a tradução conserva coerência
doutrinária com o Espiritismo ao manter a primazia da educação moral, da
fraternidade e da responsabilidade individual como bases do progresso coletivo.
Quanto à integridade estrutural, as alterações não comprometem o encadeamento
das ideias, mas indicam a necessidade de revisão crítica que restabeleça a
exatidão conceitual e o rigor semântico, assegurando a fidelidade ao pensamento
original de Léon Denis.
3.4. Capítulo III[3]
Neste
capítulo, Denis continua a refletir sobre a crise moral e espiritual da
humanidade, reafirmando que a causa fundamental dos males sociais está no materialismo,
egoísmo e na ignorância moral. Sua argumentação sustenta que a regeneração
coletiva só pode ocorrer por meio da educação espiritual sem dogmatismos, do
trabalho e da caridade, e não por revoluções ou imposições políticas. Nesse aspecto,
a tradução de Wallace Rodrigues, mostra-se fluente, com poucos pontos a serem
destacados, como por exemplo, ao substituir o termo “utopies” por
“fantasias”, cujo significado é semelhante, mas pode esconder uma associação
que deveria ser mais direta ao socialismo utópico. No original, Denis rejeita
as “utopias”, isto é, as doutrinas sociais idealistas que ignoravam as leis
morais da vida, e não a imaginação fantasiosa, simplesmente.
A
tradução de Rodrigues conserva a coerência doutrinária com o Espiritismo,
preservando a tese central de que o progresso social deriva do progresso moral
do Espírito. Ainda que a substituição de “utopies” por “fantasias”
empobreça o rigor conceitual e afaste o texto da tradição filosófica do
socialismo utópico, o conteúdo espiritualista permanece íntegro. O capítulo
mantém o equilíbrio entre ética e razão, reafirmando que a regeneração humana
se realiza pelo trabalho e pela educação moral, e não pela revolução ou pela
coerção política.
3.5 Capítulo IV[4]
O
Capítulo IV de “Socialisme et Spiritisme, publicado na edição de
maio/1924 da Revista Espírita, marca um ponto decisivo na argumentação de Léon
Denis, pois nele o autor se afasta das concepções socialistas predominantes de
sua época e estabelece os fundamentos no que denominou “socialismo idealista”,
centrado na justiça moral e na liberdade individual. Denis, paradoxalmente, enaltece
valores liberais, como a livre iniciativa, mérito e o esforço individual como
elementos para o progresso social, criticando os socialistas franceses que tudo
esperam do Estado. Denis, ainda, destaca que em quase todos os lugares que os
socialistas se instalaram “constatou-se um recrudescimento dos procedimentos
arbitrários e das desordens nas finanças”, demonstrando a incompetência desses
administradores na gestão pública. Praticamente, Denis reproduz as críticas de
pensadores liberais contra o socialismo, mas mesmo assim, ele considerou que
sua concepção peculiar de socialismo, espiritualizado, seria uma denominação
apropriada.
O texto
original é claro ao distinguir entre a legítima aspiração por equidade social e
os sistemas materialistas que pretendiam alcançar esse ideal pela abolição da
propriedade privada ou pela coerção política. Denis reconhece que a propriedade
é um direito natural, decorrente do trabalho e da responsabilidade, e que se
torna ilegítima apenas quando fundada na exploração e no egoísmo. Sua crítica
dirige-se não à posse em si, mas ao uso imoral dos bens e aos problemas sociais
que decorrem do orgulho humano. Assim, ele reafirma a necessidade de uma
regeneração interior antes de qualquer reforma exterior, em plena coerência com
a filosofia espírita, para a qual o progresso moral precede o progresso
material (ver O Livro dos Espíritos, questão 793, de Allan Kardec).
Sobre
Karl Marx, Denis o qualifica como “um homem ácido e odioso”, cuja doutrina
baseava-se na luta de classes e no antagonismo, envenenando as relações humanas
em vez de pacificá-las. Para ele, o marxismo reduz o homem ao interesse
econômico e à revolta contra a ordem social, suprimindo a liberdade moral e
espiritual. Inclusive, Denis destaca que “o marxismo foi o responsável pelo
malogro econômico da revolução Russa”.
Em
relação a Charles Fourier, Denis reconhece a engenhosidade de suas teorias de
organização social e de harmonia das paixões, mas critica o caráter utópico e
sensualista de suas propostas, desprovidas de base espiritual e de sentido
moral. Quanto ao anarquista Pierre-Joseph Proudhon, o autor reprova sua
oscilação entre o idealismo e o ceticismo, lembrando que, ao negar a divindade
e afirmar que “a propriedade é um roubo”, o pensador francês destruiu o
fundamento ético sobre o qual qualquer sociedade justa poderia se sustentar.
Denis conclui que esses sistemas, embora inspirados pelo desejo sincero de
justiça, permanecem condenados ao fracasso porque ignoram a lei superior de
evolução do Espírito e substituem a fraternidade voluntária pela coerção
coletiva.
Sob
o ponto de vista analítico, a tradução apresenta fidelidade semântica ao
preservar as ideias centrais e coerência doutrinária ao explicitar a defesa da
propriedade justa e do progresso moral. A integridade estrutural é
satisfatória, mas as longas notas opinativas e simpáticas do tradutor sobre
Fourier, Proudhon e sobre o bolchevismo, comprometem, em parte, a esperada
neutralidade interpretativa. Por outro lado, ao não emitir qualquer nota sobre
outros autores citados, como Ludwig Büchner, Jacob Moleschott e Lucien
Deslinières, pode-se questionar o motivo dessa omissão, principalmente porque
tais nomes são representantes do materialismo. Deslinières, após passar um ano
na “Russia Soviética”, abandonou completamente suas convicções marxistas e publicou,
em 1923, a obra “Livrai-nos do marxismo!” (Délivrez-nous du Marxisme!)[5], da qual Denis transcreve
alguns trechos e foram devidamente traduzidos por Rodrigues.
Por
mais que possa parecer contraditório sob lentes anacrônicas de hoje, a posição
de Léon Denis aproxima-se, sob determinados aspectos, de algumas concepções do
liberalismo clássico, especialmente no que diz respeito à defesa da liberdade
moral, da responsabilidade individual e do direito natural à propriedade. Denis
reconhece que a harmonia social decorre do livre exercício das faculdades humanas
sob o amparo da justiça e da moral, e não da coerção estatal. Compartilha,
ainda, a convicção de que as leis econômicas são expressões da ordem natural e
que a intervenção do Estado, quando excessiva, rompe o equilíbrio entre
liberdade e justiça. Denis também se aproxima de Adam Smith (2017) e John
Stuart Mill (2018) ao compreender a solidariedade autêntica como fruto da ação
voluntária do indivíduo, e não como imposição legal. Da mesma forma, sua crença
no progresso moral pela educação e pelo mérito encontra eco em Alexis de
Tocqueville (2014), para quem a liberdade e a virtude constituem o fundamento
ético da civilização democrática. Nesse sentido, o “socialismo idealista” de
Denis dialoga com o humanismo liberal, em que a transformação social resulta do
uso ético da liberdade e da consciência moral, e não de reformas políticas radicais
e impostas ou de estruturas econômicas coercitivas, mesmo que Denis também
demonstre grande simpatia pelo socialismo democrático, republicano e humanista de
Jean Jaurès.
3.6 Capítulo V[6]
No
Capítulo V, reforça-se a ideia de que toda reforma social depende, antes de
tudo, da reforma moral e espiritual do homem. Enquanto os reformistas insistem
em divulgar os direitos que todos deveriam ter, esquecem de detalhar os deveres
inerentes a cada um. Denis afirma que “não há outro direito senão aquele que
resulta dos méritos adquiridos, dos serviços prestados e de uma participação
eficaz na obra de civilização e progresso”. Critica-se, ainda, os sistemas
políticos que buscam corrigir desigualdades apenas pela redistribuição
material, afirmando-se que a verdadeira transformação começa na consciência
individual. Outra afirmação é que o progresso coletivo só se realiza quando o
ser humano reconhece sua natureza espiritual e assume responsabilidade por seus
atos.
Denis
ressalta que a fraternidade e a caridade são forças regeneradoras capazes de
harmonizar as relações entre classes e povos. Ele sustenta que a educação
moral, iluminada pelo Espiritismo, deve substituir a coerção e o conflito como
instrumentos de mudança social. O “socialismo idealista”, portanto, propõe a
elevação do Espírito como motor do progresso, rejeitando tanto o determinismo
econômico quanto o autoritarismo político.
A
tradução desse capítulo por Rodrigues mantém, em linhas gerais, a estrutura e o
conteúdo argumentativo de Léon Denis.
Em
fidelidade semântica, a tradução é globalmente correta. A coerência doutrinária
permanece íntegra, apontando para a prioridade do aperfeiçoamento moral e
responsabilidade individual. Sobre a neutralidade interpretativa, não há
mudanças que invertam a tese do autor. Por fim, a integridade estrutural é
satisfatória, indicando que o capítulo está completo e na ordem, sem alterar o
encadeamento das ideias.
3.7 Capítulo VI[7]
Neste capítulo, Léon Denis argumenta que o Espiritismo
oferece a base filosófica fundamental para uma transformação social positiva,
substituindo o conflito pela fraternidade universal. Ele defende que este
princípio, entendido como a fraternidade das almas em evolução, é a chave para
resolver problemas sociais e dissipar ódios. Criticando o socialismo
materialista por negligenciar o espírito imortal, o autor propõe o que ele
supõe que seria o "verdadeiro socialismo" alinhado com as leis
universais, que valorize o trabalho e compreenda o sofrimento como uma
ferramenta essencial para o refinamento moral. Pela doutrina da reencarnação,
que explica as desigualdades naturais e a estagnação moral aparente, o texto
enfatiza que a reforma da sociedade começa com a educação e a reforma interior
do indivíduo, culminando em uma visão esperançosa de que a solidariedade humana
e uma nova revelação espiritual estão a preparar um futuro mais iluminado para
a humanidade. Segundo Denis, o homem espiritualizado aprende a amar a família e
a Pátria, com a plena noção da grande família humana.
A
tradução do Capítulo VI realizada por Rodrigues preserva o conteúdo essencial
do texto de Léon Denis. Em termos de fidelidade semântica, o tradutor respeita
a sequência argumentativa e o sentido global do original. A coerência
doutrinária é plenamente mantida, pois a tradução conserva a ênfase na
fraternidade universal, na reencarnação como princípio de justiça e no trabalho
como lei moral, em conformidade com a filosofia espírita. Sob o aspecto da
neutralidade interpretativa, não há observação significativa e, quanto à
integridade estrutural, o capítulo é completo e organizado conforme o original.
3.8 Capítulo VII[8]
A ênfase desse capítulo difere dos anteriores por tratar,
especificamente, de um tema político que Denis declarara inicialmente não querer
enfatizar. O texto adquire um tom mais conjuntural, analisando as crises
políticas e econômicas da Europa do pós-guerra, a decadência das instituições e
a falência moral dos sistemas materialistas e revolucionários. Denis afirma que
a humanidade vive um período de transição e sofrimento necessário, no qual as
ideologias políticas, sejam conservadoras, socialistas ou anarquistas,
fracassam por ignorar as leis espirituais que regem a evolução.
Ainda
que reconheça a importância das reformas sociais e do trabalho coletivo, Denis
insiste que nenhuma transformação será estável enquanto não houver uma
renovação moral profunda do indivíduo. Ele reafirma que o Espiritismo oferece
os princípios capazes de orientar essa reconstrução, por unir razão, fé e
justiça. Para Denis, a solução da crise moderna não virá dos partidos nem das
revoluções, mas da educação espiritual das massas e do despertar da consciência
individual. O capítulo encerra com uma nota de esperança: após o caos político
e moral, surgirá uma civilização mais solidária e fraterna, baseada no
conhecimento da realidade da vida com a colaboração estreita do mundo invisível,
na moral universal e na cooperação entre os povos.
A
análise do capítulo VII da tradução de Wallace Leal Rodrigues em comparação com
o texto original francês de Léon Denis mostra que, de modo geral, a tradução
mantém-se adequada, mas há pequenas imprecisões na fidelidade semântica com
reflexos doutrinários.
No penúltimo
parágrafo, coerentemente Denis aponta a situação de que, desencarnado, o
Espírito não possui necessidades orgânicas, mas pode manter os desejos e isso
ser motivo de tormento. Em um trecho original, encontra-se a frase “si les
besoins disparaissent avec le corps, les désirs, qui sont de l’esprit,
persistent avec lui...”, em que Denis expressa uma afirmação categórica: as
necessidades materiais efetivamente desaparecem com o corpo, mas os desejos do
Espírito persistem. Trata-se de uma proposição ontológica, que descreve uma lei
natural da sobrevivência do Espírito após a morte. Rodrigues, por sua vez,
empregou o modo subjuntivo e traduziu por “se as necessidades desaparecessem
com o corpo, os desejos que são do espírito persistem nele...”. O trecho
traduzido introduz incerteza e transforma um ponto doutrinário em uma hipótese
condicional, sugerindo dúvida quanto à extinção das necessidades físicas. Essa
modificação compromete a fidelidade semântica e dilui a clareza filosófica do
argumento de Denis. Do ponto de vista doutrinário, o trecho original está
plenamente de acordo com o ensino dos Espíritos, conforme pode-se constatar no
artigo de Allan Kardec intitulado Quadro da Vida Espírita, publicado na Revista
Espírita em abril de 1859[9].
Em
termos de neutralidade interpretativa, não há viés ideológico e a integridade
estrutural não está comprometida.
3.9 Capítulo VIII[10]
O
último da série de oito artigos de Léon Denis atua como uma síntese filosófica
e moral das ideias desenvolvidas anteriormente, voltando-se à dimensão
espiritual da transformação social.
O
texto examina as significativas conquistas sociais da Terceira República
Francesa, como a criação de seguros sociais, aposentadorias e a drástica
redução do desemprego, fruto de um esforço reformista gradual e metódico. No
entanto, apesar desses avanços materiais, persiste um estado de
descontentamento e desconfiança entre a classe trabalhadora, que foi
historicamente decepcionada. Este mal-estar revela que a solução para a questão
social não reside apenas em melhorias econômicas, mas exige também uma resposta
aos anseios morais e à demanda por justiça.
Como
solução, o autor propõe o "socialismo espiritualista", um modelo que
alia reformas práticas, como garantir o bem-estar, a educação integral e a
proteção aos mais vulneráveis, a um ideal moral elevado. O Espiritismo é
apresentado como a base filosófica essencial para esta visão, pois oferece uma
fundamentação racional para os princípios de solidariedade e fraternidade,
demonstrando que eles são, na verdade, leis universais que regem a evolução
humana, e não meras construções sociais passageiras.
A
obra conclui que a verdadeira regeneração social só será alcançada quando um
"pensamento elevado" irradiar sobre a sociedade, dissipando os
conflitos de classe e unindo esforços em torno de um objetivo comum. Assim, o
futuro depende da fusão entre o progresso material e a renovação espiritual,
onde o Espiritismo, com sua doutrina consoladora e sua visão de justiça
imanente, serve como o guia para estabelecer instituições sociais mais sábias,
harmoniosas e verdadeiramente fraternas.
A
proposta de Léon Denis em Socialisme et Spiritisme define um “socialismo
espiritualista” que se afasta das correntes materialistas e revolucionárias do
socialismo europeu do século XIX, aproximando-se, com ressalvas, ao socialismo
humanista de Jean Jaurès e, ainda, dialogando com princípios do liberalismo
econômico clássico. Para Denis, a regeneração social não depende da imposição
de reformas econômicas ou de um Estado controlador, mas da elevação moral e da
liberdade de consciência do indivíduo. O progresso verdadeiro nasce da
responsabilidade pessoal e da solidariedade espontânea, não da coerção. Assim,
a ação solidária só tem valor ético se for voluntária, motivada pelo
reconhecimento da fraternidade espiritual entre os homens, e não pelo dever
imposto por leis ou instituições. Essa visão guarda afinidade com o pensamento
liberal de que a liberdade individual e a livre iniciativa são condições
indispensáveis para o desenvolvimento social e moral, uma vez que a caridade
forçada, como o assistencialismo estatal ou o igualitarismo coercitivo, destrói
o mérito, a autonomia e a virtude.
Denis,
portanto, propõe um humanismo espiritual que harmoniza liberdade e
responsabilidade, reconhecendo que as leis econômicas naturais, quando
iluminadas pela moral do Evangelho e pela consciência do Espírito, conduzem ao
equilíbrio social mais eficaz do que qualquer revolução política.
A
tradução realizada por Rodrigues, de forma geral, manteve-se fiel ao texto
deste capítulo, tanto nos aspectos semânticos, quanto doutrinários, de
neutralidade ideológica e com relação à integridade estrutural.
3.10 Síntese
Analítica
A
análise dos oito capítulos e do prefácio da edição brasileira de Socialismo e
Espiritismo evidencia um conjunto de tensões entre o texto original de Léon
Denis, publicado em 8 artigos na Revista Espírita no ano de 1924 e a versão
publicada pela Casa Editora O Clarim em 1982. O prefácio redigido por José
Freitas Nobre, com forte viés político e interpretativo, insere um discurso
anacrônico e ideológico que se afasta da proposta filosófico-espiritual de
Denis, reinterpretando a obra sob o prisma do “socialismo cristão” e do
contexto brasileiro da redemocratização. Tal inserção extrapola o papel de
mediação editorial e altera a recepção do texto original, justificando a
necessidade de uma leitura crítica e histórica dessa edição.
No
conjunto dos capítulos, a tradução de Wallace Leal Rodrigues demonstra esforço
de preservação doutrinária, apesar de apresentar oscilações de fidelidade
semântica e precisão conceitual. Em alguns trechos, há substituições
terminológicas que suavizam a crítica econômica ou inserem expressões
inexistentes no original, como no Capítulo II, onde se introduz frase alheia ao
texto francês, e em outros pontos em que se observa incompreensão de termos
técnicos ou filosóficos, como “échange” (troca) e “diffusion”
(difusão ou expansão monetária). Ainda assim, a estrutura geral da obra foi
mantida, e a coerência doutrinária essencial ao Espiritismo, baseada no
livre-arbítrio, na fraternidade voluntária e na responsabilidade moral,
permanece íntegra.
No
plano filosófico e social, a leitura integral revela que Léon Denis constrói
uma crítica sistemática às concepções materialistas do socialismo e propõe um
“socialismo espiritualista” (ou idealista), com semelhanças à proposta de Jean
Jaurès e, simultaneamente, ao humanismo liberal e ético.
Ao
contrário da maioria dos socialistas de seu tempo, Denis defende a propriedade
privada legitimada pelo trabalho e condena a coerção coletiva e o autoritarismo
estatal, sustentando que a verdadeira solidariedade é fruto da adesão livre e
consciente às leis morais universais. Essa visão coloca a regeneração social
como consequência do progresso interior e não de reformas políticas ou
econômicas impostas.
A
tradução brasileira, embora mantenha a estrutura e a sequência argumentativa,
carece por vezes de neutralidade interpretativa e rigor terminológico, pois
Rodrigues se predispõe a oferecer notas de contextualização parciais,
omitindo-se sobre os cuidados contra a interpretação descontextualizada sob
lentes atuais, o que evidencia a importância de edições críticas que
restabeleçam o sentido filosófico e moral pretendido por Denis, sem anacronismo
nem interferências ideológicas.
4. Considerações
finais
A análise crítica da
edição brasileira de Socialismo e Espiritismo, publicada pela Casa Editora O
Clarim em 1982, permite concluir que a obra apresenta problemas estruturais e
interpretativos que podem comprometer a compreensão fiel do pensamento de Léon
Denis sem a devida contextualização. O principal problema é a inclusão de um
prefácio ideologicamente enviesado, redigido por José Freitas Nobre que, apesar
de espírita, assume sua condição de político profissional partidário das
propostas socialistas modernas, que altera substancialmente o enquadramento
filosófico da obra original. O texto prefacial, com caráter de ensaio político,
procura aproximar o Espiritismo de um “socialismo cristão” adaptado às
discussões sociais e partidárias do Brasil dos anos 1980, o que descaracteriza
a proposta espiritualista e liberal de Denis. Essa inserção indevida projeta
sobre o autor francês uma tolerância e uma conotação política inexistentes no
texto original de 1924, reduzindo a profundidade de sua crítica ao socialismo
materialista e deslocando o foco da obra de seu eixo moral e filosófico para um
discurso social de matriz ideológica.
Outro
problema relevante é inserção de notas explicativas para determinados
personagens e fatos históricos, mas a completa ausência de notas que pudessem
orientar o leitor quanto ao sentido conceitual do termo “socialismo” utilizado
por Denis. Essa omissão favorece interpretações anacrônicas e confusões entre o
“socialismo espiritualista”, entendido por Denis como fraternidade moral e
aperfeiçoamento individual mediante o conhecimento das leis divinas, e as
correntes socialistas materialistas de cunho econômico e político que se
desenvolveram ao longo do século XX e adentraram no século XXI. Ao não advertir
o leitor sobre a diferença entre o ideal ético de Denis e o socialismo
partidário moderno, a edição de O Clarim contribui involuntariamente para uma
associação equivocada, que aproxima indevidamente o Espiritismo de concepções
coletivistas e estatistas.
Além
dessas distorções paratextuais, embora a tradução de Wallace Leal Rodrigues
mantenha, em linhas gerais, a coerência doutrinária e a sequência argumentativa
da obra, faltam-lhe rigor terminológico e neutralidade interpretativa. Em
alguns trechos, a escolha lexical insere expressões inexistentes no original,
comprometendo a precisão semântica, como em alguns conceitos econômicos. A
ausência de uma postura crítica mais explícita diante do contexto histórico e
terminológico da obra impede que a edição brasileira cumpra integralmente seu
papel de mediação filológica.
Recomenda-se,
portanto, a publicação de edições fundamentadas exclusivamente no texto
original em francês, tal como publicado na Revue Spirite em 1924,
acompanhadas de aparato crítico e explicativo que situe o leitor quanto ao
contexto intelectual, político e semântico da época em que Léon Denis escreveu
a obra.
Iniciativas
recentes, como as do Portal Luz Espírita[11], ao promoverem novas
traduções e comentários, caminham nessa direção ao alertar para as diferenças
entre as acepções do termo “socialismo” no início do século XX e aquelas
predominantes na contemporaneidade. Esse esforço hermenêutico é essencial para
evitar leituras anacrônicas e interpretações ideologizadas. Torna-se igualmente
necessário restabelecer, de modo inequívoco, a distinção entre o socialismo
espiritualista de Denis, alicerçado na liberdade individual, na
responsabilidade moral e na fraternidade voluntária, e as correntes
materialistas, como a marxista, que ele analisou criticamente e refutou de
forma explícita. Somente assim será possível preservar a coerência doutrinária
e a relevância filosófica da obra, permitindo que o leitor contemporâneo
compreenda seu real alcance moral e espiritual, sem projeções conceituais
estranhas ao pensamento do autor.
Referências
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lei. Tradução de Ives Gandra da Silva Martins. 3. ed. São Paulo: Edipro,
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[2] Texto original publicado em https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k2710629w/f9.item
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Texto disponível em https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/893/revista-espirita-jornal-de-estudos-psicologicos-1859/4529/abril/quadro-da-vida-espirita
[10] Texto original publicado em https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k27106361/f6.item

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