Marco
Milani
Existe uma habilidade retórica bastante difundida no ambiente político
contemporâneo que consiste em tomar palavras de forte valor moral e esvaziá-las
de seu significado original para preenchê-las com conteúdo ideológico
conveniente. O expediente não é novo, mas segue funcional. Nos Estados Unidos,
por exemplo, correntes marcadamente intervencionistas há décadas se
autodenominam liberais, apesar de defenderem precisamente a ampliação do poder
estatal que o liberalismo histórico surgiu para limitar. A contradição é
evidente, mas a persistência do uso mostra que, muitas vezes, vencer no
vocabulário parece mais fácil do que vencer no campo das ideias.
Algo semelhante ocorre quando militantes político-partidários tentam
anexar ao seu discurso o caráter progressivo do Espiritismo. A operação
semântica é ardilosa. Parte-se de uma palavra nobre (progresso), descola-se do seu sentido
doutrinário e, em seguida, cola-se o rótulo em programas baseados em coerção
legal, centralização econômica, tutela do indivíduo e desapropriação de bens. O
resultado é uma aparência de afinidade moral que não resiste a uma análise
séria.
No Espiritismo, progresso não significa uniformização material nem
nivelamento imposto por decretos. Progresso é transformação moral do Espírito,
ampliação da consciência, responsabilidade pessoal crescente e liberdade de
escolher o bem de forma lúcida. Trata-se de movimento interior, gradual e
livre, incompatível com qualquer tentativa de fabricar virtudes por meio de
mecanismos compulsórios. A lei divina educa, não força. Esclarece, não
enquadra. Exige mérito, não submissão burocrática.
Quando projetos estatizantes se apresentam como expressão desse
progresso, a contradição torna-se quase pedagógica. A Doutrina afirma a
autonomia do Espírito; a proposta política enfatiza dependência estrutural. A
Doutrina valoriza responsabilidade individual; o discurso militante desloca a
causa dos problemas sempre para entidades abstratas que devem ser controladas
por mais poder central. A Doutrina confia no aperfeiçoamento moral; a
engenharia social confia em regulamentos, punições e redistribuições impostas.
Chamar isso de convergência não é interpretação generosa. É simples inversão de
sentido.
Convém lembrar, ademais, que a preocupação com a melhoria das
condições de vida, a redução do sofrimento material e o desenvolvimento social
da população não constitui monopólio moral de nenhuma corrente econômica ou
ideológica. Trata-se de objetivo compartilhado, ainda que por caminhos
distintos, por diferentes tradições de pensamento que buscam promover
prosperidade, dignidade humana e oportunidades reais de progresso. Transformar
essa preocupação universal em selo exclusivo de virtude política não eleva o
debate; apenas o empobrece.
Há também um componente de conveniência psicológica nessa apropriação.
Ligar-se a uma proposta espiritual respeitada confere legitimidade simbólica
imediata. O militante deixa de parecer apenas um defensor de determinado
programa político e passa a vestir a aparência de agente moral do progresso
humano. O problema é que essa legitimidade é obtida por empréstimo indevido.
Não nasce da coerência com os princípios doutrinários, mas da expectativa de
que poucos irão verificar a compatibilidade real entre discurso e fundamento.
O método kardequiano, contudo, não abraça confusões desse tipo. Ele
exige definição clara de conceitos, exame racional das ideias e distinção entre
opinião pessoal e princípio doutrinário. Sob esse critério, reduzir o progresso
espiritual a plataformas políticas específicas revela mais sobre a fragilidade
intelectual do argumento do que sobre a Doutrina que se pretende invocar. É
tentativa de transformar preferência ideológica em necessidade moral universal,
expediente comum na retórica partidária e estranho à postura crítica que
caracteriza o pensamento espírita.
Nada disso impede que espíritas, como cidadãos livres, possuam
posições políticas variadas. A liberdade de consciência é elemento central da
própria Doutrina. O problema começa quando essa liberdade é abandonada em favor
de uma identificação obrigatória entre Espiritismo e determinada agenda
político-ideológica. Nesse momento, deixa-se o campo da convicção pessoal e
entra-se no terreno da instrumentalização religiosa, prática antiga, pouco
elegante e intelectualmente duvidosa.
No fim, a apropriação indevida do caráter progressivo do Espiritismo
por militantes políticos revela menos sobre política e mais sobre linguagem.
Muda-se o significado das palavras esperando que a realidade acompanhe a
mudança. Progresso passa a significar controle, liberdade passa a significar
tutela, solidariedade passa a significar coerção administrada. A retórica pode
até soar elevada, mas a inversão permanece visível para quem ainda leva
conceitos a sério.
O progresso espírita continua sendo aquilo que sempre foi. Ele começa
no indivíduo, desenvolve-se pela consciência e realiza-se pela liberdade
responsável. Não precisa de slogans, decretos ou partidos para existir. Talvez
seja justamente por isso que tantos tentem capturá-lo no discurso. Onde há
prestígio moral, sempre aparece quem deseje usá-lo como bandeira. Entretanto,
rótulos políticos mudam com o tempo. Princípios espirituais, quando autênticos,
não.
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