quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A apropriação indevida do caráter progressivo do Espiritismo por militantes político-partidários


 A apropriação indevida do caráter progressivo do Espiritismo por militantes político-partidários

 

Marco Milani

 

Existe uma habilidade retórica bastante difundida no ambiente político contemporâneo que consiste em tomar palavras de forte valor moral e esvaziá-las de seu significado original para preenchê-las com conteúdo ideológico conveniente. O expediente não é novo, mas segue funcional. Nos Estados Unidos, por exemplo, correntes marcadamente intervencionistas há décadas se autodenominam liberais, apesar de defenderem precisamente a ampliação do poder estatal que o liberalismo histórico surgiu para limitar. A contradição é evidente, mas a persistência do uso mostra que, muitas vezes, vencer no vocabulário parece mais fácil do que vencer no campo das ideias.

Algo semelhante ocorre quando militantes político-partidários tentam anexar ao seu discurso o caráter progressivo do Espiritismo. A operação semântica é ardilosa. Parte-se de uma palavra nobre (progresso), descola-se do seu sentido doutrinário e, em seguida, cola-se o rótulo em programas baseados em coerção legal, centralização econômica, tutela do indivíduo e desapropriação de bens. O resultado é uma aparência de afinidade moral que não resiste a uma análise séria.

No Espiritismo, progresso não significa uniformização material nem nivelamento imposto por decretos. Progresso é transformação moral do Espírito, ampliação da consciência, responsabilidade pessoal crescente e liberdade de escolher o bem de forma lúcida. Trata-se de movimento interior, gradual e livre, incompatível com qualquer tentativa de fabricar virtudes por meio de mecanismos compulsórios. A lei divina educa, não força. Esclarece, não enquadra. Exige mérito, não submissão burocrática.

Quando projetos estatizantes se apresentam como expressão desse progresso, a contradição torna-se quase pedagógica. A Doutrina afirma a autonomia do Espírito; a proposta política enfatiza dependência estrutural. A Doutrina valoriza responsabilidade individual; o discurso militante desloca a causa dos problemas sempre para entidades abstratas que devem ser controladas por mais poder central. A Doutrina confia no aperfeiçoamento moral; a engenharia social confia em regulamentos, punições e redistribuições impostas. Chamar isso de convergência não é interpretação generosa. É simples inversão de sentido.

Convém lembrar, ademais, que a preocupação com a melhoria das condições de vida, a redução do sofrimento material e o desenvolvimento social da população não constitui monopólio moral de nenhuma corrente econômica ou ideológica. Trata-se de objetivo compartilhado, ainda que por caminhos distintos, por diferentes tradições de pensamento que buscam promover prosperidade, dignidade humana e oportunidades reais de progresso. Transformar essa preocupação universal em selo exclusivo de virtude política não eleva o debate; apenas o empobrece.

Há também um componente de conveniência psicológica nessa apropriação. Ligar-se a uma proposta espiritual respeitada confere legitimidade simbólica imediata. O militante deixa de parecer apenas um defensor de determinado programa político e passa a vestir a aparência de agente moral do progresso humano. O problema é que essa legitimidade é obtida por empréstimo indevido. Não nasce da coerência com os princípios doutrinários, mas da expectativa de que poucos irão verificar a compatibilidade real entre discurso e fundamento.

O método kardequiano, contudo, não abraça confusões desse tipo. Ele exige definição clara de conceitos, exame racional das ideias e distinção entre opinião pessoal e princípio doutrinário. Sob esse critério, reduzir o progresso espiritual a plataformas políticas específicas revela mais sobre a fragilidade intelectual do argumento do que sobre a Doutrina que se pretende invocar. É tentativa de transformar preferência ideológica em necessidade moral universal, expediente comum na retórica partidária e estranho à postura crítica que caracteriza o pensamento espírita.

Nada disso impede que espíritas, como cidadãos livres, possuam posições políticas variadas. A liberdade de consciência é elemento central da própria Doutrina. O problema começa quando essa liberdade é abandonada em favor de uma identificação obrigatória entre Espiritismo e determinada agenda político-ideológica. Nesse momento, deixa-se o campo da convicção pessoal e entra-se no terreno da instrumentalização religiosa, prática antiga, pouco elegante e intelectualmente duvidosa.

No fim, a apropriação indevida do caráter progressivo do Espiritismo por militantes políticos revela menos sobre política e mais sobre linguagem. Muda-se o significado das palavras esperando que a realidade acompanhe a mudança. Progresso passa a significar controle, liberdade passa a significar tutela, solidariedade passa a significar coerção administrada. A retórica pode até soar elevada, mas a inversão permanece visível para quem ainda leva conceitos a sério.

O progresso espírita continua sendo aquilo que sempre foi. Ele começa no indivíduo, desenvolve-se pela consciência e realiza-se pela liberdade responsável. Não precisa de slogans, decretos ou partidos para existir. Talvez seja justamente por isso que tantos tentem capturá-lo no discurso. Onde há prestígio moral, sempre aparece quem deseje usá-lo como bandeira. Entretanto, rótulos políticos mudam com o tempo. Princípios espirituais, quando autênticos, não.


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