A refutação
espírita à falácia de Dawkins
Marco Milani
Richard
Dawkins tornou-se uma das vozes mais conhecidas do ateísmo cientificista. Seu livro The God Delusion (2006) propõe que a crença em
Deus é um produto cultural infundado e que a ciência moderna teria tornado
desnecessária a hipótese divina. No entanto, sob análise filosófica rigorosa,
sua argumentação revela uma falha epistemológica essencial: o autor confunde
diferentes níveis de explicação, tratando o problema metafísico da existência
como se fosse uma questão de biologia evolucionista. Essa confusão, já apontada
por filósofos e cientistas de distintas tradições, mostra que o alvo de Dawkins
não é o conceito de Deus como causa primeira, mas uma caricatura de divindade
intervencionista, alheia ao sentido ontológico presente na filosofia clássica e
nas doutrinas espiritualistas.
O núcleo
argumentativo de Dawkins consiste em afirmar que a complexidade da vida não
requer um criador inteligente, pois a seleção natural explica de forma
cumulativa o surgimento de organismos sofisticados a partir de estruturas
simples. Ele reconhece que o acaso puro não é suficiente, mas sustenta que a
seleção atua como mecanismo ordenado sem finalidade, capaz de gerar, em bilhões
de anos, formas de vida e comportamento aparentemente intencionais. O equívoco
está em extrapolar esse raciocínio biológico para o campo metafísico, sugerindo
que a ausência de design na biologia implica a inexistência de uma inteligência
criadora do próprio universo e das leis que permitem a vida.
Alister
McGrath, teólogo e ex-biólogo de Oxford, em The Dawkins Delusion?
(2007), argumenta que Dawkins comete um erro categorial ao tratar Deus como uma
hipótese científica sujeita a verificação empírica, quando na verdade a noção
de causa primeira pertence ao domínio da filosofia da existência. Para McGrath,
o conceito clássico de Deus não compete com as explicações científicas, mas as
fundamenta, pois diz respeito à razão de ser do próprio cosmos e não ao modo de
funcionamento de suas partes. John Lennox, em God’s Undertaker: Has Science
Buried God? (2009), reforça essa crítica ao apontar que Dawkins elimina uma
falsa alternativa: ou a ciência explica o mundo ou Deus o explica. A tradição
racionalista, desde Aristóteles e Tomás de Aquino, já reconhecia que a
causalidade divina é de ordem ontológica, e não física.
David
Bentley Hart, em The Experience of God (2013), observa que o “Deus” que
Dawkins tenta refutar é apenas um ser dentro do mundo, comparável a uma
entidade poderosa, mas finita. Para a filosofia clássica, contudo, Deus não é
um ser entre outros, mas o próprio ato de ser, a condição de possibilidade de
todas as coisas existentes. Essa diferença é fundamental: ao ignorá-la, Dawkins
ataca um conceito teológico popular, mas não enfrenta o problema filosófico da
existência. Paul Davies, físico teórico e autor de The Mind of God
(1992), também reconhece que a ciência moderna, embora revele a coerência
matemática das leis naturais, não explica por que essas leis existem nem por
que são inteligíveis. A origem das próprias condições que permitem a evolução e
a vida permanece fora do alcance da biologia e da cosmologia atuais.
Essa
limitação é o que se pode chamar de falha epistemológica do pensamento de
Dawkins. Seu método naturalista é competente para descrever mecanismos dentro
do universo, mas não para explicar o fundamento do próprio ser. O erro consiste
em reduzir questões metafísicas a problemas empíricos e, ao fazê-lo, concluir
negativamente sobre algo que seu método não é capaz de investigar. A
epistemologia científica, tal como entendida por Popper e Kuhn, reconhece que
toda teoria opera dentro de um campo delimitado por pressupostos não
demonstráveis. A própria existência das leis naturais e da racionalidade que as
apreende é um desses pressupostos. Ao ignorar esse limite, Dawkins converte um
método de investigação em uma metafísica implícita, o cientificismo, que toma o
observável como a totalidade do real.
O
Espiritismo, conforme codificado por Allan Kardec, apresenta uma resposta de
natureza filosófica e racional a esse problema. Na Questão 1 de O
Livro dos Espíritos (2004), Kardec formula o axioma que estrutura toda a
doutrina: “Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”. A
expressão “causa primeira”, na terminologia filosófica
tradicional, não designa um evento inicial no tempo, mas o princípio
ontológico do qual decorrem todas as causas secundárias. Diferentemente da
concepção teísta antropomórfica, Deus não é um agente que intervém de forma
arbitrária no universo, mas a razão de ser das leis que o regem[1]. Assim, a causalidade
divina é permanente e imanente, sustentando a ordem natural e a evolução
espiritual dos seres.
A lógica
espírita de causa e efeito não se opõe ao progresso científico; ao contrário, o
integra em um quadro mais amplo de racionalidade universal. A seleção natural
descrita por Dawkins pode ser compreendida como uma manifestação das leis
divinas que regem a adaptação e o aprimoramento dos seres. O erro está em
confundir o instrumento com a causa. A ciência revela o modo como as leis
atuam; a filosofia espírita busca compreender por que tais leis existem e por
que conduzem à complexidade, à consciência e à moralidade. Nesse sentido, a
evolução biológica é parte de um processo maior de evolução do Espírito, que
ultrapassa os limites da matéria.
Ao
afirmar que Deus é a inteligência suprema, o Espiritismo não apela à fé cega,
mas a uma dedução racional da ordem observada no universo. Toda inteligência
relativa pressupõe uma inteligência absoluta, e toda lei implica um legislador,
não no sentido humano do termo, mas como princípio ordenador do cosmos. Essa
ideia coincide com a tradição filosófica que remonta a Aristóteles e Leibniz e
foi reinterpretada por pensadores espiritualistas modernos, como Léon Denis,
para quem o universo é a expressão da harmonia entre a causa divina e as causas
secundárias que se encadeiam na criação.
A
crítica a Dawkins, portanto, não se limita a uma disputa entre ciência e
religião. Trata-se de uma questão epistemológica: reconhecer que os métodos da
ciência empírica são poderosos, mas não exaustivos. A razão humana, quando
restrita ao mensurável, não alcança a causa do ser. O Espiritismo, ao restituir
a dimensão racional do princípio criador, evita tanto o fideísmo quanto o
materialismo, afirmando que a ciência explica os meios, mas não a origem dos
fins. A ideia de Deus como causa primária não nega as descobertas científicas;
apenas recorda que nenhuma lei se explica a si mesma.
Assim, a
falha epistemológica de Dawkins está em confundir a descrição das causas
segundas com a negação da causa primeira. O universo e a vida podem, sim, ser
compreendidos em suas etapas de complexificação e seleção, mas essas etapas
ocorrem dentro de um conjunto de leis cuja existência e inteligibilidade pedem
uma razão superior. A filosofia espírita, ao reconhecer Deus como a
inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas, recoloca a ciência em
seu devido lugar: instrumento de descoberta das leis divinas, não substituto de
sua origem.
Referências
DAVIES, Paul. The Mind of God: The Scientific Basis for a Rational World. New York: Simon & Schuster, 1992.
DAWKINS, Richard. The God
Delusion. London: Bantam Press, 2006.
HART, David Bentley. The
Experience of God: Being, Consciousness, Bliss. New Haven: Yale University
Press, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Catanduva: Boa Nova, 2004.
LENNOX, John C. God’s
Undertaker: Has Science Buried God? Oxford: Lion, 2009.
MCGRATH, Alister. The
Dawkins Delusion? Atheist Fundamentalism and the Denial of the Divine.
Downers Grove: InterVarsity Press, 2007.
[1]
Ver o artigo "Kardec apontado como um representante deísta", por Marco Milani, disponível em https://educadorespirita1.blogspot.com/2024/11/kardec-apontado-como-um-representante.html

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