sexta-feira, 28 de novembro de 2025

A refutação espírita à falácia de Dawkins

 

A refutação espírita à falácia de Dawkins

 

Marco Milani

 

Richard Dawkins tornou-se uma das vozes mais conhecidas do ateísmo cientificista. Seu livro The God Delusion (2006) propõe que a crença em Deus é um produto cultural infundado e que a ciência moderna teria tornado desnecessária a hipótese divina. No entanto, sob análise filosófica rigorosa, sua argumentação revela uma falha epistemológica essencial: o autor confunde diferentes níveis de explicação, tratando o problema metafísico da existência como se fosse uma questão de biologia evolucionista. Essa confusão, já apontada por filósofos e cientistas de distintas tradições, mostra que o alvo de Dawkins não é o conceito de Deus como causa primeira, mas uma caricatura de divindade intervencionista, alheia ao sentido ontológico presente na filosofia clássica e nas doutrinas espiritualistas.

O núcleo argumentativo de Dawkins consiste em afirmar que a complexidade da vida não requer um criador inteligente, pois a seleção natural explica de forma cumulativa o surgimento de organismos sofisticados a partir de estruturas simples. Ele reconhece que o acaso puro não é suficiente, mas sustenta que a seleção atua como mecanismo ordenado sem finalidade, capaz de gerar, em bilhões de anos, formas de vida e comportamento aparentemente intencionais. O equívoco está em extrapolar esse raciocínio biológico para o campo metafísico, sugerindo que a ausência de design na biologia implica a inexistência de uma inteligência criadora do próprio universo e das leis que permitem a vida.

Alister McGrath, teólogo e ex-biólogo de Oxford, em The Dawkins Delusion? (2007), argumenta que Dawkins comete um erro categorial ao tratar Deus como uma hipótese científica sujeita a verificação empírica, quando na verdade a noção de causa primeira pertence ao domínio da filosofia da existência. Para McGrath, o conceito clássico de Deus não compete com as explicações científicas, mas as fundamenta, pois diz respeito à razão de ser do próprio cosmos e não ao modo de funcionamento de suas partes. John Lennox, em God’s Undertaker: Has Science Buried God? (2009), reforça essa crítica ao apontar que Dawkins elimina uma falsa alternativa: ou a ciência explica o mundo ou Deus o explica. A tradição racionalista, desde Aristóteles e Tomás de Aquino, já reconhecia que a causalidade divina é de ordem ontológica, e não física.

David Bentley Hart, em The Experience of God (2013), observa que o “Deus” que Dawkins tenta refutar é apenas um ser dentro do mundo, comparável a uma entidade poderosa, mas finita. Para a filosofia clássica, contudo, Deus não é um ser entre outros, mas o próprio ato de ser, a condição de possibilidade de todas as coisas existentes. Essa diferença é fundamental: ao ignorá-la, Dawkins ataca um conceito teológico popular, mas não enfrenta o problema filosófico da existência. Paul Davies, físico teórico e autor de The Mind of God (1992), também reconhece que a ciência moderna, embora revele a coerência matemática das leis naturais, não explica por que essas leis existem nem por que são inteligíveis. A origem das próprias condições que permitem a evolução e a vida permanece fora do alcance da biologia e da cosmologia atuais.

Essa limitação é o que se pode chamar de falha epistemológica do pensamento de Dawkins. Seu método naturalista é competente para descrever mecanismos dentro do universo, mas não para explicar o fundamento do próprio ser. O erro consiste em reduzir questões metafísicas a problemas empíricos e, ao fazê-lo, concluir negativamente sobre algo que seu método não é capaz de investigar. A epistemologia científica, tal como entendida por Popper e Kuhn, reconhece que toda teoria opera dentro de um campo delimitado por pressupostos não demonstráveis. A própria existência das leis naturais e da racionalidade que as apreende é um desses pressupostos. Ao ignorar esse limite, Dawkins converte um método de investigação em uma metafísica implícita, o cientificismo, que toma o observável como a totalidade do real.

O Espiritismo, conforme codificado por Allan Kardec, apresenta uma resposta de natureza filosófica e racional a esse problema. Na Questão 1 de O Livro dos Espíritos (2004), Kardec formula o axioma que estrutura toda a doutrina: “Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”. A expressão “causa primeira”, na terminologia filosófica tradicional, não designa um evento inicial no tempo, mas o princípio ontológico do qual decorrem todas as causas secundárias. Diferentemente da concepção teísta antropomórfica, Deus não é um agente que intervém de forma arbitrária no universo, mas a razão de ser das leis que o regem[1]. Assim, a causalidade divina é permanente e imanente, sustentando a ordem natural e a evolução espiritual dos seres.

A lógica espírita de causa e efeito não se opõe ao progresso científico; ao contrário, o integra em um quadro mais amplo de racionalidade universal. A seleção natural descrita por Dawkins pode ser compreendida como uma manifestação das leis divinas que regem a adaptação e o aprimoramento dos seres. O erro está em confundir o instrumento com a causa. A ciência revela o modo como as leis atuam; a filosofia espírita busca compreender por que tais leis existem e por que conduzem à complexidade, à consciência e à moralidade. Nesse sentido, a evolução biológica é parte de um processo maior de evolução do Espírito, que ultrapassa os limites da matéria.

Ao afirmar que Deus é a inteligência suprema, o Espiritismo não apela à fé cega, mas a uma dedução racional da ordem observada no universo. Toda inteligência relativa pressupõe uma inteligência absoluta, e toda lei implica um legislador, não no sentido humano do termo, mas como princípio ordenador do cosmos. Essa ideia coincide com a tradição filosófica que remonta a Aristóteles e Leibniz e foi reinterpretada por pensadores espiritualistas modernos, como Léon Denis, para quem o universo é a expressão da harmonia entre a causa divina e as causas secundárias que se encadeiam na criação.

A crítica a Dawkins, portanto, não se limita a uma disputa entre ciência e religião. Trata-se de uma questão epistemológica: reconhecer que os métodos da ciência empírica são poderosos, mas não exaustivos. A razão humana, quando restrita ao mensurável, não alcança a causa do ser. O Espiritismo, ao restituir a dimensão racional do princípio criador, evita tanto o fideísmo quanto o materialismo, afirmando que a ciência explica os meios, mas não a origem dos fins. A ideia de Deus como causa primária não nega as descobertas científicas; apenas recorda que nenhuma lei se explica a si mesma.

Assim, a falha epistemológica de Dawkins está em confundir a descrição das causas segundas com a negação da causa primeira. O universo e a vida podem, sim, ser compreendidos em suas etapas de complexificação e seleção, mas essas etapas ocorrem dentro de um conjunto de leis cuja existência e inteligibilidade pedem uma razão superior. A filosofia espírita, ao reconhecer Deus como a inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas, recoloca a ciência em seu devido lugar: instrumento de descoberta das leis divinas, não substituto de sua origem.

 

Referências

DAVIES, Paul. The Mind of God: The Scientific Basis for a Rational World. New York: Simon & Schuster, 1992. 

DAWKINS, Richard. The God Delusion. London: Bantam Press, 2006.

HART, David Bentley. The Experience of God: Being, Consciousness, Bliss. New Haven: Yale University Press, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Catanduva: Boa Nova, 2004.

LENNOX, John C. God’s Undertaker: Has Science Buried God? Oxford: Lion, 2009.

MCGRATH, Alister. The Dawkins Delusion? Atheist Fundamentalism and the Denial of the Divine. Downers Grove: InterVarsity Press, 2007.


 



[1] Ver o artigo "Kardec apontado como um representante deísta", por Marco Milani, disponível em  https://educadorespirita1.blogspot.com/2024/11/kardec-apontado-como-um-representante.html

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