quinta-feira, 7 de maio de 2026

Prece sem hora marcada

Prece sem hora marcada

 

Marco Milani

Fernando Porto

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.212, mai/jun 2026, p. 29-30

 

A leitura superficial de trechos nas obras fundamentais, isolados de seu contexto, pode gerar interpretações doutrinariamente equivocadas quando associadas aos conceitos e práticas de outras tradições filosóficas e religiosas. Tal é o caso da efetividade de preces realizadas por um grupo de pessoas, como mencionada n’O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XXVII, item 15.

Os Espíritos ensinam que é o pensamento que caracteriza o poder da prece, independentemente das palavras, do lugar e do momento em que é feita, sendo a sinceridade e a humildade suas condições necessárias. Quando realizada em conjunto, portanto, não é a quantidade de pessoas, mas a qualidade dos pensamentos e as intenções individuais o que realmente importa. Havendo perfeita sintonia, a prece em comum pode amplificar a atração do concurso dos bons Espíritos.

Os problemas interpretativos partem, entretanto, não do reconhecimento de que a convergência sincera de intenções seja benéfica, mas da mecanização e quantificação do processo de comunicação entre encarnados e desencarnados sob uma imprecisa perspectiva material e mística. Ao supor que a repetição sistemática e o agendamento temporal por meio de horários fixos para a prece em conjunto despertarão mais atenção espiritual ou produzirão “combinações fluídicas” para serem utilizadas em algum processo terapêutico em larga escala, identifica-se fragilidade doutrinária dessa concepção que reintroduz elementos de ritualismo incompatíveis com a natureza essencialmente racional, livre e não litúrgica do Espiritismo.

A ação dos Espíritos não está condicionada a relógios, fusos horários ou agendas organizadas por encarnados em prece. Ao contrário, a assistência espiritual é contínua, dinâmica e orientada por critérios superiores, alheios à pretensão de controle humano. Esse tipo de proposta aproxima-se das práticas devocionais do igrejismo dogmático como novenas, terços e correntes.

Kardec foi claro ao afastar qualquer forma de culto exterior, fórmula sacramental ou rituais por meio de mecanismos repetitivos que pretenda conferir eficácia automática à prática espiritual.

Outro aspecto crítico é a noção de “corrente vibratória” como instrumento de intervenção coletiva. O termo não possui definição rigorosa nas obras espíritas fundamentais e frequentemente é empregado de maneira vaga e simbólica como emissão difusa de bons pensamentos com efeitos amplos e pouco definidos. Ao se afirmar que grupos organizados, em horários fixos, formariam uma “corrente de auxílio” capaz de influenciar cenários complexos, como conflitos geopolíticos, induz uma pueril visão mecanicista da espiritualidade. Essa perspectiva simplifica indevidamente a realidade e sugere que a soma de intenções simultâneas produziria efeitos proporcionais, como se se tratasse de um fenômeno físico mensurável.

A adesão a esse tipo de prática pode ser parcialmente explicada, do ponto de vista da psicologia social, por fenômenos como coesão grupal e viés de confirmação. A realização simultânea de uma atividade simbólica tende a intensificar a percepção de pertencimento e propósito, frequentemente interpretada como evidência de efetividade. Tais efeitos, contudo, dizem respeito à experiência subjetiva dos participantes e não constituem, por si, demonstração de ampliação causal no plano espiritual. A distinção entre vivência psicológica e ação espiritual efetiva é necessária para evitar que percepções internas sejam indevidamente convertidas em explicações sobre a dinâmica da intervenção dos Espíritos.

Outro ponto que merece reflexão é o efeito institucional dessas práticas. Ao serem promovidas por organizações e lideranças representativas, acabam por legitimar uma forma de espiritualidade mística, centrada em gestos simbólicos e emocionalmente confortáveis. Isso contribui para o empobrecimento intelectual do movimento, deslocando o eixo do estudo sistemático das obras kardequianas e do autoconhecimento para práticas coletivas de fácil adesão. O resultado é a formação de um público cada vez mais distante da base doutrinária e mais suscetível a interpretações lúdicas.

É importante destacar que a crítica aqui não se dirige à prece em si, que é amplamente reconhecida na doutrina como recurso legítimo de elevação moral e conexão com o plano espiritual, nem no hábito salutar de atividades agendadas previamente fora do centro espírita, como reuniões doutrinárias de estudo realizadas por uma família (comumente denominadas de Evangelho no Lar). O problema está na sua transformação em prática coletivizada sob moldes que lembram rituais religiosos tradicionais. A prece espírita é essencialmente livre, espontânea e individual, podendo, no entanto, ser organizada ou realizada coletivamente sem perder seu caráter pessoal. O que não se sustenta é a tentativa de conferir-lhe eficácia especial por meio da simultaneidade organizada.

O atavismo religioso presente em alguns adeptos talvez explique parcialmente a preferência pelo misticismo ritualístico, mas cabe ao dirigente espírita contribuir para que a coerência doutrinária prevaleça em nome da racionalidade.

 

 

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