Prece sem hora marcada
Marco
Milani
Fernando
Porto
Texto
publicado na Revista Dirigente Espírita, n.212, mai/jun 2026, p. 29-30
A leitura superficial de trechos nas obras fundamentais, isolados de
seu contexto, pode gerar interpretações doutrinariamente equivocadas quando
associadas aos conceitos e práticas de outras tradições filosóficas e
religiosas. Tal é o caso da efetividade de preces realizadas por um grupo de
pessoas, como mencionada n’O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XXVII,
item 15.
Os Espíritos ensinam que é o pensamento que caracteriza o poder da
prece, independentemente das palavras, do lugar e do momento em que é feita,
sendo a sinceridade e a humildade suas condições necessárias. Quando realizada
em conjunto, portanto, não é a quantidade de pessoas, mas a qualidade dos
pensamentos e as intenções individuais o que realmente importa. Havendo
perfeita sintonia, a prece em comum pode amplificar a atração do concurso dos
bons Espíritos.
Os problemas interpretativos partem, entretanto, não do reconhecimento
de que a convergência sincera de intenções seja benéfica, mas da mecanização e
quantificação do processo de comunicação entre encarnados e desencarnados sob
uma imprecisa perspectiva material e mística. Ao supor que a repetição
sistemática e o agendamento temporal por meio de horários fixos para a prece em
conjunto despertarão mais atenção espiritual ou produzirão “combinações
fluídicas” para serem utilizadas em algum processo terapêutico em larga escala,
identifica-se fragilidade doutrinária dessa concepção que reintroduz elementos
de ritualismo incompatíveis com a natureza essencialmente racional, livre e não
litúrgica do Espiritismo.
A ação dos Espíritos não está condicionada a relógios, fusos horários
ou agendas organizadas por encarnados em prece. Ao contrário, a assistência
espiritual é contínua, dinâmica e orientada por critérios superiores, alheios à
pretensão de controle humano. Esse tipo de proposta aproxima-se das práticas
devocionais do igrejismo dogmático como novenas, terços e correntes.
Kardec foi claro ao afastar qualquer forma de culto exterior, fórmula
sacramental ou rituais por meio de mecanismos repetitivos que pretenda conferir
eficácia automática à prática espiritual.
Outro aspecto crítico é a noção de “corrente vibratória” como
instrumento de intervenção coletiva. O termo não possui definição rigorosa nas
obras espíritas fundamentais e frequentemente é empregado de maneira vaga e simbólica
como emissão difusa de bons pensamentos com efeitos amplos e pouco definidos.
Ao se afirmar que grupos organizados, em horários fixos, formariam uma
“corrente de auxílio” capaz de influenciar cenários complexos, como conflitos geopolíticos,
induz uma pueril visão mecanicista da espiritualidade. Essa perspectiva
simplifica indevidamente a realidade e sugere que a soma de intenções
simultâneas produziria efeitos proporcionais, como se se tratasse de um
fenômeno físico mensurável.
A adesão a esse tipo de prática pode ser parcialmente explicada, do
ponto de vista da psicologia social, por fenômenos como coesão grupal e viés de
confirmação. A realização simultânea de uma atividade simbólica tende a
intensificar a percepção de pertencimento e propósito, frequentemente
interpretada como evidência de efetividade. Tais efeitos, contudo, dizem
respeito à experiência subjetiva dos participantes e não constituem, por si,
demonstração de ampliação causal no plano espiritual. A distinção entre vivência
psicológica e ação espiritual efetiva é necessária para evitar que percepções
internas sejam indevidamente convertidas em explicações sobre a dinâmica da
intervenção dos Espíritos.
Outro ponto que merece reflexão é o efeito institucional dessas
práticas. Ao serem promovidas por organizações e lideranças representativas,
acabam por legitimar uma forma de espiritualidade mística, centrada em gestos
simbólicos e emocionalmente confortáveis. Isso contribui para o empobrecimento
intelectual do movimento, deslocando o eixo do estudo sistemático das obras kardequianas
e do autoconhecimento para práticas coletivas de fácil adesão. O resultado é a
formação de um público cada vez mais distante da base doutrinária e mais
suscetível a interpretações lúdicas.
É importante destacar que a crítica aqui não se dirige à prece em si,
que é amplamente reconhecida na doutrina como recurso legítimo de elevação
moral e conexão com o plano espiritual, nem no hábito salutar de atividades
agendadas previamente fora do centro espírita, como reuniões doutrinárias de
estudo realizadas por uma família (comumente denominadas de Evangelho no Lar).
O problema está na sua transformação em prática coletivizada sob moldes que
lembram rituais religiosos tradicionais. A prece espírita é essencialmente
livre, espontânea e individual, podendo, no entanto, ser organizada ou
realizada coletivamente sem perder seu caráter pessoal. O que não se sustenta é
a tentativa de conferir-lhe eficácia especial por meio da simultaneidade
organizada.
O atavismo religioso presente em alguns adeptos talvez explique
parcialmente a preferência pelo misticismo ritualístico, mas cabe ao dirigente
espírita contribuir para que a coerência doutrinária prevaleça em nome da racionalidade.

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