domingo, 1 de fevereiro de 2026

A caridade é voluntária

 

A caridade é voluntária

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 53, fev/2026, p.9-10

 

A caridade, na concepção espírita, é um ato essencialmente livre, inseparável da autonomia moral do indivíduo. Não nasce da imposição de normas externas nem da pressão exercida pelo meio social, mas da adesão consciente do Espírito ao bem. O ensino dos Espíritos é explícito ao afirmar, no capítulo 25, item 8, de O Evangelho segundo o Espiritismo, que não é por meio de leis que se decretam a caridade e a fraternidade, pois, se não estiverem no coração dos homens, o egoísmo sempre as asfixiará. Com isso, o problema da prática do bem é deslocado do campo jurídico ou institucional para o campo da educação moral, onde a liberdade interior ocupa lugar central.

Essa compreensão é aprofundada quando se observa o sentido preciso atribuído à caridade na questão 886 de O Livro dos Espíritos. Ali, ela não é definida como simples assistência material, mas como um conjunto de disposições morais permanentes, sintetizadas na benevolência para com todos, na indulgência para com as imperfeições alheias e no perdão das ofensas. Trata-se, portanto, de um estado interior do Espírito, incompatível com qualquer forma de coerção. Ninguém pode ser obrigado a ser benevolente, indulgente ou verdadeiramente disposto a perdoar. Essas atitudes só têm valor moral quando resultam de uma escolha íntima, consciente e livre.

Essa definição espírita entra em choque direto com propostas materialistas de reorganização social que, sob o discurso sedutor da igualdade e da justiça, pretendem reformar a sociedade por meio da imposição coletiva sobre o indivíduo. Tais concepções partem da ideia de que a transformação social precede e determina a transformação moral, e que a coerção é meio legítimo para produzir comportamentos considerados virtuosos. O Espiritismo rejeita essa inversão. Conforme os Espíritos, nenhuma ordem social será justa enquanto não houver progresso moral dos indivíduos que a compõem. A igualdade imposta por força externa pode produzir uniformidade aparente, mas não fraternidade. A justiça decretada sem renovação interior tende a degenerar em dominação e ressentimento.

A análise desenvolvida por Kardec na 2ª parte de Obras Póstumas é particularmente esclarecedora nesse ponto. Ao examinar o ideal de liberdade, igualdade e fraternidade no texto que leva esse título, Kardec demonstra que a fraternidade é a base real das duas outras. Sem ela, a igualdade se converte em nivelamento forçado e a liberdade se transforma em ameaça à própria ordem social. É o orgulho que resiste à igualdade e o egoísmo que inviabiliza a fraternidade. Enquanto essas chagas morais não forem combatidas no íntimo do ser, qualquer tentativa de reforma social fundada apenas em estruturas externas produzirá equilíbrios frágeis e conflitos recorrentes.

As propostas materialistas coletivistas ignoram esse dado essencial da natureza humana. Ao tratar o indivíduo como simples engrenagem de um projeto abstrato de sociedade, acabam por sacrificar a liberdade moral em nome de uma utopia que jamais se realiza. A coerção, apresentada como meio temporário para alcançar um suposto bem comum, tende a se perpetuar, pois não elimina as causas profundas do egoísmo e do orgulho. Apenas as desloca ou as mascara sob novas formas de poder.

A caridade voluntária, ao contrário, atua na raiz do problema. Ela não busca suprimir a individualidade, mas educá-la. Não pretende anular a liberdade, mas orientá-la. O Espiritismo não promete uma sociedade perfeita por decreto, nem se ilude com soluções rápidas baseadas em engenharia social. Sua proposta é mais exigente e mais duradoura: a transformação progressiva do Espírito, pela compreensão das leis morais e pela responsabilidade pessoal.

Essa perspectiva também lança luz sobre a realidade contemporânea, em que discursos de justiça social muitas vezes convivem com práticas de intolerância, coerção moral e perseguição simbólica a quem diverge. Quando a fraternidade é proclamada, mas não vivida, e quando a caridade é exigida, mas não escolhida, o resultado é a contradição entre palavras elevadas e atitudes excludentes. A moral espírita não se sustenta nesse terreno, pois reconhece que o bem imposto deixa de ser bem em sentido moral.

O Espiritismo propõe uma pedagogia da liberdade responsável. Seu método é único e não busca formar comportamentos padronizados nem consciências submissas, mas indivíduos capazes de agir pelo bem por convicção íntima diante do conhecimento das leis divinas. Por isso, Kardec insiste que a tarefa essencial do Espiritismo é melhorar os indivíduos pelo esclarecimento da realidade. Não se trata de multiplicar decretos, campanhas ou slogans, mas de incentivar a luta interior para a superação efetiva do orgulho e do egoísmo, únicos obstáculos reais ao progresso moral e social.

Ao afirmar que a caridade é voluntária, o Espiritismo não relativiza sua importância, mas a eleva à sua mais alta dignidade. Somente o ato livre, consciente e desinteressado, fundado na benevolência, na indulgência e no perdão, possui força real para transformar o Espírito e, por consequência, a sociedade. Leis podem organizar a convivência, mas não criam virtudes. É pelo aprimoramento íntimo do indivíduo, e não na coerção coletiva, que se constrói a fraternidade autêntica, a igualdade justa e a liberdade verdadeira.

 

 


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