Deus e o Universo na Doutrina Espírita
Marco
Milani
Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 51, dez/2025, p.9-11
A relação entre o Espiritismo e as grandes tradições metafísicas
sempre provocou debates, especialmente quando se trata de situar o pensamento
de Allan Kardec entre o deísmo, o teísmo, o panteísmo e o panenteísmo. Essa
discussão ganha relevância quando observamos como o próprio Allan Kardec
dialogou com tais correntes e como foi percebido por contemporâneos, como
Maurice Lachâtre, que o classificou como um representante do deísmo francês no
século dezenove[1].
A análise atenta das obras básicas revela, entretanto, que a Doutrina
Espírita possui particularidades que fazem com que não se encaixe integralmente
em nenhuma dessas categorias filosóficas, embora se relacione com algumas delas
em aspectos específicos.
A leitura das obras de Kardec mostra de modo explícito que o
Espiritismo rejeita qualquer interpretação panteísta. Em O Livro dos Espíritos,
nas perguntas nºs 14 a 16, verifica-se que Deus não é a soma das forças do
universo, nem a totalidade das inteligências criadas. Se assim fosse, Ele seria
efeito e não causa. Essa distinção ontológica entre Criador e criação é
estrutural e impede qualquer associação entre Espiritismo e visões que
confundam Deus com o universo. Kardec deixa claro que somente uma causa primeira
exterior ao conjunto das coisas criadas pode explicar a ordem e a
universalidade das leis naturais. A criação é obra e não extensão da essência
divina.
Também não seria adequado situar o Espiritismo no campo do teísmo
tradicional, pois este afirma uma ação divina direta, particular e voluntarista
sobre o mundo, caracterizada por intervenções que suspendem ou modificam a
ordem natural. Kardec discorda de forma sistemática dessa concepção. Em A
Gênese, Capítulo XIII, afirma-se que a grandeza de Deus se manifesta pela
imutabilidade de suas leis e não por eventuais derrogações. Os chamados
milagres, na perspectiva espírita, não são violações das leis naturais, mas
interpretações equivocadas de fenômenos ainda incompreendidos pela ciência
humana. Essa recusa do sobrenatural, somada à afirmação de que a revelação é
progressiva e racional, afasta o Espiritismo das formas teológicas que
identificam Deus como agente que intervém contra ou acima das leis que Ele
próprio estabeleceu.
Não é menos importante afastar o Espiritismo de interpretações
panenteístas. Este sistema filosófico considera que o universo está em Deus,
que seria ao mesmo tempo imanente e transcendente, abarcando e ultrapassando a
criação. Ainda que essa formulação possa soar conciliadora, ela não corresponde
à estrutura doutrinária apresentada por Kardec. O panenteísmo implica uma
participação ontológica da criação na substância divina, como se a realidade
criada existisse dentro de Deus em sentido substancial. A Codificação rejeita
essa possibilidade ao afirmar que Deus é a causa e não efeito, sendo a fonte
das leis e não parte do universo que elas ordenam. O que existe, na visão
espírita, não é uma imanência ontológica, mas uma imanência funcional, moral e
providencial expressa pela ação constante das leis divinas que regem o
progresso dos Espíritos.
É nesse ponto que se abre espaço para compreender por que Maurice
Lachâtre vinculou Kardec ao deísmo francês. Lachâtre, conhecedor das obras e da
postura intelectual do mestre de Lyon, reconhecia no Espiritismo o mesmo
compromisso com a razão e com a recusa do sobrenatural que caracterizava o
deísmo iluminista. Porém, Kardec não adere integralmente ao deísmo clássico.
Ao tratar das cinco alternativas da humanidade, em Obras Póstumas, Kardec
distingue o deísmo independente, segundo o qual Deus cria e não mais se ocupa
de sua obra, do deísmo providencialista, no qual Deus continua governando a
criação por meio de leis sábias e imutáveis. A primeira corrente é incompatível
com a doutrina espírita, pois nega qualquer tipo de providência. A segunda
aproxima-se claramente da concepção kardequiana, já que preserva a
transcendência divina e, ao mesmo tempo, reconhece que Deus não abandona o
universo que criou. Esse governo, entretanto, não se exerce por atos
particulares de intervenção, mas pela manutenção da ordem universal.
O Espiritismo, dessa maneira, situa-se nesse ponto de convergência.
Deus é transcendente e distinto da criação, mas sua providência se exerce
continuamente pela ação das leis morais e físicas que regem a evolução dos
seres. Não há milagres, exceções ou decretos arbitrários. Há regularidade,
justiça e finalidade na estrutura do mundo. Assim, a aproximação com o deísmo
providencialista é legítima, embora incompleta, pois a Doutrina Espírita
acrescenta elementos que não se encontram no deísmo filosófico tradicional,
como a comunicabilidade dos Espíritos, a pluralidade das existências e a lei de
progresso moral.
A posição espírita é, em síntese, original. Ela se afasta do teísmo
porque rejeita o milagre e a revelação fechada, se distingue do panteísmo ao
manter intacta a separação entre Deus e universo, não coincide com o
panenteísmo por não admitir participação ontológica da criação em Deus e
ultrapassa o deísmo ao afirmar uma providência ativa que jamais viola as leis
naturais. Trata-se de uma filosofia espiritualista que reconhece Deus como
causa primeira, inteligência suprema e princípio ordenador, cujo governo se
realiza pela própria perfeição das leis que Ele estabeleceu.
É essa moldura conceitual que explica tanto a leitura que Lachâtre fez
de Kardec quanto a singularidade do Espiritismo entre as tradições metafísicas.
[1] Milani,
M. (2024). Kardec apontado como um representante deísta. Revista Candeia
Espírita, 38, 8-9. Recuperado de https://educadorespirita1.blogspot.com/2024/11/kardec-apontado-como-um-representante.html

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