segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Espíritas e registros demográficos

 

Espíritas e registros demográficos

 

Marco Milani

 

(Texto publicado na Revista Dirigente Espírita – Ed 191, set/out 2022, p. 10 a 12)

 

Na edição de janeiro de 1869 da Revista Espírita (RE), Allan Kardec discorre sobre a relevância de se conhecer a difusão das ideias espíritas pelo mundo. Diante da impossibilidade de se realizar um levantamento preciso, poder-se-ia estimar o avanço do Espiritismo pela quantidade de pessoas que aceitavam os respectivos princípios doutrinários.

Sem desconsiderar o grande número de simpatizantes, Kardec destaca a participação fundamental dos espíritas confessos, os quais aceitam o Espiritismo com conhecimento de causa, após estudá-lo.

Baseando-se em 10 mil observações obtidas da lista de assinantes da RE e das correspondências recebidas localmente e de vários países, Kardec realizou interessante estimativa.

Com relação à nacionalidade do adepto, haveria espíritas em todos os países mais desenvolvidos da Europa e da América. A França contaria com cerca de 600 mil espíritas e o restante da Europa com mais 400 mil. No mundo, Kardec estimou 6 ou 7 milhões.

Adotando-se como referência a população da França no final do século XIX[1], em cerca de 38 milhões de habitantes, os espíritas franceses representariam 1,6% do total e caracterizam esse país como o principal difusor do Espiritismo. Os demais países com maior representatividade de adeptos seriam, pela ordem, Itália, Espanha, Rússia, Alemanha, Bélgica, Inglaterra, Suécia, Dinamarca, Grécia e Suíça.

               Em relação ao sexo, 70% dos adeptos seriam homens e 30% mulheres.

               A faixa etária média encontrava-se entre 20 e 30 anos, mas contava com adeptos de até 80 anos.

               A classificação pelo grau de instrução considerava 30% de adeptos com “instrução cuidada”, 30% de “simples letrados”, 20% de “instrução superior”, 20% de “semiletrados”, 6% de “iletrados” e 4% de “sábios oficiais”.

               De maneira peculiar, Kardec trata a questão religiosa como sendo o vínculo das ideias institucionalizadas do adepto em sua crença, apontando que 50% da amostra provinha de católicos romanos, livre pensadores e não ligados ao dogma religioso. Católicos gregos representavam 15%, judeus eram 10%, protestantes liberais eram 10%, católicos ligados aos dogmas eram 10%, protestantes ortodoxos eram 3% e muçulmanos representavam 2%.

               Sobre o perfil econômico, os adeptos foram assim distribuídos: 60% com renda média, 20% com renda média-alta, 15% em estado de pobreza e 5% ricos.

               Registrou-se, ainda, os postos militares e as profissões mais frequentes ocupados pelos espíritas. Tenentes, médicos homeopatas e engenheiros destacaram-se nesse sentido.

               De posse desses dados, Kardec teceu, no final de seu texto, pertinentes comentários analíticos sobre o perfil do espírita e sobre a evolução e as características da divulgação doutrinária, sinalizando o quão relevante se torna conhecer as informações sobre os adeptos.

               Passados pouco mais de 150 anos, podemos conhecer como as ideias espíritas se difundiram no Brasil e no mundo por diferentes ângulos e fontes, porém em todos eles são necessários o uso de dados, sejam qualitativos ou quantitativos, para se promover qualquer análise a respeito.

Com relação às informações sobre o perfil religioso da população, o acompanhamento histórico tem mostrado a dinâmica cultural e a influência dos grupos organizados, conforme o aumento de representatividade dos respectivos adeptos.

No Brasil, o primeiro levantamento demográfico oficial ocorreu 1872 e, com relação às informações sobre o perfil religioso, o domínio do catolicismo fez com que a única informação registrada fosse a quantidade da população católica e não-católica. Com o aumento de representatividade de outras denominações, os registros considerados em censos posteriores já admitiam grupos específicos. Em 1940, os sete grupos considerados foram: católicos romanos, protestantes, ortodoxos, positivistas, israelitas, outras religiões e sem religião.

               Somente no Censo de 1960 foi incluída a denominação “espírita” e constou como o 3º grupo mais representativo, com 1,4% do total da população, mas bem distante da participação de católicos (93,1%) e inferior à participação de protestantes (4,0%).

               Ressalva-se que essa denominação espírita no Censo de 1960 também agrupava, além dos espíritas propriamente ditos, adeptos de outras filosofias e religiões com práticas mediúnicas. Esse fato espelha a confusão semântica existente e as próprias denominações religiosas pressionaram por um maior detalhamento, como o ocorrido no Censo de 1980, em que especificaram-se alguns grupos, como o espírita “kardecista”.

               Nos registros censitários de 2000 e 2010, o grupo espírita foi tratado sem adjetivações, diferenciando-se de denominações de matriz afro-brasileiras (Umbanda e Candomblé). Nota-se o aumento de participação da população espírita, para 2,1% do total, em 2010.[2]

               Ainda que alguns adeptos, isoladamente, não considerem importante serem reconhecidos como espíritas para fins censitários, ou mesmo discordem do método de coleta de dados praticado pelo órgão oficial responsável, o dimensionamento da população que se declara espírita é relevante para diferentes finalidades. Estudos demográficos e outros relacionados em diferentes áreas do conhecimento que trabalhem com a dinâmica populacional, são exemplos de aplicação, além desses dados favorecerem o planejamento de ações das próprias instituições espíritas.

               Muitos outros adeptos, sabendo que o Espiritismo é uma religião no sentido filosófico, como Kardec afirmou, não possuem qualquer restrição em autodeclararem-se espírita ao recenseador.

 

Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as próprias leis da Natureza.[3]

              

Para o Censo de 2022, serão utilizados dois tipos de questionário para a coleta de dados: o Básico, com 26 e o Completo, com 77 perguntas. O item Religião consta somente do questionário completo e, segundo o IBGE, prevê-se que apenas 10% do total de domicílios visitados seja selecionado para responder esse tipo de questionário. A distribuição da população por grupo religioso será, portanto, estimada estatisticamente.[4]

               Nesse sentido, reafirma-se a relevância do espírita autodeclarar-se como tal, favorecendo o dimensionamento e análises sobre a representatividade do Espiritismo na população.



[1] World population prospects. the. Esa.un.org. 2004 revision population database. https://web.archive.org/web/20100107202521/http://esa.un.org/unpp/

 

[3] KARDEC, A. Sessão anual comemorativa dos mortos - Discurso de abertura pelo Sr. Allan Kardec. Revista Espírita — dez/1868 -


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