sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Crítica de Herculano Pires ao marxismo




No texto abaixo, contido no livro "Herculano Pires: o apóstolo de Kardec", de autoria de Jorge Rizzini, encontramos o claro posicionamento do filósofo e jornalista Herculano Pires contra ideologias totalitárias e materialistas, como o marxismo. Na década de 1960, a obra O Reino, de Herculano Pires, publicada originalmente em 1946, estava sendo utilizada indevidamente por militantes socialistas que pretendiam disseminar o marxismo no movimento espírita. Em 1967, Herculano republica O Reino, com clara crítica ao marxismo e a todos aqueles que se deixavam levar por essa linha de pensamento. Também encontramos os comentários de Deolindo Amorim elogiando o amigo Herculano pela manifestação pública no texto "Meu desencontro com a Fagulha", publicada na Revista Internacional do Espiritismo, destacando esse posicionamento.


EM DEFESA DO "REINO"
Jorge Rizzini

Curioso é que a tese com o texto primitivo, vinte e cinco anos depois de sua publicação pela Editora Lake (já estando, portanto, nas livrarias a segunda edição com o texto definitivo impresso pela Edicel) veio a causar aborrecimentos a Herculano Pires. É que os jovens que constituíam o Movimento Universitário Espírita de Campinas (movimento que mereceu no início o apoio de Herculano Pires) publicaram em seu órgão oficial A Fagulha, artigos baseados na antiga tese, mas que traziam inegável sabor marxista. Herculano Pires advertiu-os. Os artigos, porém, continuaram, citando-lhe o nome e comprometendo sua verdadeira posição doutrinária. Temos em nosso arquivo cartas de Deolindo Amorim, chamando a atenção de Herculano Pires para o fato. É de notar-se que o grupo havia publicado, um ano antes, o livro “Espiritismo e Marxismo”, de Jacob Holzmann Neto, o malogrado orador espírita que se perdeu nas teias do comunismo...


Herculano Pires (sentado) com Deolindo Amorim no Instituto de Cultura Espírita do Brasil.
O Apóstolo de Kardec proferiu a aula inaugural em 1969. 

 Herculano Pires só reagiu, publicamente, quando o grupo campineiro publicou em separata seu vasto prefácio ao livro Dialética e Metapsíquica, de Humberto Mariotti. Herculano Pires autorizara a publicação, é verdade, mas ao recebê-la teve uma surpresa desagradável: os rapazes, sem avisá-lo, haviam incluído na separata um prefácio assinado pelo marxista Luís de Magalhães Cavalcanti (membro do Movimento Universitário Espírita de Salvador) cujas ideias contrariavam as suas. Agora já não havia outra solução se não desmascarar, publicamente, o grupo de Campinas. E Herculano Pires redigiu o magistral artigo “Meu desencontro com A Fagulha”, publicado, simultaneamente, na Revista Internacional de Espiritismo e Mundo Espírita, em setembro de 1971, e em Unificação, edição de novembro de 1971.
Em carta endereçada a Deolindo Amorim em 9 de novembro de 1971, Herculano Pires havia escrito sobre a A Fagulha:

“Não sou dos que cruzam os braços diante das mistificações e dos abusos que se praticam no meio espírita. Você mesmo deve ter visto, pelas minhas atitudes e pelos meus artigos, que não sou homem de negaças.”

E mais:

Parece-me que não temos o direito de calar e fugir nesses momentos. Precisamos fazer como Paulo: tomar posição definida e falar às claras.”

E, referindo-se agora, diretamente, ao grupo campineiro:

“Trata-se de um grupo de jovens universitários, alguns deles brilhantes e promissores. Vi que estavam em caminho errado e quis ajudá-los a se corrigirem. Não é esse o nosso dever? Poupei-os o mais que me foi possível. Concitei-os a estudar melhor a doutrina, a se furtarem às influenciações de certos elementos adultos que os orientam. Durante uns dois anos ou mais me pediram colaboração para A Fagulha e eu sempre os neguei. Eles passaram a reproduzir trechos de meus escritos já publicados em livros, jornais e revistas, extraindo o que lhes convinha e sonegando outros. Conversei com eles várias vezes, de maneira franca, até mesmo em assembleias espíritas. Tive debates ardorosos com eles. Mas nada adiantou. Acabaram fazendo essa ursada do “Espiritismo Dialético”. Então só me restava o que fiz: desmascará-los através de um artigo incisivo e objetivo. É pena, mas não havia outro recurso.”

Deolindo Amorim emocionara-se com o artigo de Herculano Pires, e a certa altura de sua carta de 30 de outubro, exclama:

“Agora, porém, abro a Revista Internacional de Espiritismo e vejo seu formidável artigo (não há outro adjetivo!) sobre seu desencontro com A Fagulha e não resisti à vontade de lhe escrever imediatamente, embora você ainda me deva resposta a outra carta, no mesmo sentido. Muito bem, Herculano! Aquele artigo é uma definição objetiva, lúcida, inequívoca. Eu bem gostaria que fosse divulgado em separata ou fosse reproduzido em diversos jornais, a fim de que certas inteligências vesgas, inimigas da cultura e da independência intelectual, fiquem sabendo como você pensa e como se situa perante os grupos que querem levar o Espiritismo para os despenhadeiros do marxismo”, etc.

No vibrante artigo Herculano Pires, inicialmente, define sua posição:

Minha posição é uma só: o Espiritismo é uma doutrina dialética por natureza, mas na linha cristã-evangélica e na linha hegeliana espiritualista. Não na linha marxista, que critiquei e critico, por considerá-la até mesmo antidialética.

E, a seguir o apóstolo de Kardec separa o joio do trigo:

Minha opinião é a de que o Espiritismo representa a síntese de todo o conhecimento existente. Dessa maneira, o que há de bom no Marxismo, o que provém do próprio Cristianismo, também está no Espiritismo, mas de maneira mais ampla, numa visão interexistencial do homem e do mundo, que falta inteiramente na visão materialista marxista.

E Herculano Pires insiste com sua costumeira lucidez:

Não será com os moldes do figurino marxista que conseguiremos dar ao Espiritismo a eficiência necessária na transformação do mundo. Essa transformação, por sua vez, não poderá ser feita, segundo penso, nos moldes de nenhuma das doutrinas sociais atualmente consideradas na Terra como decisivas. A prova aí está, no próprio choque apocalíptico que nos ameaça. Só a Doutrina Espírita aprofunda as causas espirituais das injustiças e monstruosidades da nossa estrutura social, e que por sinal estão presentes não apenas no mundo capitalista mas também no chamado mundo socialista.

E Herculano Pires finaliza com estas palavras plenas de bom-senso:

“...não precisamos de nenhuma complementação marxista para o Espiritismo. Pelo contrário, o Espiritismo é que tem muito a dar a todas as Filosofias contemporâneas e a todas as Ciências, complementando-as com a sua visão integral do homem e da vida.”

Esse artigo teve repercussão, inclusive, fora do Brasil. Ofélia León Bravo, notável intelectual cubana que viveu foragida em Nova Jersey, nos Estados Unidos por questões políticas (ela fundou e presidiu em Cuba a Associação de Médiuns Espiritistas, foi presidente da Federação Espírita de Havana e fez parte da Comissão Organizadora do 3o Congresso Espírita Panamericano realizado em 1957 na capital cubana), desencarnada em 24 de janeiro de 1990, enviou a Herculano Pires longa carta, da qual extraímos o seguinte trecho histórico:

En Cuba fuimos durante muchos años activos militantes del Espiritismo, hasta dos años después de la llegada del Castro-comunismo, en que lenta, pero ininterrumpidamente, fueram desapareciendo instituciones y publicaciones. Hasta el busto em bronce erigido a la memoria de Allan Kardec por la Comision Organizadora de los Actos Pro Centenário de “El Libro de Los Espiritus”y que se encontraba emplazado en el parque comprendido em las calles Almendares, Lugareño y Luaces em la Habana – busto que fue develado, el domingo 21 de Abril de 1957, el que fuera retirado por las autoridades militares que gobiernan la isla, entre los meses de marzo-abril de 1971.
Seria atrevido por nuestra parte decirle que pensamos com Ud cuando dice: “Mas entiendo y reafirmo, después de largos años de observación y de estudios, que no precisasmos de ninguna complementación marxista para el Espiritismo. Por el contrario, el Espiritismo es el que tiene mucho que dar a todas las filosofias contemporaneas y a todas las Ciencias, complementándolas com su visión integral del hombre y de la vida.”

E o refinado poeta e filósofo argentino Humberto Mariotti, que tinha grande afinidade intelectual com Herculano Pires, remeteu-lhe estas linhas:

“La juventude es bella, revolucionaria, pero cuando llega a ciertos extremismos acerca de los valores eternos del Espiritu, borra con el codo todo lo que afirmativamente realiza y da argumentos a los conservadores que temem el progreso incesante de la humanidad y del conocimiento. Tenga fe, Herculano, en lo Alto. El Espiritu de Verdad apoya su obra y le dará la inspiración necesaria para que su obra marque en la cultura espírita mundial um hito que nadie podrá desarraigar.”

Herculano Pires, então, deu o episódio por encerrado.

Dois anos depois desaparecia o Movimento Universitário Espírita.

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