segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Suicídio por amor?


Suicídio por amor?

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, ed. 199, jan/fev 2024, p. 15-16

  

          Na 2ª parte do livro O céu e o inferno, de Allan Kardec, encontram-se descritos casos de pessoas que haviam desencarnado recentemente, possibilitando-se conhecer as situações que se depararam no chamado “mundo dos Espíritos”. Há relatos de Espíritos felizes, sofredores, medianos, suicidas, dentre outros. Trata-se de riquíssima ilustração sobre o que acontece após a morte, útil para auxiliar os adeptos a confrontar essa realidade com o panorama que livros romanceados e de ficção costumam citar.

          Dentre aqueles que ceifaram a própria vida carnal, apresenta-se o episódio de Louis G., um jovem sapateiro enamorado por sua noiva, a costureira de botas, Victorine R.

O casal, em um almoço rotineiro, teve um pequeno desentendimento verbal. Arrependido e disposto a pedir perdão, Louis dirige-se à casa de Victorine no dia seguinte, mas qual não foi a sua surpresa quando percebeu que a jovem, aproveitando-se da oportunidade, decidiu impedir a entrada do noivo ao não abrir a porta, sinalizando que não o perdoaria pela desavença.

Inconformado com a recusa em ser atendido e vociferando que Victorine nunca mais teria alguém que a amasse tanto quanto ele, Louis comete o tresloucado ato de apunhalar-se, perfurando o próprio coração.

          Allan Kardec, ao questionar o Espírito São Luís sobre a responsabilidade indireta da moça no trágico evento, obteve como resposta a confirmação de que ela era, proporcionalmente até onde conseguisse agir, culpada, pois não o amava e alimentou esperanças e sentimentos no rapaz os quais ela não compartilhava.

          Em novo questionamento, São Luís destaca que o ato suicida de Louis não teria a mesma causa daqueles que fogem da responsabilidade da vida por covardia, então as consequências seriam atenuadas, mas isso também não o isentaria da ação criminosa, mesmo que impulsiva e não-premeditada.

          Ao ser evocado, Louis reconhece que cometeu um erro matando-se por ela, pois ela não o merecia e ele sofria pela situação. Kardec ponderou que Louis já estava vivenciando os sofrimentos decorrentes do ato, mas que Victorine R. arcaria com as maiores consequências por não ter sido franca e por iludir.

          Alguns poderiam julgar que esse caso de suicídio foi motivado por “amor”, porém, o amor legítimo é bom e não promove desarmonia psíquica. Dessa maneira, a violência praticada para abreviar a vida com as respectivas repercussões não se caracterizam como uma ação benéfica, logo, afasta-se da essência do Bem.

Como exemplificado por Louis e Victorine, nenhum “amor” não correspondido justifica o suicídio.

          A maturidade moral, o equilíbrio emocional e, principalmente, o conhecimento sobre a realidade espiritual, sobre as responsabilidades envolvidas e sobre a continuidade da existência são fatores determinantes para o indivíduo enfrentar os desafios e insatisfações sob novas perspectivas, improváveis de serem percebidas sob a ótica materialista.

          Considerando que os jovens estão no grupo que historicamente possui participação significativa nos casos de suicídio e, ainda, que 96,8% dos casos de suicídio estão ligados a transtornos mentais, como depressão, e que poderiam receber assistência médica especializada, torna-se imprescindível a discussão dessa situação com os próprios jovens.[1] Começando-se na família.

 

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