sexta-feira, 10 de abril de 2026

Mundos transitórios não são “colônias espirituais”

 

Mundos transitórios não são “colônias espirituais”

Marcelo Henrique

Marco Milani


 Texto publicado simultaneamente no Canal Espiritismo Com Kardec

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Nossa tarefa permanente é a de enfocar e repetir, muitas vezes, acerca da necessária diferenciação entre a teoria espírita e seus fundamentos e qualquer outra construção literária que tenha aparência espírita, porque verse sobre temas espirituais.

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Pode ser um tanto óbvio para quem se dedica ao estudo sério do Espiritismo, mas os chamados mundos transitórios, apresentados pelos Espíritos, nas obras de Allan Kardec (1804-1869), não guardam qualquer relação com a noção ficcional de colônias espirituais circunscritas com rotinas típicas de cidades materiais descritas em alguns romances mediúnicos.

Inicialmente, convém definir que, conforme o item 234, de “O livro dos Espíritos”, mundos transitórios são estações de repouso para Espíritos que se encontram em longo período de erraticidade, estado esse um pouco penoso.

Em complemento, as Inteligências Invisíveis destacam que tais mundos não seriam habitados simultaneamente por seres corporais (encarnados) e Espíritos (desencarnados). A Terra, segundo se informa, já teria sido um desses mundos durante o período de sua formação geológica, a teor do item 236, da mesma obra.

Do contrário, o conceito de colônias espirituais, as quais figuram em alguns romances mediúnicos, como por exemplo “Nosso Lar” (de autoria de Francisco Cândido Xavier, lançado em 1944), afasta-se significativamente da definição kardeciana, acima referida, por supostamente se apresentarem como centros urbanos, caracterizados pela concentração de atividades administrativas, comerciais e de serviços. Uma cópia, portanto, não-material, da ambiência física em que estamos acostumados a viver.

No caso, a citada colônia estaria situada nas imediações da cidade do Rio de Janeiro, cujos habitantes seriam humanos recém-desencarnados e outros falecidos há mais tempo. Nessa condição transitória, segundo esta literatura, existiriam ocupações como as nossas, com a distribuição de tarefas e a circulação por diversos ambientes, de labor, educação, descanso e familiares. Há, ainda, algo que parece bastante pitoresco, nos relatos, que é a convivência com animais.

Este “padrão” de relatos é seguido por muitas outras obras, posteriores ao livro em tela, que acabam sendo mais “detalhistas” quanto a situações de “vivência espiritual” na condição de Erraticidade, como recompensas por trabalhos e realizações (o “bônus-hora” descrito no livro de Chico Xavier), alimentos e – pasmem – a circunstância de relações sexuais entre os desencarnados resultando em gravidez!

Todavia, o tema não é da contemporaneidade (séculos XX e XXI), do chamado “Espiritismo à brasileira”. Esta noção de “cidades” ou “regiões” etéreas, espirituais, vem de muito longe, presente em tradições religiosas ancestrais e recebendo denominações diversas (Jerusalém Celestial, Ilha dos Bem-aventurados, Campos Elíseos, além das representações de Dante Alighieri, quanto aos “andares” do Paraíso Celeste e do Inferno). No século de Kardec (XIX), o tema também “apareceu”, quando médiuns como Emanuel Swedenborg (1688-1772) se valeram de analogias, com descrições similares. Mas não é somente ele. Desde o Século VII, alguns autores (certamente, alguns deles também inspirados mediunicamente por desencarnados que se encontravam no “véu da ilusão”, trataram de ambientes, paisagens, formas e objetos no chamado “mundo dos Espíritos”, isto é, a condição de imaterialidade. Benchaya (2021) faz um importante escorço de obras e autores que trataram deste assunto.

Vale lembrar, no entanto, e, principalmente para aqueles que tentam “validar” a fórceps essa mera teoria, que o próprio Swedenborg  a desmentiu, conforme o relato espiritual contido na Revue Spirite, de novembro de 1859, intitulada “Comunicação de Swedenborg”. Lá, o Espírito afirma, entre outras coisas:

 

“A minha moral espírita e a minha doutrina não estão isentas de grandes erros, que hoje reconheço.  [...] Também aquilo que eu dizia do mundo dos Anjos, que é o que pregam nos templos, não passava de ilusão dos meus sentidos. De boa-fé eu julgava ver, e o disse, mas me enganei. Vós, sim, estais no melhor caminho, porque estais mais esclarecidos do que estávamos em meu tempo”.

Nesta dissertação, também constam perguntas que Kardec fez diretamente ao comunicante, que merecem registro:

“6. ─ Aquele Espírito vos fez escrever coisas que hoje reconheceis como errôneas, fê-lo com boa ou com má intenção?

─ Não o fez com má intenção. Ele próprio estava enganado, pois não era bastante esclarecido. Hoje eu vejo que as ilusões do meu próprio Espírito e da minha inteligência o influenciavam, malgrado seu. Entretanto, no meio de alguns erros de sistema, fácil é reconhecer grandes verdades.

7. ─ O fundamento da vossa doutrina repousa sobre as correspondências. Ainda acreditais nessas relações que descobríeis entre cada coisa do mundo material e cada coisa do mundo moral?

─ Não. É uma ficção.

[...]

11. ─ Poderíeis dizer-nos de que maneira eram recebidas por vós as comunicações dos Espíritos? Escrevíeis aquilo que vos era revelado, à maneira dos médiuns, ou por inspiração?

─ Quando eu estava em silêncio e em recolhimento, meu Espírito como que ficava deslumbrado, em êxtase, e eu via claramente uma imagem à minha frente, que me falava e ditava o que eu deveria escrever. Por vezes, minha imaginação se misturava a isso.

[...]

13. ─ Qual a vossa opinião sobre a Doutrina Espírita, tal qual é hoje?

─ Eu vos disse que estais num caminho mais seguro que o meu, visto que as vossas luzes são em geral mais amplas. Eu tinha que lutar contra uma ignorância muito maior e sobretudo contra a superstição”.

 

Vejamos que Swedenborg assume sua ficção. André Luiz declarou não ter vocabulário para descrever a realidade espiritual e romanceou o que lhe parecia real e verdadeiro. Sobre a natureza de obras ficcionais, escreveu Milani (2026, grifos do original):

“Assim, a ficção espiritualista pode consolar, inspirar e conduzir alguns ao estudo inicial, cumprindo o papel preparatório indicado por Kardec, ao recomendar formar primeiro o espiritualista. Contudo não representa o Espiritismo em sentido doutrinário. Confundir ficção com revelação significa abdicar do método que constitui a própria identidade e autoridade espírita. Sem este método, o espiritualismo emociona; com ele, o Espiritismo esclarece, consola e liberta da ignorância”.

Eis, aí, a diferença cabal entre conhecimento e ilusão. As manifestações de Espíritos, pela mediunidade, como ressaltou Kardec em diversas oportunidades e contextos são, apenas e tão-somente, opiniões. A condição de estar desencarnado, desprovido da matéria e das limitações que esta, provisoriamente, nos impõe, não eleva ninguém à condição de sabedoria e plenitude espiritual. Daí porque o Professor francês ter consignado, no bojo da Filosofia Espírita, o exame lógico-racional de todas as comunicações e a submissão, delas, ao critério da universalidade dos ensinos, afastando, de pronto, toda e qualquer afirmação que não corresponderia à principiologia espírita.

Pela dicção da Doutrina dos Espíritos, não há em toda a obra kardeciana qualquer menção à existência de colônias espirituais ou congêneres, como locais de permanência dos Espíritos, quando desencarnados. A Erraticidade – condição dos Espíritos errantes – não se refere nem se acha circunscrita a “ambientes” ou “lugares” específicos, onde “viveriam” os desencarnados, realizando tarefas e se relacionando à moda similar da vida físico-material.

O que ressalta, em relação aos espíritas “apaixonados” e sua “defesa incondicional” das colônias, é um apego fortíssimo à materialidade (das relações, das convivências, dos cenários e das pessoas), como se o post-morten permitisse a repetição das vivências e experiências que o Espírito acaba de deixar. Neste sentido, Rivé e Henrique (2024) apontam:

“Talvez por isso Nosso Lar tenha se tornado mesmo, entre os adeptos das ideias espíritas, um sonho de consumo, um objeto de apego, um desejo fervoroso e, até, como ilustra o título deste artigo, um fetiche, como forma de algo perseguido pelos humanos, que, desde já, durante a vida física, imaginam como será a sua (futura) vida, espiritual, participando da rotina de tais “colônias”, como que “aproveitando a estadia” naqueles “locais”, que são fictícios ou fruto da imaginação”.

No mesmo sentido, Henrique (2022) também afirma:

“Os espíritas passam a existência toda “aguardando” a vida espiritual. Fazem projetos. Cultivam desejos. Imaginam-se como se já estivessem do “outro lado”. Alguns chegam a dizer que gostariam de estar em uma colônia, como “Nosso Lar”. Outros apavoram-se, arrepiam-se ante a iminência de poderem ser direcionados a um lugar de sofrimento – expresso em livros ditos espíritas – como o “Umbral”. Já ouvi, também, e repetidas vezes, que há “sanatórios espirituais”, lugares para onde são direcionados os “espíritas que não seguiram as orientações espirituais” ou que “não se tornaram homens de bem, os verdadeiros espíritas” – descritos nas obras kardecianas”.

Para nós que frequentamos instituições espíritas e dialogamos com frequentadores e trabalhadores, é muito comum ouvir, desses, que seria um “sonho” estar em Nosso Lar, após desencarnarem. Teixeira (2024), a esse respeito, comenta: “julgarmos que ser espírita é uma espécie de salvo conduto que garantirá uma entrada triunfal em Nosso Lar e congêneres”.

O contraste entre mundos transitórios e supostas colônias espirituais, portanto, é evidente. Em específico, as estações de repouso de Espíritos fatigados pela longa erraticidade em planetas sem convivência de encarnados (como consta da chamada literatura kardeciana) versus cidades assemelhadas a centros urbanos tipicamente materiais, com fluxo de recém-desencarnados e outros falecidos há mais tempo, em relações de convivialidade, como se fosse um planeta como o nosso.

Neste sentido, a obra “Nosso Lar” é fruto da liberdade de pensamento e expressão de seu autor espiritual (André Luiz). A obra, assim como as demais que lhe seguiram, compondo uma série, merece ser respeitada e considerada como um relato espiritual. A crítica sobre uma obra literária é um dever de todo espírita estudioso e sensato. Criticar a obra não é desmerecer seu autor – nem o encarnado, médium, tampouco o Espírito que ditou o relato. Isto precisa ser entendido pelo meio espírita.

Um aspecto metodologicamente relevante nessa comparação é o fato de que as informações mediúnicas sobre mundos transitórios foram organizadas por Kardec respeitando-se, como já afirmado, o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos (CUEE). Já as descrições detalhadas de colônias espirituais advêm de fontes romanceadas difusas. Não raramente a ausência de familiaridade com os critérios que fundamentam a autoridade da Doutrina Espírita (vide, na Introdução de “O evangelho segundo o Espiritismo”, o tópico com este título), faz com que adeptos exaltados alardeiem que Kardec “não disse tudo” então pode-se, equivocadamente, assumir como verdade comunicações mais recentes, ainda que fantasiosas (Milani, 2025).

Resta-nos, por “dever de ofício”, enfocar e repetir, muitas vezes, acerca da necessária diferenciação entre a teoria espírita e seus fundamentos e qualquer outra construção literária que tenha aparência espírita, porque verse sobre temas espirituais. É o que fazemos, presentemente, inclusive como incentivo para que grupos e instituições espíritas, valendo-se de textos como esse (e os demais, mencionados abaixo, em “Fontes”) sejam debatidos com tranquilidade e efetividade no meio espírita.

 

Fontes:

Benchaya, S. J. (2021). Os espíritas e as colônias espirituais. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 25. Jan. 2021. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/os-espiritas-e-as-colonias-espirituais/>. Acesso em 8. Abr. 2026.

Henrique, M. (2022). Liberte-se! “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 17. Set. 2022. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/liberte-se-por-marcelo-henrique/>. Acesso em 8. Abr. 2026.

Kardec, A. (2003). “O evangelho segundo o Espiritismo”. Trad. J. Herculano Pires. 59. Ed. São Paulo: LAKE.

Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.

Kardec, A. (1964). “Revue Spirite”. Trad. Julio Abreu Filho. Supervisão de J. Herculano Pires. São Paulo: Edicel.

Milani, M. (2025). ‘Kardec não disse tudo’ e a falácia do apelo à ignorância. “Educador Espírita”. 1. Mar. 2025. Disponível em <https://educadorespirita1.blogspot.com/2025/03/kardec-nao-disse-tudo-e-falacia-do.html>. Acesso em 8. Abr. 2026.

Milani, M. (2026). Ficção espiritualista versus coerência doutrinária. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 14. Mar. 2026. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/ficcao-espiritualista-versus-coerencia-doutrinaria-por-marco-milani/ >. Acesso em 8. Abr. 2026.

Netto, H. (2022). Colônias? “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 7. Ago. 2022. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/colonias-por-henri-netto/>. Acesso em 8. Abr. 2026.

Rivé, M. C.; Henrique, M. (2024). O fetiche por ‘Nosso Lar’. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 31. Mar. 2024. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/o-fetiche-por-nosso-lar-por-maria-cristina-rive-e-marcelo-henrique/>. Acesso em 8. Abr. 2026.

Teixeira, M. (2024). Grande Prêmio Nosso Lar. “Espiritismo COM Kardec – ECK”. 30. Jan. 2024. Disponível em <https://www.comkardec.net.br/grande-premio-nosso-lar-por-marcelo-teixeira/>. Acesso em 8. Abr. 2026.

Xavier, F. C. (2014). “Nosso Lar”. Espírito André Luiz. 64. Ed. Brasília: FEB.


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