quarta-feira, 22 de abril de 2026

Jorge de Burgos ficaria satisfeito: a cruzada contra o riso e o aplauso em certos centros espíritas


 

Jorge de Burgos ficaria satisfeito: a cruzada contra o riso e o aplauso em certos centros espíritas

 

Marco Milani

 

Eventualmente, observam-se em algumas casas espíritas restrições ao aplauso após palestras ou outras apresentações públicas. Em tais ambientes, o público é orientado a substituir o gesto espontâneo de reconhecimento por movimentos silenciosos das mãos ou, em situações mais rígidas, por completo silêncio. O expositor, ao final, permanece sem qualquer indicativo claro da recepção de sua fala, como se a expressão natural de apreço representasse risco à harmonia espiritual do ambiente.

              Essa preocupação com a contenção de manifestações espontâneas está longe de ser uma inovação de alguns espíritas. Na excelente obra O Nome da Rosa, Umberto Eco constrói uma narrativa em que o verdadeiro risco não reside na ignorância, mas na leveza e descontração diante do que alguns supõem deveria aparentar sisudez. É nesse ambiente que destaca-se a figura severa do personagem Jorge de Burgos, um monge beneditino da Idade Média para quem o riso representaria uma forma muito perigosa de perturbação: não por seu conteúdo, mas por seu efeito corrosivo sobre o temor e a autoridade. Afinal, se o homem risse, talvez deixasse de temer; e, se deixasse de temer, a reverência perderia parte de sua eficácia. Para alguns adeptos, a lógica assume contornos mais técnicos: não seria o riso em si o problema, mas o ruído que ele produziria, capaz de interferir em uma suposta harmonia fluídica do ambiente. Guardadas as proporções, o paralelo permanece sugestivo: quando o aplauso precisa ser administrado como variável de risco vibratório, talvez não seja o som que incomode, mas a dificuldade de lidar com manifestações humanas que não se deixam enquadrar pelo silêncio protocolar presente na cultura de algumas casas espíritas.

Tal postura apresentada como prudência espiritual não encontra respaldo na obra de Allan Kardec. Em O Livro dos Médiuns, por exemplo, Kardec dedica extensa análise às condições dos fenômenos mediúnicos, destacando fatores como a qualidade moral dos participantes, a seriedade dos propósitos e a disciplina do grupo. Em nenhum momento, contudo, sugere que manifestações naturais de apreço, como o aplauso, comprometeriam a chamada harmonia dos fluidos espirituais. A preocupação kardequiana dirige-se ao conteúdo moral e à intenção dos participantes, não à supressão de gestos sociais legítimos. Se assim não fosse, bastaria o silêncio exterior para garantir elevação espiritual.

Kardec distingue claramente a frivolidade da leveza. A primeira compromete a finalidade da reunião; a segunda não é sequer objeto de censura. Ao contrário, a ênfase recai sempre sobre o discernimento, e não sobre a imposição de regras de conduta desvinculadas de fundamentação doutrinária.

Há, na excessiva vigilância sonora, um deslocamento sutil, mas relevante, do eixo de análise das apresentações. Em vez de se avaliar o conteúdo da mensagem, a intenção do expositor e o benefício moral da atividade, passa-se a monitorar a forma exterior de reação do público, como se a espiritualidade dependesse de um controle acústico do ambiente. Esse deslocamento aproxima-se mais de uma estética do comportamento do que de uma ética fundamentada em princípios. E, nesse ponto, o paralelo com a obra de Eco deixa de ser apenas literário e passa a ser interpretativo.

Não se trata, evidentemente, de defender o aplauso indiscriminado ou de ignorar que certos ambientes requerem sobriedade silenciosa. A questão é outra. Trata-se de reconhecer que a elevação espiritual não decorre da supressão sistemática de manifestações humanas legítimas, mas do aprimoramento moral que lhes dá sentido. Quando a forma passa a prevalecer sobre o conteúdo, corre-se o risco de transformar a disciplina em formalismo e a prudência em rigidez infundada.

Em última instância, a pergunta que se impõe é simples. O que efetivamente desarmoniza um ambiente espiritual? Um breve aplauso de reconhecimento ou a substituição da espontaneidade por um conjunto de práticas cuja justificativa repousa mais em tradição local do que em fundamento doutrinário claro? A resposta, ao que tudo indica, não se resolve no plano do ruído, mas no da coerência entre princípios e práticas.

 


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