Jorge
de Burgos ficaria satisfeito: a cruzada contra o riso e o aplauso em certos
centros espíritas
Marco
Milani
Eventualmente, observam-se em algumas casas espíritas restrições ao
aplauso após palestras ou outras apresentações públicas. Em tais ambientes, o
público é orientado a substituir o gesto espontâneo de reconhecimento por
movimentos silenciosos das mãos ou, em situações mais rígidas, por completo
silêncio. O expositor, ao final, permanece sem qualquer indicativo claro da
recepção de sua fala, como se a expressão natural de apreço representasse risco
à harmonia espiritual do ambiente.
Essa preocupação com a contenção
de manifestações espontâneas está longe de ser uma inovação de alguns espíritas.
Na excelente obra O Nome da Rosa, Umberto Eco constrói uma narrativa em que o
verdadeiro risco não reside na ignorância, mas na leveza e descontração diante
do que alguns supõem deveria aparentar sisudez. É nesse ambiente que destaca-se
a figura severa do personagem Jorge de Burgos, um monge beneditino da Idade
Média para quem o riso representaria uma forma muito perigosa de perturbação:
não por seu conteúdo, mas por seu efeito corrosivo sobre o temor e a
autoridade. Afinal, se o homem risse, talvez deixasse de temer; e, se deixasse
de temer, a reverência perderia parte de sua eficácia. Para alguns adeptos, a
lógica assume contornos mais técnicos: não seria o riso em si o problema, mas o
ruído que ele produziria, capaz de interferir em uma suposta harmonia fluídica
do ambiente. Guardadas as proporções, o paralelo permanece sugestivo: quando o
aplauso precisa ser administrado como variável de risco vibratório, talvez não
seja o som que incomode, mas a dificuldade de lidar com manifestações humanas
que não se deixam enquadrar pelo silêncio protocolar presente na cultura de
algumas casas espíritas.
Tal postura apresentada como prudência espiritual não encontra respaldo
na obra de Allan Kardec. Em O Livro dos Médiuns, por exemplo, Kardec dedica
extensa análise às condições dos fenômenos mediúnicos, destacando fatores como
a qualidade moral dos participantes, a seriedade dos propósitos e a disciplina
do grupo. Em nenhum momento, contudo, sugere que manifestações naturais de
apreço, como o aplauso, comprometeriam a chamada harmonia dos fluidos
espirituais. A preocupação kardequiana dirige-se ao conteúdo moral e à intenção
dos participantes, não à supressão de gestos sociais legítimos. Se assim não fosse,
bastaria o silêncio exterior para garantir elevação espiritual.
Kardec distingue claramente a frivolidade da leveza. A primeira
compromete a finalidade da reunião; a segunda não é sequer objeto de censura.
Ao contrário, a ênfase recai sempre sobre o discernimento, e não sobre a
imposição de regras de conduta desvinculadas de fundamentação doutrinária.
Há, na excessiva vigilância sonora, um deslocamento sutil, mas
relevante, do eixo de análise das apresentações. Em vez de se avaliar o
conteúdo da mensagem, a intenção do expositor e o benefício moral da atividade,
passa-se a monitorar a forma exterior de reação do público, como se a
espiritualidade dependesse de um controle acústico do ambiente. Esse
deslocamento aproxima-se mais de uma estética do comportamento do que de uma
ética fundamentada em princípios. E, nesse ponto, o paralelo com a obra de Eco
deixa de ser apenas literário e passa a ser interpretativo.
Não se trata, evidentemente, de defender o aplauso indiscriminado ou de
ignorar que certos ambientes requerem sobriedade silenciosa. A questão é outra.
Trata-se de reconhecer que a elevação espiritual não decorre da supressão
sistemática de manifestações humanas legítimas, mas do aprimoramento moral que
lhes dá sentido. Quando a forma passa a prevalecer sobre o conteúdo, corre-se o
risco de transformar a disciplina em formalismo e a prudência em rigidez
infundada.
Em última instância, a pergunta que se impõe é simples. O que
efetivamente desarmoniza um ambiente espiritual? Um breve aplauso de
reconhecimento ou a substituição da espontaneidade por um conjunto de práticas
cuja justificativa repousa mais em tradição local do que em fundamento
doutrinário claro? A resposta, ao que tudo indica, não se resolve no plano do
ruído, mas no da coerência entre princípios e práticas.

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