sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Ficção espiritualista versus coerência doutrinária

Ficção espiritualista versus coerência doutrinária

 

Marco Milani


 Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 54, mar/2026, p. 8-9


A ampla difusão de obras literárias e audiovisuais de temática espiritualista tem despertado interesse crescente pela sobrevivência da alma, pela continuidade da vida após a morte e pela realidade do mundo invisível. Esse movimento possui mérito inicial, pois convida à reflexão e rompe a indiferença materialista. O problema surge quando produções pertencentes ao campo da ficção espiritualista passam a ser tomadas como expressão fiel da Doutrina Espírita, substituindo o estudo metódico das obras fundamentais por impressões emocionais e lúdicas.

Para compreender o equívoco, é indispensável distinguir três planos. O espiritualismo, em sentido amplo, constitui categoria filosófica aberta, que admite múltiplas concepções sobre alma e transcendência. A ficção espiritualista pode apresentar narrativas moralmente edificantes ou simbolicamente expressivas, sem que isso lhe confira autoridade normativa. O Espiritismo, por sua vez, conforme estruturado por Allan Kardec, funda-se em método próprio, controle racional das comunicações mediúnicas e universalidade do ensino dos Espíritos. Confundir esses níveis dissolve a especificidade doutrinária em um conjunto indistinto de crenças emocionais.

O próprio Kardec esclarece a ordem pedagógica adequada ao afirmar, em O Livro dos Médiuns, no capítulo dedicado ao método, que antes de tornar alguém espírita é preciso torná-lo espiritualista. A recomendação indica que a aceitação racional da existência da alma e da vida futura constitui preparação necessária para a compreensão do corpo doutrinário. O espiritualismo é, portanto, porta de entrada e não ponto de chegada. Quando a ficção é confundida com Doutrina, essa ordem se inverte, pois a emoção narrativa antecede e por vezes substitui o entendimento racional.

Sob perspectiva kardequiana, revelações individuais não constituem a doutrina. Comunicações isoladas, ainda que elevadas moralmente ou atraentes literariamente, carecem de validação pelo duplo crivo da razão e da concordância universal. Narrativas espirituais podem consolar, sugerir imagens simbólicas do além ou estimular reflexões morais, mas permanecem no domínio da representação e não da definição doutrinária. Elevá-las à condição normativa desloca o Espiritismo do campo do conhecimento progressivo para o da crença afetiva.

Os riscos dessa substituição são concretos. Primeiramente, introduzem-se concepções particulares não submetidas ao controle universal, como descrições minuciosas do mundo espiritual, hierarquias específicas ou mecanismos de comunicação não confirmados pela universalidade dos ensinos. Aceitos sem exame, tais elementos adquirem aparência de verdade revelada e passam a moldar o imaginário coletivo mais do que os princípios essenciais da Doutrina. Em seguida ocorre a primazia da emoção sobre o entendimento. A força estética da narrativa produz adesão afetiva imediata e reduz o impulso ao estudo crítico, de modo que o indivíduo se comove, mas não necessariamente compreende. Por fim instala-se a fragmentação interpretativa, na qual diferentes obras romanceadas geram visões concorrentes do mundo espiritual e enfraquecem a coerência construída pelo controle universal, multiplicando concepções dependentes da imaginação e não das leis gerais.

A aceitação acrítica dessas produções revela dificuldade intelectual típica de uma cultura dominada pela imagem. Em vez de submeter a narrativa ao critério doutrinário, submete-se a doutrina ao impacto narrativo. A ilustração converte-se em fundamento, a emoção em evidência e a ficção em referência. Tal movimento não fortalece o Espiritismo, mas o aproxima do misticismo difuso que o método kardequiano buscou superar.

Isso não implica rejeição absoluta de romances espiritualistas. Tais obras podem cumprir função pedagógica indireta ao despertar interesse inicial pelo estudo sério e preparar o terreno para a compreensão espiritualista indicada por Kardec. O problema não está em sua existência, mas em sua elevação indevida à condição de síntese doutrinária. A apreciação torna-se legítima quando acompanhada de subordinação explícita às obras básicas, confronto racional das ideias apresentadas e distinção clara entre edificação moral e autoridade doutrinária. Sem essas balizas, a emoção substitui o conhecimento.

A responsabilidade não recai apenas sobre autores ou produtores, mas também sobre instituições e lideranças que, por entusiasmo ou estratégia de divulgação, acabam endossando implicitamente a equivalência entre ficção e Doutrina. Quando espaços de estudo utilizam narrativas imaginativas como fonte principal de ensino, contribuem para o empobrecimento metodológico do próprio movimento. Divulgar não é legitimar e sensibilizar não é esclarecer.

Preservar a coerência doutrinária exige reconhecer que o Espiritismo não se define por imagens sedutoras do além, mas por princípios racionais universais relativos à natureza do Espírito, sua imortalidade, seu progresso e sua responsabilidade moral. Toda representação concreta do mundo espiritual é necessariamente parcial e provisória. O Espiritismo situa-se no plano das leis gerais e não no dos cenários particulares.

Assim, a ficção espiritualista pode consolar, inspirar e conduzir alguns ao estudo inicial, cumprindo o papel preparatório indicado por Kardec ao recomendar formar primeiro o espiritualista. Contudo não representa o Espiritismo em sentido doutrinário. Confundir ficção com revelação significa abdicar do método que constitui a própria identidade e autoridade espírita. Sem método o espiritualismo emociona, com método o Espiritismo esclarece, consola e liberta da ignorância.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário