terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Tutela eleitoral de espíritas?

 

Tutela eleitoral de espíritas?

 

Marco Milani

 

Periodicamente ressurgem, com certa previsibilidade, aqueles que se consideram iluminados para orientar, sugerir, induzir ou constranger em quem o espírita deve ou não votar. A iniciativa costuma vir revestida de boas intenções, linguagem edificante e apelos morais elevados. Falta apenas um detalhe elementar: coerência com o próprio princípio de liberdade de consciência que sustenta o Espiritismo.

A Doutrina Espírita não instituiu clero, hierarquia de mando nem diretório eleitoral. Não há procuração espiritual que autorize terceiros a substituir o juízo individual. O espírita é convidado ao estudo, à reflexão e à responsabilidade pessoal por seus atos. Isso inclui, naturalmente, suas escolhas políticas. Pretender uniformizar votos em nome de uma suposta consistência doutrinária revela menos zelo moral e mais inclinação ao controle.

Curioso é que tal postura frequentemente se apresenta como defesa do bem. O argumento implícito parece ser o seguinte: se o eleitor não votar como eu considero correto, então está moralmente equivocado. A conclusão prática dispensa comentários. Trata-se de uma forma de substituir a consciência alheia pela própria convicção. Nada mais distante do exame racional proposto pela Doutrina.

Há também um equívoco conceitual recorrente. Confunde-se orientação moral geral com prescrição política específica. O Espiritismo propõe valores universais como caridade, responsabilidade e progresso moral. Não fornece, contudo, listas eleitorais, slogans partidários ou manuais de voto correto. A passagem do princípio ético à escolha concreta pertence ao campo da liberdade individual. É exatamente aí que alguns parecem sentir grave desconforto.

O fenômeno lembra antigas práticas de voto de cabresto, agora com verniz espiritualizado. Antes, a pressão vinha do poder econômico ou coronelista. Hoje, por vezes, tenta vir da autoridade moral autoatribuída. A embalagem mudou. A lógica de tutela permanece. O eleitor continua sendo tratado como incapaz de discernir por si mesmo. Apenas trocaram o chicote visível por uma recomendação piedosa.

Outro aspecto digno de nota é a seletividade indignada. Quando o voto alheio coincide com a preferência do orientador, celebra-se a consciência esclarecida e o progresso. Quando diverge, denuncia-se ignorância, alienação e falta de sensibilidade social. Liberdade e tolerância, nesse modelo, são reconhecidas sob condição de concordância prévia.

Convém recordar o óbvio. Casas espíritas não são comitês eleitorais. Reuniões doutrinárias não são palanques. Médiuns não são cabos eleitorais. Misturar esses planos empobrece o ambiente espiritual, reduz a reflexão e introduz divisões desnecessárias. O resultado raramente é elevação moral. Geralmente é apenas mais ruído e divisão.

Isso não significa indiferença ética diante da vida pública. O espírita, como qualquer cidadão, pode e deve refletir sobre justiça, responsabilidade social e consequências coletivas das decisões políticas. O que não pode é transferir essa responsabilidade a um tutor ideológico travestido de guia moral. A maturidade começa exatamente quando termina a dependência intelectual.

No fundo, a pretensão de dirigir o voto alheio revela uma contradição silenciosa. Fala-se em evolução do Espírito, mas desconfia-se da capacidade de escolha do próximo. Exalta-se a consciência, mas tenta-se administrá-la. Defende-se liberdade, mas apenas até o ponto em que ela diverge.

Talvez fosse mais simples admitir que divergências políticas entre espíritas são naturais. A Doutrina não promete uniformidade de opiniões, e sim aperfeiçoamento moral individual com reflexo coletivo. Esperar unanimidade eleitoral é desconhecer a própria diversidade humana que o Espiritismo admite.

Assim, a solução é menos grandiosa do que alguns imaginam. Basta respeitar a consciência alheia. Cada espírita estuda, pondera e vota conforme seu entendimento. Sem cabresto, sem tutela e sem necessidade de autorização moral externa. Liberdade verdadeira dispensa intermediários e, principalmente, dispensa os que insistem em administrá-la.

 


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