Tutela
eleitoral de espíritas?
Marco
Milani
Periodicamente ressurgem, com certa previsibilidade, aqueles que se
consideram iluminados para orientar, sugerir, induzir ou constranger em quem o espírita deve ou não votar. A iniciativa costuma vir
revestida de boas intenções, linguagem edificante e apelos morais elevados.
Falta apenas um detalhe elementar: coerência com o próprio princípio de liberdade
de consciência que sustenta o Espiritismo.
A Doutrina Espírita não instituiu clero, hierarquia de mando nem
diretório eleitoral. Não há procuração espiritual que autorize terceiros a
substituir o juízo individual. O espírita é convidado ao estudo, à reflexão e à
responsabilidade pessoal por seus atos. Isso inclui, naturalmente, suas
escolhas políticas. Pretender uniformizar votos em nome de uma suposta consistência
doutrinária revela menos zelo moral e mais inclinação ao controle.
Curioso é que tal postura frequentemente se apresenta como defesa do
bem. O argumento implícito parece ser o seguinte: se o eleitor não votar como
eu considero correto, então está moralmente equivocado. A conclusão prática
dispensa comentários. Trata-se de uma forma de substituir a consciência alheia
pela própria convicção. Nada mais distante do exame racional proposto pela
Doutrina.
Há também um equívoco conceitual recorrente. Confunde-se orientação
moral geral com prescrição política específica. O Espiritismo propõe valores
universais como caridade, responsabilidade e progresso moral. Não fornece,
contudo, listas eleitorais, slogans partidários ou manuais de voto correto. A
passagem do princípio ético à escolha concreta pertence ao campo da liberdade
individual. É exatamente aí que alguns parecem sentir grave desconforto.
O fenômeno lembra antigas práticas de voto de cabresto, agora com
verniz espiritualizado. Antes, a pressão vinha do poder econômico ou
coronelista. Hoje, por vezes, tenta vir da autoridade moral autoatribuída. A
embalagem mudou. A lógica de tutela permanece. O eleitor continua sendo tratado
como incapaz de discernir por si mesmo. Apenas trocaram o chicote visível por
uma recomendação piedosa.
Outro aspecto digno de nota é a seletividade indignada. Quando o voto
alheio coincide com a preferência do orientador, celebra-se a consciência
esclarecida e o progresso. Quando diverge, denuncia-se ignorância, alienação e
falta de sensibilidade social. Liberdade e tolerância, nesse modelo, são
reconhecidas sob condição de concordância prévia.
Convém recordar o óbvio. Casas espíritas não são comitês eleitorais.
Reuniões doutrinárias não são palanques. Médiuns não são cabos eleitorais.
Misturar esses planos empobrece o ambiente espiritual, reduz a reflexão e
introduz divisões desnecessárias. O resultado raramente é elevação moral.
Geralmente é apenas mais ruído e divisão.
Isso não significa indiferença ética diante da vida pública. O
espírita, como qualquer cidadão, pode e deve refletir sobre justiça,
responsabilidade social e consequências coletivas das decisões políticas. O que
não pode é transferir essa responsabilidade a um tutor ideológico travestido de
guia moral. A maturidade começa exatamente quando termina a dependência
intelectual.
No fundo, a pretensão de dirigir o voto alheio revela uma contradição
silenciosa. Fala-se em evolução do Espírito, mas desconfia-se da capacidade de
escolha do próximo. Exalta-se a consciência, mas tenta-se administrá-la.
Defende-se liberdade, mas apenas até o ponto em que ela diverge.
Talvez fosse mais simples admitir que divergências políticas entre
espíritas são naturais. A Doutrina não promete uniformidade de opiniões, e sim
aperfeiçoamento moral individual com reflexo coletivo. Esperar unanimidade
eleitoral é desconhecer a própria diversidade humana que o Espiritismo admite.
Assim, a solução é menos grandiosa do que alguns imaginam. Basta
respeitar a consciência alheia. Cada espírita estuda, pondera e vota conforme
seu entendimento. Sem cabresto, sem tutela e sem necessidade de autorização
moral externa. Liberdade verdadeira dispensa intermediários e, principalmente,
dispensa os que insistem em administrá-la.

Nenhum comentário:
Postar um comentário