Apropriação da relevância de Jesus
Marco
Milani
Texto
publicado na Revista Dirigente Espírita, n.215, nov/dez 26, p. 14-15
Em O Livro dos Espíritos, questão 625, Jesus é apresentado como guia e
modelo da humanidade. Essa condição exige disposição para confrontar as
próprias atitudes com seus ensinamentos. Quando, porém, sua imagem é adaptada
às preferências do intérprete, a relação se inverte, quando o modelo passa a
ser moldado por aquele que deveria aprender com ele. Jesus permanece no
discurso, mas quem conduz a mensagem é a conveniência de quem fala.
Essa apropriação pode assumir formas discretas. Uma passagem
evangélica, retirada de seu contexto, torna-se argumento enviesado, mas com
aparência de ser válido, em favor de uma opinião. Uma preferência política
recebe a roupagem de compromisso cristão. Uma ambição pessoal apresenta-se como
missão espiritual. O nome de Jesus acrescenta respeitabilidade a afirmações
que, sem esse recurso, precisariam enfrentar o exame de seus próprios
fundamentos.
O expediente torna-se especialmente mesquinho quando a autoridade
moral do Cristo serve para desqualificar quem discorda. O intérprete associa
sua posição ao amor e à justiça, deixando aos demais o lugar da insensibilidade
e da malevolência. Já não se discutem argumentos, mas distribuem-se credenciais
de superioridade moral. A discordância com uma proposta humana passa a ser
tratada como resistência ao próprio Evangelho.
A psicologia oferece elementos para compreender esse processo. Ross,
Lelkes e Russell (2012) identificaram, entre cristãos norte-americanos, a
tendência de atribuir a Jesus posições próximas às próprias convicções
políticas. O estudo não permite presumir manipulação consciente em todos os
casos, mas evidencia que a sinceridade da crença não impede a projeção de
preferências pessoais sobre Jesus.
O anacronismo favorece essa projeção. Classificar Jesus como
representante de uma ideologia moderna exige muito mais do que reunir frases
aparentemente compatíveis com ela. A preocupação com os pobres, por exemplo,
não constitui propriedade exclusiva de uma corrente política. Tampouco a
presença de relações econômicas nas parábolas transforma o Evangelho em defesa
de um sistema específico de produção. A distância histórica não impede
aplicações contemporâneas, mas exige que sejam reconhecidas como interpretações,
sujeitas à crítica.
Em ensaio sobre o tema, Lawrence Reed (2020) distingue a caridade
voluntária da redistribuição compulsória e contesta a identificação automática
de Jesus com correntes coletivistas. A mensagem de Jesus não se torna
propriedade de quem encontra nela uma passagem favorável ao que já pensa.
Para o espírita, há uma contradição adicional quando se invoca a
relevância de Jesus para legitimar concepções que negam a realidade espiritual
ou reduzem o ser humano às condições materiais da existência. Combater a fome e
enfrentar injustiças são compromissos compatíveis com a compreensão do Espírito
imortal e não constituem monopólio de uma corrente política ou econômica. O
materialismo, ao negar a realidade espiritual, contraria fundamentos
doutrinários e é, em essência, o verdadeiro antagonista do Espiritismo. Na
questão 799 de O Livro dos Espíritos, a resposta dos Espíritos registrada por
Kardec (2004) associa o progresso à superação do materialismo, vinculando a
compreensão da vida futura à solidariedade humana.
Assim, o distanciamento da mensagem essencial de Jesus ocorre quando
essa aproximação com ideias materialistas esvazia o sentido espiritual de seus
ensinamentos. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo II, item 2, Kardec
(2003) situa a vida futura como eixo do ensino do Cristo, conflitando com as
motivações imediatistas transitórias.
Ao apelar-se à fraternidade, desconsiderando a continuidade da vida e
a responsabilidade moral que ultrapassa a existência corporal, Jesus passa a
figurar como reformador limitado às circunstâncias terrenas, enquanto o
aperfeiçoamento do Espírito perde centralidade. Sua autoridade é preservada
para legitimar o discurso, mas o conteúdo que contraria as convicções do
intérprete é silenciado.
Na compreensão espírita, a melhoria das condições sociais integra o
dever de solidariedade, mas não é a finalidade da existência. Quando a
transformação das estruturas sociais é apresentada como suficiente para a
regeneração humana, deixa-se em segundo plano o esforço individual de superação
do orgulho e do egoísmo, as chagas da humanidade. Nenhum arranjo econômico
dispensa a educação moral, assim como nenhuma declaração de espiritualidade
dispensa o auxílio concreto a quem sofre.
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII, item 4, verifica-se
que a compreensão da realidade espiritual e das Leis Naturais incentivam a
transformação moral e o esforço para vencer as próprias más inclinações como
critérios de reconhecimento do espírita. A defesa pública dos necessitados não
concede licença para a arrogância no convívio, assim como a linguagem da
fraternidade não torna fraterna a hostilidade contra os divergentes. A
referência ao Cristo aumenta a responsabilidade pela coerência e não oferece
imunidade à crítica.
Nas instituições espíritas, esse cuidado alcança a tribuna e as
decisões cotidianas. O dirigente não deve apresentar suas preferências como
decorrências obrigatórias da Doutrina. O expositor precisa distinguir o
ensinamento estudado da aplicação que pessoalmente propõe. A liberdade de
interpretação não inclui o direito de atribuir a Jesus a autoria das próprias
conclusões.
Neste Natal, a lembrança de Jesus pode favorecer um exame menos
confortável e mais fecundo, que é perceber quanto de sua mensagem realmente
modifica a conduta de si mesmo e quanto é selecionado apenas para ornamentar
convicções para serem apreciadas por terceiros. Honrá-lo exige aceitar que seus
ensinamentos contrariem interesses orgulhosos e exponham as próprias
incoerências. Um guia que parece confirmar todas as opiniões de quem o segue
talvez já tenha sido reduzido ao reflexo de seu seguidor. O compromisso
espírita começa por devolver ao modelo sua função, que é orientar o
aperfeiçoamento moral, inclusive quando isso exige abandonar a pretensão de
fazê-lo avalista das próprias convicções.
Referências
KARDEC, Allan. O
evangelho segundo o Espiritismo. 59. ed. São Paulo: LAKE, 2003.
KARDEC, Allan. O
livro dos Espíritos. 64. ed. São Paulo: LAKE, 2004.
REED, Lawrence
W. No, Jesus wasn’t a socialist. Foundation for Economic Education, 5 jan.
2020. Disponível em: https://fee.org/articles/no-jesus-wasnt-a-socialist/.
ROSS, Lee D.;
LELKES, Yphtach; RUSSELL, Alexandra G. How Christians reconcile their personal
political views and the teachings of their faith: projection as a means of
dissonance reduction. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 109,
n. 10, p. 3616–3622, 2012. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.1117557109.

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