sábado, 31 de outubro de 2026

Apropriação da relevância de Jesus


 

Apropriação da relevância de Jesus

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.215, nov/dez 26, p. 14-15

 

Em O Livro dos Espíritos, questão 625, Jesus é apresentado como guia e modelo da humanidade. Essa condição exige disposição para confrontar as próprias atitudes com seus ensinamentos. Quando, porém, sua imagem é adaptada às preferências do intérprete, a relação se inverte, quando o modelo passa a ser moldado por aquele que deveria aprender com ele. Jesus permanece no discurso, mas quem conduz a mensagem é a conveniência de quem fala.

Essa apropriação pode assumir formas discretas. Uma passagem evangélica, retirada de seu contexto, torna-se argumento enviesado, mas com aparência de ser válido, em favor de uma opinião. Uma preferência política recebe a roupagem de compromisso cristão. Uma ambição pessoal apresenta-se como missão espiritual. O nome de Jesus acrescenta respeitabilidade a afirmações que, sem esse recurso, precisariam enfrentar o exame de seus próprios fundamentos.

O expediente torna-se especialmente mesquinho quando a autoridade moral do Cristo serve para desqualificar quem discorda. O intérprete associa sua posição ao amor e à justiça, deixando aos demais o lugar da insensibilidade e da malevolência. Já não se discutem argumentos, mas distribuem-se credenciais de superioridade moral. A discordância com uma proposta humana passa a ser tratada como resistência ao próprio Evangelho.

A psicologia oferece elementos para compreender esse processo. Ross, Lelkes e Russell (2012) identificaram, entre cristãos norte-americanos, a tendência de atribuir a Jesus posições próximas às próprias convicções políticas. O estudo não permite presumir manipulação consciente em todos os casos, mas evidencia que a sinceridade da crença não impede a projeção de preferências pessoais sobre Jesus.

O anacronismo favorece essa projeção. Classificar Jesus como representante de uma ideologia moderna exige muito mais do que reunir frases aparentemente compatíveis com ela. A preocupação com os pobres, por exemplo, não constitui propriedade exclusiva de uma corrente política. Tampouco a presença de relações econômicas nas parábolas transforma o Evangelho em defesa de um sistema específico de produção. A distância histórica não impede aplicações contemporâneas, mas exige que sejam reconhecidas como interpretações, sujeitas à crítica.

Em ensaio sobre o tema, Lawrence Reed (2020) distingue a caridade voluntária da redistribuição compulsória e contesta a identificação automática de Jesus com correntes coletivistas. A mensagem de Jesus não se torna propriedade de quem encontra nela uma passagem favorável ao que já pensa.

Para o espírita, há uma contradição adicional quando se invoca a relevância de Jesus para legitimar concepções que negam a realidade espiritual ou reduzem o ser humano às condições materiais da existência. Combater a fome e enfrentar injustiças são compromissos compatíveis com a compreensão do Espírito imortal e não constituem monopólio de uma corrente política ou econômica. O materialismo, ao negar a realidade espiritual, contraria fundamentos doutrinários e é, em essência, o verdadeiro antagonista do Espiritismo. Na questão 799 de O Livro dos Espíritos, a resposta dos Espíritos registrada por Kardec (2004) associa o progresso à superação do materialismo, vinculando a compreensão da vida futura à solidariedade humana.

Assim, o distanciamento da mensagem essencial de Jesus ocorre quando essa aproximação com ideias materialistas esvazia o sentido espiritual de seus ensinamentos. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo II, item 2, Kardec (2003) situa a vida futura como eixo do ensino do Cristo, conflitando com as motivações imediatistas transitórias.

Ao apelar-se à fraternidade, desconsiderando a continuidade da vida e a responsabilidade moral que ultrapassa a existência corporal, Jesus passa a figurar como reformador limitado às circunstâncias terrenas, enquanto o aperfeiçoamento do Espírito perde centralidade. Sua autoridade é preservada para legitimar o discurso, mas o conteúdo que contraria as convicções do intérprete é silenciado.

Na compreensão espírita, a melhoria das condições sociais integra o dever de solidariedade, mas não é a finalidade da existência. Quando a transformação das estruturas sociais é apresentada como suficiente para a regeneração humana, deixa-se em segundo plano o esforço individual de superação do orgulho e do egoísmo, as chagas da humanidade. Nenhum arranjo econômico dispensa a educação moral, assim como nenhuma declaração de espiritualidade dispensa o auxílio concreto a quem sofre.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII, item 4, verifica-se que a compreensão da realidade espiritual e das Leis Naturais incentivam a transformação moral e o esforço para vencer as próprias más inclinações como critérios de reconhecimento do espírita. A defesa pública dos necessitados não concede licença para a arrogância no convívio, assim como a linguagem da fraternidade não torna fraterna a hostilidade contra os divergentes. A referência ao Cristo aumenta a responsabilidade pela coerência e não oferece imunidade à crítica.

Nas instituições espíritas, esse cuidado alcança a tribuna e as decisões cotidianas. O dirigente não deve apresentar suas preferências como decorrências obrigatórias da Doutrina. O expositor precisa distinguir o ensinamento estudado da aplicação que pessoalmente propõe. A liberdade de interpretação não inclui o direito de atribuir a Jesus a autoria das próprias conclusões.

Neste Natal, a lembrança de Jesus pode favorecer um exame menos confortável e mais fecundo, que é perceber quanto de sua mensagem realmente modifica a conduta de si mesmo e quanto é selecionado apenas para ornamentar convicções para serem apreciadas por terceiros. Honrá-lo exige aceitar que seus ensinamentos contrariem interesses orgulhosos e exponham as próprias incoerências. Um guia que parece confirmar todas as opiniões de quem o segue talvez já tenha sido reduzido ao reflexo de seu seguidor. O compromisso espírita começa por devolver ao modelo sua função, que é orientar o aperfeiçoamento moral, inclusive quando isso exige abandonar a pretensão de fazê-lo avalista das próprias convicções.

 

Referências

 

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. 59. ed. São Paulo: LAKE, 2003.

 

KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. 64. ed. São Paulo: LAKE, 2004.

 

REED, Lawrence W. No, Jesus wasn’t a socialist. Foundation for Economic Education, 5 jan. 2020. Disponível em: https://fee.org/articles/no-jesus-wasnt-a-socialist/.

 

ROSS, Lee D.; LELKES, Yphtach; RUSSELL, Alexandra G. How Christians reconcile their personal political views and the teachings of their faith: projection as a means of dissonance reduction. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 109, n. 10, p. 3616–3622, 2012. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.1117557109.

 

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