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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Não há escassez material no mundo espiritual


 Não há escassez material no mundo espiritual

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 61, out 2026, p.12-13

 

A escassez é uma condição da existência corporal. Enquanto encarnado, o ser humano depende de água, alimento, abrigo, vestuário e energia para conservar o organismo. Esses recursos precisam ser produzidos, transformados e distribuídos e, por não estarem disponíveis de maneira ilimitada, exigem escolhas. É dessa relação entre necessidades materiais e recursos limitados que nasce o problema econômico da escassez.

Seria correto transportar essa lógica para o mundo espiritual?

A distinção central é simples: o Espírito desencarnado não possui organismo biológico. A morte encerra a vida corporal, não a existência do ser inteligente. Com o corpo, desaparecem as necessidades fisiológicas cuja satisfação dependia do consumo de matéria.

Kardec tratou diretamente dessa diferença. No artigo “Quadro da vida espírita”, publicado na Revista Espírita de abril de 1859, observa que o perispírito conserva uma forma definida, mas “não tem os nossos órgãos”. As percepções do Espírito já não dependem dos olhos, ouvidos ou demais estruturas que serviam à experiência física. Na mesma análise, esclarece que o Espírito não necessita de repouso ou alimentação para reparar perdas orgânicas e acrescenta uma afirmação muito significativa: “As necessidades do corpo determinam necessidades sociais, que para eles não existem”.

A implicação econômica é clara. Na Terra, o alimento repõe energia; a habitação protege o corpo; o vestuário responde às condições do ambiente. Produção, distribuição e consumo existem porque determinados bens são necessários à manutenção da vida corporal. Sem essa dependência fisiológica, não se pode presumir que a erraticidade reproduza, por necessidade, as mesmas relações econômicas dos encarnados.

Isso não significa que o desencarnado compreenda imediatamente sua nova condição. O episódio do padre Bizet, publicado por Kardec na Revista Espírita de junho de 1868, apresenta um exemplo marcante. Bizet relata observar Espíritos que haviam morrido durante a fome na Argélia e continuavam procurando alimento inutilmente, pois não tendo órgãos, nunca seriam saciados e isso era, para eles, uma tortura. Kardec define a situação como “a ilusão das necessidades da carne”. O sofrimento era real para aqueles Espíritos, mas sua origem não estava numa carência biológica que pudesse ser suprida pela ingestão de alimento.

Essa diferença deve ser destacada. Sentir fome não equivale a necessitar biologicamente de comida. O Espírito pode conservar impressões, hábitos, desejos e apegos da existência corporal. Quanto maior sua vinculação à matéria, maior pode ser a dificuldade para perceber que determinadas necessidades já cessaram. Uma sensação remanescente ou uma ilusão não deve, por isso, ser convertida em característica objetiva da vida espiritual.

O mesmo cuidado se aplica a obras ficcionais espiritualistas que transportam para o além-túmulo instituições próprias das sociedades materiais. Sua aceitação como descrição da realidade espiritual exige confronto com as obras fundamentais do Espiritismo e com os princípios que elas estabelecem.

Kardec apresenta a vida espiritual como ativa, com possibilidade dos Espíritos estudarem, auxiliarem, orientarem, cumprirem missões e progredirem. Nada disso exige que o trabalho tenha a mesma função econômica que possui entre encarnados. No mundo físico, uma parte importante do trabalho está ligada à produção dos meios necessários à sobrevivência. Na erraticidade, o trabalho pode conservar sua dimensão de aprendizado, serviço e aperfeiçoamento sem pressupor remuneração monetária e uma estrutura produtiva típica de encarnados voltada à gestão de bens escassos.

A imortalidade do Espírito afasta a noção de escassez material que fundamenta a experiência econômica terrestre e as relações sociais entre os encarnados.

A condição moral do Espírito não altera esse princípio. Em O Livro dos Espíritos, Kardec caracteriza os Espíritos da terceira ordem pela “predominância da matéria sobre o espírito”, pela ignorância e pela persistência das paixões. A expressão descreve seu estado moral e sua vinculação às ideias, desejos e preconceitos da existência corporal. Não significa que esses Espíritos necessitem vivenciar na erraticidade um mundo fisicamente organizado à imagem da Terra para que o ambiente corresponda à sua inferioridade. A própria explicação de Kardec recomenda a interpretação contrária: os conhecimentos desses Espíritos acerca do mundo espiritual são limitados e podem confundir-se com ideias da vida corpórea, levando-os a fornecer noções incompletas ou equivocadas sobre essa realidade.

O apego pertence ao Espírito; não decorre daí que a estrutura material à qual ele se apegava precise continuar existindo depois da morte e criações fluídicas não subvertem essa realidade.

Aceitar cegamente a existência de uma economia material norteada pela escassez em “cidades” no além, inclusive com a circulação de uma moeda obtida pelo trabalho que pode comprar moradias e serviços, dentre outras transações comerciais, contrasta com o ensino doutrinário. A inferioridade pode explicar a ilusão, o desejo e a dificuldade de desprendimento, mas não implica a materialização do mundo espiritual.