Marco Milani
Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 61, out 2026, p.12-13
A
escassez é uma condição da existência corporal. Enquanto encarnado, o ser
humano depende de água, alimento, abrigo, vestuário e energia para conservar o
organismo. Esses recursos precisam ser produzidos, transformados e distribuídos
e, por não estarem disponíveis de maneira ilimitada, exigem escolhas. É dessa
relação entre necessidades materiais e recursos limitados que nasce o problema
econômico da escassez.
Seria
correto transportar essa lógica para o mundo espiritual?
A
distinção central é simples: o Espírito desencarnado não possui organismo
biológico. A morte encerra a vida corporal, não a existência do ser
inteligente. Com o corpo, desaparecem as necessidades fisiológicas cuja
satisfação dependia do consumo de matéria.
Kardec
tratou diretamente dessa diferença. No artigo “Quadro da vida espírita”,
publicado na Revista Espírita
de abril de 1859, observa que o perispírito conserva uma forma definida, mas
“não tem os nossos órgãos”. As percepções do Espírito já não dependem dos
olhos, ouvidos ou demais estruturas que serviam à experiência física. Na mesma
análise, esclarece que o Espírito não necessita de repouso ou alimentação para
reparar perdas orgânicas e acrescenta uma afirmação muito significativa: “As
necessidades do corpo determinam necessidades sociais, que para eles não
existem”.
A
implicação econômica é clara. Na Terra, o alimento repõe energia; a habitação
protege o corpo; o vestuário responde às condições do ambiente. Produção,
distribuição e consumo existem porque determinados bens são necessários à
manutenção da vida corporal. Sem essa dependência fisiológica, não se pode
presumir que a erraticidade reproduza, por necessidade, as mesmas relações
econômicas dos encarnados.
Isso não
significa que o desencarnado compreenda imediatamente sua nova condição. O
episódio do padre Bizet, publicado por Kardec na Revista Espírita de junho de 1868, apresenta um exemplo marcante.
Bizet relata observar Espíritos que haviam morrido durante a fome na Argélia e
continuavam procurando alimento inutilmente, pois não tendo órgãos, nunca
seriam saciados e isso era, para eles, uma tortura. Kardec define a situação
como “a ilusão das necessidades da carne”. O sofrimento era real para aqueles
Espíritos, mas sua origem não estava numa carência biológica que pudesse ser
suprida pela ingestão de alimento.
Essa
diferença deve ser destacada. Sentir fome não equivale a necessitar
biologicamente de comida. O Espírito pode conservar impressões, hábitos,
desejos e apegos da existência corporal. Quanto maior sua vinculação à matéria,
maior pode ser a dificuldade para perceber que determinadas necessidades já
cessaram. Uma sensação remanescente ou uma ilusão não deve, por isso, ser
convertida em característica objetiva da vida espiritual.
O mesmo
cuidado se aplica a obras ficcionais espiritualistas que transportam para o
além-túmulo instituições próprias das sociedades materiais. Sua aceitação como
descrição da realidade espiritual exige confronto com as obras fundamentais do
Espiritismo e com os princípios que elas estabelecem.
Kardec
apresenta a vida espiritual como ativa, com possibilidade dos Espíritos estudarem,
auxiliarem, orientarem, cumprirem missões e progredirem. Nada disso exige que o
trabalho tenha a mesma função econômica que possui entre encarnados. No mundo
físico, uma parte importante do trabalho está ligada à produção dos meios
necessários à sobrevivência. Na erraticidade, o trabalho pode conservar sua
dimensão de aprendizado, serviço e aperfeiçoamento sem pressupor remuneração
monetária e uma estrutura produtiva típica de encarnados voltada à gestão de bens
escassos.
A
imortalidade do Espírito afasta a noção de escassez material que fundamenta a
experiência econômica terrestre e as relações sociais entre os encarnados.
A condição moral do Espírito não altera esse princípio. Em O Livro dos
Espíritos, Kardec caracteriza os Espíritos da terceira ordem pela
“predominância da matéria sobre o espírito”, pela ignorância e pela
persistência das paixões. A expressão descreve seu estado moral e sua
vinculação às ideias, desejos e preconceitos da existência corporal. Não
significa que esses Espíritos necessitem vivenciar na erraticidade um mundo
fisicamente organizado à imagem da Terra para que o ambiente corresponda à sua
inferioridade. A própria explicação de Kardec recomenda a interpretação
contrária: os conhecimentos desses Espíritos acerca do mundo espiritual são
limitados e podem confundir-se com ideias da vida corpórea, levando-os a
fornecer noções incompletas ou equivocadas sobre essa realidade.
O apego pertence ao Espírito; não decorre daí que a estrutura material à
qual ele se apegava precise continuar existindo depois da morte e criações
fluídicas não subvertem essa realidade.
Aceitar
cegamente a existência de uma economia material norteada pela escassez em
“cidades” no além, inclusive com a circulação de uma moeda obtida pelo trabalho
que pode comprar moradias e serviços, dentre outras transações comerciais,
contrasta com o ensino doutrinário. A inferioridade pode explicar a ilusão, o
desejo e a dificuldade de desprendimento, mas não implica a materialização do
mundo espiritual.
