terça-feira, 1 de abril de 2025

O desafio do esclarecimento espírita: o caso do ramatisismo


 

O desafio do esclarecimento espírita: o caso do ramatisismo

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 43, abr/2025, p. 9-10

 

Alguns assuntos discutidos há décadas com claras exposições de seus aspectos antidoutrinários podem parecer que já foram superados e constariam, apenas, de registros históricos do Movimento Espírita Brasileiro. Lamentavelmente, mesmo diante das evidentes crendices e superstições que carregam em sua essência, continuam atraindo incautos e místicos de toda ordem sob uma roupagem espírita. Tal é o caso do ramatisismo, caracterizado por um conjunto de ideias e práticas derivadas das obras atribuídas ao Espírito Ramatis, psicografadas principalmente por Hercílio Maes.

O ramatisismo incorpora ensinamentos do hinduísmo, do budismo tibetano, da teosofia e de correntes ocultistas ocidentais, criando um sistema híbrido que difere dos princípios filosóficos espíritas, além de não contar com qualquer critério metodológico de validação de suas informações.

Em suas obras, Ramatis relaciona o destino espiritual da humanidade a influências astrológicas e cósmicas, defendendo que planetas e signos desempenham papéis decisivos no processo evolutivo dos Espíritos, algo completamente rejeitado pelo Espiritismo, que valoriza o livre-arbítrio e o progresso individual baseado no mérito e na responsabilidade moral. Adicionalmente, o suposto Espírito insiste em previsões sobre transições planetárias envolvendo catástrofes geológicas, reestruturação de continentes e a participação de civilizações extraterrestres no "resgate" espiritual da Terra.

Para o filósofo e jornalista José Herculano Pires, um dos maiores estudiosos sobre o Espiritismo no Brasil, o ramatisismo compromete o rigor que Kardec estabeleceu como salvaguarda contra os riscos do charlatanismo e do fanatismo. Uma das críticas de Herculano Pires à ingênua aceitação de mistificações por parcela dos adeptos pode ser encontrada, a seguir.

 

“A facilidade com que a maioria das pessoas aceita livros de evidente mistificação, como os Evangelhos de Roustaing, as obras de Ramatis, e tantas outras, eivadas de contradições e de passagens ridículas, destinadas especialmente a ridicularizar a Doutrina, provém dos milênios de sujeição das massas à mistificação clerical.”[1]

 

A crítica de Herculano, feita na década de 1970, expressava o problema gerado pela ampla divulgação no mercado editorial dos livros de Ramatis a partir de 1950, o que levou a um aumento da visibilidade e da aceitação popular do conteúdo ramatisiano. Isso coincidiu com uma fase de crescimento do movimento espírita no Brasil, em que muitos centros estavam sendo fundados e buscavam nomes de "Espíritos benfeitores". Por isso existem, ainda hoje, instituições que participam do movimento espírita envergando o nome Ramatis e divulgando suas obras, mesmo diante das contradições doutrinárias.

              Essa situação, assim como a disseminação de outras propostas e práticas místicas e incoerentes doutrinariamente, afeta a percepção de identidade do Espiritismo para o público em geral e para parte significativa de seus adeptos. Grupos que estudam apenas superficialmente o Espiritismo tendem a confundir qualquer obra espiritualista com literatura espírita legítima.

Um caminho para sanar esse problema começa pela formação sólida de dirigentes, trabalhadores e frequentadores. Faz-se necessário incentivar cursos e estudos sistemáticos de todas as obras de Allan Kardec, com ênfase nas chamadas básicas ou fundamentais (O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese), sempre valorizando a metodologia racional e científica.

Na contramão, deparamo-nos com instituições que priorizam o estudo de romances e outras obras de fonte única que não passaram pelo critério da universalidade como se fossem “avanços” no conhecimento espírita.

A melhor maneira de abordar essa grave questão não é a crítica agressiva, mas o esclarecimento fraterno, apresentando as diferenças doutrinárias de maneira clara e documentada, com base em Kardec e na lógica espírita.

A liberdade de pensamento é um valor do Espiritismo, mas não deve ser confundida com a aceitação irrestrita de qualquer conteúdo espiritualista.



[1] Pires, J. H. (1973). O centro espírita (3ª ed., p. 24). São Paulo: Edicel.

PS: Há diferentes obras no mercado editorial que apontam as inconsistências doutrinárias do ramatisismo. Dentre elas, estão: "Ramatis: sábio ou pseudossábio" e " Espiritismo x Ramatisismo", ambas de autoria de Artur Azevedo.






quarta-feira, 12 de março de 2025

Espiritismo: a centralidade das obras de Allan Kardec


 

Espiritismo: a centralidade das obras de Allan Kardec

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.205, mar/abr 2025, p.12-13

 

O Espiritismo, desde sua organização e apresentação por Allan Kardec, tem em suas obras fundamentais o alicerce conceitual e metodológico que define sua identidade e estrutura. Mais do que simples referências históricas, esses livros representam o eixo central da Doutrina, estabelecendo os princípios que sustentam sua filosofia, moral e relação com a ciência.

A centralidade das obras kardequianas não decorre de um apego tradicionalista ou resistência ao avanço do conhecimento, como alguns equivocadamente supõem, mas do rigor metodológico empregado em sua elaboração, fundamentado na universalidade do ensino dos Espíritos e na análise racional dos fatos, critérios que nenhuma outra publicação atende integralmente.

Kardec publicou 23 títulos, muitos com edições revisadas. Dentre eles, destacam-se os 12 volumes da Revista Espírita, de 1858 a 1869, interrompida em abril devido à desencarnação do autor. Embora todas essas obras sejam essenciais para a compreensão do Espiritismo, cinco são consideradas fundamentais: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. Esses livros proporcionam a compreensão adequada dos princípios e valores espíritas, pois expressam o ensino dos Espíritos legitimado pelo critério da universalidade, com raras exceções em que Kardec destaca tratar-se de hipóteses a serem confirmadas com o tempo.

O Livro dos Espíritos, publicado em 1857, marca o início da Doutrina Espírita. Nele, são apresentados os princípios filosóficos do Espiritismo. Estruturado em quatro partes, estabelece os pilares sobre os quais os demais livros se desenvolveriam.

A continuidade desse esforço sistematizador ocorre com O Livro dos Médiuns, publicado em 1861. Se O Livro dos Espíritos delineia as bases filosóficas, esta obra aprofunda o estudo dos fenômenos mediúnicos, explicando seus mecanismos, classificações e as responsabilidades inerentes ao intercâmbio com o mundo espiritual. Kardec não apenas descreve os diferentes tipos de mediunidade, mas alerta sobre os riscos da mistificação e a necessidade de disciplina e estudo para evitar desvios e fraudes. O caráter científico do Espiritismo se fortalece nesse contexto, pois a obra propõe métodos de observação e análise dos fenômenos, conferindo legitimidade à investigação mediúnica e espiritualista.

O aspecto moral do Espiritismo exemplifica-se em O Evangelho segundo o Espiritismo, publicado em 1864. Apresenta-se neste livro uma leitura racional dos ensinamentos morais de Jesus. A obra reforça valores como caridade, perdão, amor ao próximo, sustentada na lógica da reencarnação e da lei de progresso. Essa abordagem amplia a compreensão da Boa Nova, ressaltando a necessidade da vivência da conduta cristã no cotidiano.

O Céu e o Inferno, publicado em 1865, desenvolve a reflexão sobre a justiça divina, contrastando as concepções tradicionais de céu e inferno com os relatos obtidos do mundo espiritual, apresentando depoimentos de Espíritos em diferentes condições morais. Ao fazê-lo, demonstra que o estado da alma após a morte não é estático nem determinado por julgamentos arbitrários, mas consequência direta das ações praticadas em vida. A lógica da reencarnação e da evolução contínua reforça a responsabilidade individual e a noção de que cada ser constrói seu próprio destino.

A última obra fundamental é A Gênese, publicada em 1868, apresentando um estudo conciso sobre a origem do universo, os milagres e as predições à luz do Espiritismo. Kardec concilia os avanços científicos da época com a visão espiritualista, reafirmando o caráter progressivo da Doutrina. A obra enfatiza que o Espiritismo não se opõe à ciência, mas a acompanha em seu desenvolvimento, reformulando suas interpretações à medida que novos conhecimentos são adquiridos. Esse aspecto dinâmico demonstra que o Espiritismo não se cristaliza em verdades absolutas, mas se mantém em constante evolução, aberto ao aprimoramento e à ampliação do conhecimento humano.

Essas cinco obras formam um conjunto coeso que fundamenta o pensamento espírita, oferecendo respostas às grandes questões existenciais e incentivando a fé raciocinada. A solidez da estrutura doutrinária permite que a Doutrina Espírita dialogue com diferentes campos do saber.

Atualmente, opiniões de encarnados e desencarnados registradas em milhares de livros e comunicações mediúnicas são úteis para a investigação da realidade espiritual, mas qualquer estudo sério sobre o Espiritismo deve necessariamente passar pelo exame das obras kardequianas, as quais representam a base teórico-doutrinária. Nelas se encontram as diretrizes que garantem a unidade do conhecimento espírita diante de interpretações particulares e influências externas.

Produções de fonte única e sem validação metodológica, como romances e mensagens mediúnicas, podem ser objeto de estudo sob a perspectiva espiritualista, mas não substituem nem alteram, por si mesmas, os ensinos dos Espíritos já legitimados.

Os desafios metodológicos atuais envolvem a disseminação dessa base doutrinária e o avanço do conhecimento espírita, acompanhando o progresso da ciência, sempre sustentado pela universalidade do ensino dos Espíritos e por critérios objetivos

A incorporação de elementos estranhos à Doutrina compromete sua integridade, promovendo interpretações sincréticas e afastando-a de sua essência original. Esse processo de deterioração ocorre quando se abandona a prudência metodológica, permitindo que crenças pessoais e influências externas se sobreponham ao rigor investigativo e à validação universal dos ensinos.

No Brasil, estudiosos como Herculano Pires, Nazareno Tourinho, Gélio Lacerda Silva e Ary Lex, dentre outros, destacaram-se pelo combate às infiltrações e deturpações doutrinárias. O compromisso com a fidelidade aos princípios kardequianos não implica rigidez dogmática, mas sim a preservação da estrutura conceitual que confere ao Espiritismo sua identidade filosófica, científica e moral.

A unidade doutrinária não pode ser confundida com uma imposição autoritária de ideias, mas sim com um processo de validação coletiva. O próprio Kardec estabeleceu que o Espiritismo deveria se modificar diante de novas descobertas, mas apenas quando estas fossem devidamente comprovadas e corroboradas por múltiplas fontes independentes.

As obras fundamentais continuam a ser a trilha confiável para a compreensão da realidade sob as lentes espíritas.



sábado, 1 de março de 2025

“Kardec não disse tudo” e a falácia do apelo à ignorância


“Kardec não disse tudo” e a falácia do apelo à ignorância

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 42, mar/2025, p. 9-10

 

O Espiritismo, como doutrina filosófica, possui princípios que fundamentam seu corpo teórico. Não se trata de sistema fechado, permitindo a análise de novos fatos com base na razão, na lógica e no conhecimento já legitimado pela universalidade do ensino dos Espíritos, critérios que serviram para estabelecer suas diretrizes doutrinárias.

No entanto, ao longo do tempo, surgiram inúmeras tentativas de incorporar ao Espiritismo práticas, conceitos e teorias contraditórias aos seus princípios, acompanhados da frase “Kardec não disse tudo”. Essa afirmação, embora verdadeira em si mesma, tem sido utilizada de forma distorcida, especialmente pelo viés da falácia do apelo à ignorância (argumentum ad ignorantiam), para validar ideias que não possuem sustentação doutrinária.

O apelo à ignorância consiste em afirmar que algo deve ser verdadeiro simplesmente porque não há uma prova definitiva de que seja falso, ou vice-versa. No caso do Espiritismo, essa falácia ocorre quando se argumenta que, como Kardec não abordou ou esgotou determinado assunto em suas obras, esse mesmo assunto pode ser aceito como parte do Espiritismo. Trata-se de um erro lógico, pois a ausência de menção ou aprofundamento em um tema não implica, necessariamente, sua validade doutrinária.

O método epistêmico adotado por Kardec possui critérios sólidos para a aceitação de novos conceitos, quando corroborados por fatos e validados pela razão, além do controle universal do ensino dos Espíritos. Qualquer inovação ou ampliação do conhecimento espírita deve ser submetida a esse crivo, e não simplesmente aceita porque Kardec “não disse tudo”.

O conhecimento espírita é progressivo, mas esse progresso não ocorre de maneira arbitrária ou por meio da inserção de ideias antagônicas aos seus fundamentos. Sob a alegação de “avanço”, antigos e novos conceitos e práticas esotéricas, místicas e supersticiosas são ingenuamente abraçadas por adeptos mais afoitos e menos familiarizados com os fundamentos espíritas. Apometria, cromoterapia, astrologia, supostas comunicações com animais desencarnados, escolas iniciáticas secretas, preces ritualísticas, elaboração e distribuição de pomadas e outros produtos “milagrosos”, dentre outras, são exemplos de práticas estranhas ao Espiritismo.

Outras deturpações conceituais decorrentes de preferências e convicções pessoais manifestam-se sob diferentes aspectos, mas escoradas na mesma justificativa de atualização. Uma das mais perniciosas diz respeito à militância política disfarçada de progresso científico na área das ciências sociais, caracterizando-se pela seleção de pensadores específicos de determinada linha ideológica como representantes da modernidade que o Espiritismo “deveria” defender. Tais militantes ignoram posicionamentos teóricos contrários e pretendem determinar como o adepto deveria pensar politicamente, desrespeitando a liberdade de consciência individual.

O progresso, portanto, não significa abandono dos fundamentos nem a aceitação acrítica de qualquer novidade apresentada como “espírita”.

Como exemplos positivos de aplicações diretas do progresso científico no conhecimento espírita pode-se mencionar os estudos realizados com experiências de quase-morte (EQM) e investigações de lembranças de vidas passadas. Tais estudos não alteram os princípios doutrinários, porém permitem ao pesquisador espírita aprofundar a compreensão dos fenômenos citados baseados em evidências e não em simples abstração teórica.

O dinamismo espírita exige responsabilidade e coerência metodológica. A ciência espírita não pode ser guiada por suposições arbitrárias ou por argumentos falaciosos que se apoiam na ausência de menção direta a certos temas para justificá-los. O compromisso com a lógica e com o método kardequiano deve prevalecer, evitando que a doutrina seja corrompida por práticas e conceitos que não fazem parte de sua essência. O fato de Kardec não ter dito tudo não significa que qualquer coisa possa ser dita hoje em nome do Espiritismo.

 

sábado, 1 de fevereiro de 2025

A Inteligência artificial não é um oráculo moderno


 A Inteligência artificial não é um oráculo moderno

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 41, fev/2025, p. 9-10

 

O crescimento do uso de ferramentas de inteligência artificial (IA), como o ChatGPT, trouxe à tona uma série de debates éticos e filosóficos sobre o papel dessas tecnologias na sociedade. Entre essas discussões, destaca-se uma preocupação relevante no campo do Espiritismo: a possibilidade de se tentar transformar tais ferramentas em "oráculos modernos", capazes de substituir os ensinos dos Espíritos sistematizados por Allan Kardec. Essa intenção, embora compreensível frente à rapidez e eficiência dessas tecnologias, apresenta graves implicações e desafios que merecem análise crítica.

A Doutrina Espírita é fruto de uma investigação criteriosa conduzida por Kardec, com base em comunicações mediúnicas cujas informações foram validadas pelo método do Controle Universal. Esse conhecimento não é fruto de opiniões pessoais, mas sim de um ensino coletivo que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal. O caráter experimental e a lógica que permeiam os princípios espíritas refletem o cuidado de Kardec em evitar que influências subjetivas ou interpretações enviesadas desvirtuassem o conteúdo recebido.

As ferramentas de inteligência artificial, por outro lado, baseiam-se em dados coletados de fontes do mundo material, acumulando e processando informações disponíveis na internet e em outros repositórios de conhecimento. Embora impressionantes em sua capacidade de resposta e emulando, por vezes, um tom "neutro" ou "onisciente", esses sistemas são incapazes de alcançar o discernimento moral que caracteriza as mensagens dos Espíritos. A IA não possui consciência, intuição ou capacidade de acessar dimensões transcendentais; seu alcance está restrito ao plano físico e técnico, refletindo os preconceitos, limitações e lacunas das informações com as quais foi treinada.

A tentativa de usar a IA para rever e aperfeiçoar o ensino espírita, portanto, esbarra na limitação natural da fonte e do método. A linguagem precisa e objetiva de ferramentas como o ChatGPT pode dar uma falsa impressão de autoridade, fazendo com que indivíduos não familiarizados com as próprias limitações tecnológicas e, principalmente, imaturos quanto aos princípios e conceitos doutrinários, aceitem prontamente as respostas geradas por IA como novas verdades. Isso contraria a fé raciocinada, a qual convida à análise e ao estudo aprofundado com a prudência necessária. Kardec sempre incentivou o questionamento e a busca pela verdade, alertando contra a inconveniência da aceitação cega, mesmo diante de mensagens mediúnicas assinadas por Espíritos conhecidos.

Outra situação associada a essa prática é o enfraquecimento do papel da mediunidade como meio pelo qual a humanidade pode estabelecer comunicação direta com o mundo invisível, possibilitando a continuidade do aprendizado e da interação com os Espíritos. Quando se tenta substituir essa conexão viva e dinâmica por uma tecnologia artificial, há um afastamento do aspecto experimental mediúnico. A IA, certamente, pode auxiliar no estudo e na organização de informações, mas não pode replicar a profundidade da experiência espiritual que a mediunidade proporciona.

Além disso, a transformação do uso da IA em oráculo moderno contraria a proposta de autonomia racional promovida pelo Espiritismo. Kardec não buscou criar seguidores passivos, mas indivíduos conscientes de sua responsabilidade moral e de seu papel no progresso coletivo. Delegar o discernimento sobre a realidade espiritual a uma máquina programada por homens encarnados desvirtua a própria fonte e incentiva uma subordinação tecnológica.

É essencial reconhecer que a tecnologia desempenha um papel relevante e positivo no apoio ao estudo do Espiritismo, desde que utilizada com discernimento. Ferramentas de IA facilitam o acesso a obras espíritas, organizam estudos e podem responder dúvidas comuns, mas são apenas instrumentos e não substitutos do conhecimento doutrinário. Cabe aos espíritas acompanharem e usarem com o bom senso que Kardec tanto prezava as potencialidades dessas ferramentas.

Assim, o desafio não está em incentivar a tecnologia, mas em saber utilizá-la de maneira responsável como poderosa aliada, sem deslumbramento.

 

sábado, 25 de janeiro de 2025

Respostas às questões selecionadas - Tema: Fraternidade - Marco Milani


Respostas às questões selecionadas - Tema: Fraternidade – Marco Milani

Link para a apresentação: https://youtu.be/YRaaBltYnUg?si=ptT7T8S9IASOz7fx

 

1) Qual a sua visão sobre as afirmações que se faz de estarmos entrando no Mundo de Regeneração tendo em vista a distância que estamos de alcançar a fraternidade no mundo?

A transição para o Mundo de Regeneração é um processo gradativo e desafiador, marcado pelo lento progresso moral da humanidade. Embora ainda estejamos distantes da fraternidade universal, com evidente manifestação de ações egoístas e orgulhosas, essa fase de transição sinaliza mudanças imperceptíveis para alguns, mas percebidas ao longo dos séculos. Assim, a meta para a qual caminhamos é, necessariamente, a fraternidade e sua manifestação exige autoconhecimento, esforço contínuo para combater as más tendências e valorizar as boas ações, promovendo a educação moral. O Espiritismo nos inspira a confiar no progresso inevitável, sustentado pelo trabalho no bem e pela fé raciocinada, assegurando que cada esforço contribui para aproximar a humanidade desse ideal de regeneração.


2) O que está sendo feito na comunidade espírita para alcançar os menos beneficiados pela sociedade? Já que o estudo é necessário e muitas vezes estas pessoas têm uma instrução muito restrita.

A assistência social aos mais necessitados sempre foi promovida pelo movimento espírita alinhada aos princípios da caridade e da fraternidade. A maioria dos centros espíritas desenvolve projetos voltados ao atendimento das necessidades materiais e espirituais da população, além de iniciativas que buscam promover a educação e o desenvolvimento pessoal.

No âmbito doutrinário, os centros espíritas procuram oferecer, conforme as próprias limitações de recursos, o estudo das obras de Allan Kardec atentando-se à realidade e ao nível de compreensão do público frequentador, utilizando uma linguagem acessível e exemplos práticos. Em muitos casos, grupos de educação espírita infantojuvenil e palestras são realizados em comunidades carentes ou mesmo em instituições como presídios, hospitais e asilos, levando o consolo e o esclarecimento espiritual a quem necessita. Assim, a comunidade espírita busca não apenas atender às necessidades imediatas dessas pessoas, mas também oferecer ferramentas para seu crescimento moral, espiritual e social, promovendo a dignidade e a autossuficiência, sempre em consonância com o lema espírita de que "fora da caridade não há salvação".

 

3) Como superar o período de luta previsto por Kardec ao Espiritismo?

É essencial manter a coerência aos princípios doutrinários e a união entre os espíritas, evitando divisões e desentendimentos que enfraquecem o movimento. Kardec alertou que o Espiritismo enfrentaria resistências, tanto externas quanto internas, como preconceitos, incompreensões e até ataques diretos. No entanto, ele também enfatizou que o progresso do Espiritismo está garantido, pois sua base é a verdade e seu objetivo é o bem. Superar esse período de luta exige perseverança, trabalho contínuo e vivência prática dos valores espíritas, como a caridade, a tolerância e o amor ao próximo. 

É necessário investir no estudo contínuo e aprofundado das obras fundamentais e na divulgação responsável da Doutrina. Certamente, podemos encarar as dificuldades como oportunidades de fortalecimento e aprendizado, afastando o comportamento belicoso que procurar indispor irmãos com assuntos que Kardec denominou de irritantes (política partidária, por exemplo). O respeito à liberdade de consciência e às preferências pessoais é fator que deve prevalecer na fraternidade. Quando conseguirmos isso, entraremos no período seguinte marcado pelo laço de união entre os adeptos que Kardec denominou de período religioso.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Respostas às questões selecionadas - Tema: Igualdade – Humberto Schubert Coelho

 

Respostas às questões selecionadas - Tema: Igualdade – Humberto Schubert Coelho

Link para a apresentação: https://youtu.be/7fI44lfqnAA?si=wIdRki5hKlDXqe38

 

1) Martin Luther King tinha três referências: Jesus, Sócrates e qual seria o terceiro?

Sócrates e Jesus, como referências morais. Kant como referência filosófica. Ele também adorava o filósofo Hegel e, obviamente, Martinho Lutero.

 

2) Poderia nos dar sua visão sobre a perfeição (relativa) a que estamos destinados? Algumas pessoas parecem temer que todos ficariam "iguais" e "sem identidade", o que poderia, na opinião delas, ser altamente desmotivador para este processo evolutivo - muito embora não possamos deixar de progredir, pois é da Lei que o façamos.

Certamente, a perfeição espiritual (ou superioridade, pois não sabemos bem o que significa o termo perfeição para os espíritos, talvez eles se refiram a excelência e nobreza) tem de seguir as mesmas regras de toda a natureza. Na natureza não existe o marasmo, não existe a mesmice e não existe a pobreza de criatividade. Ao contrário, seres que aparentemente não precisam ser diferentes, como os insetos, são variadíssimos entre si, cada um com suas funções e características. A natureza é caprichosa e rica para muito além das necessidades de conservação e reprodução, ama a cor, as formas e as maneiras de ser e de viver. A sociedade humana reflete isso no grau mental e social, que já é infinitamente mais complexo que a existência dos animais. Se os animais são variados, o ser humano "se faz" mais variado com diferentes penteados, roupas, adereços, gestos, idiomas, sotaques e comportamentos. Há culturas tão exóticas que nos chocam, escandalizam ou encantam. Só podemos esperar que a vida superior do espírito seja tão profunda e complexa que faça a nossa parecer monótona e simplória, não o contrário.

 

3) RE 1865 - O que acha sobre a comuna de Königsfeld, mundo do futuro?

Conheci alguns lugares assim. Às vezes, esses idílios são uma fotografia de um, dois séculos atrás, e não refletem a cultura atual dos habitantes. É o caso, por exemplo, das maravilhas do Egito, que não têm ligação nenhuma com os atuais habitantes. Por outro lado, ambientes caóticos e "feios", como muitos que bem conhecemos no Brasil, revelam potenciais e histórias encantadoras de desafios e testes da vida humana. Então, todos os ambientes que Deus concebe e/ou permite se formem na Terra para vivência e aprendizado possuem imenso valor, que nos cabe louvar e estudar em profunda gratidão.