O desafio do esclarecimento espírita: o caso do ramatisismo
Marco
Milani
Texto
publicado na Revista Candeia Espírita, nº 43, abr/2025, p. 9-10
Alguns assuntos discutidos há décadas com claras exposições de seus
aspectos antidoutrinários podem parecer que já foram superados e constariam,
apenas, de registros históricos do Movimento Espírita Brasileiro.
Lamentavelmente, mesmo diante das evidentes crendices e superstições que
carregam em sua essência, continuam atraindo incautos e místicos de toda ordem
sob uma roupagem espírita. Tal é o caso do ramatisismo, caracterizado por um
conjunto de ideias e práticas derivadas das obras atribuídas ao Espírito
Ramatis, psicografadas principalmente por Hercílio Maes.
O ramatisismo incorpora ensinamentos do hinduísmo, do budismo tibetano,
da teosofia e de correntes ocultistas ocidentais, criando um sistema híbrido
que difere dos princípios filosóficos espíritas, além de não contar com
qualquer critério metodológico de validação de suas informações.
Em suas obras, Ramatis relaciona o destino espiritual da humanidade a
influências astrológicas e cósmicas, defendendo que planetas e signos
desempenham papéis decisivos no processo evolutivo dos Espíritos, algo completamente
rejeitado pelo Espiritismo, que valoriza o livre-arbítrio e o progresso
individual baseado no mérito e na responsabilidade moral. Adicionalmente, o
suposto Espírito insiste em previsões sobre transições planetárias envolvendo
catástrofes geológicas, reestruturação de continentes e a participação de
civilizações extraterrestres no "resgate" espiritual da Terra.
Para o filósofo e jornalista José Herculano Pires, um dos maiores
estudiosos sobre o Espiritismo no Brasil, o ramatisismo compromete o rigor que
Kardec estabeleceu como salvaguarda contra os riscos do charlatanismo e do
fanatismo. Uma das críticas de Herculano Pires à ingênua aceitação de mistificações
por parcela dos adeptos pode ser encontrada, a seguir.
“A facilidade com que a maioria das
pessoas aceita livros de evidente mistificação, como os Evangelhos de
Roustaing, as obras de Ramatis, e tantas outras, eivadas de contradições e de
passagens ridículas, destinadas especialmente a ridicularizar a Doutrina,
provém dos milênios de sujeição das massas à mistificação clerical.”[1]
A crítica de Herculano, feita na década de 1970, expressava o problema
gerado pela ampla divulgação no mercado editorial dos livros de Ramatis a
partir de 1950, o que levou a um aumento da visibilidade e da aceitação popular
do conteúdo ramatisiano. Isso coincidiu com uma fase de crescimento do
movimento espírita no Brasil, em que muitos centros estavam sendo fundados e
buscavam nomes de "Espíritos benfeitores". Por isso existem, ainda
hoje, instituições que participam do movimento espírita envergando o nome
Ramatis e divulgando suas obras, mesmo diante das contradições doutrinárias.
Essa situação, assim como a
disseminação de outras propostas e práticas místicas e incoerentes
doutrinariamente, afeta a percepção de identidade do Espiritismo para o público
em geral e para parte significativa de seus adeptos. Grupos que estudam apenas
superficialmente o Espiritismo tendem a confundir qualquer obra espiritualista
com literatura espírita legítima.
Um caminho para sanar esse problema começa pela formação sólida de
dirigentes, trabalhadores e frequentadores. Faz-se necessário incentivar cursos
e estudos sistemáticos de todas as obras de Allan Kardec, com ênfase nas
chamadas básicas ou fundamentais (O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O
Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese), sempre valorizando a metodologia racional e científica.
Na contramão, deparamo-nos com instituições que priorizam o estudo de
romances e outras obras de fonte única que não passaram pelo critério da
universalidade como se fossem “avanços” no conhecimento espírita.
A melhor maneira de abordar essa grave questão não é a crítica
agressiva, mas o esclarecimento fraterno, apresentando as diferenças
doutrinárias de maneira clara e documentada, com base em Kardec e na lógica
espírita.
A liberdade de pensamento é um valor do Espiritismo, mas não deve ser
confundida com a aceitação irrestrita de qualquer conteúdo espiritualista.