domingo, 1 de novembro de 2026

Não é pelo muito escrever que um pesquisador é reconhecido

Não é pelo muito escrever que um pesquisador é reconhecido

 

Marco Milani

 

Texto publicado na Revista Candeia Espírita, nº 62, nov 2026, p.10-12

 

A pesquisa espírita merece ser valorizada pelo conhecimento que produz e pelo rigor com que examina seus objetos. Essa valorização exige distinguir investigação de opinião. O interesse por um assunto, a familiaridade com livros e a publicação frequente de textos não caracterizam, por si, uma pesquisa científica. Essa condição depende do atendimento aos requisitos metodológicos pertinentes ao problema investigado.

Em Mateus 6:7, Jesus critica aqueles que acham que pelo muito falar terão suas preces ouvidas. O título deste artigo alude a essa passagem, sem reproduzi-la literalmente. Sua imagem permite uma reflexão sobre a produção intelectual: escrever muito não assegura relevância. A extensão de um texto ou a frequência de publicações de livros não aumenta a força de suas evidências, assim como repetir uma afirmação não a transforma em conhecimento.

No ambiente espírita, essa distinção torna-se necessária quando pessoas orgulhosamente se apresentam como pesquisadores, mas desconhecem os procedimentos básicos de uma pesquisa séria. Confundem simples levantamentos como se fossem “pesquisas”. Produzem longas exposições, acumulam referências e anunciam conclusões com segurança desproporcional à investigação realizada. O leitor encontra abundância de palavras, mas não consegue identificar os critérios empregados para selecionar e interpretar as fontes.

O problema não é a ausência de treinamento formal em pesquisa. Pessoas sem vínculo universitário podem desenvolver trabalhos bem embasados, enquanto autores academicamente titulados podem produzir argumentos frágeis. A competência precisa aparecer no trabalho. Autodenominar-se pesquisador não dispensa demonstrar capacidade de pesquisar.

Chibeni (1991) e Fonseca (2005) defendem que a investigação espírita pode desenvolver-se fora dos laboratórios acadêmicos, com métodos adequados ao seu objeto. Sampaio (2022) examina a diversidade de procedimentos presentes na obra de Kardec, contribuindo para compreender que rigor científico não se restringe à experimentação. Essa diversidade não autoriza substituir método por entusiasmo.

Uma pesquisa científica precisa delimitar sua questão, justificar os procedimentos e permitir o exame da relação entre as evidências e as conclusões. Uma análise documental requer critérios diferentes daqueles de um experimento, mas ambas precisam oferecer fundamentos examináveis para sustentar suas interpretações.

A filosofia da ciência contribui para esse entendimento. Popper (1959) destacou a necessidade de expor hipóteses empíricas à possibilidade de refutação. Mais recentemente, Mayo (2018) enfatizou que um resultado favorável oferece pouco apoio a uma hipótese quando o procedimento empregado dificilmente detectaria seus erros. Procurar apenas confirmações preserva convicções, mas não basta para investigá-las.

Uma manifestação desse problema é a “colheita de cerejas” (cherry-picking, em inglês). Selecionam-se elementos favoráveis à conclusão desejada, enquanto evidências contrárias são omitidas ou desconsideradas. Essa seleção tendenciosa pode envolver supressão de evidências e compromete as inferências que dela dependem. Mesmo quando praticada ingenuamente, produz uma aparência de demonstração com material filtrado pela conveniência.

Um exemplo é o levantamento errático disfarçado de pesquisa: recortam-se e ordenam-se trechos confirmatórios de livros ou outras fontes conhecidas, supondo que sua reunião constitua, por si só, uma prova legítima. Não se justificam os critérios de escolha dessas fontes, não se examinam os contextos das passagens nem se confrontam evidências divergentes. A concordância entre autores pode decorrer da reprodução de uma mesma origem, sem representar confirmação independente.

Pesquisas bibliográficas e documentais são legítimas, mas exigem fundamentação metodológica e análise crítica. Uma coleção de citações convenientes evidencia apenas que determinados textos contêm afirmações compatíveis com a tese defendida; não demonstra, por esse motivo, que ela seja verdadeira. Multiplicar referências não corrige a ausência de investigação.

A pretensão de reconhecimento pode agravar esse quadro. Há quem suponha que, pelo muito escrever, obterá a relevância que atribui a si próprio. Entretanto, produtividade editorial e contribuição ao conhecimento não são sinônimos. O reconhecimento intelectual não constitui uma dívida que o leitor contrai diante da insistência de um autor. Cabe a quem reivindica autoridade apresentar trabalho que a justifique.

Kardec (s.d.) não estabeleceu o prestígio pessoal como critério de validação doutrinária. Na introdução de O evangelho segundo o espiritismo, associou o exame racional à concordância dos ensinamentos obtidos sob condições específicas de independência. A assinatura respeitada não dispensa a análise do conteúdo.

O movimento espírita ganha quando acolhe perguntas e exige fundamentação. Perde quando confunde deferência pessoal com aprovação intelectual. Criticar métodos e conclusões integra a investigação. Quem pretende contribuir para o conhecimento precisa aceitar que seus textos sejam examinados com o mesmo rigor que reivindica para os textos alheios. A relevância de uma pesquisa se estabelece pela contribuição demonstrável, não pelo volume de páginas nem pela insistência de seu autor.

 

Referências

 

Chibeni, S. S. (1991, março). Ciência espírita. Revista Internacional de Espiritismo, 45–52.

 

Fonseca, A. F. da. (2004–2005). Curso ciência e espiritismo. Grupo de Estudos Avançados Espíritas. https://www.espiritualidades.com.br/Artigos/FONSECA_Alexandre_textos/FONSECA_Alexandre_tit_Curso_Ciencia_e_Espiritismo.pdf

 

Kardec, A. (s.d.). O evangelho segundo o espiritismo. Kardecpedia. https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/887/o-evangelho-segundo-oespiritismo

 

Mayo, D. G. (2018). Statistical inference as severe testing: How to get beyond the statistics wars. Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/9781107286184

 

Popper, K. R. (1959). The logic of scientific discovery. Hutchinson.

 

Sampaio, J. R. (2022). Allan Kardec: Entre Comte e Dilthey, ou porque o Espiritismo não é apenas ciência natural. In A. F. da Fonseca (Org.), Coerência doutrinária na pesquisa espírita (pp. 53–91). CCDPE-ECM.

 

 

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