Não é pelo muito escrever que um pesquisador é reconhecido
Marco Milani
Texto
publicado na Revista Candeia Espírita, nº 62, nov 2026, p.10-12
A pesquisa espírita
merece ser valorizada pelo conhecimento que produz e pelo rigor com que examina
seus objetos. Essa valorização exige distinguir investigação de opinião. O
interesse por um assunto, a familiaridade com livros e a publicação frequente de
textos não caracterizam, por si, uma pesquisa científica. Essa condição depende
do atendimento aos requisitos metodológicos pertinentes ao problema
investigado.
Em Mateus 6:7, Jesus
critica aqueles que acham que pelo muito falar terão suas preces ouvidas. O
título deste artigo alude a essa passagem, sem reproduzi-la literalmente. Sua
imagem permite uma reflexão sobre a produção intelectual: escrever muito não
assegura relevância. A extensão de um texto ou a frequência de publicações de
livros não aumenta a força de suas evidências, assim como repetir uma afirmação
não a transforma em conhecimento.
No ambiente
espírita, essa distinção torna-se necessária quando pessoas orgulhosamente se
apresentam como pesquisadores, mas desconhecem os procedimentos básicos de uma
pesquisa séria. Confundem simples levantamentos como se fossem “pesquisas”. Produzem
longas exposições, acumulam referências e anunciam conclusões com segurança
desproporcional à investigação realizada. O leitor encontra abundância de
palavras, mas não consegue identificar os critérios empregados para selecionar
e interpretar as fontes.
O problema não é a
ausência de treinamento formal em pesquisa. Pessoas sem vínculo universitário
podem desenvolver trabalhos bem embasados, enquanto autores academicamente
titulados podem produzir argumentos frágeis. A competência precisa aparecer no
trabalho. Autodenominar-se pesquisador não dispensa demonstrar capacidade de
pesquisar.
Chibeni (1991) e Fonseca (2005) defendem que a investigação espírita pode desenvolver-se fora dos laboratórios
acadêmicos, com métodos adequados ao seu objeto. Sampaio (2022) examina a diversidade
de procedimentos presentes na obra de Kardec, contribuindo para compreender que
rigor científico não se restringe à experimentação. Essa diversidade não
autoriza substituir método por entusiasmo.
Uma pesquisa
científica precisa delimitar sua questão, justificar os procedimentos e
permitir o exame da relação entre as evidências e as conclusões. Uma análise
documental requer critérios diferentes daqueles de um experimento, mas ambas
precisam oferecer fundamentos examináveis para sustentar suas interpretações.
A filosofia da
ciência contribui para esse entendimento. Popper (1959) destacou a necessidade de
expor hipóteses empíricas à possibilidade de refutação. Mais recentemente, Mayo (2018) enfatizou que um resultado favorável oferece pouco apoio a uma
hipótese quando o procedimento empregado dificilmente detectaria seus erros.
Procurar apenas confirmações preserva convicções, mas não basta para
investigá-las.
Uma manifestação
desse problema é a “colheita de cerejas” (cherry-picking, em inglês).
Selecionam-se elementos favoráveis à conclusão desejada, enquanto evidências contrárias
são omitidas ou desconsideradas. Essa seleção tendenciosa pode envolver
supressão de evidências e compromete as inferências que dela dependem. Mesmo
quando praticada ingenuamente, produz uma aparência de demonstração com
material filtrado pela conveniência.
Um exemplo é o
levantamento errático disfarçado de pesquisa: recortam-se e ordenam-se trechos
confirmatórios de livros ou outras fontes conhecidas, supondo que sua reunião
constitua, por si só, uma prova legítima. Não se justificam os critérios de
escolha dessas fontes, não se examinam os contextos das passagens nem se
confrontam evidências divergentes. A concordância entre autores pode decorrer
da reprodução de uma mesma origem, sem representar confirmação independente.
Pesquisas
bibliográficas e documentais são legítimas, mas exigem fundamentação
metodológica e análise crítica. Uma coleção de citações convenientes evidencia
apenas que determinados textos contêm afirmações compatíveis com a tese
defendida; não demonstra, por esse motivo, que ela seja verdadeira. Multiplicar
referências não corrige a ausência de investigação.
A pretensão de
reconhecimento pode agravar esse quadro. Há quem suponha que, pelo muito
escrever, obterá a relevância que atribui a si próprio. Entretanto,
produtividade editorial e contribuição ao conhecimento não são sinônimos. O
reconhecimento intelectual não constitui uma dívida que o leitor contrai diante
da insistência de um autor. Cabe a quem reivindica autoridade apresentar
trabalho que a justifique.
Kardec (s.d.) não
estabeleceu o prestígio pessoal como critério de validação doutrinária. Na
introdução de O evangelho segundo o espiritismo, associou o exame
racional à concordância dos ensinamentos obtidos sob condições específicas de
independência. A assinatura respeitada não dispensa a análise do conteúdo.
O movimento espírita
ganha quando acolhe perguntas e exige fundamentação. Perde quando confunde
deferência pessoal com aprovação intelectual. Criticar métodos e conclusões
integra a investigação. Quem pretende contribuir para o conhecimento precisa
aceitar que seus textos sejam examinados com o mesmo rigor que reivindica para
os textos alheios. A relevância de uma pesquisa se estabelece pela contribuição
demonstrável, não pelo volume de páginas nem pela insistência de seu autor.
Referências
Chibeni, S. S. (1991, março).
Ciência espírita. Revista Internacional de Espiritismo, 45–52.
Fonseca, A. F. da. (2004–2005). Curso
ciência e espiritismo. Grupo de Estudos Avançados Espíritas. https://www.espiritualidades.com.br/Artigos/FONSECA_Alexandre_textos/FONSECA_Alexandre_tit_Curso_Ciencia_e_Espiritismo.pdf
Kardec, A. (s.d.). O evangelho
segundo o espiritismo. Kardecpedia. https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/887/o-evangelho-segundo-oespiritismo
Mayo, D. G. (2018). Statistical
inference as severe testing: How to get beyond the statistics wars.
Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/9781107286184
Popper, K. R. (1959). The logic
of scientific discovery. Hutchinson.
Sampaio, J. R. (2022). Allan
Kardec: Entre Comte e Dilthey, ou porque o Espiritismo não é apenas ciência
natural. In A. F. da Fonseca (Org.), Coerência doutrinária na pesquisa
espírita (pp. 53–91). CCDPE-ECM.

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